Alfredo Oscar Salum*
Matheus Cardoso da Silva**
Em 1931 ocorreu a invasão da Manchúria (China) pelos japoneses, o conflito se ampliou quando forças nipônicas avançaram sobre o restante do país em 1937. Esse embate se encerrou somente em 1945, quando o Japão foi derrotado na Segunda Guerra Mundial. Os EUA (Estados Unidos da América) e URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) que tinham interesses em deter os japoneses, fomentaram a formação da Segunda Frente Unida entre Chiang Kai-shek e Mao Zedong, fornecendo material bélico, empréstimos e treinamento militar.
Na China, essa agressão é conhecida como Guerra de Resistência do Povo Chinês Contra o Japão (中国人民抗日战争) ou Guerra Anti-Japonesa (抗日战争), já nos livros ocidentais é denominada como Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945). Ela foi marcada por diversas violações e estima-se que mais de 20 milhões de chineses morreram nesse período e o país teve diversas regiões devastadas. Neste contexto destacamos alguns fatos e eventos:
– A tomada de Xangai em agosto de 1937 foi documentada em imagens pela imprensa internacional. As batalhas foram tão intensas que foi denominada posteriormente como “Stalingrado no Yangtzé”.
– O Massacre de Nanquim (dezembro de 1937 e janeiro de 1938) resultou na morte de 300 mil chineses. Civis e combatentes desarmados foram massacrados, incluindo decapitações e fuzilamentos sumários, cerca de 20 mil mulheres violadas e assassinadas com golpes de baionetas, além de centenas de crianças eliminadas à sangue frio. Ações semelhantes também foram verificadas em outras regiões, como o Massacre de Manila (Filipinas) que provocou cem mil mortes de civis em fevereiro de 1945.
– A Unidade 731 (Laboratório de Pesquisa para Prevenção de Epidemias) foi uma das bases de pesquisa japonesa sobre guerra biológica e química. Além da produção de armas químicas, também realizaram testes de congelamento, exposição a gases, injeção com doenças e vivissecção dos prisioneiros, principalmente chineses e coreanos.
– O trabalho escravo foi imposto na maioria dos países conquistados, sendo que coreanos e chineses foram os mais atingidos.
– A fome também era um pesadelo para a população civil em diversos países, em Henan (China) cerca de três milhões de pessoas morreram entre 1942 e 1943 vitimadas pela junção da guerra com as secas avassaladoras.
Outro tema sensível de violação de Direitos Humanos no contexto da Guerra são as “mulheres de conforto”, eufemismo para prostituição forçada ou escravidão sexual dirigida/organizada pelo Exército Imperial Japonês. A maioria das vítimas eram originárias da Coreia e China, embora muitas mulheres do Japão, Taiwan, Filipinas, Indonésia, Malásia, Vietnã, Tailândia, Timor-Leste, Índias Orientais Holandesas e europeias em territórios ocupados pelos japoneses também tenham sido exploradas nas chamadas Estações de Conforto.
Guerra e Cinema
O cinema tem tido participação especial na política de memória, para não esquecermos dos eventos trágicos e crimes cometidos. Sobre os temas retratados acima, podemos sugerir:
“De Volta a 1942” (Feng Xiaogang, 2012) é uma adaptação da obra do escritor Liu Zhenyun (“Lembrando 1942”) que descreve a enorme fome que assolou Henan (1942/1943) e outras regiões durante a guerra contra os japoneses. A partir dos relatos de Theodore White, repórter da revista Time, que estava na China na época.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Back-1942-Li-Xuejian/dp/B00BC1UPRO. Acesso em 03/06/2026.
“Evil Unbound” ou “Unidade 731” (dirigido por Zhao Linshan, 2025) teve estreia mundial na cidade de Harbin (cidade chinesa), onde funcionou essa Unidade. O filme descreve a unidade central japonesa de guerra bacteriológica que cometeu uma série de violações dos direitos humanos.

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=1102524262058449&set=pcb.1102524825391726. Acesso em 03/06/2026.
“The Eight Hundred” (“Os 800” dirigido por Guan Hu, 2020) no qual se aborda a história verídica dos cerca de 400 soldados nacionalistas que defenderam por quatro dias em outubro de 1937, o Armazém Sihang contra centenas de milhares de invasores japoneses.

Fonte: https://portuguese.xinhuanet.com/2020-08/28/c_139324348.htm. Acesso em 03/06/2026.
“Nanjing: Luz na escuridão” (Ao Shen, 2025) sobre queda de Nanjing em 1937, quando ocorreu um violento morticínio perpetrado pelas tropas japonesas. É a história de um carteiro que, para sobreviver, finge ser um fotógrafo para os japoneses. Enquanto colabora com as forças invasoras, ele esconde refugiados chineses e documenta secretamente a violência do conflito.

Fonte: https://www.imdb.com/pt/title/tt36598036/mediaviewer/rm1512611842/?ref_=tt_ph_1.
Acesso em 03/06/2026.
“Flores de Guerra” (The Flowers of War, 2011, Zhang Yimou) e “Conspiração Xangai” (Shanghai, 2010, Mikael Håfström) abordam pela mescla romance e ação, usando como pano de fundo situações reais do conflito em relação a ocupação japonesa.

Fonte: https://www.amazon.com.br/Flowers-War-Huang-Tianyuan/dp/B007WXUVHU. Acesso em 03/06/2026.
Documentários e filmes sobre as “mulheres de conforto” estão listados e comentados nos sites: Representations of the “Comfort Women” in Film and Media.
– Center for Korean Legal Studies\Columbia Law School. https://kls.law.columbia.edu/content/representations-comfort-women-film-and-media
– The DMB Movies. Comfort Women (28 filmes). https://www.themoviedb.org/keyword/223181-comfort-women/movie.

Fonte: Site Forbes. Disponível em https://forbes.com.br/colunas/2017/07/imagens-raras-mostram-mulheres-de-conforto-da-2a-guerra-mundial/.
Acesso em 03/06/2026.
Em suma, ainda hoje as ações japonesas reverberam nas relações diplomáticas na região entre Japão com a China e Coreia do Sul principalmente, pois parcela dos conservadores japoneses tendem a considerar os crimes de guerra cometidos como fraude ou distorções históricas.
REFERÊNCIAS
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BURUMA, Ian. 1945: Ano Zero. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
CHENG, Anne; KUMAR, Sanchit (éd.). Historians of Asia on Political Violence. Paris: Collège de France, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.4000/books.cdf.11180. Acesso em: 12/10/2024.
DAWEI, Dong. 中国战场是二战的东方主战场 [O teatro de operações chinês foi o principal teatro de operações oriental da Segunda Guerra Mundial]. Museu da Guerra de Pequim, 18 ago. 2020. Fonte: Study Times. Disponível em: https://www.1937china.com/views/newsdetail/news_detail.html?id=15&newsSession=dfzcc_llwz&isTitleShow=true&parentPage=dfzzc&fileName=20200818/159773140482159242758.html. Acesso em: 03/10/2025.
KIM, Jimin; BISLAND, Beverly Lee; SHIN, Sunghee. Teaching about the Comfort Women during World War II and the Use of Personal Stories of the Victims. Education About Asia, [s. l.], v. 24, n. 3, 2019. Disponível em: https://www.asianstudies.org/publications/eaa/archives/teaching-about-the-comfort-women-during-world-war-ii-and-the-use-of-personal-stories-of-the-victims/. Acesso em: 13/04/2026.
OVERY, Richard. Sangue e Ruínas: A Grande Guerra Imperial, 1931–1945. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
QIANPING, Chen; WEIJUN, Lu. 第二次世界大战视阈下国际反法西斯战争的东方主战场 [O principal campo de batalha oriental da guerra internacional antifascista da perspectiva da Segunda Guerra Mundial]. Pesquisa sobre a Guerra de Resistência contra o Japão, n. 1, 2024. Instituto de História Moderna, Academia Chinesa de Ciências Sociais, 16 abr. 2024. Disponível em: http://jds.cssn.cn/xscg/xslw/202404/t20240416_5746452.shtml. Acesso em: 4/04/. 2025.
TREVISAN, Cláudia. Os Chineses. São Paulo: Editora Contexto, 2009.

Doutor em História Social pela FFLCH/USP; Mestre em História (Ensino e Educação) pela PUC/SP e Licenciatura Plena em História/Estudos Sociais. Possui sólida experiência docente no ensino superior e educação básica. Autor dos livros: Corinthians e Palestra Itália: Futebol em Terras bandeirantes (Todas as Musas, 2015), Zé Carioca vai a Guerra (Editora Pulsar, 2004), Revolucionários e tiranos: temas de Historia Contemporânea, Editora Todas as Musas (2011); co-autor: Logística Reversa, sustentabilidade e educação, Editora Todas as Musas (2013) e capítulo sobre a Força Expedicionária Brasileira in World War II Re-explored. Berlim. Peter Lang, 2019 e co-autor do capítulo Aspects of Brazilian Culture during the Military Dictatorship and the Cold War na coletâneaThe Cold War Re-Called: 21st Century Perceptions of the Worldwide Geopotical Tension (Peter Lang, 2024), além de diversos artigos na área de História e Educação. Como professor atuou nas instituições PUC/SP, Anhanguera e UniABC, nesta desenvolveu diversas atividades entre 1996 e 2013; orientador de TCC e Iniciação Científica, orientador de estágio, coordenador de grupo de pesquisa, coordenador do curso de História e outras funções administrativas e acadêmicas. Na Uninove foi professor no curso de História (presencial e EAD) e orientador de TCC. Atuou como Professor e orientador de TCC do curso de Pós-Graduação “Educação e Direitos Humanos” na UFABC e em 2019 foi orientador de TCC no curso de Pós-Graduação/Especialização “Gestão Pública” pela UNIFESP/UAB. Foi Professor no curso Educação em Direitos Humanos/UFABC do conteúdo Fundamentos Históricos e Sociológicos e Marcos Regulatórios dos Direitos Humanos/Orientação de TCC. É pesquisador associado do Núcleo de Pesquisa de História Oral (NEHO/USP) e do GEINT (Grupo de Estudos do Integralismo). Tem experiência na elaboração de materiais didáticos para os cursos de História e Pedagogia sobre Aspectos da cultura afro-brasileira; Sustentabilidade e Educação. Realizou pesquisa e tem desenvolvido projetos em relação ao Futebol e Sociedade; A FEB e a Segunda Guerra Mundial; História Oral e Cultura Popular; Nazismo/Fascismo; Educação e Meio Ambiente. É pesquisador integrante do Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos/UFBC – CNPq. Contato: aosalun@uol.com.br.

Doutor em História Social pelo Departamento de História da Universidade de São Paulo . No primeiro semestre de 2015, cumpri estágio doutoral (doutorado sanduíche) na Royal Holloway, University of London, sob supervisão do Prof. Dr. Gregory Claeys com bolsa PDSE da CAPES. Atuo nos campos da História Contemporânea e História das Relações Internacionais, com ênfase na área da História Intelectual Global. Meu foco de pesquisa são os estudos transnacionais e comparados, com ênfase nos intelectuais, ideias, projetos e culturas políticas. Também tenho interesse em discussões sobre regimes autoritários e seus diferentes matizes, imperialismos, colonialismo e anticolonialismo, assim como os Direitos Humanos, impactos ambientais e produção cultural nesses contextos. Entre 2018 e 2020, concluí o pós-doutorado no Departamento de História da UNESP, Campus Assis, sob supervisão da Prof Dr. Tania Regina de Luca, investigando as conexões globais do Left Book Club. Em 2019 atuei como Postdosctoral Honorary Visiting Fellow na School of History da Queen Mary, University of London, sob supervisão da Prof. Dr. Leslie James. Sou membro dos GTs ”História das Direitas”, na linha de pesquisa ”Imperialismos: migrações forçadas e refugiados” (CNPq/UFF), ”Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares sobre Cultura, Política e Sociabilidade” (CNPq/UNESP) e História e Relações Internacionais (Anpuh-SP). Sou co-organizador do livro ”A Guerra Civil espanhola e as Américas” (Todas as Musas, 2022). Contatos: stardus_mat@yahoo.com.br Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6225-2911.
