O CINEMA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL DENTRO DOS BRICS COMO SOFT POWER: DISPUTA NARRATIVA, MEMÓRIA HISTÓRICA E DIREITOS HUMANOS NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XXI

*Matheus Cardoso da Silva

O presente artigo examina o uso do cinema como instrumento de soft power pelos países membros do BRICS nas primeiras décadas do século XXI, com foco em produções que revisitam a memória da Segunda Guerra Mundial. Partindo do conceito formulado por Joseph Nye (2004), segundo o qual soft power designa a capacidade de influenciar outros atores internacionais por meio da cultura, dos valores e das narrativas simbólicas — e não apenas pela coerção militar ou econômica —, o artigo analisa como produções cinematográficas russas, chinesas, indianas e brasileiras inscrevem-se numa disputa mais ampla pelo campo simbólico global, em contraposição à hegemonia narrativa consolidada por Hollywood desde o fim do conflito. Lembrando que o BRICS se caracteriza como uma parceria entre economias denominadas emergentes: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, focada em cooperação política, econômica e financeira, representando grande parte da população e PIB (Produto Interno Bruto) mundial.

Logo da 18ª Cúpula do BRICS 2026. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:18%C2%AA_BRICS_Summit_2026,_New_Delhi,_India.png. Acesso em 18/04/2026.

O argumento central é que o cinema de guerra dos países do BRICS realiza, simultaneamente, dois movimentos: um gesto genuinamente humanizador, ao dar visibilidade a experiências de povos sistematicamente apagados da narrativa ocidental dominante — soviéticos, chineses, indianos, brasileiros —, e uma operação de instrumentalização da memória histórica a serviço de projetos nacionais e geopolíticos contemporâneos. Essa tensão irresolúvel constitui o eixo analítico do artigo.

O CINEMA COMO SOFT POWER NO CONTEXTO DOS BRICS

Nas primeiras décadas do século XXI, o cinema emergiu como uma das ferramentas mais eficazes de soft power no projeto geopolítico dos países membros do BRICS, funcionando como instrumento privilegiado de disputa narrativa frente à hegemonia cultural ocidental. Esse movimento repete, em novo contexto geopolítico, a fórmula praticada ao longo do século XX, quando o cinema foi utilizado politicamente tanto pelos Estados Unidos quanto pela então União Soviética para transmitir valores e visões de mundo. A iniciativa institucional mais representativa desse esforço foi o projeto histórico-literário “Povos do BRICS: dedicado a heróis de guerra!”, implementado em 2020 — por ocasião do 75º aniversário da vitória na Grande Guerra Patriótica — e retomado no ano da presidência russa do bloco (2024), com o objetivo explícito de construir uma produção audiovisual comum entre os países integrantes que reconhecesse o papel dos povos do Sul Global na luta contra o nazifascismo.

É nessa tradição de disputa simbólica que se inscrevem as produções analisadas: Stalingrado (Fedor Bondarchuk, 2013), na Rússia; The Assembly (Feng Xiaogang, 2007) e Dongji Rescue (2025), na China; a série The Forgotten Army (Kabir Khan, 2020) e os filmes Lagaan (Ashutosh Gowariker, 2001) e Earth (Deepa Mehta, 1998), na Índia; e A Estrada 47 (Vicente Ferraz, 2013), no Brasil. Em conjunto, essas produções não constituem um projeto coordenado, mas convergem sintomaticamente num esforço de ressignificação da memória histórica da guerra, propondo narrativas centradas em experiências não ocidentais.

ANÁLISE DAS PRODUÇÕES: MEMÓRIA, IDENTIDADE E GEOPOLÍTICA

O épico russo Stalingrado: a batalha final (2013), primeira produção nacional filmada em IMAX 3D, situa a defesa da Casa de Pavlov durante a batalha homônima de 1942-1943. Com prólogo e epílogo ambientados no Japão contemporâneo, o filme realiza uma operação de memória inequivocamente geopolítica: ao reivindicar o protagonismo soviético na derrota do nazismo, contesta a narrativa ocidental centrada na Operação Overlord e na contribuição anglo-americana para o desfecho do conflito. A escolha narrativa do diretor Fedor Bondarchuk posiciona o sacrifício soviético como fundamento moral da ordem internacional, oferecendo legitimidade histórica às pretensões geopolíticas russas no presente.

Cartaz do filme Stalingrado: a batalha final (2013). Fonte: https://www.amazon.com.br/Stalingrado-A-Batalha-Final/dp/B07QVZZVV8. Acesso em 18/04/2026.

O filme chinês The Assembly (Ji Jie Hao), de 2007, é de coprodução entre China, Hong Kong e Coreia do Sul, ambientado na Guerra Civil Chinesa de 1948, rompe com a tradição do cinema de guerra chinês ao adotar uma perspectiva humanista e pessoal. Produzido com auxílio do Exército de Libertação Popular, o filme desvia-se da propaganda ideológica convencional ao deslocar o foco do herói coletivo para a subjetividade ferida de um único sobrevivente, propondo uma sensibilidade de Sul Global sobre o custo humano da guerra que não cabe nas narrativas celebratórias de Hollywood nem na retórica oficial maoísta. No Brasil est filme foi lançado sob o título: Assembleia: Sangue e Honra.

Cartaz do filme Assembleia: Sangue e Honra. Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/2/26/Ji_jie_hao_2007.jpg. Acesso em 18/04/2026.

No caso indiano, a ausência de um épico stricto sensu sobre a Segunda Guerra reflete o entrelaçamento do conflito, na memória nacional, com a luta anticolonial e a Partilha do subcontinente em 1947. A série The Forgotten Army (2020) trata do Indian National Army — formado por prisioneiros de guerra indianos capturados pelos japoneses na campanha da Malásia —, situando a guerra no quadro mais amplo do esgarçamento do colonialismo britânico no Sudeste Asiático. Filmes como Lagaan e Earth operam uma inversão simbólica ainda mais radical: a vitória do Ocidente na Segunda Guerra não implica a libertação da Índia, reencenando a violência colonial e a Partilha como a verdadeira “guerra” do povo indiano.

Cartaz de The Forgotten Army (2020). Fonte: https://www.themoviedb.org/tv/96853-the-forgotten-army/images/backdrops. Acesso em 18/04/2026.

O filme brasileiro A Estrada 47 (2013) constitui o único longa-metragem nacional a retratar diretamente a experiência da Força Expedicionária Brasileira (FEB), no front italiano. A narrativa centrada num esquadrão de caçadores de minas que enfrenta o dilema entre a corte marcial e o retorno ao combate, salienta a condição dos brasileiros como “esquecidos entre um exército de esquecidos”, despreparados tática, técnica e psicologicamente. Sua brasilidade involuntária — a miscigenação étnica da tropa, os traços culturais como o samba — é precisamente o que torna o filme politicamente relevante como dispositivo de memória do Sul Global. Vencedor do prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado (2014), o longa alcançou projeção internacional via Netflix.

Cartaz do filme: Estrada 47 (2013). Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Estrada_47#/media/Ficheiro:Estrada47.jpg. Acesso em 18/04/2026.

LIMITES DA CONTRA-HEGEMONIA: TENSÕES E CONTRADIÇÕES DO BLOCO

A dimensão contra hegemônica dessas produções, contudo, deve ser analisada criticamente. O próprio bloco apresenta tensões internas que limitam a construção de uma narrativa comum. A invasão russa da Ucrânia evidenciou contradições estruturais: enquanto a Rússia mobiliza a memória da Grande Guerra Patriótica para legitimar sua política externa, outros membros adotam posições diplomáticas ambíguas. O recente apoio da Índia aos ataques de Israel e dos EUA ao Irã — país que passou a integrar o BRICS em 2026 — e as tensões no Estreito de Taiwan revelam os limites da ideia de uma frente cultural unificada. A Questão Palestina constitui um dos poucos temas de convergência genuína do bloco, que combina solidariedade do Sul Global com crítica à hegemonia ocidental, mas que coexiste com o silêncio sobre violações cometidas por membros do próprio grupo.

É nesse cenário que emerge o dilema central analisado neste artigo: a crítica legítima à seletividade do sistema internacional de direitos humanos, dominado pelo Ocidente, é instrumentalizada para blindar regimes que cometem as mesmas violações que condenam. O cinema de memória histórica dos BRICS contribui para ampliar a diversidade de narrativas sobre a Segunda Guerra Mundial e para desafiar a centralidade cultural do Ocidente; mas, ao fazê-lo no quadro de projetos nacionais que instrumentalizam essa memória para legitimar interesses geopolíticos contemporâneos, corre o risco de transformar o sofrimento histórico em argumento audiovisual a serviço da disputa pela hegemonia global do capitalismo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O artigo conclui que o cinema intervém simultaneamente de forma retrospectiva e prospetiva na consolidação da memória cultural: retrospectivamente, ao trazer para o presente as memórias do passado; prospectivamente, ao criar novas memórias que orientam a identidade e o agir dos sujeitos no futuro. A escolha de quais mortos lembrar, quais silenciar, quais humanizar e quais desumanizar é sempre um ato político de primeira ordem. Os estudos sobre direitos humanos, portanto, não podem simplesmente utilizar o cinema da Segunda Guerra Mundial como ilustração didática; precisam submetê-lo a uma hermenêutica da suspeita que identifique, em cada opção narrativa, os interesses que se ocultam sob o manto da memória e da dignidade humana.

O resultado é um campo cultural marcado por tensões entre memória nacional, estratégia diplomática e disputa ideológica global, no qual as representações cinematográficas da guerra funcionam simultaneamente como instrumentos de identidade nacional e como recursos simbólicos na reconfiguração da ordem internacional contemporânea. O desafio das próximas décadas será determinar se os BRICS contribuirão para redesenhar o mapa das relações internacionais em bases genuinamente plurais — ou se mudanças de poder resultarão, como nos séculos passados, em novos conflitos e graves violações dos direitos humanos.

REFERÊNCIAS

HERRERA FLORES, Joaquín. Teoria crítica dos direitos humanos: os direitos humanos como produtos culturais. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009.

HOPEWELL, K. (2026). The ties that bind: reassessing the political significance of the BRICS amid Russia’s War on Ukraine. Globalizations, p. 1–19. 25/02/2026. Disponível em https://www.tandfonline.com/doi/epdf/10.1080/14747731.2026.2624158?needAccess=true. Acesso em 18/04/2026.

NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2015.

NYE JUNIOR, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: Public Affairs, 2004.

OVERY, Richard. Sangue e Ruinas: a Grande Guerra Imperial: 1931-1945. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.

*Matheus Cardoso da Silva: Sou doutor em História Social pelo Departamento de História da Universidade de São Paulo . No primeiro semestre de 2015, cumpri estágio doutoral (doutorado sanduíche) na Royal Holloway, University of London, sob supervisão do Prof. Dr. Gregory Claeys com bolsa PDSE da CAPES. Atuo nos campos da História Contemporânea e História das Relações Internacionais, com ênfase na área da História Intelectual Global. Meu foco de pesquisa são os estudos transnacionais e comparados, com ênfase nos intelectuais, ideias, projetos e culturas políticas. Também tenho interesse em discussões sobre regimes autoritários e seus diferentes matizes, imperialismos, colonialismo e anticolonialismo, assim como os Direitos Humanos, impactos ambientais e produção cultural nesses contextos. Entre 2018 e 2020, concluí o pós-doutorado no Departamento de História da UNESP, Campus Assis, sob supervisão da Prof Dr. Tania Regina de Luca, investigando as conexões globais do Left Book Club. Em 2019 atuei como Postdosctoral Honorary Visiting Fellow na School of History da Queen Mary, University of London, sob supervisão da Prof. Dr. Leslie James. Sou membro dos GTs ”História das Direitas”, na linha de pesquisa ”Imperialismos: migrações forçadas e refugiados” (CNPq/UFF), ”Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares sobre Cultura, Política e Sociabilidade” (CNPq/UNESP) e História e Relações Internacionais (Anpuh-SP). Sou co-organizador do livro ”A Guerra Civil espanhola e as Américas” (Todas as Musas, 2022). Professor EBTT Substituto do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus Campinas.

Contato: Linkedin: https://www.linkedin.com/in/matheus-cardoso-da-silva-b6904776/

E-mail: stardus_mat@yahoo.com.br

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