Você me amaria se eu não tivesse nome?
Vivesse em um jardim
A podadora de bonsais?
Se meus dedos fossem garranchos tristes
Crispados
Imprestáveis para ordenhar
Seu pau de primavera?
Se minha canção de ninar
Fosse o uivo
Dos lobos clandestinos
Que anunciam o verão?
Você me amaria se eu não tivesse nome?
Só essa cicatriz nas costas
Feita – com urgência –
Por alguém que traçou
Uma lua e uma lágrima
Com lâmina de caçador
Você me amaria sem nome?
E com garras horrendas, meu amor
Na obra O Corpo, de Bárbara Lia, o erotismo não se apresenta como mera celebração do desejo, mas como uma cartografia íntima onde linguagem e imaginação se entrelaçam. Trata-se de uma escrita que se move entre o sussurro e a vertigem, como se cada verso fosse pronunciado detrás de uma cortina, imagem que a própria autora sugere, preservando o mistério enquanto intensifica a experiência sensorial.
Dividido em cinco partes: Rouge, Noir, Rosée Bleue, Vert e Blond, o livro constrói uma paleta afetiva e simbólica em que as cores funcionam como estados do corpo e do desejo. A escolha de títulos em francês não é casual: evoca uma tradição estética ligada à sofisticação, ao erotismo velado e à literatura como espaço de refinamento sensorial. Nesse contexto, a linguagem de Bárbara Lia aproxima-se de uma poética que tensiona, instaurando um erotismo que “decanta o rude e expõe a delicadeza” .
A seção Blond, escrita em prosa poética, revela ainda um diálogo interartístico explícito com o cinema, especialmente com O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway. Aqui, o corpo torna-se superfície de inscrição, não apenas do desejo, mas da memória, da linguagem e da própria história. A escrita assume um ritmo cinematográfico, com cortes, atmosferas e uma densidade imagética que remete tanto ao expressionismo quanto ao noir, criando um espaço onde o íntimo e o histórico se contaminam.
Os poemas revelam uma subjetividade em constante deslocamento: “Sou o tudo e o nada”, escreve a autora. Essa oscilação identitária dialoga com uma perspectiva contemporânea do corpo como construção simbólica e política, abrindo espaço para uma leitura que ultrapassa o erotismo tradicional e se aproxima de uma poética da existência. O desejo, aqui, não é apenas relacional, ele é também cósmico, telúrico, como no poema Pansexual, em que o corpo se funde à terra, num gesto que remete a uma ancestralidade primitiva e ao mesmo tempo profundamente contemporânea.
Há, ainda, um jogo constante entre presença e fantasmagoria. O amor, em certos momentos, aparece como espectro, “o fantasma que bebe na taça dos meus seios”, instaurando uma dimensão melancólica que aproxima o erotismo da memória e da perda. Essa tensão confere à obra uma espessura emocional que a afasta de qualquer leitura superficial.
Referências culturais atravessam o livro como ecos sutis, como a citação de Tom Jobim, que introduz uma nota de lirismo cotidiano e musicalidade afetiva, ou mesmo a escolha da capa, que não é meramente decorativa: uma pintura de Henri de Toulouse-Lautrec, cuja obra dialoga com o erotismo urbano, corpos marginais e a intimidade sem idealização. Ou seja, a imagem já funciona como porta de entrada estética para o livro.
Ontem senti desejo
– Volúpia carnal –
De ouvir o coração da terra
Deitar o corpo nu em sua pele
Ouvir o grito de suas entranhas
Sou contraditória
Sou o tudo e o nada
A mais rica e a mais pobre
A mais amada e a mais odiada
Mas nunca fui como ontem – agradecida –
Desejo de me amalgamar à fonte
Despir esse branco suave – vestido diáfano –
E as alças de látex transparentes
Do suporte da branca tessitura
Que abriga meus seios
Depois despir a peça de algodão
Que cobre a flor rasgada
– Rósea & vinho, flor lasciva adormecida –
À espera do forasteiro errante
Abraço a terra e sei que tudo o que dispo
E tudo que permeia
Fora & dentro
Roupa, alimento e encanto
Brota do ventre primitivo
Que me acolhe agora
Quente e submisso
À minha espera, sempre

Bárbara Lia é escritora, poeta e professora de História, nascida em Assaí (PR) e radicada em Curitiba. Autora de obras como O sal das rosas, A última chuva e Solidão Calcinada, construiu uma trajetória marcada por uma escrita sensorial, na qual o corpo e o desejo se afirmam como linguagem.
Premiada em concursos literários como o Prêmio Sesc e o Prêmio Helena Kolody, sua produção insere-se em uma vertente da literatura contemporânea que faz do erotismo um campo de investigação estética e existencial. Em seus textos, o corpo não é objeto, mas sujeito: deseja, fala e se reinventa.
Fonte da imagem: https://www.brasildefato.com.br/
“Esqueci no piano as bobagens de amor que eu iria dizer” (Tom Jobim)
Os amantes em um lugar antigo. As paredes cobertas com paisagens desbotadas e os tapetes dos anos sessenta e a iluminação dos anos cinquenta e os ruídos abafados de um filme noir no corredor a encobrir o batuque dos meus passos – melindrosa dos anos trinta a seguir sem pressa e sem medo para os braços do seu amante – antes da Grande Guerra e antes da demolição do homem e das esperanças via Auschwitz. O homem me espera e as últimas bombas de esperança desabam em todas as praças do mundo. E os cabogramas que ele enviava diziam de um desejo enrustido e as cartas amareladas caiam em um quintal de lírios e as noites afugentavam as gaivotas acreditando que eram corvos de Poe, urubus do lixão, corujas de castelos amaldiçoados.
As palavras rolavam na grama e molhavam o chão com o desejo enrustido. As palavras eu as colhia e as bebia e depositava entre as coxas – o fogo adiado – e o desejo de tocar a nudez serena do homem com nome lindo e olhar que avassala. Então, eu caminho pelos corredores de um lugar antigo como em um filme, e quando a porta se fecha, tudo que é humano desaba. Só existe uma mão forte que me puxa para si e lábios ardentes abertos que bebem meus lábios. Eis o beijo! O mais delicioso beijo. Para levar como fogo ao redor dos lábios, dos meus lábios que ele adora. A boca real, que vai devorar um homem – inteiro – em um lugar secreto, um perfume que nunca existiu e uma mulher a escrever – alucinadamente – para falar das bobagens de amor que ela adoraria dizer. (Fragmento da novela erótica – Blond).
O Corpo
Bárbara Lia
Edição da autora
92 páginas
Capa: Tolouse-Lautrec
ISBN 978-65-01-41283-2

http://www.chaparaasborboletas.blogspot.com/
Bel Liviski – Fotógrafa e Professora. É articulista e coeditora da Revista ContemporArtes desde 2010; Mestre e Doutora em Sociologia pela UFPR. Especialista em Artes Visuais.
