Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.
Em “O Alienista”, Machado de Assis narra a saga do doutor Simão Bacamarte, que assumindo a direção do “hospício” Casa Verde na pequena Itaguaí, perde os limites e passa a internar discricionariamente qualquer indivíduo cujo comportamento lhe pareça destoar de sua ideia de normalidade. Em pouco tempo a maioria da população está internada pelos mais abstrusos motivos. Já se disse que todo poder corrompe, e além de corromper enlouquece, o doutor Bacamarte termina perdendo a (pouca) razão que tinha, liberando todos os pacientes e internando-se em seu lugar. Poderia se tratar de um caso de justiça poética.
Os Alienistas antecederam de certa maneira os Psiquiatras, seu título derivava do fato de tratarem (e punirem) os “alienados”, todos que estivessem à parte do senso e do comportamento comum; e nessa rubrica eram incluídos os excêntricos, os originais, os discordantes, muitos artistas, mulheres liberadas, e os tristes casos de pessoas realmente doentes mentalmente que eram espancadas, tomavam banhos frios em pleno inverno, largadas em “depósitos de loucos” imundos e totalmente inadequados, quando a tecnologia permitiu tomando choques elétricos muitas vezes meramente punitivos.
As necessárias, porém, pavorosas investigações acerca da população de nossos maiores “hospícios”, e não apenas os nossos, mostram uma maioria de internos que não deveria estar lá a princípio, filhos desobedientes, mulheres de “mau comportamento conjugal”, donzelas que haviam deixado de sê-la e não encontravam guarida em conventos, o “tratamento” e o passadio tendiam a tornar loucos os que não o eram na entrada.
Tristes notícias de alguns manicômios brasileiros onde foram internados – e mortos – centenas de pessoas, com problemas mentais ou apenas de comportamento.
Antigos locais de recolhimento, manicômios muitas vezes eram apenas redutos de exclusão, violência e controle, com muros altos escondendo agressões físicas e simbólicas sob a uma capa de proteção cujo resultado na verdade era a produção e reprodução da loucura.
Romper com este modelo manicomial significou um passo importante na luta pela saúde pública, combatendo a segregação e rearticulando as noções e conceitos sobre incapacidade, periculosidade, e promovendo a inserção, a cidadania ativa e efetiva.
Redefinir a loucura, um distúrbio biológico ou psicossocial, muitas vezes os dois, como uma experiência de estar no mundo de forma diferente da que anteriormente foi estabelecida como normal, implica em solidariedade, entendimento dos conflitos e aceitação do diferente. Hoje, pessoas são tratadas preferencialmente em suas casas, ao lado de suas famílias, condição ideal para bons resultados.
No entanto, algumas delas não possuem familiares, ou estes não estão dispostos a acolhê-las, ou não tem condições materiais ou psicológicas para isso, seja por falta de locais de para abrigá-los ou mesmo porque alguns pacientes podem, infelizmente, constituir um risco para aqueles mais próximos.
A multidão de excluídos de nossa economia, grande parte deles eliminados também do sistema educacional, pessoas sem educação formal ou informal, com chances inexistentes de competir no mundo do trabalho e alijadas da convivência comunitária, moradores de rua ou de locais remotos sem acesso a conforto ou boa alimentação, muitas vezes usuários de álcool ou drogas, são objetos de internamentos involuntários pela necessidade de locais onde possam tratar-se e recuperar saúde física e mental para minimamente poderem garantir a própria subsistência.
No entanto esta não é a forma adequada de garantir recuperação, assumindo muitas vezes a aparência de resolução de problemas pela simples eliminação destes seres humanos das vistas da sociedade, internando-as em instituições que nem sempre irão garantir bons tratamentos
Assim, a sociedade ainda necessita, com todos os cuidados éticos e humanitários possíveis, estudar maneiras de inclusão comunitária dos doentes mentais ou droga adictos, preservando os direitos e segurança dos demais.
Manter no ambiente escolar todos os que atingem a idade correta, combater a evasão escolar e a discriminação é um bom começo. Estudar não apenas garante o sustento próprio e familiar, mas também uma maior compreensão do mundo e dos demais, o necessário para manter a saúde e afastar preconceitos e violências.

