A CONJUNTURA DE 2026 E O ACIRRAMENTO DAS DISPUTAS DE PROJETOS SOCIETÁRIOS NO BRASIL
*Vanice Aparecida Alves
Este artigo se propõe a apresentar uma breve análise das disputas de projetos societários em nosso país, diante da conjuntura vivenciada recentemente perante as eleições presidenciais de 2026. Cabe salientar que a análise não se refere a perspectiva partidária, entre a esquerda e a direita, mas compreender o cenário de de avanço e novas estratégias de dominação burguesa expressa no conservadorismo, na expansão da extrema direita e do fascismo, caminhando na contramão da democracia e da emancipação humana. Portanto, este artigo assume um compromisso político, social e ético, a partir de estudos de pesquisadores(as) e autores(as) comprometidos(as) com o debate do regime democrático e as estratégias para frear o avanço do conservadorismo.
A partir de Barroco (2015) pretendemos compreender a reprodução ideológica do ideário conservador e sua atualização no neoconservadorismo, e o avanço da direita no país. Mota (2026), aponta para um novo conservadorismo, ressignificado por um “modus operandi da democracia burguesa, mediados por ideologias neofascistas, […] e medidas de austeridade contrarreformistas e ultraneoliberais”. (Mota, 2026, p. 51). Além disso, Westmann (2026, p. 190) nos apresenta outro ponto que corrobora para a nossa análise. Trata-se da crise contemporânea da democracia, marcada pela “[…] insatisfação popular, o avanço de regimes autoritários, a polarização e erosão institucional, agravados pela desinformação digital e pelo uso político das redes sociais e da inteligência artificial.”
Ainda em relação ao conservadorismo Barroco assinala que:
Em sua função ideológica, o conservadorismo reproduz um modo de ser fundado em valores historicamente preservados pela tradição e pelos costumes – no caso brasileiro -, um modo de ser mantido pelas nossas elites, com seu racismo, seu preconceito de classe, seu horror ao comunismo (Barroco, 2015, p. 624, grifo nosso).
Com base em Yazbek, Paz e Degenszajn (2019) podemos analisar que a eleição presidencial de 2026, demonstrou de forma explicita o avanço do pensamento conservador e reacionário, em que se questiona o pilar do Estado Democrático de Direito. Por outro lado, o Brasil de Fato (2026) aponta que a mobilização popular e a disputa nas redes sociais tornaram-se um marcador central em nossa conjuntura de “polarização política e confronto entre diferentes projetos para o país”, demonstrando que a mobilização popular e “[…] as informações e os limites da democracia estão no centro do debate eleitoral diante do avanço da extrema direita.” (Brasil de Fato, 2026, s/p)
Segundo Barroco (2015) o irracionalismo e o conservadorismo têm campo fértil em conjuntura de crise social, pois exerce um papel de enfrentamento das tensões e contradições, desdobramento da ofensiva neoliberal. Resgata que em 1970 com a crise mundial do capitalismo, o conservadorismo se reatualizou, e acoplou-se os princípios econômicos do neoliberalismo. O neoconservadorismo se traduz “[…] como forma dominante de apologia conservadora da ordem capitalista, combatendo o Estado social e os direitos sociais, […] (Barroco, 2015, p. 625, grifo nosso). Além disso, o neoconservadorismo busca uma sociedade em que não haja restrições ao mercado, e o Estado cumpre um papel coercitivo de repressão violenta diante de “[…] todas as formas de contestação à ordem social e aos costumes tradicionais” (Barroco, 2015, p. 626).
Neste contexto, a MORAL adquire uma função no ideário conservador e passa a ser considerada a base fundante da sociabilidade e da política, conforme defendia Russell Kirk, representante do neoconservadorismo norte-americano que defende que a sociedade que passa a ser governada pelos princípios da crença e da ordem moral (“certo e errado”), passa a considerar as convicções individuais “[…] sobre a justiça e a honra, e será uma boa sociedade – não importa que mecanismo político se possa usar” (Junior apud Barroco, 2015, s/p). Ainda de acordo a autora, no Brasil a disseminação ideológica se deu com a consolidação do neoliberalismo dos anos 1990, período em que vivenciávamos a crise “estrutural do capitalismo e a destruição da vida e da natureza”.
Barroco (2015), resgata que ainda nos anos 1990, convivíamos com a “cultura da violência e do medo social” e criou-se uma “insegurança generalizada” o que facilitou à repressão do Estado. Barroco (2015) a partir de Brito, Villar e Blank (2013), observa que em 2010 as ações bélicas no país, ganharam materialidade com as ocupações das favelas cariocas, que “[…] sinalizam um processo de militarização da vida cotidiana que transforma a exceção em regra, mantendo um Estado de “exceção” no interior do Estado democrático […]”.
Essa guerra não declarada tem nome e endereço; atinge de formas variadas os jovens da periferia, os negros, as mulheres, os moradores de rua, os trabalhadores pobres, os grupos e sujeitos “fora” da ordem, da lei, dos costumes, do mercado de trabalho, do consumo, do pensamento dominante (Barroco, 2015, p. 628).
Para a autora, a moralização punitiva reduz o mundo entre dois polos: “bons e maus”, “corruptíveis e incorruptíveis”, considerando que a mídia contribuiu para promover socialmente determinados personagens. Salienta-se ainda, que a ofensiva (neo)conservadora atinge outras dimensões das atividades sociais, que decorrem da crença em dogmas, à exemplo as religiões.
Esta análise da autora visa apontar “[…] questões que remetem a valores MORAIS, os (neo)conservadores são moralistas, ou seja, intolerantes, preconceituosos e, no limite, fundamentalistas” (Barroco, 2015, p. 631, grifo nosso).
Para mudar este cenário as autoras Yazbek, Paz e Degenszajn (2019) apontam a responsabilidade dos movimentos sociais, dos partidos políticos, das organizações sindicais, das universidades, do associativismo civil, para mobilizar e “[…] aprofundar o debate sobre os rumos da nossa ameaçada democracia, não apenas para decifrar o tempo presente, mas para resistir e transformá-lo” (Yazbek, Paz e Degenszajn, 2019, p. 7-8).
Para o historiador e professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Valério Arcaryo, o bolsonarismo é um projeto de “[…] ameaça às liberdades democráticas por combinar um programa econômico radical com a possibilidade de concentração de poder nas instituições.” (Brasil de Fato, 2026, s/p). Além disso, caracteriza sua estratégia com o agravamento do “capitalismo selvagem” de modo tão brutal que as liberdades democráticas não se sustentariam neste cenário. Sérgio Amadeu, sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), acrescenta que a “transformação das redes sociais em espaços de participação e aprendizado político” torna-se uma potência para a sociedade (Brasil de Fato, 2026, s/p).
Nesta perspectiva Grzybowski (2013) aponta para uma radicalização da democracia por via da cidadania ativa como estratégia:
[…] sua dimensão mais radical e substantiva, é a equalização pela ação política das assimetrias e desigualdades existentes na sociedade. Aí reside seu potencial transformador. Trata-se de um método de ação política, dedisputa entre forças diferentes e até opostas, mais do que seu resultado. Ou melhor, na democracia os fins são buscados, alcançados e qualificados pelo método democrático de luta, gerador de um processo de construção coletiva resultado da luta e de negociação permanentes, de perdas e ganhos relativos para todos, nunca definitivos. Democracia não é uma questão de eficiência e resultados, mas de quanto é legítimo o processo de chegar a eles (Grzybowski, 2013, s/p, grifo nosso).
Numa conjuntura em que as disputas de projetos societários se intensificam, concordamos com Grzybowski (2013, s/p) que afirma que nas lutas “[…] os diferentes sujeitos coletivos se reconhecem e legitimam, segundo princípios, valores, direitos e regras comuns, mediados pelo poder político institucional, como expressões de cidadania.” Nesta disputa das eleições de 2026 pudemos identificar o reflorescer da democracia, através das massivas ocupações das ruas e mobilizações individuais e/ou coletivas.
Ainda segundo Grzybowski (2013), as relações sociais expõem graus variados de poder, e que trazer os sujeitos coletivos para a arena pública, de acordo com as regras democráticas explicitam demandas coletivas e reconhecimento entre os pares. Para o autor essa disputa é permanente, e a democracia ao ser tensionada desdobra-se em participação coletiva “[…] como “trincheiras sociais” de resistência e ação, na expressão de Gramsci, articulando-se em redes, coalizões, plataformas e fóruns, sempre para incidir no espaço público, […]” (Grzybowski, 2013, s/p). Nas ruas de todo país, este ano de 2026 pudemos observar a materialidade do potencial emancipatório humano na radicalidade da democracia.
Apostar na democratização é apostar no processo virtuoso gerado pela radicalização do método de luta democrática, que transforma as diferentes lutas sociais de forças destrutivas umas das outras em forças de construção do possível, na diferença e oposição, num momento histórico dado (Grzybowski, 2013, s/p, grifo nosso).
Torna-se pertinente resgatar as eleições de líderes ultraconservadores, e o crescimento dos partidos da extrema-direita no mundo, como o Reino Unido, Alemanha, países Escandinavos, Itália, Portugal, França, nos Estados Unidos (Trump) e no Brasil com o Flavio Bolsonaro.
Nesse mesmo diapasão, destacamos as “novas” modalidades de golpes de Estado, as perseguições políticas a militantes de oposição, as restrições de direitos e liberdades, os cortes abruptos e desmonte dos serviços públicos e de políticas sociais, a guerra cultural anticomunista, antifeminista e o expurgo ideológico de servidores públicos, para citar alguns feitos. Mas o que chama especial atenção é a capacidade que têm de realizar tais façanhas por dentro da ordem, usando as regras existentes para possibilitar que a exceção se transforme no novo normal (Loff; Vieira; Guerra, 2021, p. 259), cuja ideia central é internalizar o que era considerado aceitável como inaceitável ou imponderável sob a cultura e prática de um permanente estado de exceção (Mota, 2026, p. 54).
Para Mota (2026, p. 57) observa-se que o conservadorismo mobiliza as massas (nacionalismo, anticomunismo, anti-intelectualismo, militarismo, racismo, machismo, heterossexismo e religiosidade), o que nos assusta é que essa mobilização atinge os profissionais liberais e a classe trabalhadora. Portanto:
[…] o enfrentamento do conservadorismo é parte de um enfrentamento maior, de combate a todas as formas de opressão, de alienação e exploração, no sentido da superação da barbárie, da emancipação humana e do socialismo. Somente com esse enfrentamento terá sentido afirmar: NÃO PASSARÃO! (Barroco, 2015, p. 635, grifo nosso).
E, apesar das disputas dos projetos em nossa sociedade, pactuamos com a autora Silva (2006, p. 45) que direciona sua concepção para uma nova ordem societária “[…] defesa da plena expansão dos indivíduos sociais, da ampliação da cidadania e do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida […]”.
A análise desenvolvida neste artigo buscou identificar que as disputas entre projetos societários no Brasil ultrapassam as divergências político-partidárias, expressando contradições estruturais inerentes à sociedade capitalista e às relações de poder que sustentam a dominação de classe. Nesse contexto, a conjuntura política brasileira, marcada pelo processo eleitoral de 2026, evidencia o aprofundamento das disputas ideológicas e a reorganização das forças conservadoras, que encontram na polarização política e na disseminação de discursos autoritários mecanismos de fortalecimento de seus projetos de sociedade.
Destaca-se que o avanço do conservadorismo e da extrema direita não pode ser compreendido como fenômeno isolado ou meramente conjuntural, mas como expressão de processos históricos e estruturais relacionados à manutenção dos privilégios de classe, à reprodução das desigualdades sociais e às estratégias de preservação da hegemonia burguesa. Observa-se, ainda, que a disseminação de discursos antidemocráticos, a naturalização das desigualdades e o enfraquecimento dos direitos sociais representam desafios significativos à consolidação da democracia e à construção de uma sociedade orientada pela justiça social.
Nessa perspectiva, a construção de uma sociedade efetivamente democrática não se restringe à garantia dos direitos políticos e civis, mas pressupõe a democratização das relações sociais, a distribuição da riqueza socialmente produzida e a ampliação das possibilidades concretas de participação da classe trabalhadora nas decisões que determinam os rumos da sociedade. Portanto, a defesa da democracia, articulada à luta pela emancipação humana, constitui um horizonte ético-político fundamental para o enfrentamento do conservadorismo, da extrema direita e das diferentes manifestações de autoritarismo que ameaçam os direitos e as conquistas sociais.
SILVA, Mossicleia Mendes da. Conquistas democráticas e o projeto de seguridade social defendido pelo Serviço Social brasileiro. In: O trabalho da/o assistente social em contexto de crise do capital. Brasília: Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), v. 3, 2026 Disponível em: < https://www.cfess.org.br/uploads/revista/5963/Volume03-Disciplina03-Especializacao.pdf> Acesso em 29 out. 2026
WESTMANN, Gustavo. A democracia sob cerco: polarização, desinformação e a reação à ofensiva autoritária nas eleições de 2026. Brasília: Escola Superior da AGU. v. 18, n. 02, 2026, p. 189- 205 Disponível em: < file:///C:/Users/andra/Downloads/4626.pdf > Acesso em 30 out. 2026.
YAZBEK, Maria Carmelita. DEGENSZAJN, Raquel Raichelis. PAZ, Rosangela Dias Oliveira da. Desafios para o Serviço Social em tempo de avanços do conservadorismo. São Paulo: Cortez. Revista Serviço Social e Sociedade. n. 134, jan.- abr. 2029, p. 7-12, Disponível em: <https://www.scielo.br/j/sssoc/a/WQy9xWmZRJVY8YFgsTQTdbm/?format=pdf&lang=pt&ilang=pt_BR > Acesso em 29 out. 2026.
* Vanice Aparecida Alves, Assistente Social da Secretaria de Políticas para Mulher e Igualdade Racial de Jandira/SP, Mestra em Política Social, Doutora em Serviço Social, Pós-Graduação em Políticas públicas, Direitos Humanos, Diversidade Sexual e Gênero, Aperfeiçoamento em “Educação em Direitos Humanos e Diversidade: educar-se e educar para a construção de uma sociedade fundamentada em direitos humanos”. Facilitadora do Grupo “E Agora José”. Foi tutora no Curso de Especialização em Educação em Direitos Humanos da Universidade Federal do ABC (UFABC). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos na UFABC. Contato: dialetica@hotmail.com.