A SOCIEDADE FRANCESA ÀS VÉSPERAS DA REVOLUÇÃO DE 1789 E A INFLUÊNCIA DOS PRINCÍPIOS ILUMINISTAS E LIBERAIS

* Alfredo Oscar Salun

Este pequeno texto faz parte de um projeto que foi publicado como livro e artigos, mas vale para o leitor, rever alguns pontos essenciais neste mês de julho. Considera-se como Revolução Francesa o conjunto de fatos ocorridos entre 1789 e 1799, que abrange da queda do absolutismo monárquico, passando pela adoção de uma constituição e da monarquia parlamentar, proclamação da República e a ascensão de Napoleão Bonaparte. Além desses aspectos políticos, ocorreram mudanças econômicas e sociais significativas, como o fim da divisão social por ordens e o desenvolvimento do capitalismo na França.

A liberdade guiando o povo – Eugène Delacroix/Domínio Público.

Os princípios da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade), espalharam-se pelo mundo e serviram de bandeira na luta contra o despotismo. A luta dos homens comuns por seus direitos políticos e igualdade jurídica, esta diretamente relacionada às mudanças econômicas ocorridas com o desenvolvimento das forças produtivas na Revolução Industrial, caracterizada pelo surgimento das fábricas modernas e o aumento do volume de produção de manufaturas e mercadorias, permitindo que novos estratos sociais viessem disputar com a aristocracia o poder político.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Fonte: https://www.infoescola.com/wp-content/uploads/2013/02/declaracao-dos-direitos-do-homem-e-do-cidadao.jpg. Acesso em 20/07/2026.

Pensadores iluministas como Descartes, Locke, Voltaire, Diderot, D´Alembert, Montesquieu e Rousseau representavam o pensamento do Iluminismo que foi uma fonte de inspiração para os revolucionários, na medida em que defendia princípios básicos de justiça, igualdade social e cidadania, rejeitando os valores do Antigo Regime. A filosofia iluminista e o liberalismo serviram de inspiração na luta contra o absolutismo na Inglaterra (Revolução Gloriosa), Estados Unidos (independência), França (Revolução Francesa), Brasil (Inconfidência Mineira e Baiana), Rebelião na Polônia contra o domínio russo, Movimento Dezembrista (Rússia) e a Revolução no Haiti entre outras.

Devemos lembrar que o Absolutismo Monárquico era um sistema político que concentrava o poder nas mãos dos reis, não havia separação entre os poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e o monarca justificava sua autoridade suprema mediante a teoria do direito divino. Essa centralização, também era característica de outras grandes monarquias no mundo na época como China, Pérsia, Império Otomano e Império Mogol na Índia por exemplo. Por isso, no século XIX surgiram movimentos modernizantes em um processo de “ocidentalização”, das quais podemos citar a Restauração Meiji (1868) no Japão; o Movimento de Auto Fortalecimento (1860) e a Reforma dos 100 dias/ Restauração Wuxu (1898) na China; Reformas Tanzimat (1839/1876) no Império Otomano.

Divisão Social: A sociedade francesa no Antigo Regime estava divida em Estados (também denominado de Estamentos ou Ordens), onde a mobilidade social era quase nula e obedecia a representação das três ordens nas assembléias provinciais ou nacionais (Estados Gerais).

O Primeiro Estado era formado pelo clero, os indivíduos provenientes dos grupos mais abastados e que monopolizavam os cargos mais importantes foram chamados de alto clero. O denominado baixo clero, eram os religiosos dos estratos sociais mais pobres, que geralmente tinham um padrão de vida pouco melhor do que os camponeses.

O Segundo Estado era a nobreza e não formavam uma camada homogênea, possuíam interesses muitas vezes divergentes e padrão de vida diferenciado. Em Versalhes estava à nobreza palaciana que devido sua ligação e laços de família e amizade, recebiam pensões do governo, cargos administrativos e postos militares.

No campo habitavam os nobres provinciais que viviam dos rendimentos de suas terras e privilégios feudais. A nobreza de toga era os burgueses que ganharam ou compraram títulos nobiliárquicos, mas que raramente eram transmissíveis, dessa foram não faziam parte da nobreza de sangue. Os membros da pequena nobreza, muitas vezes procuravam a carreira militar para conseguir promoção social.

O Terceiro Estado era formado pelo restante da sociedade. No seu topo estavam os grandes banqueiros, que financiavam as necessidades reais, abasteciam o exército e possuíam uma série de vantagens nas relações contratuais. Havia também os grandes comerciantes, que mantinham negócios ligados às colônias. Em seguida vinham os donos de indústrias artesanais, médios e pequenos comerciantes (boticários, pequenos mestres artesãos, livreiros, sapateiros, peruqueiros) e os profissionais liberais (médicos, jornalistas, advogados, professores e cientistas). Abaixo os artesãos, operários e trabalhadores urbanos que dependiam da venda da mão de obra para sobreviver, executando serviços auxiliares nas sapatarias e lojas, que enfrentavam os rigores da vida, com baixos salários e um custo de vida muito alto. Mas havia ainda, uma camada urbana formada pela parte mais miserável da população, que dependia de pequenos serviços ocasionais.

Entretanto a maior parte da população residia no campo, os mais afortunados eram os arrendatários e lavradores (médios proprietários em um padrão camponês), abaixo ficavam os parceiros e pequenos proprietários e por ultimo, a maioria formada por camponeses que cumpriam as obrigações feudais. Os escravos (principalmente nas colônias) estavam fora dessa divisão e era um grupo completamente excluído.

A massa urbana parisiense (denominada de sans-culottes) formou a base de sustentação dos comitês e dos exércitos revolucionários, não eram indigentes ou miseráveis, mas trabalhadores urbanos que se condoíam da situação de tais infelizes e esperavam conseguir com o processo revolucionário a implantação de um regime baseado na justiça social e no controle da economia.

“Viva o rei, viva a nação”. (Humor político)
A charge inverte a lógica dos privilégios de classe, mostrando um representante do Terceiro Estado sendo carregado por um representante da nobreza. A sociedade após a abolição dos privilégios em agosto de 1789. Fonte: https://imagohistoria.blogspot.com/2017/03/charges-historicas-revolucao-francesa-o_29.html. Acesso em 20/07/2026.

Com o fim da sociedade estamental, a nova divisão em classes sociais mediante suas posses e renda, caracterizada pela mobilidade social se tornou predominante. Apesar dos avanços significativos das denominadas Revoluções Burguesas e do desenvolvimento das forças produtivas, outros problemas se avolumavam. Nesse aspecto, pensadores e movimentos socialistas, anarquistas, trabalhistas e feministas iram exigir reformas mais amplas, objetivando o aprofundamento delas e até de revoluções, que viessem alterar o sistema de produção capitalista. No plano externo, o Imperialismo imposto pelas nações capitalistas ao mundo asiático-africano agudizaram tensões e propiciaram que setores dominados organizarem a resistência contra a violência/domínio colonial, fosse francesa, russa, americana, britânica, italiana, holandesa, alemã, belga, portuguesa e espanhola (o Japão, entraria no rol dos colonizadores no fim do século XIX).

REFERÊNCIAS

CHARTIER, Roger. As origens culturais da Revolução Francesa. São Paulo. Unesp, 2004.

FURET, François e OZOUF, Mona. Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1989.

KRANTZ, Frederick(org). A outra história. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 1988.

LEFEBVRE, Georges. A Revolução Francesa. São Paulo. Ibrasa, 1966

MUSLIM INTELLECTUAL REDE and SALMAN. Modernization Under Pressure: The Ottoman Tanzimat Reforms. In: Muslim Intellectual Network for Empowerment (MINE). 18.abril, 2026. Disponível: https://mineglobal.substack.com/p/modernization-under-pressure-the. Acesso em 18/06/2026.

SAKURAI, Célia. Os Japoneses. SP. Editora Contexto, 2007

SALUN, Alfredo Oscar. Tiranos e Revolucionários: Temas de História Contemporânea. Santo André. Editora Todas as Musas. 2011.

SONGRONG, Xu. Rediscutindo a relação entre a Restauração Wuxu (1898) e o Movimento de Ocidentalização (重论戊戌维新与洋务运动的关系). Rede de Cultura e História Chinesa. Fonte: “Aprendizagem técnica Pesquisa” Edição 3, 1995 (学术研究》1995年第3期. Disponíve em: http://www.qinghistory.cn/zz/358108.shtml.  Acesso em 01/11/2024.

VOVELLE, Michel. França Revolucionária: 1789/1799. São Paulo: Brasiliense/ Secretaria de Estado da Cultura, 1989.

* Alfredo Oscar Salun é Doutor em História Social pela FFLCH/USP; Mestre em História (Ensino e Educação) pela PUC/SP e Licenciatura Plena em História/Estudos Sociais. Possui sólida experiência docente no ensino superior e educação básica. Autor dos livros: Corinthians e Palestra Itália: Futebol em Terras bandeirantes (Todas as Musas, 2015), Zé Carioca vai a Guerra (Editora Pulsar, 2004), Revolucionários e tiranos: temas de Historia Contemporânea, Editora Todas as Musas (2011); co-autor: Logística Reversa, sustentabilidade e educação, Editora Todas as Musas (2013) e capítulo sobre a Força Expedicionária Brasileira in World War II Re-explored. Berlim. Peter Lang, 2019 e co-autor do capítulo Aspects of Brazilian Culture during the Military Dictatorship and the Cold War na coletâneaThe Cold War Re-Called: 21st Century Perceptions of the Worldwide Geopotical Tension (Peter Lang, 2024), além de diversos artigos na área de História e Educação. Como professor atuou nas instituições PUC/SP, Anhanguera e UniABC, nesta desenvolveu diversas atividades entre 1996 e 2013; orientador de TCC e Iniciação Científica, orientador de estágio, coordenador de grupo de pesquisa, coordenador do curso de História e outras funções administrativas e acadêmicas. Na Uninove foi professor no curso de História (presencial e EAD) e orientador de TCC. Atuou como Professor e orientador de TCC do curso de Pós-Graduação “Educação e Direitos Humanos” na UFABC e em 2019 foi orientador de TCC no curso de Pós-Graduação/Especialização “Gestão Pública” pela UNIFESP/UAB. Foi Professor no curso Educação em Direitos Humanos/UFABC do conteúdo Fundamentos Históricos e Sociológicos e Marcos Regulatórios dos Direitos Humanos/Orientação de TCC. É pesquisador associado do Núcleo de Pesquisa de História Oral (NEHO/USP) e do GEINT (Grupo de Estudos do Integralismo). Tem experiência na elaboração de materiais didáticos para os cursos de História e Pedagogia sobre Aspectos da cultura afro-brasileira; Sustentabilidade e Educação. Realizou pesquisa e tem desenvolvido projetos em relação ao Futebol e Sociedade; A FEB e a Segunda Guerra Mundial; História Oral e Cultura Popular; Nazismo/Fascismo; Educação e Meio Ambiente. É pesquisador integrante do Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos/UFBC – CNPq. Contato: aosalun@uol.com.br.

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