Jovens e finitude

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

Nem sempre é fácil fornecer as primeiras informações sobre a morte e a finitude corpórea para os muito jovens, embora as primeiras noções sejam necessárias durante ou logo após a primeira infância.

Salvo raros casos, a morte de parentes ou amigos próximos termina por envolver as crianças e coloca adultos na função de explicar a vida e suas parte nem sempre alegres. O entendimento do Universo envolve três dimensões físicas que marcam a posição no espaço: altura, largura e profundidade (x, y, z), e uma quarta dimensão abstrata que, associada às outras três, define os movimentos e eventos: o tempo.

Arqueólogos e outros especialistas encontram com frequência monumentos relacionados a movimentos do sol e das outras estrelas, são construções sofisticadas em que no solstício ou no equinócio um raio de sol é projetado com precisão a determinado ponto. À parte delírios que atribuem isso a alienígenas, o que se vê é a manifestação de uma ciência humana com foco em algo que preocupava realmente as civilizações mais avançadas da antiguidade, determinar e registrar com precisão o tempo e a sua passagem.  

Um dos mais antigos documentos escritos nos deixa a lição: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. / Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher o que se plantou […]” (Eclesiastes 3).

Povos que viviam da agricultura precisavam saber esses tempos, assim como os caçadores/coletores, equívocos no plantio e colheita ou na busca da caça podiam resultar em fome para todos.

Em outro nível, astrônomos e astrólogos dedicavam-se a estudar o movimento dos astros, e disso resultaram calendários avançados em que constavam até datas de eclipses solares ou lunares.

Algo relacionado à noção de que o tempo passa é a consciência da mortalidade, somos os únicos dentre todos os animais que sabemos que morreremos e isso determina religiões e culturas. As maiores obras de arte e a melhor literatura da humanidade estão ligadas de algum modo a essa finitude.

Pirâmides e mausoléus foram construídos não apenas para perpetuar a memória de reis e faraós, mas na tentativa de garantir que vencessem fisicamente a morte, vencessem o tempo, enfim.

Vivemos imersos em um tempo que parece cada vez mais veloz e caótico, nas cidades temos poucas oportunidades de viver lentamente a passagem das estações, recebemos quase sempre notícia de que o verão ou o inverno chegaram através de telejornais, então percebemos que esquenta, que esfria, que chove, e que talvez seja tempo de férias, ir em busca de praia ou montanha por alguns dias. Crianças são particularmente sensíveis a esta repetição, rotinas esperadas como praia, casa dos avós, brincadeiras com amigos; e assim adquirem a noção do tempo transcorrido.

As datas comemorativas, efemérides, são recursos importantes de sanidade e equilíbrio, muito mais do que a associação eventual a feriados ou lazer, nos dão ideia real da passagem do tempo; com frequência comenta-se a rapidez com que o ano passou, datas memoráveis parecem acontecer novamente quando ainda não haviam “passado”. Na maior parte das vezes, aniversários, carnaval, páscoa, festas juninas, natal, e outras datas de comemoração religiosa ou cívica, definem os anos que vivemos e os tornam parte integrante de nossa vida.

As escolas têm conhecimento disso e promovem sempre com e para seus alunos os momentos de importância para a comunidade, para o país e para a própria instituição. No entanto, exceto em raros países como o Mexico, por exemplo, onde a morte é cultuada em uma de suas maiores festas, os ancestrais são comemorados levando-se comidas e bebidas a seus túmulos, as pessoas saem fantasiadas com temas alusivos à morte, de forma geral “a temida das gentes” costuma ser assunto evitado.

Assim, o fim da vida torna-se tema “tabu”, e muitos tem extrema dificuldade em abordá-lo, torná-lo palatável àqueles ainda no início da vida, e fora da disciplina de História poucas são as oportunidades de conversar sobre ela. Entretanto, mesmo ali parece um assunto distante, e que não nos afeta diretamente, a concretude do final da vida termina apenas efetivamente sentida quando envolve a emoção pessoal, as pessoas queridas cuja falta se fará presente.

Escolas trabalham com o real, e mesmo quando envolve arte, poesia e música, na maior parte do tempo abrange questões racionais e coletivas, e não o que é pessoal e emotivo, sempre mais delicado de tratar e um desafio para docentes.

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