Em fevereiro, passando pelo Itaú Cultural da avenida Paulista, chamou-nos atenção uma das salas de exposição com o nome Ocupação Leda Maria Martins.
Quem seria Leda? Por qual motivo teria uma sala exclusiva a ela dedicada? O que conteria a exposição? Estas foram as perguntas iniciais que nos fizemos ao adentrar ao espaço do andar térreo do espaçoso prédio de estrutura de ferro e de paredes brancas. A exposição nos deu, inicialmente, muitas pistas de quem é Leda Maria Martins
E dias após termos percorrido a exposição, abstraímos informações textuais e visuais sobre essa personalidade feminina que tanto nos instigou. Informações que foram aprofundadas por imersão posterior aos registros filmatográficos do Instituto e aos textos de bons sites de mesma natureza disponíveis publicamente a quem se interessar por saber mais sobre a Leda Maria Martins, mulher de muitas faces.
Quais são as produções acadêmicas, dramatúrgicas e literárias de Leda? São muitas e diversas as obras individuais: Cantigas de Amares e Os dias anônimos são poesias; O moderno teatro de Qorpo-Santo, A cena em sombras, Afrografias da memória e Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela são ensaios.
Também individuais são as antologias Solstício e Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica.
Os artigos publicados em revistas especializadas nacionais são inúmeros:
Uma coreografia ritual: as trilhas dos Orixás emSortilégio;
Narrativas orais fundadoras;
Escrever o outro;
A oralitura da memória;
Arabescos do corpo feminino;
Performances do tempo espiralar;
Encenando a memória social: Yuyachkani;
A fina lâmina da palavra;
Lavrar a palavra: uma breve reflexão sobre a literatura afro-brasileira.
E em revistas internacionais também. Nas latino-americanas os artigos La Oralitura de la Memoria; Solano Trindade. Nas estadunidenses, os artigos: Gestures of Memory, Transplanting Black African Networks; Voices of black feminine corpus in contemporary Brazilian Literature; Black Presence in Brazilian Literature: from the colonial period to the twentieth century; Performances of spiral time; Performing Time, Performing Blackness: Africa and blackness in Brazilian “Congados”. Coeditou o número 18 da revista norte-americana Callaloo.
Leda é nascida carioca no ano de 1955. Viveu sua infância e juventude por aqui e mais tarde, esteve por alguns anos nos Estados Unidos à época de sua pós-graduação; posteriormente à sua formação acadêmica, retorna ao Brasil, vivendo em Minas Gerais.
Conforme Guilherme Diniz (2020) ao compartilhar conosco a biografia de Leda foi afeiçoada aos estudos, nutrindo precocemente interesse em matemática, mas não só: com apenas quatro anos, aprendeu a ler, e aos sete a paixão pelas letras já se mostrava em pequenos poemas. São dela as palavras:
“Eu sempre gostei de estudar, acho que essa é a minha vocação. Desde criança o meu passatempo predileto eram livros, revistas em quadrinhos, lia o que caia na mão e tinha uma facilidade muito grande com escritura”.
Na juventude, a vida não foi dócil com Leda dadas as dificuldades socioeconômicas. Com o apoio materno, ao concluir o (atual) ensino médio, prestou vestibular para o curso de Letras, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), se desdobrando entre trabalho e estudo, de modo a se manter na academia.
Tal foi sua dedicação que obteve bolsa de estudos para o mestrado em Artes, na Indiana University, Estados Unidos, de 1978 a 1981, cuja dissertação levou o título O Moderno Teatro de Qorpo Santo. Em seu mestrado, Leda Martins analisou minunciosamente a modernidade dramatúrgica de Qorpo-Santo, em seus aspectos constitutivos, formais e temáticos, investigando as numerosas qualidades textuais que fazem do autor gaúcho um vanguardista dos anos oitocentos do século passado. O resultado de sua pesquisa se condensa na obra O Moderno Teatro de Qorpo Santo, publicado em 1991. Nessa ocasião, deparou-se com a coletânea de textos dramáticos organizados por Abdias Nascimento e encenados pelo Teatro Experimental do Negro, o TEN.
Conforme a própria Leda, a vivência nos Estados Unidos levou não só ao seu amadurecimento intelectual como também à consciência sociorracial mediante percepção da discriminação enfrentada pela população negra norte-americana, especialmente dado o apartheid vivido àquela época.
De volta ao Brasil e sob influência do Teatro Experimental do Negro (TEN), em 1987 ingressa no curso de doutorado em Estudos Literários da UFMG para investigar comparativamente a trajetória teatral do TEN, no Brasil, e a formação do Teatro Negro (Black Drama) nos Estados Unidos. Fruto de sua tese surge mais um livro inovador, A cena em Sombras, publicado em 1995.
Como pode se perceber, Leda teve forte ligação com o teatro desde as décadas de 1970/80, vindo a se tornar um dos principais estandartes do que veio a se denominar no meio da dramaturgia contemporânea, o teatro do absurdo. Drama para negros e Prólogos para brancos também é uma obra a qual Leda se dedica.
Leda, de fato mostra-se em multifaces. Além de sua especialização sobre dramaturgia negra, também foi dedicada educadora em duas universidades brasileiras: 1981-1983 na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e 1993-2018, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), inclusive como diretora e chefe de departamento em ambas.
Leda não passou imune à percepção da sistemática discriminação e exclusão de grupos marginalizados numa sociedade racista, especialmente da população negra. Na academia, esta ocorre pela constatação da dominância de professores brancos nas universidades brasileiras, sendo que nas palavras de Leda:
“Em 91, eu era uma das raras professoras negras doutoras neste País. Quantas negras doutoras temos hoje? Eu sou um pouco responsável por isso. Eu sou uma das raras professoras negras dessa universidade [UFMG], como eu fui da Federal de Ouro Preto” (DINIZ, 2020).
Ela ressalta ainda que como chefe de departamento, presidente de colegiados, membra do Conselho de Ensino e Pesquisa, integrante do Conselho Universitário, Coordenadora de Pós-Graduação em Letras na Federal de Minas Geais, membra de organizações nacionais e internacionais de caráter acadêmico-político e pesquisadora do CNPQ notava a escassa presença de pessoas negras em seu entorno.
Outra face de Leda diz respeito à sua religiosidade, dedicada aos Reinados Negros. Da aproximação entre academia e fé religiosa, Leda escreve Afrografias da Memória, já citado, publicado em 1997 e republicado em nova edição revista e atualizada em 2021.
Em Afrografias da Memória, a autora desperta principalmente o afeto em seus leitores. Trata-se de um ensaio que atinge a todos, independentemente da idade ou de pertencer ou não aos circuitos ditos acadêmicos. Ela mesma tem um carinho especial pela obra dentre as diversas já produzidas e publicadas.
Nesse livro, o leitor se encontrará com a história dos festejos dos Congados e dos Reinados Negros discutidos como “reterritorializações da filosofia bantu na diáspora, em que a vitalidade comunal africana, ao fissurar e imprimir seus valores simbólico-epistêmicos no espaço americano, desenvolveu estratégias culturais de enfrentamento ao sistema escravocrata dominante, assim como de continuação e renovação dos ritos matriciais no continente africano”
Leda detalha cuidadosamente a complexa rede semântica elaborada pelos ritos, coreografias, cânticos, gestuais, línguas e elementos sagrados agenciados pelas festividades congadeiras cujas performances refazem, há séculos, as fábulas místicas, bases da comunidade (DINIZ, 2020).
Os Congados expressam muito do saber banto, que concebe o indivíduo como expressão de um cruzamento triádico: os ancestrais fundadores, as divindades e outras existências sensíveis, o grupo social e a série cultural.
No folder disponibilizado na Ocupação, entre outras palavras, Leda nos diz:
Ao ler este pequeno excerto, imediatamente pensamos Leda como uma pessoa que em si integra vários campos do saber e expressão humana de maneira dinâmica, sem contradições, ou seja, ao mesmo tempo se constitui pelo conhecimento acadêmico – é doutora, – pela arte – é poeta, ensaísta e dramaturga – e pela crença religiosa sincrética – é integrante do Reinado da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.
Dia 08 de Março, Dia Internacional da Mulher foi muito bem lembrado pela Profa. Silmar Leila ao discutir a situação atual e o papel social e político das mulheres professoras. Estamos em abril, de onde se pode avistar um julho que virá por aí, por ocasião do dia 25, como Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. Então, a ocasião é antecipadamente oportuna para conhecermos Leda Maria Martins, uma personalidade talvez quase anônima para alguns. Que os ventos democráticos continuem a soprar trazendo para o campo do visível e da memória, outras mulheres do cotidiano para que ocupem cada vez mais espaços públicos como protagonistas.
Para saber mais
DINIZ, G. Leda Martins: escrituras e evocações, 2020. Disponível em letras.ufmg.br/teatro/24-textos-das-autoras-1337-leda-martins-escrituras-e-provocacoes-guilherme-diniz. Acesso em 18 de março de 2025.
FIGUEIREDO, M.do C. LANA. Leda Maria Martins. In: DUARTE, E.DE ASSIS (org.). Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, 1ª reimpressão, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014, vol.3. Contemporaneidade.
* Profa. Irene Franciscato é psicóloga e pedagoga, doutora em Educação pela PUC São Paulo, professora universitária aposentada no curso de Pedagogia (Faculdades Oswaldo Cruz – São Paulo, FASB – São Bernardo do Campo e Fundação Santo André – Santo André); atualmente é pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos/UFABC, colunista da Revista ContemporArtes EDH, também da UFABC e atua como psicóloga de grupo de convivência 60+.
AMEI conhecer Leda, uma mulher potente e multidisciplinar.
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Agradecemos seu comentário, Profa. Cecília Prado, e a convidamos a continuar acompanhando nossas postagens.
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