O cineasta revisita sua trajetória, e fala sobre uma ideia de cinema em que a forma precisa carregar a matéria do mundo. No dia 14 de agosto, Guerra conversou com jornalistas durante uma coletiva realizada no Hotel Mabu, em Curitiba, e realizou uma Master Class no mesmo dia sobre sua obra na Caixa Cultural.
Há algo de curioso em encontrar Ruy Guerra pessoalmente. Aos 95 anos, o cineasta que construiu uma obra marcada por conflitos sociais, violência, desigualdade e disputas políticas aparece diante dos jornalistas sem nenhuma monumentalidade. Afável, sorridente, generoso nas histórias que compartilha, fala de quase sete décadas de cinema com a memória de quem ainda percorre os caminhos por onde passou.
Uma expressão utilizada pelo cineasta ajuda a iluminar não apenas seus filmes, mas uma determinada maneira de pensar o cinema: a “estética suja”. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, radical: a forma precisa acompanhar o conteúdo. Não se pode filmar um lixão como se estivesse fazendo uma produção hollywoodiana. O filme, disse Guerra, precisa ter o cheiro do lixão.

A imagem é quase física. E talvez seja justamente por isso que ela seja tão precisa. Para Guerra, a estética não deveria funcionar como uma camada de verniz aplicada sobre a realidade. A maneira de enquadrar, iluminar, montar e narrar precisa estar em relação com aquilo que está sendo mostrado. Uma realidade áspera pede uma forma que não a higienize.
É uma concepção que ajuda a compreender a força de sua filmografia e sua aproximação histórica com o Cinema Novo. Mais do que representar determinados conflitos sociais, seus filmes procuraram encontrar uma linguagem capaz de incorporá-los. A precariedade, a violência e a desigualdade não aparecem apenas como temas: interferem na própria construção cinematográfica.
Essa posição também ajuda a entender algumas das opiniões muito francas que Guerra expressou durante a coletiva. O cineasta não esconde sua distância em relação à Nouvelle Vague francesa, movimento que conheceu de perto durante seus estudos em Paris. Para ele, trata-se de um cinema excessivamente burguês, preso a roteiros que frequentemente reproduzem uma espécie de déjà-vu.

Tampouco demonstra entusiasmo por Charles Chaplin: reconhece sua genialidade para o período em que produziu, mas não está entre seus admiradores. Há coerência nessas recusas. Guerra parece desconfiar de um cinema que se encerra em suas próprias convenções. Seu interesse está em outro lugar: no choque entre a linguagem e o mundo, entre a forma e aquilo que insiste em escapar dela.
Nascido em Lourenço Marques, atual Maputo, em Moçambique, então sob domínio colonial português, Guerra cresceu em um contexto atravessado pelas tensões do colonialismo. Estudou cinema em Paris e chegou ao Brasil em 1958, participando posteriormente da formação do Cinema Novo ao lado de realizadores como Glauber Rocha e Cacá Diegues.
Sua trajetória, entretanto, não ficou restrita ao Brasil. Guerra construiu uma filmografia marcada pelo trânsito entre países, culturas e linguagens. Filmou em diferentes partes do mundo e manteve relações estreitas com escritores e artistas latino-americanos. Na coletiva, lembrou de histórias partilhadas com Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa, nomes que fizeram parte de sua rede de convivência intelectual. A literatura, aliás, ocupa um lugar central em sua trajetória. Antes de querer ser cineasta, Guerra queria ser escritor. Ainda hoje, afirma que lê o dicionário diariamente “como quem lê um romance”.

Talvez seja essa mistura de cinema, literatura, política e deslocamento que torne difícil encaixá-lo em uma única tradição. Ruy Guerra pertence ao Cinema Novo, mas não cabe inteiramente nele. É brasileiro, embora tenha nascido em Moçambique. Formou-se na França, mas rejeita boa parte da filmografia que encontrou em Paris. Trabalhou com alguns dos maiores nomes da literatura latino-americana, mas insiste em pensar o cinema a partir de sua própria linguagem.
A retrospectiva curitibana permite justamente acompanhar essas contradições. São quase sete décadas de produção reunidas em uma única programação, incluindo filmes que atravessaram diferentes momentos políticos e estéticos e obras que hoje retornam às telas graças a processos de restauração e pesquisa. O próprio curador Aristeu Araújo descreve o trabalho de reunir os filmes como uma espécie de arqueologia cinematográfica, diante da dispersão dos materiais e das dificuldades de preservação do cinema brasileiro.

E há algo particularmente simbólico em uma retrospectiva dedicada a um cineasta que ainda não parece interessado em retrospectivas sobre si mesmo. Aos 95 anos, Guerra continua fazendo planos. Diz que pretende viver até os 117. Até os 100, quer continuar fazendo cinema, depois pretende voltar à literatura.
Quando sentei ao seu lado para sermos fotografados (todo mundo “tietou” o Ruy), comentei que ele tinha um sorriso bonito. Ele sorriu ainda mais.
É uma pequena cena, quase banal, diante de uma trajetória tão extensa. Mas talvez seja justamente nela que apareça algo que os filmes, as biografias e as retrospectivas não conseguem capturar inteiramente: a presença de um homem que depois de atravessar guerras, fronteiras, movimentos artísticos e quase sete décadas de cinema, continua olhando o mundo com interesse e curiosidade, atento às pessoas que o cercam.
E talvez seja isso que sua ideia de “estética suja” ainda nos ensine. O cinema não precisa apenas mostrar a realidade. Precisa deixar que alguma coisa dela permaneça em nós.

Mostra Retrospectiva Ruy Guerra
A programação segue até 23 de agosto, na CAIXA Cultural Curitiba, com entrada gratuita. As sessões reúnem 17 longas-metragens, dois documentários sobre o cineasta, Ternos Caçadores, em versão restaurada em 4K, e A Fúria, seu filme mais recente. Os ingressos são retirados gratuitamente uma hora antes de cada sessão, na bilheteria.
CAIXA Cultural Curitiba
Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro, Curitiba
12 a 23 de agosto de 2026
Entrada gratuita.
Curadoria – Aristeu Araújo: Cineasta, com passagens pelo teatro e pela literatura. Graduado em Cinema pela UFF e em Jornalismo pela UFRN, já fez curadoria de dezenas de mostras cinematográficas, dirigiu doze curtas e montou cerca de 40 filmes, entre longas e curtas. Atua no cinema principalmente como montador, assinando as edições dos longas “Mães do Derick”, de Cássio Kelm (Prêmio de Melhor Montagem no 14º For Rainbow), e “A Mesma Parte de Um Homem”, de Ana Johann (finalista no Prêmio Abcine de Melhor Montagem de Ficção). No momento trabalha na montagem de “1989”, dirigido por Juliana Sanson, e está finalizando seu primeiro longa, o filme “A Ponte”.
Jade Azevedo – Produção (41 99798 2607) – jadejornal@gmail.com
Glaucia Domingos – Assessoria de Imprensa (41 99909-7837) – glauciadomingosassessoria@gmail.com

Texto: Julio Ponciano e Bel Liviski, trabalhando (e “tietando”).
Foto: Waldo Rafael.
Filmes da Mostra Retrospectiva:
Os Cafajestes (1962)
Longa de estreia de Ruy Guerra, o filme acompanha dois jovens da elite carioca que planejam chantagear uma mulher após fotografá-la nua. A obra marcou época ao apresentar o primeiro nu frontal do cinema brasileiro e inaugurar temas centrais da filmografia do diretor, como a crítica às desigualdades sociais, à violência e às relações de poder.
Os Fuzis (1964)
Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, acompanha soldados enviados ao sertão nordestino para impedir que retirantes famintos invadam um depósito de alimentos. Considerado um dos maiores clássicos do Cinema Novo, o filme denuncia a desigualdade social e a omissão do Estado diante da fome.
Ternos Caçadores (1969)
Recém-restaurado em 4K, o raro longa francês acompanha uma família isolada à beira-mar cuja rotina é transformada pela chegada de um prisioneiro fugitivo. A tensão psicológica e o simbolismo fazem da obra uma das produções menos conhecidas e mais singulares da carreira de Ruy Guerra.
Os Deuses e os Mortos (1970)
Ambientado na região cacaueira da Bahia nos anos 1930, retrata disputas por terras, poder e vingança em meio ao coronelismo. Considerado pelo próprio diretor seu melhor filme, reúne elementos épicos, políticos e poéticos característicos de sua obra.
A Queda (1978)
Segundo capítulo da Trilogia dos Fuzis, acompanha um operário da construção civil que enfrenta a exploração do trabalho após a morte de um colega em um acidente. O filme amplia a crítica social iniciada em Os Fuzis, deslocando o foco para o ambiente urbano.
Mueda: Memória e Massacre (1979)
Primeiro longa-metragem produzido em Moçambique após a independência, reconstitui um massacre cometido pelo exército português em 1960. A obra tornou-se referência histórica ao registrar a memória da luta anticolonial africana.
Erêndira (1983)
Baseado em obra de Gabriel García Márquez, acompanha a trajetória de uma adolescente obrigada pela avó a se prostituir para pagar uma dívida. O filme reúne realismo mágico, crítica social e uma das adaptações mais conhecidas da literatura do escritor colombiano.
Ópera do Malandro (1985)
Inspirado no musical de Chico Buarque, transporta para a Lapa dos anos 1940 uma história de contrabando, romance e corrupção. A produção combina música, humor e crítica política em um dos maiores sucessos populares da carreira do diretor.
A Bela Palomera (1988)
Também inspirado na obra de Gabriel García Márquez, narra o romance proibido entre um empresário e uma jovem casada que se comunicam por meio de pombos-correio. O filme mistura paixão, lirismo e elementos do realismo mágico.
Kuarup (1989)
Adaptação do romance de Antonio Callado, acompanha um padre enviado ao Xingu que passa por profundas transformações políticas e existenciais durante os anos que antecedem o golpe militar de 1964. É um retrato das tensões sociais e culturais do Brasil.
Estorvo (2000)
Baseado no romance de Chico Buarque, apresenta a fuga de um homem perseguido por ameaças reais e imaginárias. A narrativa mergulha em um universo de paranoia e fragmentação psicológica.
Monsanto (2000)
Produzido em Portugal, acompanha um ex-combatente da Guerra Colonial que revive traumas do passado durante as comemorações da Revolução dos Cravos. A obra aborda memória, violência e os efeitos duradouros da guerra.
Portugal S/A (2004)
Drama político que acompanha um executivo envolvido em disputas empresariais, corrupção e conflitos familiares durante o processo de transformações econômicas portuguesas. O filme reflete sobre ética e poder.
O Veneno da Madrugada (2004)
Outra adaptação de Gabriel García Márquez, retrata uma pequena cidade tomada pelo medo após a circulação de bilhetes anônimos que revelam segredos e escândalos. Suspense e crítica social conduzem a narrativa.
Quase Memória (2016)
Inspirado na obra de Carlos Heitor Cony, acompanha um homem que revisita lembranças da infância ao reencontrar simbolicamente o próprio pai. O filme aborda memória, identidade e afetos familiares.
Aos Pedaços (2020)
Livre adaptação da tragédia Medéia, de Eurípides, apresenta um homem dividido entre duas mulheres chamadas Ana que passa a viver uma espiral de paranoia após receber um bilhete anunciando sua morte.
A Fúria (2024)
Mais recente filme de Ruy Guerra, encerra a Trilogia dos Fuzis. O personagem Mário retorna como uma figura fantasmagórica para enfrentar corrupção, autoritarismo e violência política no Brasil contemporâneo, combinando elementos de fábula, sátira e crítica social.
Documentários
Tempo Ruy (2021)
Dirigido por Adilson Mendes, o documentário percorre a trajetória artística de Ruy Guerra como cineasta, escritor, poeta e dramaturgo, revelando os bastidores de sua criação e sua influência sobre o cinema brasileiro.
O Homem que Matou John Wayne (2015)
Os diretores Bruno Laet e Diogo Oliveira utilizam uma curiosa metáfora para apresentar o pensamento e o universo criativo de Ruy Guerra, reunindo depoimentos de personalidades como Gabriel García Márquez, Chico Buarque e Werner Herzog.

Excelente e oportuna matéria!
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