“A fotografia oferece à pintura um primeiro vestígio de luz; a pintura devolve à fotografia uma espessura temporal que ela, sozinha, já não poderia conter”.
Há imagens que parecem destinadas ao esquecimento. Permanecem guardadas em caixas de fotografias, diapositivos esquecidos em gavetas, objetos que atravessam décadas sem que ninguém lhes devolva o olhar. José Cavalhero escolhe justamente esse território de latências. Sua pintura nasce do encontro com essas imagens sobreviventes, não para restaurá-las como documentos do passado, mas para perguntar o que ainda permanece vivo nelas.

A memória costuma ser entendida como um arquivo onde o passado permanece preservado. A obra de Cavalhero sugere o contrário. Recordar não é conservar, mas transformar. Fotografias de família, diapositivos realizados por seu pai, ilustrações encontradas, objetos e fragmentos de um acervo pessoal deixam de ocupar o lugar de testemunhos biográficos para ingressar em um processo contínuo de reinvenção. Cada pintura desloca essas imagens de sua função original e lhes oferece uma nova existência, na qual memória individual e experiência coletiva passam a compartilhar o mesmo espaço sensível.

Nascido em São Paulo, em 1964, José Cavalhero formou-se em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e realizou pós-graduação em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Desde 2019 vive em Portugal. No entanto, reduzir sua trajetória ao deslocamento geográfico seria insuficiente. Em sua pesquisa, o deslocamento constitui uma condição da própria imagem. Ao atravessar tempos, suportes e lugares, ela modifica sua matéria, seu sentido e sua capacidade de afetar quem a observa.
É por isso que o artista organiza sua produção em séries. Mais do que conjuntos de obras, elas funcionam como investigações abertas. Uma mesma questão retorna inúmeras vezes, sem jamais repetir-se. A pintura torna-se um exercício de aproximação: revisita imagens conhecidas para descobrir nelas aquilo que ainda não havia sido visto. Não há conclusão definitiva, mas um movimento contínuo de reaparição.

Essa lógica atravessa séries como Morada Memória Rés-do-Chão, Corpo Paisagisante e Corpo Presente. Os títulos, por si mesmos, recusam a descrição objetiva e sugerem estados de experiência. A casa deixa de ser apenas arquitetura para converter-se em lugar da lembrança. O corpo deixa de delimitar uma identidade fixa e passa a expandir-se como paisagem. A presença, por sua vez, já não corresponde ao instante imediato, mas à permanência delicada das imagens que insistem em retornar.
Nesse percurso, fotografia e pintura não ocupam posições opostas. A fotografia oferece à pintura um primeiro vestígio de luz; a pintura devolve à fotografia uma espessura temporal que ela, sozinha, já não poderia conter. Não se trata de reproduzir fotografias, nem de transformá-las em ilustrações pictóricas. O gesto de Cavalhero consiste em permitir que essas imagens atravessem o tempo até encontrarem outra matéria capaz de lhes restituir presença.

Há, em suas telas, uma qualidade que resiste ao acabamento definitivo. Transparências, sobreposições, apagamentos e delicadas zonas de indeterminação fazem com que as imagens pareçam oscilar entre aparecer e desaparecer. É justamente nessa oscilação que sua poética se afirma. O espectador não é conduzido a reconhecer um episódio autobiográfico, mas a experimentar a instabilidade da própria lembrança. As obras não pedem identificação, pedem a permanência do olhar.

Essa investigação vem sendo consolidada por uma trajetória consistente entre Brasil e Portugal. Após a residência artística no Armazém 56 arte-sx, em Seixal, Cavalhero aprofundou sua pesquisa na Associação NowHere Lisboa, inicialmente no LAB Práticas Artísticas e, posteriormente, no acompanhamento de projetos conduzido pela curadora Cristiana Tejo. Paralelamente, realizou exposições individuais como Morada Memória Rés-do-Chão, Corpo Paisagisante e Corpo Presente, além de participar de importantes mostras coletivas em ambos os países, afirmando uma produção que se distingue pela coerência de sua investigação poética.

Em uma época marcada pela circulação vertiginosa de imagens, José Cavalhero realiza um gesto silencioso. Em vez de produzir o impacto do instante, trabalha com a duração. Suas pinturas parecem suspender a velocidade com que consumimos fotografias para devolver às imagens aquilo que frequentemente lhes retiramos: o tempo necessário para que revelem camadas invisíveis.
Talvez seja essa a singularidade de sua obra. Ela não procura preservar o passado nem ilustrar uma autobiografia. Interroga o percurso das imagens depois que elas deixam de cumprir sua função documental e passam a habitar a memória. Entre a luz que um dia atravessou a objetiva da câmera e a matéria da tinta que hoje ocupa a tela, existe um intervalo feito de tempo, ausência e transformação. É nesse intervalo, discreto, quase imperceptível, que José Cavalhero constrói uma das pesquisas mais sensíveis sobre a permanência das imagens na arte contemporânea.
Para saber mais sobre o artista:
https://jcavalheroj.wixsite.com/website
https://drive.google.com/file/d/1fwV6LfCRlJ47cLFSaItTRxRc4EJn4dMZ/view?usp=sharing
Bel Liviski é doutora em Sociologia pela UFPR, especialista em Artes Visuais. Escreve a Coluna INcontros desde 2010 na Revista ContemporArtes, onde também é coeditora. Escreve e edita o Boletim TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil, em Curitiba/PR.
Contato: bel.photographia@gmail.com
