O Mundo da Lusofonia: escrita criativa, cidadania global e interculturalidade na escola

Autores: Bruno Coimbra[1]; Helena Silva[2]; Alcides Semedo[3]; Virgílio Neto[4]

Email para contato: brunocoimbra@aecaparica.pt; lusofonia@aecaparica.pt

Resumo: O projeto Mundo da Lusofonia, desenvolvido pelo Agrupamento de Escolas da Caparica em parceria com a UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, constitui uma prática educativa inovadora que promove a valorização da língua portuguesa enquanto espaço de encontro cultural, literário e cívico. Através de oficinas de escrita criativa, como o atelier “Cartas de Todos os Géneros”, o projeto articula educação literária, cidadania global e interculturalidade, contribuindo para o desenvolvimento integral dos alunos.

Palavras-chave: lusofonia, escrita criativa, cidadania global, interculturalidade

Abstract: The Mundo da Lusofonia (Lusophone World) project, developed by the Agrupamento de Escolas da Caparica in partnership with UCCLA – Union of Portuguese-Speaking Capital Cities, is an innovative educational practice that promotes the appreciation of the Portuguese language as a space for cultural, literary, and civic encounters. Through creative writing workshops, such as the “Cartas de Todos os Géneros” (Letters of All Kinds) atelier, the project integrates literary education, global citizenship, and interculturality, contributing to the students’ holistic development.

Keywords: lusophony, creative writing, global citizenship, interculturality.

1. Introdução

A escola contemporânea enfrenta o desafio de formar cidadãos críticos, participativos e culturalmente conscientes num mundo cada vez mais interligado. Neste contexto, a língua portuguesa assume-se como um poderoso instrumento de diálogo intercultural. Como sublinha Mia Couto, “uma língua é um território sem fronteiras”, evidenciando o seu potencial agregador e identitário.

O projeto Mundo da Lusofonia nasce desta visão, levando para a sala de aula a diversidade cultural dos países e territórios de língua oficial portuguesa, promovendo o conhecimento mútuo, o respeito pela diferença e o sentido de pertença a uma comunidade linguística plural.

     

Figura 1. Equipa do Projeto Mundo da Lusofonia. Acervo próprio.              

Figura 2. Reunião de trabalho com o senhor Secretário. Acervo próprio Geral da UCCLA, doutor Luís Campos Ferreira .

2. Enquadramento teórico

A educação intercultural assenta no reconhecimento da diversidade como valor educativo. Paulo Freire defende que “a educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem”, implicando diálogo, escuta e valorização das identidades culturais dos alunos. No mesmo sentido, Boaventura de Sousa Santos destaca a importância de uma “ecologia de saberes”, onde diferentes culturas e formas de conhecimento coexistem e se enriquecem mutuamente.

No domínio da escrita, António Nóvoa sublinha que a escola deve criar “espaços de autoria, onde os alunos possam experimentar a palavra como forma de expressão pessoal e social”. As oficinas de escrita criativa revelam-se, assim, estratégias privilegiadas para o desenvolvimento da literacia, da criatividade e do pensamento crítico.

3. O projeto Mundo da Lusofonia

O Mundo da Lusofonia tem como objetivo central valorizar o património histórico, cultural e linguístico dos países lusófonos, envolvendo alunos e professores em atividades que cruzam literatura, artes, história e cidadania. Desenvolvido em parceria com a UCCLA e com escolas de países como Cabo Verde, nomeadamente o Liceu do Tarrafal, o projeto reforça a dimensão cooperativa e internacional da ação educativa.

Entre as atividades realizadas destacam-se oficinas de poesia, escrita criativa, intercâmbios culturais e a exploração de autores lusófonos, promovendo o trabalho colaborativo, a empatia e a solidariedade.

O projeto assenta numa rede de parcerias nacionais e internacionais que reforçam a sua dimensão intercultural e académica. Destaca-se a colaboração com escolas do Brasil, bem como com a Universidade Federal Fluminense (UFF), cuja ligação ao projeto contribui para a valorização científica e pedagógica das práticas desenvolvidas, aproximando a escola básica do ensino superior e da investigação em educação e literatura. No espaço africano de língua portuguesa, a parceria com o Liceu do Tarrafal, em Cabo Verde, assume particular relevância, promovendo o diálogo intercultural, a partilha de experiências educativas e o fortalecimento dos laços históricos e culturais no seio da comunidade lusófona.

4. Parcerias e cooperação internacional

A consolidação do Mundo da Lusofonia enquanto projeto educativo estruturante assenta numa rede de parcerias educativas e académicas que ampliam o seu alcance pedagógico e cultural. A colaboração com escolas do Brasil e com a Universidade Federal Fluminense (UFF) reforça a articulação entre a educação básica e o ensino superior, permitindo a partilha de saberes científicos, literários e pedagógicos no espaço lusófono.

Neste contexto, a ligação à UFF contribui para o aprofundamento teórico das práticas desenvolvidas, confirmando a perspetiva de António Nóvoa, quando afirma que “a escola melhora quando dialoga com a universidade e quando a formação se constrói a partir das práticas”. Esta cooperação promove uma visão integrada da educação, em que investigação, ensino e intervenção pedagógica se interligam.

No espaço africano de língua portuguesa, a parceria com o Liceu do Tarrafal, em Cabo Verde, assume um papel central na promoção do diálogo intercultural e da cidadania global. Esta cooperação traduz-se na troca de experiências educativas, no contacto entre alunos de diferentes realidades socioculturais e na valorização da língua portuguesa como património comum. Como refere Boaventura de Sousa Santos, “não há justiça social sem justiça cognitiva”, sendo a escola um espaço privilegiado para esse encontro de saberes.

Descrição: C:\Users\Professor\Desktop\BE_25_26\fotos\1748499432587.jpgEstas parcerias internacionais contribuem para uma educação aberta ao mundo, alinhada com os princípios da educação para a cidadania global, preparando os alunos para compreenderem a diversidade cultural e para participarem de forma ativa e solidária numa sociedade plural.

Figura 3. Protocolos entre as entidades. Acervo próprio                                       

Figura 4. Diretor do Liceu do Tarrafal, doutor Alcides Semedo. Acervo próprio.

5. O atelier “Cartas de Todos os Géneros”

O atelier “Cartas de Todos os Géneros”, dinamizado pela UCCLA na Escola Básica 2,3 da Costa da Caparica, constitui um exemplo paradigmático desta abordagem. Envolvendo alunos do 6.º ano, a atividade trabalhou a escrita epistolar a partir de diferentes géneros e perspetivas, abordando temas como igualdade, direitos humanos e desconstrução de estereótipos.

Esta prática confirma a ideia de Teresa Colomer, quando afirma que “a educação literária deve permitir aos alunos compreender o mundo e posicionar-se criticamente perante ele”. A escrita surge, assim, não apenas como competência técnica, mas como instrumento de cidadania. O produto final foi a compilação dos trabalhos em livro, a ser editado e publicado pela UCCLA e a apresentação pública para os convidados e interveneientes.

Figura 5. Trabalhos dos alunos compilados em livro. Acervo próprio.

 

6. Impacto educativo e reconhecimento

O projeto tem sido reconhecido pelo seu impacto educativo e cultural, tendo sido divulgado em contextos institucionais e mediáticos, incluindo iniciativas comemorativas da UCCLA e visitas da senhora embaixadora Paula Leal da Silva à Escola Básica da Costa e também da equipa que cooordena o projeto às instalações da sede da UCCLA. Para além do desenvolvimento das competências de leitura e escrita, o Mundo da Lusofonia contribui para a promoção do sucesso escolar, do diálogo intercultural e da abertura da escola à comunidade.

Figura 6. Convite para a Celebração da Língua Portuguesa.   Acervo próprio.             

Figura 7. Visita da Embaixadora Paula Leal da Silva. Acervo próprio.

 

7. Considerações finais

O Mundo da Lusofonia demonstra que a língua portuguesa pode ser trabalhada na escola como espaço de encontro, criação e cidadania. Ao articular escrita criativa, interculturalidade e parcerias institucionais, o projeto concretiza uma educação humanista e inclusiva. Como refere Edgar Morin, “educar é preparar para compreender a complexidade do mundo” — e a lusofonia, na sua diversidade, é um excelente ponto de partida para esse caminho.

8. Fontes da imagens

Figura 1. Equipa do Projeto Mundo da Lusofonia. Acervo próprio

Figura 2. Reunião de trabalho com o senhor Secretário Geral da UCCLA, doutor Luís Campos Ferreira.

Figura 3. Protocolos entre as entidades. Acervo próprio.

Figura 4. Diretor do Liceu do Tarrafal, doutor Alcides Semedo. Acervo próprio.             

Figura 5. Trabalhos dos alunos compilados em livro. Acervo próprio.

Figura 6. Convite para a Celebração da Língua Portuguesa. Acervo próprio.                                                                              

Figura7. Visita da Embaixadora Paula Leal da Silva. Acervo próprio.

9. Referências bibliográficas

COUTO, M. (2015). A língua como território. Lisboa: Assírio & Alvim.

FREIRE, P. (1996). Pedagogia da esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

SANTOS, B. de S. (2007). Para uma epistemologia do Sul. Coimbra: Almedina.

NÓVOA, A. (2009). Educação e escola: novas perspectivas. Lisboa: Porto Editora.

COLOMER, T. (2013). Literacia e educação literária. Barcelona: Graó.

MORIN, E. (2000). Os sete saberes necessários à educação do futuro. Paris: UNESCO.

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Sobre os autores:

Bruno Coimbra: Licenciatura/Mestrado/Pós-graduação 

Helena Silva: Licenciatura 

Alcides Semedo: Licenciatura 

Virgílio Neto: Licenciatura 

Email para contato: brunocoimbra@aecaparica.pt; lusofonia@aecaparica.pt


[1] Professor bibliotecário. Coordenador do projeto Mundo da Lusofonia no Agrupamento de Escolas da Caparica, Portugal. Licenciado em Ensino de Portguês e Inglês, com Mestrado em Administração Escolar e doutorando em didáctica das Línguas.

[2] Professora de HGP e Cidadania. Coordenadora do projeto Mundo da Lusofonia no Agrupamento de Escolas da Caparica, Portugal. Licenciada em História.

[3] Diretor do Agrupamento I do Tarrafal – Liceu do Tarrafal – Cabo Verde. Licenciado em Ensino.

[4] Coordenador da Escola Básica da Costa da Caparica. Licenciado em Ensino das Artes Visuais.

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