Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do
Brasil – UniBrasil.
Embora tradicionais em alguns ambientes mais restritos, poucas manifestações culturais brasileiras têm sofrido tantas transformações quanto as das festas juninas; os atuais grupos folclóricos modificaram múltiplos aspectos: vestimentas – bem mais luxuosas – dança, temática, coreografia, música, adereços e outras formas de chegar ao público.
Em parte, já que hoje respondem por uma parte significativa da arrecadação com o turismo, principalmente nos estados do nordeste brasileiro, atraem uma plateia mais interessada em assistir e participar de um espetáculo colorido e instagramável, e boa parte das quadrilhas deixaram de lado algumas figuras tradicionais e assumiram outras: cangaceiros, atores e atrizes famosos, políticos, em aspectos teatralizados, que fiquem bem nas transmissões televisivas.
O aspecto religioso não tem sido mais preponderante, inclusive pelo avanço de outras religiões, e concursos de quadrilhas promovem a modernização, profunda estilização associando o habitual e o inovador, promovendo uma nova identidade junina e um novo circuito cultural.
O que se mantem intacta é a tradição muito antiga de festejar nas datas dedicadas aos santos do mês de junho, Santo Antônio, São João e São Pedro.
Deles três, São João é sem dúvida o mais festejado no Brasil, em 24 de junho, e as festas têm muita dança, sendo o forró uma das predominantes. Este santo é considerado protetor dos casados e enfermos, e desde que a festa foi trazida pelos portugueses, simboliza a fé e a fartura. São João e baseado na figura de João Batista, que batizou Jesus Cristo, homenageado pelas fogueiras, bandeirinhas e muita comida que tem por base o milho, sejam elas salgadas ou doces.
No entanto, o santo ainda com bom número de devotos brasileiros é Santo Antônio, normalmente representado com o menino Jesus nos braços, considerado o Santo Casamenteiro, ao qual apelam todos aqueles que desejam uma boa companhia para a vida toda. Seu nome real eraFernando, nascido em Lisboa, e é comemorado na data de seu falecimento, 13 de junho, ocorrido na Itália. Era de família nobre, relata-se que estudou filosofia e teologia, tendo sido professor de teologia em vários países, e chamado de “Doutor da Igreja”.
Já 29 de junho foi escolhido para celebrar São Pedro, o apóstolo, guardião das portas do céu e o protetor das viúvas e dos pescadores, que originalmente organizavam sua festa. A fogueira em homenagem a São Pedro é no formato triangular e ele é considerado o padroeiro dos pescadores, pois antes de seguir Jesus exercia esta profissão; em sua homenagem são realizadas procissões marítimas e fluviais, com barcos enfeitados. Ele também é considerado “o porteiro do céu”, e sua festa representa o encerramento das festividades juninas, que atualmente atraem turistas do mundo todo.
Estas festas, embora já não consideradas exatamente religiosas, são parte do patrimônio cultural e compõem a identidade brasileira, inspiram a produção de um artesanato importante e valorizado no país, relaciona-se diretamente com a economia de muitos estados, inspira comemorações escolares que tentam preservar as festas como sinônimos de alegria, tradição e lembrança de um país mais agrário em seus primórdios.
As quadrilhas juninas mirins em que crianças reproduzem os passos, músicas e características de uma comunidade “caipira”, sob a orientação de seus professores, normalmente destinadas à apresentação para pais e comunidade, além de despertar o prazer do movimento corporal, tendem a resguardar um saber popular e o sentimento de brasilidade.
Em escolas ou festividades de bairro ou igrejas, cenas que compõem a tradição do casamento, na maioria das vezes apresentam uma perspectiva cômica e estruturada, com personagens tradicionais, tais como o Noivo, a Noiva, o Pai da Noiva, o Padre, entre outros. Tais personagens possuem elementos destacados da dramaturgia popular, que permitem improviso, oralidade de todos os participantes e exercício da veia cômica, características que permanecem vivas nas quadrilhas juninas de todas as instituições escolares e pequenas apresentações.
A linguagem teatral ultrapassa a barreira da encenação do casamento, sendo explorada em temas como “a cobra”, “a chuva”, e outras de características locais ou regionais.
Quadrilhas juninas foram reconhecidas como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2020, pela importância como “expressão da identidade cultural brasileira, resultado do sincretismo entre tradições europeias, indígenas e africanas”.
Crianças e adultos se divertem, costumam gostar das comidas típicas e mantem vivas uma linda manifestação cultural popular.

