Dossiê  do Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC) 

Arte da Capa: Sônia Maria dos Santos Marques, (2026).

Produção Artística e Tratamento das Imagens: Marlene Gonçalves Lopes, (2026).

SUMÁRIO

Introdução

Sonia Maria dos Santos Marques, Willian Canova dos Santos, Marlene Gonçalves Lopes, Carina Merkle

O Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC)

Sonia Maria dos Santos Marques, Willian Canova dos Santos, Marlene Gonçalves Lopes

SEÇÃO COLÓQUIO

A arte do cuidado de si por professoras

Daniela de Maman

Docência que se tece na História: trabalho, diversidade e equidade na XXVIII Semana Acadêmica do Curso Pedagogia

Willian Canova dos Santos, Luiz César Teixeira dos Santos, Roseli de Fátima Rech Pilonetto e Carlos Antônio Bonamigo

Grupo Musicena e a criação do cenário da peça “A tecelã

Celio Roberto Eyng e Jean Paulo da Silva Andrade

Ações afirmativas: o (des)conhecimento sobre a política de cotas entre estudantes do ensino médio

Isabel Cristina Corrêa Röesch, Andreia Isabeli Quinhone Gomes dos Santos e Vitória Grosbelli Ananias

SEÇÃO VIAGEM DE ESTUDOS

Emília Braziliana de Fagundes Erichsen: Pioneira da Educação e Integração Social no Século XIX

Andrea Cristina Carniel, Giovana Heloisa Brandiele, Vanice Schossler Sbardelotto e Sônia Maria dos Santos Marques

Passado e Resistências: a construção do gênero feminino na casa de Sinhara e no Museu do Tropeiro em Castro – Paraná

Willian Canova dos Santos, Lucilia Gouveia, Adriane Antonia Pereira Gouveia e Sônia Maria dos Santos Marques

Sem lenço, sem documento”: poéticas visuais do povo negro na região de Castro (PR)

Esdras Tavares de Oliveira, Jussandra Cardoso Moreira Cattâneo e Sônia Maria dos Santos Marques

Cultura regional: uma viagem do Grupo de Estudos Etno-Culturais

Sonia Maria dos Santos Marques, Lucília Gouveia, Vanice Schossler Sbardelotto, Esdras Tavares de Oliveira, Willian Canova dos Santos, Jussandra Cardoso Moreira Cattâneo, Andrea Cristina Carniel, Giovana Heloisa Brandiele, Adriane Antonia Pereira Gouveia e Carina Merkle

SEÇÃO ENTRETEMAS

Diversidade étnica & imigração em Francisco Beltrão

Anaís Andreia Neis de Oliveira

Minicurso sobre autismo e inclusão em sala de aula na área de Letras

Árie Lingnau

O Uruguai, o cidadão global e o papel do professor

Aranis Rondon

Pasantía e Colóquio no Uruguai: Educação e Território

Bruna da Cunha

Capoeira, cultura e formação social: a trajetória do Grupo Muzenza em Francisco Beltrão

Auany da Motta Rodrigues e Joares Antonio Chaves

Uma viagem intercultural ao México: encontro de saberes e sabores

Egeslaine de Nez

Vuelo 189

Diana Erika Cruz Jiménez

Desde quando você é indígena? Natureza, Ancestralidade e a Casa de Reza como espaços educativos na aldeia Mbya Guarani: relato de experiência do NEIM Vila União – Florianópolis/SC

Marlene Gonçalves Lopes

Diversidade étnico-racial e cultura

Mauro César Cislaghi

Introdução

Sonia Maria dos Santos Marques, Willian Canova dos Santos, Marlene Gonçalves Lopes, Carina Merkle

O presente dossiê reúne produções acadêmicas, relatos de experiência e reflexões interculturais desenvolvidas no âmbito do Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC), articulando educação, cultura, diversidade, memória e formação humana. Os textos aqui compilados expressam diferentes percursos de pesquisa, extensão e vivência acadêmica, mostrando o compromisso coletivo com a construção de saberes críticos, inclusivos e socialmente comprometidos.

Este dossiê resulta da parceria entre a Revista Contemporartes e o GEEC, por meio do VI Colóquio Nacional de Educação e Questões Étnicas, realizado na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). A imagem de capa, inspirada no ideograma africano Sankofa, representa as múltiplas temporalidades que permeiam esta obra: o movimento de olhar para trás, revisitar memórias, ressignificar experiências e, a partir delas, lançar-se a novos voos, perspectivas e possibilidades de construção coletiva do conhecimento.

Inicialmente, o leitor é apresentado ao próprio Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC), espaço de formação, diálogo e produção de conhecimento que tem promovido encontros entre universidade, comunidade e diferentes expressões culturais. A trajetória do grupo revela a importância das práticas colaborativas e interdisciplinares para a valorização das múltiplas identidades e experiências presentes na sociedade contemporânea.

Na seção Colóquio, os textos abordam temas relacionados à docência, à formação de professores, às práticas artísticas e às políticas educacionais. As reflexões sobre o cuidado de si entre professoras, a constituição da docência na perspectiva da diversidade e da equidade, a experiência estética vinculada à criação cênica e os debates acerca das ações afirmativas e das políticas de cotas trazem a centralidade da educação como espaço de (trans)formação social e humana.

A seção Viagem de Estudos reúne produções que articulam memória, patrimônio, território e interculturalidade a partir de experiências realizadas em diferentes espaços históricos e culturais. Os trabalhos dialogam com trajetórias femininas pioneiras na educação, com a construção histórica do gênero, com as resistências e poéticas visuais do povo negro e com a valorização da cultura regional. As viagens de estudo aparecem, assim, como experiências formativas que ampliam horizontes acadêmicos humanos e acadêmicos, promovendo encontros que unem o passado-presente, teoria e experiência.

Na seção Entretemas, os trabalhos ampliam ainda mais o mosaico temático do dossiê ao abordar questões relacionadas à imigração, inclusão, cidadania global, interculturalidade e manifestações culturais populares. Os trabalhos sobre autismo e inclusão em sala de aula, experiências acadêmicas no Uruguai, práticas interculturais no México e a trajetória da capoeira como elemento de formação social demonstram a riqueza de perspectivas presentes na coletânea. A inclusão do texto literário “Vuelo 189” também reforça a dimensão sensível, subjetiva e artística que atravessa este dossiê.

Espera-se que este dossiê contribua para ampliar reflexões sobre práticas educativas, experiências interculturais e processos de formação humana, inspirando novas pesquisas, projetos e ações comprometidas com a diversidade, a memória cultural e os múltiplos modos de produzir conhecimento.

O Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC)

Sonia Maria dos Santos Marques, Willian Canova dos Santos, Marlene Gonçalves Lopes

O olho vê, a lembrança revê, e, a

imaginação transvê.

É preciso transver o mundo”.

(Manuel de Barros, grifos dos autores)

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O Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC), fundado em 2004 e registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, consolidou-se ao longo de duas décadas como um importante espaço de produção acadêmica, reflexão crítica e promoção de ações voltadas à educação, cultura, diversidade e relações étnico-raciais. Em 2024, o grupo celebrou seus 20 anos de atuação, (re)afirmando seu compromisso com a construção de saberes plurais, inclusivos e socialmente comprometidos. O registro do grupo no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq evidencia sua inserção no cenário nacional de pesquisa e extensão universitária, (Gepease).

Ao longo de sua trajetória, o GEEC desenvolveu atividades de ensino, pesquisa e extensão articuladas à formação humana e à valorização das identidades culturais. Seus integrantes participaram de eventos científicos, promoveram oficinas, minicursos, seminários e projetos extensionistas, além de orientarem estudantes de graduação e pós-graduação em diferentes áreas do conhecimento. O grupo também se destacou pela criação de espaços de diálogo intercultural e pela defesa de práticas educativas voltadas à equidade, à diversidade e à memória coletiva. O GEEC desenvolveu projetos como por exemplo, o Projeto de Extensão Tecendo a Cidadania.

Entre as iniciativas desenvolvidas pelo GEEC destacam-se projetos de grande relevância acadêmica e social, como o UNIAFRO — curso de pós-graduação em Educação para as Relações Étnico-Raciais —, o projeto de pesquisa Memórias dos Povos do Campo, vinculado ao Ministério da Cultura (MINC), além de propostas contempladas em editais de extensão e pesquisa, como o Programa Universidade Sem Fronteiras (SETI/PR) e ações financiadas pela Fundação Araucária. Essas experiências demonstram o caráter interdisciplinar e comunitário do grupo, integrando universidade e sociedade por meio da valorização dos saberes populares, das culturas tradicionais e das políticas de inclusão.

Em comemoração aos seus 20 anos, o GEEC reuniu diferentes atividades culturais e acadêmicas, fortalecendo redes de colaboração e ampliando a divulgação de suas produções científicas e artísticas. Nesse movimento, estabeleceu parcerias com revistas e espaços de difusão do conhecimento, como a Revista Contemporartes, contribuindo para ampliar o alcance de debates relacionados à educação, cultura, memória, diversidade e direitos humanos.

Mais do que um grupo de pesquisa, o GEEC constitui um espaço coletivo de formação, escuta, diálogo e resistência cultural, comprometido com práticas acadêmicas que reconhecem a pluralidade dos sujeitos, das narrativas e das experiências que compõem a sociedade brasileira.

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SEÇÃO COLÓQUIO

Homenagem

Fonte: Acervo Fotográfico do Grupo de Estudos Etno-Culturais, (2024).

A arte do cuidado de si por professoras

Daniela de Maman

O campo empírico da pesquisa caracteriza-se pela observação do contexto escolar infantil a partir da participação de professoras mulheres atuantes em Centros municipais de Educação Infantil da Rede pública do Município de Francisco Beltrão/PR.

Fotografia 1: Centro Municipal de Educação Infantil.

Fonte: Arquivo Pessoal.

O professor da Educação infantil, no seu trabalho educativo, atua no desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças, proporcionando ambientes de aprendizagem que ajudam a desenvolver habilidades como pensamento lógico, concentração, memória e linguagem e relações interpessoais.

Neste viés, um dos fatores que atravessa sua atuação é a globalização e as suas rápidas transformações no mundo do trabalho educativo têm impactado, significativamente, a atuação de professores na modalidade de ensino da Educação Infantil. Afetam a arte do viver o cotidiano do trabalho educativo exigindo habilidades socioemocionais.

Tais fatores exigem que os professores estejam cada vez mais preparados para a arte do lidar cotidiano com novas demandas e desafios e exigências, tais como, competências tecnológicas como uso de plataformas digitais para documentação de aulas, atividades e avaliações, sendo que os professores precisam estar familiarizados com ferramentas tecnológicas e plataformas digitais para integrar essas tecnologias no processo de ensino e de aprendizagem; quanto a formação continuada em virtude da necessidade de atualização constante participando de cursos, workshops e outras formas de formação continuada para se manterem atualizados com as novas metodologias e práticas pedagógicas.

Assim, a saúde mental e suas implicações são vistas a partir desta demanda laboral do exercício profissional docente como fundamentais para o desenvolvimento de seu trabalho cotidiano, na medida em que, tais profissionais têm enfrentado diversos desafios que podem impactar sua saúde física e mental (Huberman, 2020).

Nesta perspectiva, o adoecimento mental entre professores é uma questão preocupante, que pode afetar a prática de trabalho de forma incisiva. Dentre os transtornos mentais evidenciados, segundo a literatura (Pereira, 2015; Huberman, 2000) figuram entre os adoecimentos, a síndrome de burnout como um dos principais adoecimentos mentais investigados em professores brasileiros associada ao esgotamento profissional, exaustão emocional e despersonalização.  Cujo, os sintomas são o estresse e ansiedade, que podem afetar significativamente a qualidade de vida dos professores.

Fotografia 2: Rotina de Quem Educa e Precisa Cuidar de Si.

Fonte: Arquivo Pessoal.

A arte do cuidado cotidiano em saúde mental por mulheres professoras caracteriza ações que compreendam as singularidades de professoras, assim como, as condições sociais, econômicas, culturais e afetivas, em que estão inseridas. a intencionalidade de fomentar atitudes de cuidado de si, o posicionamento frente a situações cotidianas, assim como proporcionar às mulheres o desenvolvimento de habilidades de conversação, conhecimento das próprias emoções, dos direitos ao acesso à saúde, assim como das suas singulares enquanto gênero feminino.

O apoio emocional e o acolhimento no ambiente escolar foram citados pelas professoras como sendo essenciais para o desenvolvimento socioemocional de toda a comunidade escolar de modo a ajudar a promover um ambiente mais acolhedor e emocionalmente seguro. Para tanto, em suas narrativas citam algumas práticas que deveriam ser implementadas no contexto educativo, dentre elas, a escuta ativa como forma de mostrar que preocupações e sentimentos são importantes e valorizados, espaços de espaços de descompressão professores possam relaxar e refletir, ajudando a reduzir o estresse e a ansiedade.

Referências

HUBERMAN, M. O ciclo de vida profissional dos professores. In A. Nóvoa (Org.), Vidas de professores (pp. 31-61). Porto: Porto, 2020.

PEREIRA, J. A. Trabalho docente e sofrimento mental. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual Paulista, Franca, 2015.

MINICURRÍCULO DA AUTORA.

Daniela De Maman. Professora Doutora Associada, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná Unioeste/Campus de Francisco Beltrão/PR. Curso de Doutorado em Educação pela Universidade Federal de Pelotas/UFPEL.  

E-mail: danielademamam@gmail.com

Docência que se tece na História: trabalho, diversidade e equidade na XXVIII Semana Acadêmica do Curso Pedagogia

Willian Canova dos Santos, Luiz César Teixeira dos Santos, Roseli de Fátima Rech Pilonetto e Carlos Antônio Bonamigo

A XXVIII Semana Acadêmica do Curso de Pedagogia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Francisco Beltrão, realizada em 2025, caracterizou-se como um encontro de vozes, ideias e experiências em torno da educação. O evento retomou a parceria com o Programa de Pós-Graduação em Educação e ocorreu conjuntamente com o V Seminário Nacional de Educação e com a XX Semana de Educação Unioeste/Colégio Estadual Mário de Andrade.

Figura 1: Logos e Identidade Visual do Evento.

Fonte: Acervo dos pesquisadores, (2026).

Durante esses dias, estudantes, professores e pesquisadores compartilharam reflexões sobre a docência, compreendida não apenas como profissão, mas como prática humana que se constrói na história e na vida social. A proposta do encontro voltou-se para pensar o trabalho docente em seus diferentes níveis de atuação, da Educação Infantil ao ensino superior. Ao percorrer essas etapas da formação humana, à docência mostra-se como um trabalho que nasce do encontro entre sujeitos, tempos e realidades distintas ensinar, nesse horizonte, é sempre um gesto situado no mundo, atravessado por contextos culturais, sociais e políticos que configuram e reconfiguram a escola e os caminhos da educação.

Fotografia 1: Mesa Redonda – Trabalho Docente, Diversidade e Equidade.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2026).

Pensar à docência é, portanto, pensar o próprio trabalho humano em sua dimensão criadora. De acordo com Vázquez (1977), a “[…] produção ou autocriação do próprio homem […] é determinante, já que é exatamente ela que lhe permite enfrentar novas necessidades e novas situações. O homem é o ser que tem de estar inventando ou criando constantemente novas soluções” (Vázquez, 1977, p. 247). Assim também ocorre com o trabalho docente, ou seja, diante das perguntas que surgem na sala de aula e das realidades que permeiam a escola, o professor (re)inventa caminhos, produz sentidos e constrói possibilidades de compreensão do mundo. Essa prática, contudo, não se realiza de forma isolada.

A docência nasce no interior das relações sociais que organizam a vida coletiva. Por isso, como afirmam Frizzo, Ribas e Ferreira (2013), “O trabalho pedagógico, portanto, é uma prática social munida de forma e conteúdo, expressando dentro das suas possibilidades objetivas as determinações políticas e ideológicas dominantes em uma sociedade ou, ainda, busca a explicitação da superação destas determinações”. (Frizzo; Ribas; Ferreira, 2013, p. 556).

É nesse espaço “vivo”, contraditório e profundamente humano, que a escola se encontra com os sujeitos que a habitam. Ali chegam histórias, memórias e saberes diversos, muitas vezes marcados pelas desigualdades que atravessam a sociedade brasileira. Nesse sentido, Gomes (2017), corrobora ao dizer que:

com esse histórico, a escola pública, mesmo sendo um direito social, se esquece de que ela é a instituição que mais recebe corpos marcados pela desigualdade sociorracial acirrada no contexto da globalização capitalista. Corpos diferentes, porém, discriminados por causa da sua diferença. Corpos sábios, mas que têm o seu saber desprezado enquanto forma de conhecimento. (Gomes, 2017, p. 134).

Diante dessas realidades, pensar ou repensar a educação requer (re)conhecer a diversidade não como obstáculo, mas como horizonte de justiça e dignidade. As discussões realizadas durante o evento dialogam com as reflexões de Boaventura de Sousa Santos (2006), quando diz que “temos o direito a ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza.” (Santos, 2006, p. 316). Entre igualdade e diferença, a educação encontra o desafio de construir caminhos que afirmam o direito de todos ao conhecimento sem apagar as singularidades que constituem cada sujeito.

Fotografia 2: Roda de Conversa.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2026).

Ao longo da programação, composta por palestras, mesas-redondas, oficinas, apresentações de trabalhos e atividades culturais, a Semana Acadêmica transfigurou-se em um espaço de partilha e formação coletiva.

Fotografia 3: Apresentação de Trabalhos.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores (2026).

Estudantes da formação docente, da graduação e da pós-graduação, professores da educação básica e do ensino superior e demais interessados puderam reunir-se para (re)pensar a educação como prática viva, tecida no diálogo e na experiência. Mais do que um evento acadêmico, a XXVIII Semana Acadêmica de Pedagogia (re)afirmou a educação como um território de encontros. Ali, entre debates, escutas e reflexões, o trabalho docente mostrou-se como gesto profundamente humano, ou seja, aquele que, ao ensinar, também aprende; que, ao compartilhar saberes, também se transforma; e que, ao olhar para o outro, encontrar novas formas de compreender o mundo e de reinventar o futuro da educação (Freire, 2014).

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 60. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

FRIZZO, Giovanni Felipe Ernst; RIBAS, João Francisco Magno; FERREIRA, Liliana Soares. A Relação Trabalho-Educação na Organização do Trabalho Pedagógico da Escola Capitalista. Revista Educação, Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria, v. 38, n. 3, set./dez. p. 553-564, 2013. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/8987. Acesso em: 14 de mar. 2026.

GOMES, Nilma Lino. O Movimento Negro Educador: Saberes Construídos Nas Lutas Por Emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

SANTOS, B. S. Por uma Concepção Multicultural de Direitos Humanos. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/boaventura/%20boaventura_dh.htm. Acesso em: 14 de mar. 2026.

VÁZQUEZ, Adolfo Sanchèz. Filosofia da Práxis. 2. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1977.

MINICURRÍCULO DOS AUTORES.

Willian Canova dos Santos.Professor. Mestrando em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, integra a linha de pesquisa “Cultura, Processos Educativos e Formação de Professores”. Vinculado ao Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC) e ao Grupo de Pesquisa Educação Superior, Formação e Trabalho Docente (GESFORT). Suas pesquisas concentram-se nas áreas do Trabalho, Trabalho Docente, Educação Inclusiva e Especial, Infâncias e Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Entre as dimensões da pesquisa e da “livre” escrita, encontra na palavra um refúgio para a formação e ressignificação humana, pois, sem palavras, a vida não passa de uma sombra.

E-mail: williancanova@hotmail.com 

Luiz César Teixeira dos Santos. Possui graduação em Educação Física pela Universidade Estadual de Maringá (1992), mestrado em Educação pela mesma instituição (2002) e doutorado em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (2017). Atualmente, é professor adjunto da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus de Francisco Beltrão. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão na área da Educação, com ênfase nas temáticas Educação, Corpo e Educação e Brincar.

E-mail: luizcts@gmail.com  

Roseli de Fátima Rech Pilonetto. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (1999), mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2007) e doutorado em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (2017). Atualmente é adjunto “d” da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Prática de Ensino, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de professores, educação infantil, educação, pedagogia e estágio supervisionado.

E-mail: roselipilonetto@hotmail.com

Carlos Antônio Bonamigo. Possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Dom Bosco (1990), graduação em Pedagogia pela Faculdade de Ampére (2016), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2001) e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2007) na Linha Trabalho, Movimentos Sociais e Educação.  Desde 02 de setembro de 2024 é Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação – Mestrado – da Unioeste de Francisco Beltrão – PPGEFB.

E-mail: carlos.bonamigo@unioeste.br

Grupo Musicena e a criação do cenário da peça “A tecelã”

Celio Roberto Eyng e Jean Paulo da Silva Andrade

A peça de teatro “A tecelã” foi produzida a partir de 2023 no projeto de extensão Grupo Musicena, desenvolvido na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – campus de Francisco Beltrão. O grupo desenvolve ações teatrais desde 2020 e criou sua identidade incorporando anacronismo, bricolagem e musicalidade ao teatro, seja através da composição autoral da trilha sonora, das ações corporais oriundas de conceitos musicais ou mesmo pela utilização de falas “melódicas” nos espetáculos.

No advento do cenário de “A tecelã”, pensá-lo de forma que ficasse prático, estético, versátil e funcional. Prático, a fim de ser possível instalá-lo no menor tempo possível, com poucos recursos. Estético para que fosse também uma linguagem da cena, assim como seriam as atuações e o texto. Versátil para que pudesse ser montado em qualquer espaço que servisse de palco. Funcional de modo que atendesse às demandas do roteiro, do elenco e da estética simultaneamente.

Figura 1: A Tecelã

Fonte: Acervo Pessoal, (2025).

A ideia principal para o cenário era a de que todos os elementos que estivessem presentes na primeira cena fossem utilizados em todas as outras, ainda que seu uso cotidiano e convencional não fosse enfatizado no espetáculo. Foi assim que a vassoura utilizada pela esposa na cena dois é a mesma vassoura que simula uma arma na cena cinco; bem como a lata que serve de suporte ao abajur na cena um, vira lata de leite na cena seis, ou suporte de aparatos de madeira em outras cenas. Sendo assim, quase todos os elementos do cenário cabem dentro de um praticável pequeno e, o restante, duas pessoas podem carregar com tranquilidade.

Desde o início, estava claro para a direção que o espetáculo demandava um tear como elemento cênico. O roteiro e a direção apontavam a necessidade de cinco tramas diferentes, posto que elas seriam utilizadas como elemento narrativo. Mais do que ilustrativo, a direção quis um tear funcional. Ele não precisava necessariamente operar como uma ferramenta “real”, mas havia a pretensão de que criasse alguns tipos de trama – confeccionados pelas figuras dramáticas femininas – que pudessem ser apreciadas pela plateia. Logo, não poderia ser horizontal e seus fios não poderiam ser finos, sob pena de não serem visíveis.

Figura 2: Cenário.

Fonte: Acervo Pessoal, (2025).

Em um primeiro momento, foram feitas simulações no computador, com algumas ideias de desenhos para a trama, mas sem pensar na estrutura física do tear. A partir disso, partimos para a concepção da ferramenta em si, que foi pensada e concebida em protótipos de algumas formas: como ganchos de metal nas laterais que conectar-se-iam com fios, atravessando o palco. Essa ideia não resistiu ao problema de onde fixar os ganchos; também foi pensado o tear como sendo estruturas verticais separadas, feitas de madeira, semelhantes a mancebos. Essa concepção desmanchou-se ante o problema de espaço que a base das armações tomaria no palco e da instabilidade que o tecer causaria aos suportes.

Por fim, foi pensado o tear semelhante às traves de futebol, por trazer estabilidade e possibilidade de movê-lo antes e durante o espetáculo. A estrutura pensada foi idealizada virtualmente e depois confeccionada utilizando-se bambus, pois este material é fácil de ser encontrado e manuseado; é firme, leve e está dentro da paleta de cores, além de não onerar despesas para o grupo. Ademais, é possível desmontar essa estrutura em algumas partes para transporte em apresentações futuras.  A partir da estrutura do tear definida e após alguns testes, pensamos qual tipo de fio conduziria a trama. Levando em consideração a paleta de cores definida para o espetáculo, decidimos que uma trama dupla de barbantes das cores verde e laranja seria utilizada para tal fim, pois daria volume à linha, possibilitando que ela pudesse ser vista de longe.

O próximo nó a ser desatado, era definir como seriam cerzidos esses fios para formar a trama, de forma que fosse prático o tecer e o desmanchar: simplesmente enrolando nos bambus; passando por furos nos barbantes; ou enroscando-os em pinos presos à estrutura. A solução foi testar. O enrolar foi descartado prontamente, uma vez que o fio deslizava enquanto era tecido. A ideia de passar o fio por furos foi testada utilizando uma agulha de crochê, mas pareceu impraticável, pois sempre enroscava, além de desgastar os fios pelo atrito. Restava a ideia de pinos, que se mostrou axiomática. Foram confeccionados doze pinos que se encaixavam nos furos da estrutura, mas que, na sua ponta, era mais grosso, para que o fio não deslizasse por ali. Quatro pinos ficavam à direita, verticalmente; outros quatro de forma paralela, à esquerda e mais quatro na parte superior do tear. Restava agora definir as formas dessa trama. Elas precisavam ser práticas para coser e desmanchar, no entanto, esteticamente, era necessário que formassem desenhos, de certa forma, interessantes.

Destarte foram refeitas as simulações no computador, a fim de encontrar as tramas ideais para as cenas. Chegamos, por fim, a cinco tramas diferentes, sendo que a primeira e a segunda seriam desmanchadas no decorrer da peça, enquanto a terceira, quarta e quinta, teriam entrelaçamentos subsequentes umas somadas às outras.

Para facilitar o entendimento dos atores, os pinos do tear foram nomeados alfabeticamente da letra A até a letra L. Os quatro pinos da direita, começando de baixo para cima, foram nomeados de A até D. Os quatro superiores, da direita para a esquerda, letra “E” até letra “H”. Na esquerda, de cima para baixo, os pinos receberam os nomes das letras I até L. A primeira trama aparecia logo na primeira cena, persistindo até o início da cena três e seguia a ordem: A-G-L-B-H-K-C-F-J-D-E-I, formando um desenho que lembrava triângulos. A trama, de aparência mais organizada, fazia alusão à vida de Penélope e da Esposa: cheia de tramas, urdiduras e vieses, porém, de certa forma, organizada; a segunda trama lembrava algo parecido com uma estrela estilizada e era confeccionada no início da cena quatro, seguindo a ordem: A-I-B-J-C-K-D-L.

Essa trama indicava o emaranhamento que logo se encontraria Penélope com a chegada dos pretendentes, desorganizando sua vida atual; por fim, a terceira, quarta e quinta tramas são, na verdade, uma trama só, cerzidas uma após a outra a partir da cena cinco, tendo seu acabamento na cena nove, aludindo aos crescentes nós da vida amarrados, desfiados, alinhados, e desatados, tanto por Penélope, quanto pelas mulheres retratadas.

Por fim, destaca-se que os processos criativos relacionados à criação do cenário pautam-se na utilização de materiais recicláveis e de baixo custo, os quais são rateados entre os integrantes do grupo. Para o ano de 2025, estão previstas novas apresentações da peça “A tecelã” na cidade de Francisco Beltrão e em outras cidades do Sudoeste do Paraná. Estima-se que o público inicial, de 250 pessoas, pode ser triplicado. Assim, a Unioeste fortalece os laços com a comunidade regional, reafirmando o seu compromisso em potencializar saúde e bem-estar nas pessoas por meio das atividades artísticas que desenvolve no âmbito extensionista.

MINICURRÍCULO DOS AUTORES.

Célio Roberto Eyng. Músico, compositor e arte-educador. Graduado em Educação Artística – Música (UFPR). Mestre (UEM) e Doutor (UFPEL) em Educação. Leciona Arte no Curso de Pedagogia da UNIOESTE – campus de Francisco Beltrão. Coordena o Projeto de Extensão Grupo Musicena.

Email: celio.eyng@unioeste.br

Jean Paulo da Silva Andrade.Educador Infantil, ator e compositor. Graduado em Pedagogia. Mestrando em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Participante do Grupo teatral Musicena na UNIOESTE – campus de Francisco Beltrão.

Email: jpsandrade90@gmail.com

Ações afirmativas: o (des)conhecimento sobre a política de cotas entre estudantes do ensino médio

Isabel Cristina Corrêa Röesch, Andreia Isabeli Quinhone Gomes dos Santos e Vitória Grosbelli Ananias

Este artigo é um recorte do projeto de extensão “Cotas Raciais: um diálogo possível entre a universidade e a escola” trata das políticas de ações afirmativas no ensino universitário, destacando sua importância na redução das desigualdades raciais e socioeconômicas no Brasil. A desigualdade racial impacta diretamente a educação, dificultando o acesso de negros, indígenas e outros grupos minoritários a oportunidades acadêmicas e profissionais. O sistema educacional historicamente privilegia determinados grupos, resultando em altos índices de evasão escolar e baixo desempenho acadêmico entre estudantes de baixa renda.

Para enfrentar essa realidade, a Lei nº 12.711/2012 instituiu a reserva de 50% das vagas em universidades federais para alunos de escolas públicas, priorizando os de baixa renda. Além disso, programas como o Prouni oferecem bolsas de estudo em instituições particulares, ampliando o acesso ao ensino superior.  Em 2024, a Lei n° 14.723 atualizou a política de cotas, incluindo quilombolas e reduzindo a renda familiar per capita máxima de 1,5 para 1 salário – mínimo, garantindo prioridade na assistência estudantil. Também foram implementadas ações afirmativas na pós-graduação, fortalecendo a inclusão de grupos historicamente marginalizados.

O projeto de extensão busca disseminar essas informações entre estudantes, professores e gestores do ensino médio, promovendo um debate interdisciplinar sobre relações étnico-raciais e equidade no ensino.

Fotografia 1: Reitoria Campus Unioeste Cascavel

Fonte: Arquivo da UNIOESTE.

A valorização da diversidade e a implementação de políticas públicas inclusivas são fundamentais para uma sociedade mais justa e democrática, assegurando o direito à educação e combatendo a exclusão social.

O projeto de extensão fundamentou-se em pesquisa bibliográfica sobre relações étnico-raciais, ações afirmativas e direitos humanos, analisando leis como a 10.639/03, 11.645/08 e 12.711/2012. Para compreender o nível de conhecimento dos estudantes sobre o tema, aplicou-se um questionário a 147 alunos do ensino médio, evidenciando um desconhecimento generalizado sobre os procedimentos para acessar as políticas afirmativas no ensino superior.

O desenvolvimento das atividades envolveu reuniões de trabalho, discussões teóricas e planejamento para a execução das ações. Além disso, utilizou-se as redes sociais para divulgar o projeto e ampliar o debate sobre o tema. As atividades foram organizadas conforme a série dos estudantes. Para os alunos do 1º e 2º anos, foram promovidas formações sobre racismo, intolerância religiosa, cultura indígena, direitos humanos e culturas juvenis. Essas atividades foram conduzidas por meio de metodologias diversas, como exibição de filmes, intervenções artísticas e culturais, oficinas e debates. Para os estudantes do 3º ano, as ações tiveram como foco a preparação para o ingresso no ensino superior, abordando o ENEM, cotas, PROUNI e demais programas de acesso. Foram fornecidas orientações sobre inscrição, isenção da taxa e estrutura da prova, além da criação de espaços para a preparação dos alunos.

O projeto de extensão promoveu ações voltadas para professores, gestores e servidores das escolas, com o objetivo de sensibilizá-los e capacitá-los para atuarem como parceiros na disseminação do conhecimento sobre políticas afirmativas.

Nos anos de 2022/2023, realizamos oficinas nas escolas com discussões sobre o tema: “O sistema de cotas sociais e raciais no ensino universitário” e aplicamos um questionário com os alunos dos 1°, 2° e 3° anos do ensino médio. Nos dados obtidos pelo questionário aplicado junto aos estudantes do ensino médio, destacamos duas perguntas: Você acha que vai fazer faculdade futuramente? Os alunos responderam: 27% Sim, 23% Não, 37% Talvez e 13 % Não sei. Os dados revelam a importância das orientações recebidas no ambiente escolar e a necessidade de fortalecer as informações para os estudantes, especialmente no que se refere ao planejamento de suas trajetórias educacionais e profissionais.

Em relação a pergunta: Qual o seu grau de conhecimento sobre as “cotas” ou “ações afirmativas”?    Os alunos responderam: 68% não conheçoo que são “cotas” ou “ações afirmativas”, 22% conheço um poucosobre as “cotas” ou “ações afirmativas” e 10% conheço bastante sobre as “cotas” ou “ações afirmativas”. Nesse caso, existe uma lacuna evidente no conhecimento específico necessário para acessar o sistema de ações afirmativas e ingressar no ensino universitário público por meio delas.

O estudo evidenciou a relevância das políticas de ações afirmativas para o acesso ao ensino universitário, destacando a necessidade de promover a equidade educacional por meio de cotas raciais e socioeconômicas demonstrando a importância de iniciativas educacionais que promovam o entendimento de como participar desse processo. As atividades desenvolvidas ao longo do projeto fornecem aos estudantes do ensino médio, professores e gestores o conhecimento e a informação sobre as cotas raciais e sociais na universidade pública.

Fotografia 2:  Vista Panorâmica Campus Unioeste

Fonte: Arquivo da UNIOESTE.

As discussões ajudaram a promover a consciência crítica e o autoconhecimento entre os estudantes, preparando-os para o ingresso no ensino universitário e para um convívio acadêmico mais inclusivo. Ao sensibilizar e instrumentalizar tanto os estudantes quanto os/as professores/as, o projeto também abriu espaço para discussões mais amplas sobre a valorização da diversidade étnico-racial, promovendo uma formação cidadã mais crítica e inclusiva. A partir dessa experiência, acredita-se que a continuidade desse tipo de ação extensionista é essencial para fortalecer o debate sobre a igualdade racial e o direito à educação de qualidade para todos.

Referências

Brasil. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 02 de ago. 2024.

Brasil. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2008. Disponível em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11645.htm. Acesso em: 02 de ago. 2024.

MINICURRÍCULO DAS AUTORAS.

Isabel Cristina Corrêa Roesch. Docente Associada da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Coordenadora do Programa do Observatório de Direitos Humanos, Cidadania e Movimentos Sociais da Unioeste, Coordenadora da Prática de Ensino I, coordenadora do projeto de extensão “COTAS RACIAIS: um diálogo possível entre a universidade e a escola”, vice-líder do Grupo de Estudos Etno-Culturais e Presidenta da Comissão de Heteroidentificação da Unioeste.

E-mail: icroesch@hotmail.com

Andreia Isabeli Quinhone Gomes dos Santos. Graduanda em Pedagogia, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. Pesquisadora do Programa do Observatório de Direitos Humanos, Cidadania e Movimentos Sociais da Unioeste. Colaboradora do projeto de extensão “COTAS RACIAIS: um diálogo possível entre a universidade e a escola”.

E-mail:  andreia.santos46@unioeste.br

Vitória Grosbelli Ananias. Graduanda em Pedagogia na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE de Cascavel. Pesquisadora do Programa do Observatório de Direitos Humanos, Cidadania e Movimentos Sociais da Unioeste. Bolsista do PIBIS projeto de extensão “Cotas Raciais: um diálogo possível entre a universidade e a escola”. Participei de projetos como PIBID e Projeto Rondon, acumulando experiências na docência em educação, inclusão e extensão universitária.

E-mail: vitória.ananias@unioeste.br

SEÇÃO VIAGEM DE ESTUDOS

Carambeí

Fonte: Acervo Fotográfico do Grupo de Estudo Etno-Culturais, (2024).

Emília Braziliana de Fagundes Erichsen: Pioneira da Educação e Integração Social no Século XIX

Andrea Cristina Carniel, Giovana Heloisa Brandiele, Vanice Schossler Sbardelotto e Sônia Maria dos Santos Marques

O Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Francisco Beltrão, proporciona, por meio de propostas de estudos dirigidos, formuladas por seus professores, a exploração, investigação e discussão de questões específicas que tocam a formação dos estudantes. O estudo dirigido “Gênero e Educação” foi desenvolvido no mês de julho de 2024, por meio de uma viagem ao município de Castro, estado do Paraná.

O objetivo foi discutir questões relativas à gênero e empoderamento feminino. A incursão àquela região possibilitou conhecer diversos espaços culturais dedicados à preservação da memória, da cultura e formação da população paranaense. Dentre os locais visitados destacamos a Casa da Cultura Emília Erichsen, situada à Rua Dr. Jorge Xavier da Silva, nº454 no município de Castro – PR. Neste espaço, tombado pelo patrimônio histórico estadual em 1981, se guarda documentos históricos sobre a casa e a cidade. Antes disso, no século XIX, desempenhava outra importante contribuição para a cidade de Castro: a casa se notabilizou por abrigar o primeiro espaço dedicado à educação de crianças pequenas, conhecido como jardim de infância particular, do Brasil.

A senhora Emília Braziliana de Fagundes Erichsen, que dá nome ao espaço, foi uma figura notável no cenário educacional e social do Brasil no século XIX. Nascida em Pernambuco em 1817, mudou-se com a família para Santos em 1827, e lá se casou com um marinheiro dinamarquês. Depois de viver por anos na Europa, voltou ao Brasil e se instalou em Castro, em 1856, junto de seu marido, Ludvig Christian Erichsen. Aos 41 anos, em 1858, tornou-se professora primária do estado do Paraná. Sua chegada a Castro marcou o início de uma série de contribuições significativas para a comunidade local, principalmente, na socialização dos imigrantes europeus que chegavam à região.

Fotografia 1: Fotografia Casa Emília Erichsen.

Fonte: Acervo Pessoal das Autoras, (2024).

Defensora fervorosa da educação, dedicou-se à alfabetização e ao ensino da população local, incluindo os filhos de imigrantes, seus próprios filhos e os residentes da cidade de Castro. Foi pioneira também em sala mistas, onde, meninos e meninas estudavam juntos. Seu trabalho no meio educacional foi transformador, criando oportunidades para muitos que, de outra forma, não teriam acesso à educação. A Casa da Cultura Emília Erichsen, construída em 1850, leva seu nome em homenagem à profunda gratidão da comunidade de Castro por suas contribuições. Este imóvel inicialmente funcionou como o primeiro Jardim de Infância de Castro da região dos Campos Gerais, embora este não fosse o objetivo principal durante sua construção, sendo considerado inovador para a época.

Fotografia 2: Livros do acervo da Casa Emília Erichsen.

Fonte: Acervo Pessoal das Autoras, (2024).

Junto de sua atuação educacional, envolveu-se em diversas atividades filantrópicas, sempre com o intuito de melhorar a vida dos moradores de Castro, o que gerou reconhecimento público. Muitas de suas ações de caridade e apoio aos necessitados foram realizadas de maneira discreta e com humildade. Sua habilidade em conservar e ensinar a cultura criou um ambiente educacional diversificado e culturalmente rico, promovendo a integração e o respeito entre diferentes culturas.

Lembrada frequentemente como uma pioneira na educação e uma defensora dos direitos das mulheres à educação, inspirando gerações futuras de mulheres a seguir seus passos e a valorizar a importância da educação. Seu trabalho e dedicação continuam a inspirar gerações, destacando a importância da educação e da filantropia na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Fotografia 3: Grupo participante do estudo dirigido “Gênero e Educação”.

Fonte: Acervo Pessoal das Autoras, (2024).

Estas informações sobre a senhora Emília Braziliana de Fagundes Erichsen nos ajudam a conhecer melhor uma mulher cuja vida e trabalho deixaram uma marca inapagável na história de Castro e do Paraná. A casa que leva o seu nome contribui com a preservação histórica e memória do estado e proporciona o acesso à cultura, denotando sua fundamental importância.

Referências

DOS, C. Professora e Educadora Brasileira. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Em%C3%ADlia_Erichsen. Acesso em: 13 ago. 2024.

Emília Braziliana De Fagundes Erichsen. Academia de Letras dos Campos Gerais. Disponível: https://academialetrascamposgerais.org/academicos/emilia-braziliana-de-fagundes-erichsen. Acesso em: 05 de agosto de 2024.

História e Educação: O primeiro jardim de infância do Brasil em Castro. Boca no Trombone, 2023. Disponível: https://bntonline.com.br/historia-e-educacao-o-primeiro-jardim-de-infancia- do-brasil-em-castro/. Acesso em: 09 de agosto de 2024.

SIMÕES, J. Casa da Cultura Emília Erichsen. Disponível em: https://visitecastroparana.com.br/turismo/casa-da-cultura-emilia-erichsen/. Acesso em: 05 de agosto de 2024.

MINICURRÍCULO DAS AUTORAS.

Andrea Cristina Carniel. Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2024). Tem experiência na área de Educação, com ênfase na área socioeducacional, atuando principalmente nos seguintes temas: geração de renda, formação e inclusão social.

E-mail: carnielandrea@hotmail.com 

Giovana Heloisa Brandiele. Graduanda do curso de Pedagogia, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, campus Francisco Beltrão/PR. Tem experiência na área de Educação, com ênfase na área socioeducacional, atuando principalmente nos seguintes temas: dispositivo de gênero e protagonismo feminino.

E-mail: brandieleg@gmail.com

Vanice Schlosser Sbardelotto.Doutora em Geografia, pelo Programa de Pós-graduação em Geografia, linha de Educação e Ensino de Geografia, da Unioeste/Francisco Beltrão, Mestre em Educação (2009), pelo Programa de Pós- graduação em Educação da Unioeste/Cascavel. Tem experiência na área de Educação: docência, coordenação pedagógica, assessoria pedagógica, formação continuada de docentes. Pesquisa os seguintes temas: ensino de Geografia para os anos iniciais do Ensino Fundamental, formação de professores, formação do pedagogo para o ensino nos anos iniciais do ensino fundamental e atuação do docente da educação superior.

E-mail: vanice.sbardelotto@unioeste.br

Sônia Maria dos Santos Marques.Possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Maria (1987), Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008). Atualmente coordena o projeto de extensão e Projeto Tecendo a cidadania: geração de renda e combate à exclusão social.

Email: mrqs.sonia@gmail.com

Passado e Resistências: a construção do gênero feminino na casa de Sinhara e no Museu do Tropeiro em Castro – Paraná

Willian Canova dos Santos, Lucilia Gouveia, Adriane Antonia Pereira Gouveia e Sônia Maria dos Santos Marques

Nos dias 12 e 13 de julho de 2024, o Grupo de Estudos Etno-Culturais e o Programa de Pós-Graduação em Educação, nível mestrado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus Francisco Beltrão, realizou uma viagem de Estudo Dirigido ao município de Castro, Paraná. Depois das reflexões tecidas no estudo, surge a análise das relações de gênero nos espaços históricos como a Casa de Sinhara e o Museu do Tropeiro, ambos localizados no município de Castro.

A visita e as reflexões sobre o acervo dos museus permitiram uma investigação ampla sobre a construção das mulheres nas dinâmicas de poder e resistência no contexto paranaense no período colonial e imperial brasileiro do sul do país. Esses espaços históricos subsidiam uma oportunidade para compreender como as relações de gênero foram construídas ao longo do tempo e como as mulheres têm transitado entre as esferas privadas e públicas.

Fotografia 1: Casa de Sinhara.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2024).

A Casa de Sinhara, pode ser compreendida como um símbolo da vida doméstica de um determinado grupo social, situado em um determinado tempo histórico. O museu remonta a forma arquitetônica e o espaço da casa onde a mulher historicamente desempenhou uma atividade central, por vezes invisibilizada.

A configuração desse espaço doméstico mostra as expectativas sociais e culturais em relação ao gênero, no qual a mulher era vista principalmente como mãe, cozinheira, lavadeira, passadeira e mantenedora do lar. De acordo com Butler (1990), a identidade de gênero pode ser compreendida como uma “identidade instituída por uma repetição estilizada de atos” (Butler, 1990, p. 297). Assim, as ações cotidianas realizadas pelas mulheres dentro do espaço doméstico contribuem para a construção e perpetuação dessas identidades de gênero. No entanto, essa mesma casa pode ser vista como um local de (re)existência silenciosa, na qual as mulheres, por meio das práticas cotidianas, subverteram as normas estabelecidas e criaram espaços de autonomia e poder dentro dos limites do que lhes era permitido (Foucault, 1994).

Quando se pensa no Museu do Tropeiro, por outro lado, ele disponibiliza uma ótica única sobre a participação das mulheres nos diferentes espaços. As mulheres tropeiras, representam força e resistência. Elas também contribuíram para a economia e não apenas ajudaram a renda familiar, mas também estabeleceram redes de apoio entre si.

Fotografia 2: Casa de Sinhara – Diário de Helena dedicado a Tereza.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2024).

Os registros do museu comprovam como as mulheres, apesar das limitações impostas pelo gênero e as barreiras interpostas pelo período que viveram, encontraram mecanismos para exercer poder, mesmo no âmbito doméstico e familiar (Foucault, 1994).

Fotografia 3: Museu do Tropeiro – Construção do Quarto do Casal.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2024).

Nesse sentido, a interseccionalidade entre gênero, raça e classe é imprescindível para a análise dessas dinâmicas. Como por exemplo: mulheres negras e de classes sociais mais baixas enfrentavam (e ainda enfrentam) desafios adicionais, decorrentes das intersecções de suas identidades em um contexto marcado pela colonização holandesa.

No contexto histórico de Castro, essas mulheres muitas vezes desempenhavam funções consideráveis, mas desvalorizadas, tanto no espaço doméstico quanto público. Por fim, o grupo proporcionou fortes debates e análises de espaços como a Casa de Sinhara e o Museu do Tropeiro, nos quais revelou um rico campo investigativo para pesquisas em educação e para os debates relacionados às questões Étnico-Raciais. Essas arquiteturas não só possibilitaram a exploração da participação histórica das mulheres, mas também das continuidades e mudanças nas relações de gênero.

Referências

BUTLER, J. Actos performativos y constitución del género: un ensayo sobre fenomenología y teoría feminista. In: CASE, S.H. (Org.). Performing feminisms: feminist critical theory and theater. Baltimore: Johns Hopkins, 1990. p. 296-314.

FOUCAULT, M. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994.

MINICURRÍCULO DOS AUTORES.

Willian Canova dos Santos.Professor. Mestrando em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, integra a linha de pesquisa “Cultura, Processos Educativos e Formação de Professores”. Vinculado ao Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC) e ao Grupo de Pesquisa Educação Superior, Formação e Trabalho Docente (GESFORT). Suas pesquisas concentram-se nas áreas do Trabalho, Trabalho Docente, Educação Inclusiva e Especial, Infâncias e Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Entre as dimensões da pesquisa e da “livre” escrita, encontra na palavra um refúgio para a formação e ressignificação humana, pois, sem palavras, a vida não passa de uma sombra. 

E-mail: williancanova@hotmail.com 

Lucilia Gouveia.Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Paranaense (1995). Atualmente é coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Ampére, professora da Faculdade de Ampére. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Especial, atuando principalmente nos seguintes temas: Libras, aperfeiçoamento e Formação Continuada de educadores e valorização profissional e Educação Especial. Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2023.

E-mail: luciliagou@gmail.com

Adriane Antônia Pereira Gouveia. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2019), especialização pela Faculdade de Educação São Luís (2022) e ensino médio pelo Colégio Estadual Humberto de Alencar Castelo Branco (2007). Atualmente é professora de educação infantil da Prefeitura Municipal de Cascavel. Tem experiência na área de Educação.

E-mail: adriane_gouveiia@hotmail.com

Sônia Maria dos Santos Marques. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Maria (1987), Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008). Atualmente coordena o projeto de extensão e Projeto Tecendo a cidadania: geração de renda e combate à exclusão social.

E-mail: mrqs.sonia@gmail.com

Sem lenço, sem documento”: poéticas visuais do povo negro na região de Castro (PR)

Esdras Tavares de Oliveira, Jussandra Cardoso Moreira Cattâneo e Sônia Maria dos Santos Marques

A visitação ao Museu do Tropeiro e à Fazenda Capão Alto, na região de Castro (PR), provoca espanto, ao mesmo tempo que desperta fascínio, para aquelas/es atentas/os às marcas históricas deixadas pelo povo negro. A dialética que enovela as relações de opressão e resistência emerge nas poéticas visuais, materializadas nos objetos físicos, que narram o sofrimento e a luta por liberdade daquelas/es outrora escravizadas/os.

No Museu do Tropeiro podemos observar, na parede de uma das salas de exposição, às correntes que aprisionavam negras/os, revelando ao longo de cada uma de suas junções como a escravização ocorria de forma coletiva, atando pés e mãos à insaciável gana pela expansão da monocultura no território brasileiro. A telha de barro “feita nas coxas”, representada na fotografia abaixo, indica a motivação pela qual à mão de obra negra era requerida: o trabalho para fins de enriquecimento particular das/os senhores de escravizadas/os.

Fotografia 1: Museu do Tropeiro – Correntes e Telha.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2024).

Conforme sinalizado acima, a existência de negras/os escravizadas/os na região de Castro (PR) pode ser corroborada pela reminiscência arquitetônica da Fazenda Capão Alto.

 Na fazenda Capão Alto, identificamos nas informações afixadas nos espaços de visitação ou nas narrativas da guia, a história processada a partir da visão eurocêntrica, a partir de relatos que enaltecem portugueses, italianos e holandeses.

A Fazenda Capão Alto é centenária e está localizada no município de Castro, na região dos Campos Gerais no estado do Paraná. Sua existência ficou conhecida como o primeiro assentamento que originou a vila de Castro. A propriedade consistiu num importante espaço das paragens do movimento tropeirista no início da colonização dos Campos Gerais. A fazenda teve origem a partir das sesmarias, por estar próxima às margens do Rio Iapó, e ficou conhecida como a Sesmaria do Iapó.

Retomando a história da posse da fazenda, os registros ditam que a propriedade passou da aristocracia paulista, aos religiosos Carmelitas, posteriormente a proprietários rurais paraenses e imigrantes holandeses. Nos interessa aprofundar a época de pertencimento à organização religiosa dos Carmelitas. Haja vista neste espaço estarem presente as/os negros em situação de escravizadas/os e permaneceram por mais de um século trabalhando para que ela prosperasse. Contudo, assim que a organização religiosa vendeu a fazenda elas/es foram incluídas/os como produto da venda.

A única menção que se traz a este período escravocrata é uma placa posta nas dependências que seriam as senzalas:

Fotografia 2: Fazenda Capão Alto – Ruínas das senzalas.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2024).

Nas ruínas esquecidas pelo tempo, a placa que registra a história obscura diz: “Durante a permanência de escravos na Fazenda esse local era a sua principal morada, e após esse período, no século XX, foi convertido em uma pequena fábrica de queijos. Queijaria que fosse construída por Vicente Fiorillo.”

Não há registro de quaisquer nomes desses sujeitos das etnias africanas. Com efeito, na primeira metade do século XIX, o trabalho escravo foi determinante na estrutura da sociedade castrense, no trabalho das fazendas de subsistências, na criação de gado, no cultivo de lavouras ou nas atividades tropeiras. Houve também um período de cerca de 100 anos no qual a Fazenda Capão Alto foi administrada diretamente pelas/os negras/os, sem a fiscalização direta da organização religiosa dos Carmelitas. Embora esse marco histórico seja importante no que se refere às conquistas do povo negro, há pouco destaque de sua memória.

Fotografia 3: Sesmarias.

Fonte: Acervo Fotográfico dos Pesquisadores, (2024).

O apagamento das identidades e da resistência do povo negro na região de Castro nos remete à canção de Caetano Veloso que poetiza “[…] sem lenço, sem documento, eu vou”. As poéticas visuais do Museu do Tropeiro e da Fazenda Capão Alto nos alertam para uma existência fantasmagórica de um passado tingido de sangue negro, que apesar de sistematicamente borrado, insiste em resistir nos silenciamentos da história oficial.

Referências

GUTIÉRREZ, Horacio. Donos de terras e escravos no Paraná: padrões e hierarquias nas primeiras décadas do século XIX. História, São Paulo, v. 25, n. 1, p. 100-122, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/his/a/6wmpybjZPD/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 12 de ago. 2024.

NASCIMENTO, Éder Dias do. A metodologia WebQuest na aula de história. 128 f. Dissertação. Programa de Pós-Graduação em Ensino de História – Mestrado Profissional. Universidade Estadual do Paraná, Campus de Campo Mourão. Campo Mourão, 2018. Disponível em: https://educapes.capes.gov.br/. Acesso em: 09 de ago. 2024

OLIVEIRA, Joice Fernanda de Souza. Os devotos de “Sinhara”: A experiência de forasteiros paranaenses em Campinas, 1868-1888. In: XXII Encontro Estadual de História da ANPUH- SP, 2014, Santos, SP. Anais (on-line). São Paulo: ANPUH, 2014. Disponível em: http://www.encontro2014.sp.anpuh.org/resources/anais/29/1406746OsdevotosdeSinharaJoicOliveira.pdf. Acesso em: 09 de ago. 2024.

OLIVEIRA, Oseias de; RODRIGUES, Neide dos Santos. Paraná: escravização, região, conflitos nas relações sociais – Campos Gerais (século XIX). Multitemas, [S. l.], v. 21, n. 49, 2016. Disponível em: https://www.multitemas.ucdb.br/multitemas/article/view/655. Acesso em: 09 de ago. 2024.

MINICURRÍCULO DOS AUTORES.

Esdras Tavares de Oliveira.Professor Adjunto do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), campus de Francisco Beltrão. Doutor em Serviço Social e Política Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).  Atualmente dedica-se a estudos e pesquisas sobre Educação, Educação Superior, Pós-Graduação, Avaliação Educacional, Formação Acadêmico-Profissional, Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social e Ontologia do Ser Social.

E-mail: esdras.oliveira@unioeste.br  

Jussandra Cardoso Moreira Cattâneo. Possui graduação em Letras – Libras pela Universidade do Oeste do Paraná (2023) e graduação em Educação Física pelo Centro Universitário Diocesano do Sudoeste do Paraná (2005). Mestre em Educação pela Universidade do Oeste do Paraná (2024). Atualmente é professora e Assistente de Município – Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação.

E-mail: jussandra.moreira@escola.pr.gov.br

Sônia Maria dos Santos Marques.Possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Maria (1987), Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008). Atualmente coordena o projeto de extensão e Projeto Tecendo a cidadania: geração de renda e combate à exclusão social.

Email: mrqs.sonia@gmail.com

Cultura regional: uma viagem do Grupo de Estudos Etno-Culturais

Sonia Maria dos Santos Marques, Willian Canova dos Santos, Lucília Gouveia, Vanice Schossler Sbardelotto, Esdras Tavares de Oliveira, Jussandra Cardoso Moreira Cattâneo, Andrea Cristina Carniel, Giovana Heloisa Brandiele, Adriane Antonia Pereira Gouveia e Carina Merkle

Resumo: A Universidade do Oeste do Paraná, campus Francisco Beltrão (UNIOESTE-FB) está localizada no sudoeste do Paraná e oferece cursos de graduação e pós-graduação. O curso de graduação em Pedagogia e o curso de pós-graduação stricto sensu em Educação são opções de cursos que além das disciplinas da grade curricular, são proporcionadas atividades de pesquisa, empreendedorismo e inovação, além de atividades culturais e extensionistas. Assim, o objetivo deste texto é divulgar de modo geral a viagem de estudos realizada através do Projeto Tecendo Cidadania e da atividade de estudos incorporada no curso de Mestrado em Educação da instituição. Para tanto, foram utilizados materiais bibliográficos, além das atividades realizadas durante a viagem de estudos. Como resultados foi possível verificar um banco de fotos e vídeos disponibilizado no Google drive, escrita de textos de divulgação, além de estabelecer laços de respeito e afeto, o que impulsionou um movimento de parceria durante as visitas e ações em conjunto.Neste sentido, verifica-se que atividades culturais e de estudo externas aos portões da universidade são parte da formação acadêmica e humanitária.

Palavras-chave: Universidade, etnias, gênero, resistência, NUMAPE.

Abstract: The Universidade do Oeste do Paraná, Francisco Beltrão campus (UNIOESTE-FB) is located in the southwest of Paraná and offers undergraduate and graduate courses. The undergraduate course in Pedagogy and the stricto sensu graduate course in Education are course options that, in addition to the subjects on the curriculum, provide research, entrepreneurship and innovation activities, as well as cultural and extension activities. Thus, the objective of this text is to generally publicize the study trip carried out through the Tecendo Cidadania Project and the study activity incorporated into the Master’s degree in Education of the institution. To this end, bibliographical materials were used, in addition to the activities carried out during the study trip. As a result, it was possible to verify a bank of photos and videos made available on Google Drive, writing of promotional texts, in addition to establishing bonds of respect and affection, which promoted a movement of partnership during the visits and joint actions. In this sense, it is clear that cultural and study activities outside the university gates are part of the academic and humanitarian education.

Keywords: University, ethnicities, gender, resistance, NUMAPE.

A Universidade Estadual do Oeste do Paraná, campus Francisco Beltrão (UNIOESTE-FB) está inserida na região sudoeste do Paraná.

Fotografia 1: UNIOESTE.

Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/

O Grupo de Estudos Etno-Culturais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) campus Francisco Beltrão, a partir de ações como o Projeto Tecendo Cidadania: Geração de Renda Familiar e Combate à Exclusão Social (Zancanella, Marques e Carniel, 2023) e atividades inseridas no Programa de Mestrado em Educação da Unioeste-FB, Estudo Dirigido do PPGEFB e do Projeto de Pesquisa “Narrativas de Mulheres: Memórias e Cotidianos”, promoveu a viagem de estudos para o município de Castro, PR.

O centro da discussão foi a participação histórica das mulheres em espaços privados e públicos no estado, considerando as interseccionalidades de gênero, raça, etnia e classe. Durante a viagem, foram discutidos conceitos como poder, dispositivo e (re)existências (Ferreirinha e Raitz, 2010), destacando a relevância dessas categorias na pesquisa educacional contemporânea.

A viagem foi idealizada a partir de cinco objetivos: – Realizar viagem de estudo no município de Castro, Paraná; – Analisar o vigor dos estudos sobre gênero como possibilidade investigativa para a pesquisa em educação; – Compreender os conceitos e categorias deste campo de estudos; – Identificar o debate sobre pesquisas que façam a intersecção entre gênero, dispositivos, poder, resistências e Educação; – Refletir sobre as interseccionalidades entre gênero, raça e classe.

Fotografia 2: Museu do Tropeiro

Fonte: https://www.unioeste.br/portal/central-de-noticias

A partir disso foram motivadas leituras preparatórias para viagem (Ferreirinha e Raitz, 2010; Zanello, Fiuza e Costa, 2015) entre outras. Os locais visitados foram: Paróquia Sant’Ana, Museu do Tropeiro, Colônia de Castrolanda, Casa da Cultura Emília Erichsen, Casa de Sinhara, Memorial da Imigração Holandesa – Moinho, Museu Casa do Imigrante Holandês, Museu do Imigrante Alemão – Casa do Colono Das Kolonistenhaus, Fazenda Capão Alto Parque histórico de Carambeí e o Lavandário.

A viagem foi uma oportunidade de trocar experiências teóricas e verificar temáticas da história, das questões de gênero e das questões étnicorraciais saindo dos bancos universitários para acessar o cotidiano preservado de versões de uma história.

Referências

CRENSHAW, Kimberle. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas. Florianópolis, v.10, n. 1, p. 171-188, 2002.

FERREIRINHA, Isabella Maria Nunes. RAITZ, Tânia Regina. As relações de poder em Michel Foucault: reflexões teóricas. Revista de Administração Pública — Rio de Janeiro 44(2):367-83, MAR./ABR. 2010. https://www.scielo.br/j/rap/a/r3mTrDmrWdBYKZC8CnwDDtq/?lang=pt. Acesso em: 06 de jun. 2023.

ZANCANELLA, Y.; MARQUES, S. M. S.; CARNIEL, A. C. Ateliê Tecendo a Cidadania: estratégias para geração de renda e combate à exclusão social. Revista MultiAtual: Formiga, MG. https://doi.org/10.5281/zenodo.7699992, v. 4, p. 3, 2023.

ZANELLO, Valeska. FIUZA, Gabriela. COSTA, Humberto Soares. Saúde mental e gênero:  facetas gendradas do sofrimento psíquico. Fractal: Revista de Psicologia, v. 27, n. 3, p. 238-246, set.-dez. 2015. doi: http://dx.doi.org/10.1590/1984-0292/1483. Acesso em: 06 de jun. 2023.

MINICURRÍCULO DOS AUTORES.

Sonia Maria dos Santos Marques.Possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Maria (1987), Mestrado em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2008). Atualmente coordena o projeto de extensão e Projeto Tecendo a cidadania: geração de renda e combate à exclusão social.

Email: mrqs.sonia@gmail.com

Willian Canova dos Santos.Professor. Mestrando em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, integra a linha de pesquisa “Cultura, Processos Educativos e Formação de Professores”. Vinculado ao Grupo de Estudos Etno-Culturais (GEEC) e ao Grupo de Pesquisa Educação Superior, Formação e Trabalho Docente (GESFORT). Suas pesquisas concentram-se nas áreas do Trabalho, Trabalho Docente, Educação Inclusiva e Especial, Infâncias e Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas. Entre as dimensões da pesquisa e da “livre” escrita, encontra na palavra um refúgio para a formação e ressignificação humana, pois, sem palavras, a vida não passa de uma sombra. 

E-mail: williancanova@hotmail.com 

Lucília Gouveia. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Paranaense (1995). Atualmente é coordenadora do curso de Pedagogia da Faculdade de Ampére, professora da Faculdade de Ampére. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Especial, atuando principalmente nos seguintes temas: Libras, aperfeiçoamento e Formação Continuada de educadores e valorização profissional e Educação Especial. Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná, 2023.

E-mail: luciliagou@gmail.com

Vanice Schossler Sbardelotto.Doutora em Geografia, pelo Programa de Pós-graduação em Geografia, linha de Educação e Ensino de Geografia, da Unioeste/Francisco Beltrão, Mestre em Educação (2009), pelo Programa de Pós- graduação em Educação da Unioeste/Cascavel. Tem experiência na área de Educação: docência, coordenação pedagógica, assessoria pedagógica, formação continuada de docentes. Pesquisa os seguintes temas: ensino de Geografia para os anos iniciais do Ensino Fundamental, formação de professores, formação do pedagogo para o ensino nos anos iniciais do ensino fundamental e atuação do docente da educação superior.

E-mail: vanice.sbardelotto@unioeste.br

Esdras Tavares de Oliveira. Professor Adjunto do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), campus de Francisco Beltrão. Doutor em Serviço Social e Política Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).  Atualmente dedica-se a estudos e pesquisas sobre Educação, Educação Superior, Pós-Graduação, Avaliação Educacional, Formação Acadêmico-Profissional, Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social e Ontologia do Ser Social.

E-mail: esdras.oliveira@unioeste.br

Jussandra Cardoso Moreira Cattâneo. Possui graduação em Letras – Libras pela Universidade do Oeste do Paraná (2023) e graduação em Educação Física pelo Centro Universitário Diocesano do Sudoeste do Paraná (2005), Mestre em Educação pela Universidade do Oeste do Paraná (2024). Atualmente é professora e Assistente de Município – Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação.

E-mail: jussandra.moreira@escola.pr.gov.br

Andrea Cristina Carniel. Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2024). Tem experiência na área de Educação, com ênfase na área socioeducacional, atuando principalmente nos seguintes temas: geração de renda, formação e inclusão social.

E-mail: carnielandrea@hotmail.com 

Giovana Heloisa Brandiele. Graduanda do curso de Pedagogia, pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, campus Francisco Beltrão/PR. Tem experiência na área de Educação, com ênfase na área socioeducacional, atuando principalmente nos seguintes temas: dispositivo de gênero e protagonismo feminino.

E-mail: brandieleg@gmail.com

Adriane Antonia Pereira Gouveia. Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (201 9), especialização pela Faculdade de Educação São Luís (2022) e ensino médio pelo Colégio Estadual Humberto de Alencar Castelo Branco (2007). Atualmente é professora de educação infantil da Prefeitura Municipal de Cascavel. Tem experiência na área de Educação.

E-mail: adriane_gouveiia@hotmail.com

Carina Merkle.Graduada em Licenciatura em Língua Portuguesa e Inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000), mestra em Educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2014) e doutora em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (2017). Tem como temas de interesse: história da educação, mulheres, desenvolvimento, sociedade e linguagem, línguas, etnias e língua portuguesa como ferramenta de internacionalização.

E-mail: carinadebeltrao@gmail.com

SEÇÃO ENTRETEMAS

Muzenza

Fonte: https://www.facebook.com/elizeucapoeira

Diversidade étnica & imigração em Francisco Beltrão

Anaís Andreia Neis de Oliveira

Nos últimos anos, o número de deslocamentos forçados de pessoas tem aumentado significativamente ao redor do mundo. Esse fenômeno tem gerado impactos visíveis, especialmente em cidades como Francisco Beltrão, localizada no estado do Paraná, Brasil, que tem recebido imigrantes de países distantes, com diferentes etnias, línguas e culturas, muitas vezes distintas não apenas entre si, mas também das de outros imigrantes que, no passado, contribuíram para a formação da sociedade brasileira. Mesmo diante dessa diversidade, uma questão se mantém em comum: a necessidade de desenvolvimento sociolinguístico, visto que muitos imigrantes não falam a Língua Portuguesa (LP) e, em alguns casos, sequer conhecem o alfabeto latino.

O problema abordado é a necessidade de desenvolvimento sociolinguístico dos imigrantes internacionais que residem em Francisco Beltrão, por meio do aprendizado da Língua Portuguesa, região situada no sudoeste do Paraná, uma área historicamente habitada por imigrantes, em sua maioria de origem europeia, e seus descendentes. A formação étnico-cultural da região, inclusive antes do povoamento massivo, é marcada pela diversidade.

Nesse contexto, as duas instituições de ensino que atualmente recebem estrangeiros são: uma da rede municipal, com turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no período vespertino, e a outra, vinculada ao Centro Estadual Integrado de Educação Básica para Jovens e Adultos – CEIEBJA. Nessas instituições, os imigrantes precisam aprender a língua portuguesa em suas diversas formas de expressão, incluindo significados, fala e alfabetização, nos casos em que não conhecem o alfabeto latino. De acordo com relatos de docentes, muitos alunos chegam ao Brasil com a equivalência escolar do ensino médio, mas as dificuldades no domínio do idioma impedem seu progresso educacional. Em contraste, a realidade dos brasileiros é diferente, pois todos são falantes nativos de português e buscam a escola para aprender a leitura e a escrita e avançar em disciplinas como história, matemática e geografia.

Na figura 1 temos uma imagem do Centro Estadual de Educação Básica – CEEBJA, localizado no centro do município de Francisco Beltrão.

Fotografia 1: CEEBJA – Centro Estadual de Educação Básica

Fonte: https://rbj.com.br/

Na montagem da figura 2 podemos ver diversos cartazes de apoio pedagógico desenvolvidos em sala de aula desta escola. Em sentido horário, vemos os numerais cardinais em português-bangla, os dias da semana em português-urdu, as referências temporais “ontem, hoje e amanhã” em português-bangla e os nomes de alguns materiais escolares em urdu-inglês.

Fotografia 2: Material de Apoio Pedagógico.

Fonte: Acervo Próprio.

Na figura 3 temos o mapa mundial ao lado de bandeiras de diversas nacionalidades e acima delas a bandeira do Paquistão. Ao fundo da sala, como vemos na Fotografia 2, os alunos bengaleses produziram um cartaz com o alfabeto Bangla que foi fixado logo abaixo do alfabeto em português. Havia ainda, bandeiras brasileiras.

Fotografia 3: Bandeiras de Diversas Nacionalidades e o Mapa do Mundo.

Fonte: Acervo Próprio.

Atualmente, o município de Francisco Beltrão responde à necessidade de desenvolvimento sociolinguístico dos imigrantes por meio do cumprimento do direito legal de acesso ao sistema público de ensino, o que implica a oferta formal de aulas de Língua Portuguesa. No entanto, não há, atualmente, no município, programas específicos de ensino de Língua Portuguesa voltados para a acolhida de estrangeiros.

Referências

BRFSA. Sobre a BRF. Não datado, não paginado. Disponível em: https://www.brf-global.com/. Acesso em 26 de fev. 2025.

CEEBJA. Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos. Disponível em: https://rbj.com.br/estao-abertas-as-matriculas-para-o-ceebja-centro-estadual-de-educacao-basica-para-jovens-e-adultos-de-francisco-beltrao/. Acesso em: 26 fev. 2025.

ISLAM PARANÁ. Mesquita de Francisco Beltrão. Disponível em: https://islamparana.blogspot.com/2014/10/mussala-de-francisco-beltrao.html. Acesso em 25 fev. 2025.

MINICURRÍCULO DA AUTORA.

Anaís Andrea Neis de Oliveira. Mestre em Letras (Linguística) pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Campus Pato Branco, Graduada em Letras – Português, Inglês e Espanhol pela Faculdade Vizinhança Vale do Iguaçu (2007). – Especialista em Português para Jornalistas (2012) No campo profissional, atua como servidora técnico-administrativa em educação no Câmpus Francisco Beltrão da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Interessa-se por pesquisas e projetos envolvendo linguagem em contextos educacionais e de trabalho, ética em pesquisa, formação continuada e identidade profissional docente (docentes de LEM).

E-mail: anais.ano@gmail.com

Minicurso sobre autismo e inclusão em sala de aula na área de Letras

Árie Lingnau

Este texto tem por objetivo relatar brevemente a experiência de ofertar o minicurso: “Estudantes autistas e a inclusão na sala de aula – o caso da área de Letras: Língua e Literatura” no evento da XXVI Semana de Letras da Universidade Federal do Paraná. A motivação partiu, principalmente, da minha experiência enquanto licenciando em Letras e pessoa autista, além da falta de espaço no currículo do curso para o assunto (Oliveira; Angelo; Streiechen, 2020). Levando sempre em consideração o fato do autismo ser um espectro, foi necessário pensar também em uma gama de adaptações e possibilidades que contemplasse justamente a diversidade de características do espectro e os variados níveis de suporte.

Figura 1: Slide de Apresentação do Minicurso.

Fonte: Acervo do Autor.

O minicurso foi dividido em quatro momentos principais: questões gerais sobre o autismo, questões linguísticas, questões relativas ao ensino de literatura e um exercício conjunto para pensar em estratégias de adaptação de acordo com as informações apresentadas. A apresentação das questões foi intercalada (quando possível) com relatos de discentes autistas retirados de um estudo de Aguilar e Rauli (2020). Também foram apontados brevemente alguns símbolos de identificação utilizados por pessoas autistas, como o cordão de girassol, o símbolo da neurodiversidade e o quebra-cabeças, já que o autismo, sendo uma deficiência oculta, não apresenta sinais físicos visíveis, e os símbolos podem auxiliar nessa identificação.

Fotografia 1: Cordão de Girassol.

Fonte:https://maristalab.com.br/maristalab/cordao-de-girassol-o-que-e-e-quem-pode-usar-entenda/

Figura 2: Símbolo da Neurodiversidade.

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/biologia/o-que-e-neurodiversidade.htm

Entre os tópicos gerais sobre o autismo trabalhados no minicurso destacam-se as questões sensoriais, um assunto trazido à tona por vários alunos entrevistados por Aguilar e Rauli (2020, p. 14): “Eu tenho a tendência, geralmente, a ficar (…) fora de sala de aula, até eu cansar, então às vezes eu fico na porta e aí perguntam: ‘Por que que você não ficou lá dentro?’. Porque eu não gosto, está todo mundo conversando, tá uma barulheira, tá abafado, tá quente. (P4)”.

Foi reforçada a importância de buscar, dentro do possível, um ambiente com menos estímulos, e, enquanto docentes, ter o cuidado de evitar estímulos que podem sobrecarregar a pessoa autista (como o som de palmas), ou avisar caso haja a necessidade de algum estímulo que possa ser evitado, para que o discente possa se retirar de sala de aula temporariamente, como ligar ou desligar a luz (Cristo et al., 2024).

Ao tratar das questões linguísticas, foram expostas algumas características da comunicação da pessoa autista, principalmente relacionadas à pragmática. Vogindroukas et al. (2022) afirmam que alguns aspectos na linguagem de pessoas autistas, como a ecolalia, o discurso pedante e a dificuldade com linguagem figurada, acontecem devido a um “prejuízo pragmático”. As principais adaptações pensadas nesse sentido foram montar, em conjunto com o estudante, um glossário de expressões (caso haja grandes dificuldades com a linguagem figurada) e utilizar uma linguagem direta e objetiva, algo corroborado por relatos de docentes no estudo de Silva et al. (2021, p. 181–182): “[…] embora ele saiba o conteúdo a linha de raciocínio dele não pode dá esse monte de volta, então à [sic.] pergunta é direta e específica (Maria)”.

Para o ensino de literatura, foram mencionados alguns trabalhos que reforçam a importância de estratégias de mediação de leitura como recurso para promover o letramento de estudantes autistas. Battistello et al. (2020), embora tenham realizado seu estudo com crianças pré-escolares, trazem importantes sugestões de apoios na leitura, como o “protocolo de leitura denominado estratégia Peep (Prompt, Evaluate, Expand, Praise), conforme Whalon et al. (2015), ou seja, um roteiro com ajudas visuais estruturadas.” (Battistello et al., 2020, p. 348).

As discussões durante e ao final do minicurso foram bastante produtivas, com os presentes demonstrando interesse pelo tema e em pensar em estratégias de adaptação para serem implementadas em suas aulas. Assim como concluído por Oliveira, Angelo e Streiechen (2020), é preciso que haja mais debates a respeito da temática para que professores possam compreender melhor a realidade escolar e estar melhor qualificados para atuar em sala de aula.

Referências

AGUILAR, C. P. C.; RAULI, P. F. Desafios da inclusão: a invisibilidade das pessoas com Transtorno do Espectro Autista no ensino superior. Revista Educação Especial, [s. l.], v. 33, p. 1–26, 2020.

BATTISTELLO, V. C. M.; ELICKER, A. T.; VOLMER, L.; MARTINS, R. L. A contação de histórias para crianças autistas. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 55, n. 3, p. 342-350, 2020.

CRISTO, L. dos S.; LINGNAU, Á.; GOHL, B. M.; LOPES, J. C. Estudantes autistas na UFPR: algumas explicações e orientações para docentes, estudantes e equipe técnica. Curitiba: [s. n.], 2024.

OLIVEIRA, D. G. DE; ANGELO, C. M. P.; STREIECHEN, E. M. TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA E FORMAÇÃO DOCENTE: PERSPECTIVAS DE ALUNOS DO CURSO DE LETRAS. Teoria e Prática da Educação, [s. l.], v. 23, n. 3, p. 77–95, set./dez. 2020.

SILVA, L. B. et al. Transtorno do Espectro Autista na Educação Superior: perspectivas e desafios evidenciados por docentes universitários no processo de ensino-aprendizagem. Conhecimento & Diversidade, [s. l.], v. 13, n. 30, p. 171–191, 2021.

VOGINDROUKAS, I. et al. Language and speech characteristics in autism. Neuropsychiatric disease and treatment, [s. l.], v. 18, p. 2367–2377, 2022.

MINICURRÍCULO DO AUTOR.

Árie Lingnau.Graduado em Letras Português pela UFPR. Já atuou como bolsista no Núcleo de Políticas de Comunicação e Acessibilidade Digital (NuCA) da SIPAD, desenvolvendo materiais textuais como roteiros, textos para o site e descrição de imagens para as redes sociais. Desenvolveu materiais didáticos para o ensino do português como língua estrangeira, tanto em um projeto de Iniciação Científica quanto em um projeto de extensão, inclusive lecionando para migrantes. Foi bolsista no Centro de Assessoria de Produção Acadêmica (CAPA), revisando e traduzindo artigos, além de atuar em assessorias individuais referentes ao auxílio na escrita acadêmica. Também foi estagiário da Campos – Revista de Antropologia, revisando e preparando os artigos submetidos para publicação.

E-mail: arielingnau@gmail.com

O Uruguai, o cidadão global e o papel do professor

Aranis Rondon

Nos últimos tempos muitos países têm se dedicado a criar e desenvolver políticas públicas e educacionais sobre dois temas importantes: a educação sexual nas escolas e o uso de celulares em sala de aula. Essas questões têm chamado bastante a atenção, pois são fundamentais para o desenvolvimento dos jovens. A Administração Federal do Uruguai considera que a educação sexual é essencial para crianças e adolescentes. Por isso, esse tema foi incorporado ao currículo escolar. Para garantir que os professores estejam preparados para abordar essa questão, foi criada uma Comissão de Educação Sexual.

O objetivo dessa comissão é capacitar os educadores para que possam ensinar sobre sexualidade de forma adequada. Nas escolas todos os alunos estão envolvidos nesse aprendizado. Muitas vezes, turmas mais avançadas se reúnem com turmas de idade menor para discutirem esses assuntos. Essa troca de experiência é muito enriquecedora e promove a interdisciplinaridade, ou seja, a união de diferentes áreas do conhecimento. Desde cedo as crianças são estimuladas a raciocinar tanto individual, quanto coletivamente, impactando desta forma a sociedade como um todo.

Fotografia 1: Atividade de Troca de Saberes Entre Várias Turmas do Instituto de Formação Docente (IFD) em Rocha (Uruguai).

Fonte: Acervo Próprio, (2024).

Recentemente tive a oportunidade de acompanhar uma aula que foi conduzida por uma enfermeira do corpo de bombeiros da cidade junto com os professores da escola. Duas turmas participaram: uma mais avançada e a outra mais nova. Durante a aula foram distribuídos materiais contraceptivos e comprimidos para que os alunos pudessem manuseá-los e entender como funcionam na prática. Os alunos fizeram várias perguntas durante a atividade e o ambiente era muito franco, sem constrangimentos. Isso mostra que há um esforço real na construção de um diálogo entre diferentes setores da sociedade – educação e saúde – como situação exemplificadora.

Os temas de gênero e sexualidade foram tratados de forma responsável e reflexiva, permitindo que os alunos aprendessem sobre esses assuntos importantes com maturidade. Essa abordagem não só ajuda os jovens a entenderem melhor suas próprias questões pessoais, mas também promove um ambiente escolar consciente e inclusivo. 

Desde o momento em que uma criança se matricula na escola, ela recebe um notebook, simbolizando o compromisso do governo com a inclusão digital para todos. Além disso, todos os professores recebem treinamento para utilizar esse dispositivo de maneira consciente e eficaz. Isso garante que o acesso à tecnologia seja igualitário entre os alunos, promovendo um ambiente de aprendizado colaborativo. A interdisciplinaridade entre os professores é impressionante, criando uma rede de conhecimento que beneficia a todos. A troca constante de saberes entre alunos de turmas diferentes estimula a solidariedade, a empatia e o respeito mútuo, formando não apenas estudantes, mas também cidadãos mais conscientes.

O uso correto da internet no contexto escolar é incentivado, permitindo que os alunos desenvolvam habilidades essenciais para navegar no mundo digital. Esse ambiente educativo culmina na participação ativa dos pais na educação dos filhos, fortalecendo ainda mais essa rede de apoio. O objetivo principal desse sistema educacional é preparar cidadãos globais.

Fotografia 2: Centro de Informática, Discussão Sobre o Tema: “Sexualidade”.

Fonte: Acervo Pessoal, (2024).

Essa formação vai além da sala de aula; trata-se de construir um indivíduo capaz de compreender e interagir com o mundo ao seu redor. Diante disso, fica a pergunta: por que em um país essencialmente voltado para a pecuária, há tantos cidadãos globais sendo formados?

A resposta está na visão integral do Uruguai sobre a educação. Ao investir no futuro das crianças por meio da tecnologia e do respeito à diversidade, elas estão moldando não apenas profissionais competentes para o setor pecuário, mas também cidadãos conscientes e engajados em questões de educação sexual, questões sociais e ambientais.

Algo que testemunhei durante minha visita ao Uruguai ilustra bem essa realidade. Um jovem estudante, ao se dirigir caminhando para a escola, sofreu um acidente de trânsito. Embora esse tipo de acontecimento seja comum e até mesmo ‘indiferente’ em várias partes do mundo, no Uruguai, isso gerou uma mobilização significativa na escola.

Os colegas de classe formaram um grupo composto por representantes de todas as turmas abrangendo diversas idades, alturas, preparo físico e agilidade. Juntos refizeram o percurso do colega acidentado, anotando todos os pontos críticos e suas possíveis soluções. Após essa análise prática, eles criaram uma maquete na escola e apresentaram aos órgãos competentes. O projeto foi analisado, aprimorado e executado.

Esse episódio demonstra como as crianças, desde tenra idade, já assumem coletivamente seu papel na sociedade. Elas não agem isoladamente, pelo contrário, trabalham juntas para encontrar soluções que afetam a comunidade. Essa experiência prática reforça a ideia de que o cidadão global está sendo construído no Uruguai de forma colaborativa e consciente. Através da educação consciente e eficaz o Uruguai é o país da América Latina com o menor índice de gravidez na adolescência, consequentemente, um menor número de evasão das escolas e uma menor formação familiar precocemente. Além de que o sistema de saúde não sofre com a demanda gerada. A educação sexual melhora o desenvolvimento cultural da jovem proporcionando um futuro profissional promissor.

Concluindo, a iniciativa de reunir várias crianças para refazer o caminho percorrido pelo colega que sofreu o acidente de trânsito é um exemplo importante de como a educação pode impactar a sociedade e a vida de jovens. Além disso, a educação sexual nas escolas desempenha um papel fundamental na redução de taxas de gravidez na adolescência. Isso não só desafoga o sistema de saúde, mas também ajuda a evitar que jovens formem famílias precocemente. Quando os adolescentes têm mais tempo para estudar e se preparar para o futuro, eles conseguem alcançar melhores colocações profissionais. Isso beneficia não apenas os jovens individualmente, mas também contribui para uma sociedade forte e consciente. Ao promover uma educação responsável e reflexiva estamos investindo em um futuro mais saudável e promissor para todos.       

MINICURRÍCULO DO AUTOR.

Aranis Rondon. Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade Porto  Alegrense (FAPA). Coaching e Mentoring pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Licenciatura em Filosofia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Emailaranisrondon@hotmail.com.

Pasantía e Colóquio no Uruguai: Educação e Território

Bruna da Cunha

Nosso grupo de estudantes e professores saiu de Porto Alegre no dia 31 de agosto de 2024, à noite, de ônibus e chegou ao Uruguai no dia seguinte pela manhã. Chegamos na rodoviária e fomos de ônibus, ofertado pelo Instituto de Formação Docente de Rocha, até uma pousada que ficava em La Paloma, cidade balneária do Departamento de Rocha. Neste dia, por ser domingo, aproveitamos para conhecer a cidade, fomos até o centro de La Paloma caminhando pela praia, fazia muito frio.

Figura 1: Mapa do Departamento de Rocha.

Fonte: Google Maps, (2025).

No dia 2 de setembro, tivemos nosso primeiro dia de Pasantía, na Escola Primária nº 72, em Rocha, escola de turno integral que vai da pré-escola até o 6º ano. Notamos que os alunos eram participativos e disciplinados, e tinham aulas de música e inglês no currículo, nos foi contado que estes alunos eram de famílias em vulnerabilidade social, e que a horta da escola que era cuidada pelos alunos atendia estas famílias. Saindo da escola, às 17hrs fomos conhecer o Farol Cabo de Santa Maria em La Paloma.

No dia seguinte, fomos conhecer o Liceo nº 3, que atende a partir do 6º ano, nos turnos manhã e tarde, alunos de 12 a 16 anos, a instituição conta com laboratórios de artes, química, entre outros, boa infraestrutura, incluindo ar-condicionados e TVs, wi-fi e Chromebooks para os alunos, assim como a Escola nº 72. Sobre o ensino, o estudo não tem foco em vestibulares já que não são necessários para o ingresso no ensino superior, a interdisciplinaridade é fortemente trabalhada, os alunos não costumam faltar, não há falta de professores e a reprovação só ocorre se a família concordar.

Quarta-Feira, dia 4, no terceiro dia de Pasantía, fomos de novo para Rocha visitar a Feira E-MOTIVA, feira de ciências onde os alunos das escolas junto de universitários apresentam projetos que foram trabalhados durante o ano e escolhidos por eles, todas as turmas participam e a feira é anunciada pela cidade toda, sendo aberta ao público. A feira teve início às 9 horas e término às 14h30min. Às 16h30min fizemos um passeio pela parte histórico-cultural da cidade de Rocha.

Fotografia 1: Cartaz da Feira E-MOTIVA na Cidade de Rocha (Uruguai).

Fonte: Acervo do autor, (2024).

No quarto dia de Pasantía, dia 5, quinta-feira, nosso grupo foi conhecer o Instituto de Formação Docente de Rocha, e tivemos encontros sobre os seguintes temas: Didáticas e Ciências Sociais; Didática e Matemática; Didática de Ciências Naturais; Didática – Prática Rural; O corpo em movimento na Educação e “Pátria: A Construção de um Conceito. Percebemos a mesma boa infraestrutura presente nas escolas.

Fotografia 2: Entrada do Instituto de Formação Docente de Rocha.

Fonte: Acervo do Autor, (2024).

Primeiro dia de Colóquio, dia 6, sexta-feira, retornamos ao Instituto de Formação Docente de Rocha. Com a temática “Formação em Educação: Análises e Discussão dos Processos Territoriais com Relação a Condição Humana e o Impacto nas Transformações Sociais”, tivemos três mesas com os seguintes temas: Abordagem da Temática do Colóquio; Didática e Território e Saúde Emocional e Educação. Além disso, tivemos a organização de equipes e distribuição de temas para uma produção escrita e um tempo para sua produção.

No segundo dia de colóquio, último dia das atividades, começamos com as seguintes mesas: Abordagem da Temática do Colóquio e Processos Territoriais: Enfoques desde o Pedagógico e a Didática. Encerradas as mesas, finalizamos e apresentamos as produções escritas. Para finalizar, tivemos uma conversa de encerramento e nos despedimos dos alunos e professores do Instituto.

No domingo, último dia no Uruguai, aproveitamos para visitar novamente o centro de La Paloma, no fim do dia, arrumamos as malas e fomos até a rodoviária para voltar à Porto Alegre.

Com esta experiência no Uruguai, conhecendo um pouco sobre sua educação, pude refletir sobre a conexão entre educação e território neste local, um bom exemplo desta conexão é a Feira E-MOTIVA, onde os estudantes trazem temas relevantes do seu território e apresentam em forma de oficinas, temas variados e importantes, de saúde, meio-ambiente, cultural, histórico, entre outros, e apresentam para toda a comunidade, fazendo com que ela e os alunos se sintam pertencentes deste território.

MINICURRÍCULO DA AUTORA.

Bruna Bender da Cunha. Estudante de Pedagogia; Discente da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Bolsista de Iniciação Científica PROBIC FAPERGS-UFRGS do Projeto de Pesquisa: Programa Institucional de Internacionalização (PRINT): Impactos e construção de indicadores nas Instituições de Educação Superior gaúchas; Integrante do Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU/Int) INTerculturalidade, INTernacionalização e INTegração de saberes.

Email: brunabendercunha@gmail.com

Capoeira, cultura e formação social: a trajetória do Grupo Muzenza em Francisco Beltrão

Auany da Motta Rodrigues e Joares Antonio Chaves

A Capoeira é uma das expressões culturais mais complexas e potentes da história brasileira. Ao mesmo tempo em que articula luta, dança, música, corporeidade, oralidade e ancestralidade, ela também constitui um importante espaço de formação ética, convivência social e construção de pertencimento. Em cidades do interior do Brasil, onde muitas vezes o acesso a práticas culturais contínuas é limitado, experiências comunitárias de Capoeira assumem papel ainda mais relevante. É nesse contexto que se destaca a atuação do Grupo Muzenza de Capoeira em Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, cuja trajetória evidencia como a Capoeira pode operar como prática esportiva, patrimônio cultural e tecnologia social de formação humana.

Fotografia 1: Roda de Capoeira,

Fonte: https://rbj.com.br/grupo-de-capoeira-muzenza-realizou-aulao-em-francisco-beltrao/

A presença do Muzenza em Francisco Beltrão não é recente nem episódica. O Grupo Muzenza de Francisco Beltrão, tem desenvolvido ações em escolas, centros comunitários, academias, clubes e instituições socioeducativas do município. As matérias consultadas mostram que o grupo atua de forma integrada com políticas públicas locais, levando a capoeira para espaços de formação e convivência, especialmente voltados à infância e à juventude.

Esse aspecto é central porque permite compreender a capoeira como prática de inclusão e mediação social. Em Francisco Beltrão, o Muzenza esteve presente em projetos como o Ponto de Cultura, Assistência Social, Departamento de Cultura, Secretaria de Esportes e outros departamentos do município, além de outras instituições de atendimento e formação. Nesses espaços, a capoeira não aparece apenas como atividade física, mas como estratégia de fortalecimento de valores como respeito, convivência, responsabilidade, autocontrole e cooperação. Em termos educacionais, isso significa reconhecer que o corpo também aprende, comunica, organiza afetos e produz saberes. A roda, nesse sentido, torna-se um espaço pedagógico no qual se exercitam atenção, escuta, ritmo, improvisação, presença e relação com o outro.

Fotografia 2: Copa Muzenza de Capoeira

Fonte: https://franciscobeltrao.pr.gov.br/esportes/copa-muzenza-de-capoeira-reune-150-atletas/

Outro elemento que chama atenção na trajetória do grupo é sua capacidade de articular dimensão social e excelência esportiva. O Grupo Muzenza de Francisco Beltrão não apenas desenvolve projetos comunitários, mas também acumula resultados expressivos em competições regionais, nacionais e internacionais.

Em 2020 e 2025, por exemplo, a equipe participou do Mundial Muzenza Aberto de Capoeira, em Curitiba, conquistando medalhas e consolidando uma sequência de títulos. A presença de atletas beltronenses em eventos de alto nível demonstra que a formação construída nos espaços comunitários pode também se desdobrar em reconhecimento técnico e esportivo.

Os eventos organizados pelo grupo também revelam a força dessa atuação. Em 2022, o Festival Municipal de Capoeira reuniu cerca de 200 participantes no Centro de Artes Marciais do município. Já em 2023, a Copa Municipal de Capoeira contou com 150 crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos.

Fotografia 3: Muzenza Francisco Beltrão – PR.

Fonte: Acervo Pessoal.

Falar da capoeira, portanto, é também falar de memória e resistência. Assim, a experiência do Muzenza em Francisco Beltrão pode ser lida como um exemplo concreto de como práticas culturais brasileiras produzem efeitos educacionais, sociais e políticos de grande relevância. Mais do que ensinar golpes ou movimentos, a capoeira ensina ritmos de convivência, modos de presença e formas de relação com o coletivo. Ao ocupar escolas, centros sociais, campeonatos e espaços públicos, o Grupo Muzenza demonstra que a capoeira segue sendo, no Brasil contemporâneo, uma importante ferramenta de formação humana, democratização cultural e produção de pertencimento social.

Referências

CAMPEONATO MUNDIAL DE CAPOEIRA, 12. Campeonato Mundial de Capoeira. Disponível em: https://campeonatomundialcapoeira.com.br/. Acesso em: 03 de abr. 2026.

MINICURRÍCULO DOS AUTORES.

Auany da Motta Rodrigues. Graduanda do curso de Licenciatura em Letras Português e Inglês, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Pato Branco. Foi integrante do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) 2022-2024.Atua, principalmente, nos seguintes temas: resistência, escrita de mulheres e literatura.

E-mail: auanymottarodrigues@alunos.utfpr.edu.br

Joares Antonio Chaves. Conhecido como Contramestre Presidente do grupo de Capoeira Muzenza de Francisco Beltrão. Formado em Educação Física, atua há mais de 20 anos com a Capoeira.

E-mail: auanymottarodrigues@alunos.utfpr.edu.br

Uma viagem intercultural ao México: encontro de saberes e sabores

Egeslaine de Nez

Viajar para o México é uma experiência que vai muito além das expectativas. Um país latino-americano pertencente à América do Norte que faz fronteira com os Estados Unidos, Guatemala e Belize, além de ser banhado pelos oceanos Atlântico e Pacífico. No território mexicano se desenvolveram algumas das mais importantes civilizações pré-colombianas, sendo hoje um dos países mais populosos da região, com mais de 130 milhões de habitantes, e a segunda maior economia da América Latina.

A verdadeira essência desse país está nas suas tradições, na sua cultura vibrante, nas cores e no calor do seu povo. A interculturalidade, conceito que envolve o diálogo e o entendimento entre diferentes culturas, é um dos pilares que fundamentou esse encontro de saberes e sabores. Também se refere à interação entre os povos, reconhecendo e valorizando as particularidades de cada grupo, ao mesmo tempo que se promove o entendimento mútuo e uma convivência respeitosa. Esse fenômeno ocorre quando pessoas de diferentes origens culturais compartilham experiências, conhecimentos e práticas, criando um ambiente de troca e enriquecimento.

No contexto globalizado em que vivemos, as questões interculturais têm ganhado relevância. O fluxo de pessoas entre países, seja por motivos de trabalho, estudo, migração ou até refugiados, tem tornado as sociedades mais diversas, levando à necessidade de uma reflexão profunda sobre como diferentes culturas podem interagir sem perder suas identidades.

Foi isso que aconteceu nessa viagem realizada em 2025. Primeiro, é importante informar que a colega mexicana que me recebeu em Tuxtla Gutiérrez em Chiapas (México) esteve no Brasil por sessenta dias no mesmo ano pelo Programa Move La América. A troca com o Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU/Int) INTerculturalidade, INTernacionalização e INTegração de saberes foi intensa. A figura 1 apresenta os convites de alguns desses momentos da visita dela na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Figura 1: Cards divulgados para as palestras na UFPel em Pelotas/Rio Grande do Sul.

Fonte: GEU/Int, (2025).

Quando embarquei para o México me deparei com um universo de contrastes. O país é um reflexo perfeito da interculturalidade, com influências nativas indígenas se fundindo com as tradições dos colonizadores espanhóis e, também, pelas culturas globais. Essa mistura cria uma sociedade plural, rica em formas de expressão, que inclui a música, a dança e a gastronomia.

Ao caminhar pelas ruas de qualquer cidade mexicana (estive na Cidade do México; na região serrana – San Cristóbal de las Casas; em Berriozábal, cidade do interior, além de Tuxla, capital de Chiapas), é possível observar a convivência de múltiplas culturas. No mercado, pode-se experimentar o sabor único da comida, que varia de região para região e ver como o milho, a pimenta e as ervas são usadas de formas únicas que remontam a séculos de tradição.

Pude compartilhar além dos sabores, os saberes trazidos do Brasil que foram apresentados em atividades na Universidade Autônoma de Chiapas (UNACH), Universidade Autônoma de Ciências e Artes de Chiapas (UNICACH) e na Escola Normal Superior do Estado de Chiapas (ENSCH).

A figura 2 convida para um desses encontros.

Figura 2: Card Divulgado Para a Palestra Realizada Para os Acadêmicos do Curso de Escrita Criativa na UNICACH

Fonte: UNICACH, (2025).

Outro exemplo de interculturalidade está nas festividades tradicionais, como o Dia de los Muertos que pude presenciar por meio de um desfile na Cidade do México, pois estava próximo da data da celebração, que une as crenças indígenas sobre a morte com elementos da religião católica. Durante esse evento, as famílias constroem altares coloridos, decorados com flores e alimentos, para homenagear seus entes queridos falecidos, criando uma atmosfera de respeito, cuidado e lembrança.

Concluo esse relato dizendo que a interculturalidade é uma resposta às questões da diversidade, da multiplicidade e das diferenças, reconhecendo as culturas como um campo de significação em constante transformação. Foi assim a minha viagem intercultural para o México.

MINICURRÍCULO DA AUTORA.

Egeslaine de Nez. Pós-doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande dos Sul (PUCRS) e doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), docente na Faculdade de Educação (FACED) e no Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEDU) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Líder do Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU/Int): INTerculturalidade, INTernacionalização e INTegração de saberes.

E-mail: e.denez@yahoo.com.br

Vuelo 189

Diana Erika Cruz Jiménez

Joseph Campbell y Christopher Vogler reconocieron en los mitos el viaje físico o mental que emprendieron los héroes de la historia para cumplir con su propósito, ambos autores encontraron en las historias que asombraban a la humanidad puntos en común que, independientemente del espacio fisiográfico desde donde se leyeran , inspiraban fuerzas, ánimo para que cada comienzo, cada actividad que se realizará fuera hecho desde la valentía, desde la fuerza interior para reconocernos como protagonistas de nuestro destino y posible héroe de alguien más, de nosotros mismos, de toda la humanidad.

El 01 de abril de 2025 llegué a Brasil, pero desde 2024 yo había emprendido un viaje que en principio no me convencía, la tentación por quedarme en mi “comodidad” resultaba mayor que el deseo de expandir mi horizonte, pero me aventuré al intento, no muy convencida de lograrlo, porque siempre he tenido pocas esperanzas en mí, no sé a qué se deba, quizás se trate de algo que no resolví en la infancia. El caso es que, cuando los resultados de la selección de Move la América me favoreció, me sentí de pronto con el encuentro de un trozo de ilusión, me di cuenta de que me había olvidado de soñar, de imaginar para mí un escenario mejor. Mi interior vibró, me sentí viva, Dios me había regalado un anhelo del corazón, una ilusión que en el bachillerato yo había tenido y ahora en mi faceta de adulta responsable de mi familia y del funcionamiento de una escuela preparatoria había olvidado.

Entonces, Move la América y la profesora Eges y todos quienes hacían parte del programa no lo saben, pero le devolvieron el alma a mi cuerpo. ¿cómo podía hablar de interculturalidad, de inclusión, de sueños a mis estudiantes, si yo no me aventuraba a vivir la experiencia más de cerca? Entonces dispuse mis fuerzas para subirme al primer avión que pisaba en mi vida un 31 de marzo, me despedí de mi familia un poco triste de dejarlos para vivir una aventura, para prepararme más, para visitar a mis amigos. Mis ojos de niña volvieron, todo me sorprendía, la logística con la que operaba el aeropuerto, ver de cerca a los aviones, ver el río de gente por los pasillos, todos de nacionalidades distintas, concentrados en subir al pájaro de acero para llegar a sus destinos.

¿Si me imaginaba cómo sería?, ¿si imaginaba cómo era la gente?, no, sólo sabía que eran humanos, igual que yo, y que a quienes conocía eran afables, cercanos, alegres, así que imaginé que toda la gente era así, que tenían un espíritu carnavalesco, que hasta la tristeza sabía a gozo con ellos. Sobre el lugar, me imagine mucha vegetación, sobre el idioma, pensé que ese sería un reto, porque me parece que hablan rápido, tenía estampas en mi imaginario, pero cuando llegué descubrí que la amistad trascendía los límites, en realidad los amigos eran familia que habían nacido lejos de nosotros, pero que a pesar de la distancia, se apoyaban, se procuraban; las múltiples actividades cansaban, pero el corazón de ustedes siempre está dispuesto a dar un esfuerzo más y encontrarse con los seres amados.

Reconocí en algunas de sus comidas como la Feijoada, los frijoles que acostumbramos a comer en casa, en los torresmos, la comida favorita de mamá, en la pimienta, que a nosotros los mexicanos nos gusta que nos queme el alma con el picante. Descubrí que la forma de llorar de ustedes es delicada, que hay diferentes formas de llorar y sentir la tristeza del corazón y que de México, las telenovelas de las Marías que protagonizaba Thalía era tan popular como “El Chávez” de Chespirito, entonces caí en cuenta que era a través de la televisión que teníamos referentes de nuestro países y que desde allí construimos un imaginario, pero que la tele es solo un fragmento de la realidad que vivimos, de nuestras raíces, de nuestra cultura, una ventana que atrapa para desear conocer o desconocer un lugar. Sobre los lugares, reconocí en algunos paisajes un poco de mi Chiapas, de mi estado, descubrí que habitamos todos un lugar común, la tierra, nuestra casa, y que es el hogar de las generaciones futuras, que tenemos que cuidarlo para evitar que el agua reclame a través de un terremoto, una pandemia o de una inundación su territorio.

La feria de ustedes es nuestro tianguis, en sus muros la resistencia y la lucha, parecido a nuestros murales que resisten al silencio y se esfuerzan por visibilizar verdades. En el avión observé la inmensidad y las montañas, tan parecido al boraco donde vivo. En los caminos descubrí que los conductores prefieren viajar de noche y que los conductores jamás han visto en fantasmas, es más, no creen en ellos, he de decir que extrañé a esos seres espectrales en el discurso de los viajeros nocturnos. Descubrí que hay tanto que conocer, que hace falta más esfuerzos para continuar en este diálogo intercultural que ha tejido un puente entre nosotros y que hay que reforzar.

Descubrí que las culturas están relacionadas, que esos mitos primigenios que respondían a las grandes preguntas de la humanidad nos conectan y nos hacen ser más cercanos de lo que creemos, a pesar del lugar donde nos tocó nacer. Descubrí que cada uno tiene una mochila cultural con la que carga y que es en el encuentro con el otro con el que podemos compartir y descubrir el interior de esa mochila. Sin duda de mi viaje regresé transformada, encontré otro hogar, allá en Porto Alegre, En Foz de Iguacu, en Cangucu, en todos los lugares que pise encontré a mi familia, a una abuelita que me adoptó, a una hermana que me llevó a conocer el marco de las tras fronteras, encontré en los ojos de ellos mis ojos, mis sueños, el calor de hogar, me encontré en ellos. Confirmé que la esencia del ser humano es la bondad y que Move la América había permitido a muchos soñadores como yo, recordar sus ilusiones, vivir una experiencia académica y de vida que transformaría nuestras vidas.

Hoy sé que los pueblos están más unidos, que la esperanza nos habla, que la interculturalidad la vivimos gracias a sus cartas, a la visita de nuestras amistades a los países, gracias a que puedo hablar de ustedes y de esos fragmentos de intimidad que me dejaron conocer, hoy tengo recuerdos maravillosos resguardados en la memoria, para que cada vez que tenga saudade de ustedes recurra a ellos.  Hoy tengo la esperanza de volver a visitar y de que me visiten, mis amigos de Brasil, la gente de esos lugares mágicos por las presencias con las que compartí hace un año.

MINICURRÍCULO DA AUTORA.

Diana Erika Cruz Jiménez. Doctora en Estudios Regionales con línea de investigación en Comunicación, Cultura e Historia por la Benemérita Universidad Autónoma de Chiapas (UNACH), maestra en Historia por la Universidad Autónoma de Ciencias y Artes de Chiapas (UNICACH). Docente en la Universidad Autónoma de Ciencias y Artes de Chiapas (UNICACH), Facultad de Artes y Humanidades y miembro del Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU/Int): INTerculturalidade, INTernacionalização e INTegração de saberes.

Email: diana7erika@gmail.com

Desde quando você é indígena? Natureza, ancestralidade e a casa de reza como espaços educativos na aldeia Mbya guarani: relato de experiência do NEIM Vila União – Florianópolis/SC

Marlene Gonçalves Lopes

Fotografia 1: Momento de Escuta

Fonte: Acervo Fotográfico da Autora, (2024).

      A imagem usada como epígrafe deste trabalho, traduz esse encontro e o encantamento das crianças diante do professor indígena.

      Apresentamos o relato de experiência de uma saída de estudos realizada com crianças de 4 e 5 anos do NEIM Vila União, Florianópolis/SC, à Aldeia Mbya Guarani, em Biguaçu/SC, em dezembro de 2024. O objetivo foi vivenciar práticas educativas Guarani para além da abordagem comemorativa do dia 19 de abril. A partir da escuta do professor indígena descreve-se os espaços coletivos da aldeia como: a casa de reza, o refeitório, a escola e a natureza do entorno. Conclui-se que a conexão com a natureza e a ancestralidade, na perspectiva Guarani, se dá como parentesco e totalidade, tensionando o currículo fragmentado da educação infantil urbana e apontando caminhos para uma educação descolonizadora.

       Nesse sentido, a Lei 11.645/08 torna obrigatório o ensino da história e cultura dos povos indígenas na educação básica. Entretanto, a abordagem escolar ainda se concentra em estereótipos e datas pontuais, o que Munduruku (2012) chama de “folclorização”. Este relato parte da necessidade de promover o encontro direto entre crianças da rede municipal e o povo Mbyá Guarani, superando a representação para acessar a vivência.

       Essa saída de estudo, desde o início, foi de emoções. Saímos do NEIM Vila União, em três vans com as crianças, professoras e auxiliares. O trajeto de uma hora até Biguaçu foi marcado pela expectativa das crianças, muitas em seu primeiro passeio. Ah! E os lanches preparados com carinho pelas profissionais da cozinha e pela diretora. Cada fruta cortada e cada lanche preparado, teve um pouco de carinho que nos acompanhou no percurso.

       Olhos saltitantes, não davam conta de descrever a beleza do caminho. O trânsito, os carros, a imponente ponte Hercílio Luz. As músicas infantis cantadas durante a viagem, as conversas com os amigos e as perguntas. “Já chegou, prof?”, “Falta muito para chegar?

     A chegada à Aldeia Mbya Guarani impôs o primeiro deslocamento pedagógico: a subida de uma montanha por caminho estreito e sinuoso. Os profissionais organizaram as crianças, os lanches e seguiram a orientação do professor.

   O primeiro espaço visitado foi a casa de reza.  O professor indígena, que conduziu a visita, explicou a importância do espaço e que neste local se aprende a ouvir.  As crianças se sentaram na grama em frente à casa de reza, brincaram e conversaram.

Fotografia 2: Visita a Casa de Reza.

Fonte: Acervo Fotográfico da Autora, (2024).

No refeitório, a casa de chão batido com fogo de chão, mesas e bancos com grafismos indígena e o colorido, despertou curiosidade das crianças e foi neste espaço que surgiu a pergunta central deste relato feita por uma criança de 5 anos: “Desde quando você é indígena?”. A resposta: “Desde que que nasci”, desde que essa terra aqui me conhece pelo nome”, explicita a ancestralidade como vínculo territorial.

   Essas vivências mencionaram três pilares da educação infantil urbana: Espaço:  necessitamos de mais chão, mais contato com a natureza, embora estejamos em uma ilha em que a natureza se faz presente no cotidiano. Tempo: precisamos desacelerar para permitir e afinar a escuta com as crianças e com nós mesmos; Currículo: ancestralidade não é tema para pensar em abril, mas a pergunta da criança no início do passeio, “Desde quando você é indígena?” deve ser invertida para nós, educadores não indígenas: desde quando deixamos de nos entender como parte da natureza? A Casa de Reza ensina que, “se o pé esquece a terra, a cabeça esquece quem a gente é”. A vivência na Aldeia Mbya Guarani não foi “conteúdo sobre diversidade”, mas um encontro pedagógico onde a natureza educa, a ancestralidade guia e detém o saber

Assim, agradecemos à comunidade Mbya Guarani de Biguaçu pela acolhida e ao professor pelos ensinamentos. À equipe do NEIM Vila União pelo comprometimento e às famílias pela confiança em nosso trabalho.

Referências

BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 mar. 2008.

MUNDURUKU, D. O Caráter Educativo do Movimento Indígena Brasileiro. São Paulo: Paulinas, 2012.

MINICURRÍCULO DA AUTORA.

Marlene Gonçalves Lopes. Pedagoga, Especialista em Educação para as Realizações Étnico Raciais, Supervisora Escolar na Rede Estadual de Educação de Santa Catarina.

E-mail: lennelopes2014@gmail.com

Diversidade étnico-racial e cultura

Mauro César Cislaghi

Resumo: A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Francisco Beltrão, tem um coral e uma orquestra que envolve discentes, servidores e pessoas da comunidade externa à universidade. Entre as ações desenvolvidas estão as comemorações institucionais e comunitárias. Neste texto, evidencia-se a ação realizada a partir da memória do dia 20 de novembro, dia em que morreu Zumbi dos Palmares, negro que representa a resistência de um povo, que ainda hoje luta por sua liberdade. A atividade cultural destacada neste texto é a apresentação cultural de duas músicas africanas: The Lion Sleeps Tonight e Siyahamba. 

Palavras-chave: UTFPR, música, coral, orquestra, Francisco Beltrão.

A Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus Francisco Beltrão (UTFPR-FB) está localizada na região sudoeste do Paraná e desenvolve atividades artístico-culturais que contemplam as demandas institucionais e da comunidade em que está inserida.  Os grupos responsáveis pelas ações musicais são o coral e a orquestra da UTFPR-FB, que comemoraram 10 anos de existência em 2024.

Entre as ações desenvolvidas pelo coral e orquestra da UTFPR-FB destaca-se neste texto a atividade cultural elaborada para o dia da consciência negra. A figura 1 mostra um trecho dessa apresentação musical evidenciando o figurino que remete a diversidade do povo afro-brasileiro, durante a música Siyahamba.

Fotografia 1: Foto da Apresentação do Coral da UTFPR.

Fonte: Acervo Próprio, (@coral_utfprfb).

A legislação brasileira (Brasil, 1996; Brasil, 2023) prevê a inserção da diversidade e preservação da história e cultura afro-brasileira, assim, na figura 2 verifica-se a participação também da Orquestra da UTFPR juntamente com o Coral.

Fotografia 2: Orquestra e Coral da UTFPR

Fonte: Acervo Próprio, (@orquestrautfprfb).

A linguagem musical consegue inserir temáticas como esta de forma artística, de modo a compor uma reconstrução imagética de uma cultura tão rica, mas tão pouco conhecida em sua beleza e profundidade.

Referências

BRASIL. Lei n. 14759, de 09 de janeiro de 1996. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acesso em: 06 fev. 2025.

BRASIL. Lei n. 14759, de 21 de dezembro de 2023. Declara feriado nacional o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Disponível em: https://legislacao.presidencia.gov.br/atos/?tipo=LEI&numero=14759&ano=2023&ato=264k3ZE90MZpWTeac. Acesso em: 06 fev. 2025.

MINICURRÍCULO DO AUTOR.

Mauro César Cislaghi. Licenciado em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2002); Mestre em Música (Educação Musical) pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2009). Foi professor de música e spalla da Banda Sinfônica da UNIVALI (2004 a 2007). Atualmente é professor do campus Francisco Beltrão da UTFPR, coordenador do Núcleo de Cultura e Comunicação, maestro do Coral da UTFPR – FB e da Orquestra da UTFPR – FB. Áreas de atuação: regência, arranjo, canto e instrumento musical.

E-mail: maurocislaghi@utfpr.edu.br

Instagram: @coral_utfpr @orquestrautfprfb

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