O Bloomsday a as escolas

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

Segundo a narrativa atribuída a Homero, Ulisses, o protagonista da Odisseia, levou dez anos de aventuras e desventuras para regressar de Troia à sua Ítaca natal e à fiel Penélope. Já Leopold Bloom, de acordo com a obra Ulisses de James Joyce, gastou o dia 16 de junho de 1904 para cruzar Dublin, vivenciando uma parábola do Odisseu com sofrimento equivalente, para encontrar a não tão fiel Molly.

Ulisses é uma obra controversa nas diversas opiniões dos que o leram, tentaram ler e não conseguiram, e o conhecem por guias de leitura e críticas nem sempre isentas. Mas inegavelmente é o grande romance do modernismo literário. Sua genialidade e algum hermetismo geraram legiões de admiradores e detratores; os que admiram o livro e Joyce aproveitaram o inusitado da data estabelecida para a ação e criaram uma efeméride, o Bloomsday, dia de Bloom, comemorado naturalmente em 16 de junho. Nesta data bebem-se rios de cerveja, de preferência Guinness, em todos os bares inteligentes do mundo onde se leem partes do livro e lembram-se também os escritores e poetas da Irlanda, Oscar Wilde, Yeats, Beckett, Swift, Shaw, e a enormidade de gênios que aquele país produziu.

Ressalte-se que em todo o mundo, um único dia é dedicado a um personagem literário, e isso foi iniciado na Irlanda, mas a data hoje é lembrada praticamente em todos os países do ocidente. O Bloomsday é uma celebração anual do livro escrito por Joyce, que embora tenha vivido boa parte da vida fora de seu país natal, teve na identidade irlandesa a temática de sua obra, em particular na cidade de Dublin, e por isso considerado um dos mais universais e ao mesmo tempo individualistas dentre os autores modernos.

Esse dia é comemorado por apreciadores de literatura em dezenas de eventos, em muitos países de línguas diferentes, para relembrar os acontecimentos vividos pelos personagens pelas ruas da cidade, durante as horas em que o protagonista percorre várias ruas.

A Odisseia, escrita provavelmente entre 800 e 700 AC, tornou-se sinônimo de “viagem cheia de aventuras, peripécias e obstáculos inesperados”, e é considerada uma das fundadoras da linguagem grega. Essa história narra as provações que Ulisses, personagem envolvido na guerra de Troia, enfrentou para retornar à sua casa; e qualquer dificuldade prolongada é denominada odisseia, pois o texto envolve resiliência e necessidade de superação.

A obra de Joyce tem um forte paralelo entre Ulisses e Leopold Bloom, assim como de Molly com Penélope. Embora na história de Homero, Penélope seja uma esposa absolutamente fiel, que espera por seu marido por vinte anos, determinando aos seus inúmeros pretendentes que se casará apenas com aquele que entortar o arco de Ulisses e passar a flecha por doze anéis, o que somente seu próprio marido na época da volta consegue realizar, este não é exatamente o perfil de Molly. Ainda assim, a determinação de Bloom em retornar à sua casa, e as diferentes dificuldades que enfrenta, pode ser sim equiparada à de Ulisses.

Existe um pouco de controvérsia sobre o ano em que o Bloomsday começou a ser comemorado, mas vários observadores garantem que 1954 foi a data mais provável, quinquagésimo aniversário do dia retratado em Ulisses. Hoje a festa faz parte do calendário cultural de vários países, e atinge muitos que sequer leram a obra, retrata as andanças, pensamentos e encontros de Leopold Bloom com muitas pessoas; fãs e admiradores do escritor refazem o percurso pela capital irlandesa. São realizadas leituras da obra em parques e centros culturais, com muitos vestidos com a moda da época, e comendo e bebendo como se usava na época do livro.

A homenagem é feita para celebrar James Joyce, um autor admirado e reverenciado, célebre não apenas pelo livro Ulysses, mas também por outros escritos considerados geniais.

Todo país tem seus escritores considerados de alta qualidade, e relembrá-los deveria ser um pouco mais comum e frequente, embora seja possível que num futuro próximo o que hoje chamcaracterísticas, idiossincrasiaslar, onde podemos ter uma biblioteca inteira, embora venha a nos faltar um dos componentes essenciais do que consideramos um livro, pois este carrega além da informação e da sedução da própria história, uma das melhores formas de entender um povo, suas características,  idiossincrasias, cultura e comportamentos.

Cultuar um determinado escritor, rememorar seus escritos, valorizar a forma como tratou determinado assunto pode significar amar o nosso passado comum, a nossa forma específica de tratar determinados temas, uma forma de ver o mundo.

No Brasil, uma série de autores mereceria o mesmo tipo de tributo, um dia especial para serem relembrados e terem seus legados evocados.

Deixe um comentário