ENFRENTAMENTOS DO SABER: DOMINA-ME, POIS LHE CAUSAREI INCÔMODO

* Rosemeire Oliveira Vaz

“É melhor a ignorância absoluta ao conhecimento em mãos despreparadas” (Platão).

Imagem desenvolvida pela autora com auxílio da IA Canva.

A afirmação atribuída ao célebre filósofo platão nos leva a uma séria reflexão: por que e para que estudar? O conhecimento tende a ser libertador, provocador e/ ou incômodo permanente. Enquanto libertador, tira as vendas da ignorância, nos empodera e garante-nos transitar por diferentes espaços sem sermos subjugados ou diminuídos. A bíblia (livro mais vendido na história da humanidade) em sua tradução na linguagem de hoje (Provérbios, 16:16) nos diz que:

é melhor conseguir sabedoria do que ouro; é melhor ter conhecimento do que prata.”

Quando abordamos um jovem hoje, em uma sala do sexto ano do ensino fundamental, onde as crianças têm idade entre 11 e 12 anos, a esmagadora maioria projeta ser rico. Sempre problematizo essa projeção:

O que é ter riqueza?

Que riqueza procuram?

A riqueza da liberdade que advém do conhecimento ou das criptomoedas?

Questão: o que é a riqueza para você? Disponível em https://mariasilviaporlovas.blogspot.com/2015/04/mestre-kuthumi-o-que-e-riqueza-para-voce.html. Acesso em 22/12/2025.

Considerando que um indivíduo pode ter saqueado todos os seus direitos e bens materiais, mas uma vez preservada a sua integridade intelectual, tudo poderá ser reconstruído. Neste sentido, que busca de fato merece o nosso empenho?

O conhecimento, enquanto provocador, nos movimenta, tira-nos da zona de conforto que diz:

“Está tudo bem, as coisas sempre foram assim e sempre serão assim!”

Isso porque, novos olhares, novas histórias e novas descobertas direcionam nossas escolhas e percepção de mundo, nos provoca a mudar, a fazer diferente.

Imagem representativa do conhecimento. Disponível em: https://pt.linkedin.com/pulse/atualiza%C3%A7%C3%A3o-do-conhecimento-%C3%A9-base-de-grandes-raquel-rodrigues. Acesso em 22/12/2025.

Porém, esse movimento gera incômodo, pois o crescimento dói e é desconfortável! Somos quotidianamente bombardeados por falas que ferem e tentam de alguma forma moldar e limitar o lugar e espaço em que podemos (e devemos) estar. O conhecimento ratifica que não é o tom da pele e textura do cabelo que definem quem somos e onde podemos estar. Porém, o fenótipo acompanhado do racismo estrutural brasileiro nos impõe realidades dolorosas. Perceber-se neste contexto, não garante uma “varinha mágica” capaz de transformar o mundo estanque ao meu redor.

Nem todos querem crescer. Nem todos querem a mudança. Ninguém quer sentir dor!

Nessa resistência e incômodo, buscamos enquanto seres humanos de direitos, reconhecer nossas raízes, nossa potência, quem de fato somos. Assim, nos ancoramos em coletivos e grupos que figuram a mesma caminhada que trilhamos.

Mas, nem sempre encontramos no caminho parceria suficiente para reforçar nosso conhecimento, inquietação e desejo de mudança. À medida que nos lapidamos, encontramos cada vez mais entraves, alguns deles entre os nossos.

      Julgamentos e apontamentos advindos das falas e experiências racializadas que consideram o negro descompromissado, amador e colocam a mulher negra como a violenta desequilibrada. Afinal,

Humanização e desumanização, dentro da história, num contexto real, concreto, objetivo, são possibilidades dos homens como seres inconclusos e conscientes de sua inconclusão. Mas, se ambas       são  possibilidades, só a primeira nos parece ser o que chamamos de vocação dos homens. Vocação negada, mas também afirmada na própria negação. Vocação negada na injustiça, na exploração, na opressão na violência dos opressores. Mas afirmada no anseio de liberdade, de justiça, de luta dos oprimidos, pela recuperação de sua humanidade roubada (FREIRE, 2019, p. 40).

Para amenizar esse incômodo vale ressaltar que somos seres humanos: indivíduos que sentem e reagem quando agredidos e violados. Diante de nossa humanidade, é importante reconhecermos também que não temos superpoderes e que mudar o mundo não é uma verdade possível. Mas podemos tentar a transformação do que nos cerca.

A omissão diante do conhecimento não é um caminho salubre. Por isso, esteja preparado, pois o incômodo tende a aumentar.

Por isso, caso o seu propósito seja sair da ignorância, prepare-se para não adoecer diante da provocação que o saber nos traz.

REFERÊNCIAS

BÍBLIA, A. T. Eclesiastes. In: Bíblia Sagrada. Tradução de Fernando. 3ª Edição. São Paulo – SP: Editora NVI, 2023.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. – 45a ed. Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Paz e Terra, 2019.

PLATÃO. A República. Tradução Pietro Nassetti. – 1a ed. São Paulo, Editora Martin Claret, 2006.

* Rosemeire Oliveira Vaz é Mestra em Psicologia da Educação pela PUC/SP. Graduada em Letras – Português e Inglês (IESC/SP); Pedagoga e pós-graduada em Alfabetização e Letramento (UNIJales). Empresária da educação desde 2003 (Curso IMA – Preparatório para concursos públicos e vestibulares) com desenvolvimento de materiais didáticos e formação docente. Atuou como diretora de escola efetiva da rede pública municipal por 3 anos em escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental 2 (2019-2022). Com experiência de mais vinte anos na área de educação (desde 2003), atua como consultora educacional . Trabalha com elaboração e adaptação de materiais didáticos e conteúdos voltados à educação, à educação em direitos humanos, à comunicação e à Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER). É Escritora, Editora-chefe e CEO da Editora Ajeum. Diretora do espaço formativo “Rancho Oliveira Vaz”. Presidente da ONG “Culturaiz”. Diretora da “ROV-Educação e desenvolvimento”: produção de conteúdo digital formativo, palestras, formação docente, espetáculos teatrais, musicais e contação de histórias (principalmente em colégios e universidades). Professora de Língua Portuguesa na educação básica da rede pública municipal de Cajamar, desde 2023. Professora orientadora na Universidade Federal de São Paulo (UFABC) no grupo de Pesquisa Educação em Direitos Humanos (CNPq).

Contato: arederose@gmail.com

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