“As diferentes ideologias, onde quer que atuem, sempre tiveram na imagem fotográfica um poderoso instrumento para a veiculação das idéias e da consequente formação e manipulação da opinião pública, particularmente, a partir do momento em que os avanços tecnológicos da indústria gráfica possibilitaram a multiplicação massiva de imagens através dos meios de informação e divulgação. E tal manipulação tem sido possível justamente em função da mencionada credibilidade que as imagens têm junto à massa, para quem, seus conteúdos são aceitos e assimilados como a expressão da verdade.” 1
A História é capaz de demonstrar que “a memória pode ser considerada crucial para a coesão social e cultural de uma sociedade. Qualquer tipo de identidade depende dela.” E que “uma sociedade sem memória é um anátema.” 2
Percorrendo por este campo historiográfico o historiador entende que é preciso sempre tentar “acordar os mortos e juntar os fragmentos” de suas vidas. Fragmentos que são os rastros deixados ou ideologicamente apagados em alguns momentos quando o “esquecimento público [se faz] constitutivo de um discurso de memória politicamente desejável” 3 ou, principalmente, quando a sociedade experimenta um “estado de exceção”, que para Benjamin, a tradição dos oprimidos ensina que esta conjuntura é na verdade a regra geral. Em “Apague os rastros”, Brecht sinaliza bem esta condição:
“Separe-se de seus amigos na estação
De manhã vá à cidade com o casaco abotoado
Procure alojamento, e quando seu camarada bater:
Não, oh, não abra a porta
Mas sim
Apague os rastros!
Se encontrar seus pais na cidade de Hamburgo ou em outro lugar
Passe por eles como um estranho, vire na esquina, não os reconheça
Abaixe sobre o rosto o chapéu que eles lhe deram
Não, oh, não mostre seu rosto
Mas sim
Apague os rastros!
(…)
Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a lhe denunciar
E o ano de sua morte a lhe entregar
Mais uma vez:
Apague os rastros!(Assim me foi ensinado.) 4

Fotografia 1: Esta imagem é definida no site https://atom-museurepublica.museus.gov.br/index.php/cr5s-kzxx-eq79, como 400 jagunços prisioneiros, mas observa-se claramente a presença, em sua maioria, de mulheres e crianças. Fotografia de Flávio de Barros.
Rastros aplacados na amnésia pelo tempo em silêncio, pela necessidade de sobrevivência, pelo não desejo de rememoração, vencidos nas disputas de memória, onde o poder político e econômico impõe ao indivíduo lembranças ou esquecimentos (argumenta Huyssen “que a memória política em si não pode funcionar sem o esquecimento”) 5, que interferem diretamente nos processos de transformação dos espaços urbanos de relação social, ambiente manifesto das memórias individuais e coletivas, e da formação da identidade social e política de um povo.
Não é meu objetivo neste artigo recontar fatos e repetir o que a historiografia o fez em diversos trabalhos quanto aos conflitos rurais, sociais e políticos brasileiros – denominados por uns de “guerras” e por outros, de “cruel extermínio”, ocorridos no Brasil no final do século XIX, início dos XX. Desejo apresentar uma releitura das identidades dos sujeitos históricos presentes no seguinte conflito rural: a “Guerra de Canudos” ocorrido no interior da Bahia entre novembro de 1896 e outubro de 1897, buscando relacionar o que escreveram, as palavras e o seu poder de memória, nos diversos tempos históricos pós conflitos. Que expressões criaram os discursos que construíram as identidades da população inclusa neste movimento que ocorreu no início da República? Que discursos utilizados na época e tempos seguintes que estão ainda hoje sendo atrelados as fotografias deste povo brasileiro? Vide a xenofobia expressa durante a última eleição com relação ao povo nordestino (vai aqui o meu agradecimento por terem sido fundamentais na luta contra o fascismo); consequência ainda de uma memória ideológica construída após este momento da nossa história.

Fotografia 2: Imagem de um jagunço conselherista capturado, que logo depois seria degolado. Observa-se também que os soldados brasileiros a representação negra, muitos ao retornarem a capital Rio de Janeiro, não receberam o prometido e sem direito a terra foram estabelecer-se nos morros desta cidade. Disponível no https://atom-museurepublica.museus.gov.br/index.php/cr5s-kzxx-eq79. Fotografia de Flavio de Barros.
As definições que encontramos quanto aos próprios conflitos, permitem perceber como as palavras são usadas para “qualificar” estes, reforçando as identidades daqueles “incitadores” iniciais dos movimentos e dos que, representando o poder estabelecido pelo Estado, interferiram com uso da força para restabelecer a “ordem” e a “paz” no território brasileiro.
Segundo Monteiro (2009, p. 48):
“A Guerra de Canudos durou quase um ano e teve a participação de cerca de dez mil soldados, vindos de dezessete estados brasileiros, que deram combate aos homens de Antônio Conselheiro em quatro expedições militares. O número estimado de vítimas é de vinte e cinco mil pessoas, entre elas mulheres e crianças. Quase todos os conselheiristas foram mortos depois de presos, boa parte pela prática da “garganta vermelha”, como era conhecida a degola.” 6
Vejamos a terminologia utilizada a época: “Guerra de Canudos” e o espaço territorial definido como “cenário de Guerra”, define a relação presente nos conflitos armados, um embate entre o “mocinho” (o bem, o representante da ordem, o Estado) e o “bandido” (o mal, o desordeiro, aquele que repele em sua manifestação, as determinações legais do Estado); além de “levante sertanejo” e “monarquismo revolucionário”; O Estado de S. Paulo escreveu que o caso era grave, por “trata-se da restauração; conspira-se”, contra a República em favor do Império. A demonização do movimento e das pessoas inseridas esteve atrelado a decisão de destruir Canudos, não deixar “pedra sobre pedra” conforme promessa do então presidente Prudente de Moraes.

Fotografia 3: Corpo morto do místico Antônio Conselheiro. Ele morreu supostamente vítima de uma disenteria antes mesmo do fim do combate em Belo Monte. Seu corpo já estava sepultado e foi exumado pelo exército, que o fotografou e cortou sua cabeça, em 1897, enviando-a para a capital para estudos que procuraram comprovar a “sua loucura”, o que não constatado. Fotografia de Flávio de Barros, disponível em https://atom-museurepublica.museus.gov.br/index.php/cr5s-kzxx-eq79.
“Cinco mil e duzentas casas (Canudos se tornou a segunda maior cidade da Bahia aquela época) foram queimadas, enquanto a elite política, acadêmica e militar se congratulava pelo desaparecimento do arraial… era necessário, portanto, apagar os vestígios do que era visto pela ótica do poder como uma insurreição sertaneja…Para as autoridades envolvidas, era importante “que ali se plantasse a solidão e a morte.” (Monteiro, 2009, p. 48/49) 7 E este objetivo passou pelos termos utilizados para definir o conflito e as pessoas envolvidas e pelas imagens de Flávio de Barros. Neste artigo apresento as fotografias mais conhecidas deste momento, de autoria do fotógrafo Flávio de Barros, que foi contratado pelo exército brasileiro para fotografar a última expedição ao Arraial de Canudos, desta forma, as imagens que foram realizadas apresentam o ponto de vista do exército.
Outros significados procuram atenuar esta identidade “oficial” tendendo a expressar valores e condições que refletem pensamentos e escolas das ciências humanas: 1) “movimento social no qual a população sertaneja da região rebelou-se contra a ordem vigente, no interior de um complexo contexto social, econômico e político”; 2) “movimento baseado em valores igualitários e num estilo comunitário de vida, com presença marcante de práticas religiosas, considerado ainda por muitos como utópico, e que negava radicalmente a desigualdade e a dependência da população não proprietária em relação aos donos de terras.”; 3) “Mobilizações sociorreligiosas de feições messiânico-milenaristas”; 4) Surtos.

Fotografia 4: São várias imagens dos batalhões, oficiais e soldados no acervo do fotógrafo Flávio de Barros, com uma clara valorização da “força” do exército brasileiro. Disponível no site: https://atom-museurepublica.museus.gov.br/index.php/cr5s-kzxx-eq79.
José Murilo de Carvalho em artigo intitulado “Os três povos da República”, afirma que após estudar o censo de 1872 o biólogo francês Louis Coutry entendeu que havia no Brasil “ausência de massas organizadas, agrícolas ou industriais, e de eleitores capazes de impor ao governo direção definida”, chegando a conclusão de que “o Brasil não tem povo.”, querendo dizer com isso que o país, não tinha povo político, como as nações “civilizadas”. Relaciona ainda este autor…
“que o Deputado Gilberto Amado em 1916, sem dispor de dados atualizados, afirmou que nada havia mudado no país desde os tempos do império e que os 15 milhões de habitantes do interior, eram gente pouco produtiva, entregue à própria miséria, sem saúde, sem hábitos de trabalho, dominada por superstições, inútil como força econômica; (concluindo que) … “povo, propriamente, não temos (sendo este)… incapaz de formar qualquer idéia, por elementar que seja, das coisas.” 8
Desta forma criou-se a imagem de que o sertão nordestino seria um lugar de atraso, ignorância, superstições e limitação e que Canudos não passou de uma reunião de fanáticos. Mas as imagens da época e principalmente, a narrativa de Euclides da Cunha em seu livro Os Sertões – “monumento que Euclides da Cunha erigiu para perenizar a memória dos vencidos” Galvão (2009, p.56) 9, revelam a realidade de que o conflito em Canudos foi na verdade uma tragédia brasileira.
REFERÊNCIAS:
1 – Chevalier Jacourt. Citado por BURKE, Peter. “Testemunha Ocular. História e Imagem.” São Paulo. EDUSC. 2001, pp 73
2, 3 e 5 – HUYSSEN, Andréas. “Resistência à memória: usos e abusos do esquecimento público”, in “Comunicação, Acontecimento e Memória” ,organização: Aníbal Bragança e Sonia Virgínia Moreira.
4 – Brecht, Bertold. Apague os rastros, In. Cartilha para os citadinos, disponível em https://narcisosemedusas.blogspot.com/2013/03/apague-os-rastros.html.
6 e 7, Monteiro, Vanessa Sattamini Varão. Órfãos do ódio: o triste fim das crianças sobreviventes de Canudos, in Guerras e Batalhas Brasileiras. Organizado por Luciano Figueiredo. Rio de Janeiro/RJ, Sabin, 2009.
8 – José Murilo de Carvalho, Os três povos da República, Revista USP, disponível em https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i59p96-115.
9 – Galvão, Walnice Nogueira. OS Sertões, o grande feito de Euclides da Cunha. in Guerras e Batalhas Brasileiras. Organizado por Luciano Figueiredo. Rio de Janeiro/RJ, Sabin, 2009.
