Após quatro anos de uma gestão marcada pela efervescência cultural, pela ocupação do espaço público e pela celebração dos 80 anos da instituição, Benjamin Teulières se despede da direção da Aliança Francesa (AF) de Curitiba. De malas prontas para retornar à França, o gestor deixa como principal legado a transformação da sede da Alameda Prudente de Morais em um “centro cultural vivo” e a consolidação de projetos que romperam os muros da sala de aula para ganhar as ruas da capital paranaense.

A bagagem que moldou o estilo de gestão de Teulières veio do Pacífico. Antes de desembarcar em Curitiba, ele passou mais de três anos como diretor pedagógico na Aliança Francesa de Guayaquil, no Equador. Nessa experiência, enfrentou a escassez de recursos institucionais e o impacto avassalador da pandemia. “Ali aprendi a fazer cultura com pouco, a negociar cada parceria com muita paciência”, relembra.
Essa resiliência equatoriana foi o terreno perfeito para sua chegada ao Brasil. Em vez de importar fórmulas prontas, o gestor preferiu primeiro decodificar o tecido cultural local. O momento da sua chegada coincidiu com a revitalização da Alameda Prudente de Morais, concluída em 2023, e o surgimento do polo gastronômico que hoje caracteriza a região. Era o cenário ideal para repensar o movimento cultural da cidade.

Se há um projeto que sintetiza a visão de Teulières sobre arte e espaço urbano, este é o Prudente Cultural. Iniciado em 2023 a partir de um mercado de Natal europeu (em parceria com o grupo EUNIC), o evento cresceu a ponto de atrair cerca de 4 mil pessoas por edição, unindo comerciantes, moradores, emendas parlamentares e grandes marcas.
Para nós, da ContemporArtes, que acompanhamos de perto as discussões sobre o espaço urbano, o projeto é um caso de sucesso em Curitiba. Teulières, no entanto, divide os méritos com a comunidade: “Não é ‘a Aliança que ocupa a rua’, é a rua, com seus comerciantes, seus moradores, sua identidade, que abre espaço para que a cultura aconteça ali.”

O idioma deixou de ser um produto restrito às apostilas, e livros. A charmosa sede da Prudente de Morais, que ele carinhosamente aponta como “uma das mais bonitas do mundo”, potencializou sua estrutura que conta com ateliers, galeria de arte, cozinha pedagógica e a maior mediateca francófona do Sul do Brasil. O francês passou a ser mediado pela experiência sensorial: degustações de vinhos, sessões de cineclube e exposições artísticas. Além do Tour Curitiba Francesa, um roteiro guiado que redescobre a história e a arquitetura da capital paranaense sob a ótica da influência francesa na cidade.
Além disso, sua gestão expandiu o conceito de francofonia, abraçando a pluralidade de países que compartilham a língua. Eventos como o “Mais Laços, Menos Embaraços” trouxeram visibilidade às expressões artísticas e gastronômicas de nações como o Congo e o Haiti. Já o tradicional Mês da Francofonia, em março, consolidou-se como um dos marcos mais inclusivos e gratuitos da cidade, integrando escolas, universidades e centros culturais.

O ano de 2025 foi histórico para a instituição, marcando os 80 anos da Aliança Francesa de Curitiba. Equilibrar o peso do legado dos fundadores, o casal Hélène e Paul Garfunkel, com as demandas da era digital e da inteligência artificial foi um “desafio bonito”, define o ex-diretor.

A resposta para esse dilema veio em forma de celebração: a Saison France-Brésil 2025, a retomada da Rua da França e a instalação de uma exposição permanente sobre a família Garfunkel garantiram que a memória fosse preservada, mas com o frescor dos novos tempos. O evento atraiu desde o público jovem das redes sociais até autoridades locais, prefeitos e secretários de Estado.
O legado inclui ainda, Ateliês de Imersão e Prática Criativa, Cozinha Pedagógica entre outros. Os Ateliês Criativos e de Conversação mantém uma grade contínua de atividades gratuitas de imersão lideradas por voluntários nativos, incluindo clubes de conversação na mediateca e oficinas que misturam artes manuais (como aquarela e crochê) com a prática do idioma.

Benjamin Teulières se despede com o sentimento de dever cumprido e o “coração partido” ao deixar o espaço que chamou de casa nos últimos quatro anos. Para o futuro da Aliança Francesa, ele projeta um horizonte de maior integração com outras sedes do Brasil e instituições internacionais.
A Aliança Francesa de Curitiba inicia agora outro ciclo com a transição de cargo, mas com as portas abertas à diversidade cultural e as pontes estendidas entre a França e o Paraná permanecem como caminhos sólidos pavimentados por sua gestão.

Benjamin Teulières, nascido na região da Occitânia, no sudoeste da França, possui uma sólida carreira internacional voltada para a difusão da língua francesa e o intercâmbio cultural. Com uma forte conexão com a América Latina, Teulières consolidou sua experiência na gestão de equipes e formação pedagógica em Guayaquil, no Equador, antes de assumir a liderança da Aliança Francesa de Curitiba, cargo que ocupou entre setembro de 2022 e agosto de 2026.
Durante seu mandato, ele transformou a instituição na chamada “Casa da França” na cidade, integrando na mesma sede o Consulado Honorário e a Câmara de Comércio França-Brasil. Sua gestão foi fortemente marcada pela inovação e pela promoção da diversidade cultural, destacando-se pela criação de uma cozinha pedagógica e pela valorização da francofonia multicultural. Um de seus maiores legados urbanos foi a idealização e articulação do projeto Prudente Cultural, evento que transformou a Alameda Prudente de Moraes em um festival de rua aberto à comunidade, unindo música, gastronomia e artes.
Site oficial: Aliança Francesa de Curitiba
* Para saber mais sobre esse tema acesse: https://revistacontemporartes.net/2025/07/18/gravuras-de-paul-garfunkel-na-alianca-francesa-de-curitiba/
Bel Liviski é professora e fotógrafa, doutora em Sociologia pela UFPR. Escreve a Coluna INcontros desde 2010 e é coeditora da Revista ContemporArtes. Contato: bel.photographia@gmail.com
