“As diferentes ideologias, onde quer que atuem, sempre tiveram na imagem fotográfica um poderoso instrumento para a veiculação das idéias e da conseqüente formação e manipulação da opinião pública, particularmente, a partir do momento em que os avanços tecnológicos da indústria gráfica possibilitaram a multiplicação massiva de imagens através dos meios de informação e divulgação. E tal manipulação tem sido possível justamente em função da mencionada credibilidade que as imagens têm junto à massa, para quem, seus conteúdos são aceitos e assimilados como a expressão da verdade.” Kossoy.
Nos dois registros fotográficos que apresento sobre a passagem do então ex-presidente da república Nilo Procópio Peçanha, pelo distrito de Entre-Rios/RJ (hoje Três Rios/RJ), exemplifica-se o reconhecer, na fotografia, a sua capacidade de ativar e compartilhar memórias enquanto fragmento do passado, que permite revivê-lo redimensionado no presente, mesmo que o instante, os objetos, espaços sociais e as sensações experimentadas não pertençam ao indivíduo que a observa e estuda. E pode-se também observar o quanto determinadas práticas presentes em campanhas eleitorais permanecem até os dias atuais, onde a aproximação e registros imagéticos colaboram para a continuidade – para alguns seguimentos ideológicos -, de uma identidade (dos esquecidos) e divisão de classes e da construção das representações relacionadas à classe trabalhadora e a relação com o momento político quando o voto é o “instrumento” de uma “aproximação social” momentânea, configurando a realidade atual da sociedade, que demonstra como muitos dos paradigmas relacionados a identidade e diferença de classes, foram pensados em vista as relações de poder e a implantação e manutenção do sistema capitalista, que beneficia poucos em detrimento da maioria.

Fotografia 1 – Tomada externa registrando a presença do ex-presidente Nilo Peçanha (marcado com uma seta) na Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil em Entre-Rios/RJ, quando da campanha para a eleição do presidente do Estado do Rio de Janeiro, de 1914. Os apoios da cobertura da plataforma em frente à estação ficavam fora de sua área, fixadas na calçada. Esta fotografia do primeiro quarto da década de 10 do século XX, pertence ao acervo Sr. Altair, sem fotógrafo conhecido.
Uma diferença marcante entre as duas está que na primeira, além dos políticos, comerciantes e outros representantes das elites do município de Paraíba do Sul/RJ e do distrito de Entre-Rios/RJ, reconhecidos principalmente pelas suas vestimentas e por se encontrarem em arredor do presidente e membros de sua comitiva, temos a presença de populares e de crianças em número significativo, agrupadas e principalmente localizadas abaixo da posição do ex-presidente, mas em condições de serem “captadas” com destaque pela objetiva. A imagem valoriza a presença dessas pessoas junto a Nilo Peçanha.
Em confronto com o vetor escravidão, um dos constituintes sociais da base de formação da sociedade trirriense, tem-se à vista nesta imagem um bom número de adultos e crianças negras, bem como, percebe-se a ausência, nas duas imagens, da representação feminina, tendo em vista que a mulher brasileira adquiriu o direito de votar nas eleições nacionais somente no Código Eleitoral Provisório, de 24 de fevereiro de 1932, mas, à época, apenas as mulheres casadas devidamente autorizadas pelos seus maridos, às viúvas e solteiras com renda própria, costumavam aparecer em público.
Na segunda imagem, observa-se claramente o desejo de registrar a presença de Nilo Peçanha, junto apenas as autoridades e os indivíduos expoentes das classes econômicas e políticas de Paraíba do Sul/RJ e do distrito de Entre-Rios/RJ. Os dois registros atendem a vontade de comprovar-se a receptividade positiva e o apoio a sua campanha para presidente do Estado do Rio de Janeiro junto aos diferentes grupos sociais. Percebe-se também, à direita, presença de uma criança segurando o seu chapéu numa posição de reverência, trajando camisa e calça comprida e calçado com botas, demonstrando uma condição social superior às destacadas na fotografia anterior, enquanto os adultos portam chapéus.

Fotografia 2: Ex-presidente Nilo Peçanha (marcado com uma seta) junto às autoridades quando da sua passagem pela Estação Ferroviária da Estrada de Ferro Central do Brasil no distrito de Entre-Rios/RJ, registro externo do primeiro quarto da década de 10 do século XX. Sem autor conhecido, do acervo Sr. Altair.
Outro aspecto observado é o espaço físico onde as imagens foram construídas: ambas na Estação Ferroviária da Rede Central do Brasil, mas a primeira em local mais amplo, junto aos trilhos, propício a maior aglomeração popular, tendo no segundo plano os prédios do trecho urbano da Estrada União e Indústria (atual Avenida Condessa do Rio Novo); e a segunda, ao lado da sede da estação, onde o espaço reduzido serviu para limitar a presença apenas para representações políticas e econômicas da região.
O que nos informam esses personagens, suas roupas e adereços [também a falta destes como os sapatos nos pés de algumas crianças do primeiro registro], seus olhares, posição corporal e distribuição espacial na fotografia, seus espaços de relação, entre outros aspectos do registro imagético?
Corroboram principalmente na identificação das divisões econômicas existentes nesta sociedade, na percepção da presença do poder político e econômico ainda nas mãos da etnia branca quase 30 anos após a libertação dos escravos, e na utilização do povo, como ainda se pratica nos dias atuais, apenas para “confirmar” o apoio político à candidatura de Nilo Peçanha, entre outros fatores. É de todas as épocas a necessidade de governantes ou candidatos à governantes de construírem uma “boa imagem”, principalmente, aquelas que os aproximam do povo. “A metáfora e o símbolo há muito desempenham um papel importante na própria política.” (BURKE. 2004 p 75)

Fotografia 3: Imagem de campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, sem informação de data e autor, disponível em https://pv.org.br/campanha-de-bolsonaro-teve-11-milhoes-de-santinhos-sem-declarar-a-justica-eleitoral/
Para a formulação das respostas é imprescindível que o historiador supere a condição de “pretenso historiador neutro, que acede diretamente aos fatos ‘reais’, na verdade apenas [confirmando] a visão dos vencedores, dos reis, dos papas, dos imperadores… de todas as épocas”, (LÖWY, 2007, p. 65) dando visibilidade a aqueles com os quais se solidariza Benjamin, ao defini-los como os oprimidos pela história.
É importante conhecer e analisar quais rupturas aconteceram e quais permanências são vivenciadas, para se construir uma imagem das relações sociais principalmente em momentos de definições políticas em ambiente democrático, quando a fotografia é utilizada para propagar valores que em verdade não “são abraçados” por alguns indivíduos, de forma a se construir uma consciência crítica de modo a romper com os ideais fascistas que ainda divulgam e promovem a desigualdade de condições existentes em todos os campos das relações em sociedade e que claramente estabelecem posições de vantagens e privilégios para alguns. Conforme afirma Burke (2004, p 97), “o trabalho de subversão pode ser realizado pelas próprias imagens.”
Referências:
Nilo Peçanha. “Presidente da república brasileira (1909-1910) nascido em Campos dos Goitacases, RJ. Como presidente da república, procurou manter-se neutro durante a disputada campanha eleitoral entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, pela sua sucessão. Filho de camponeses humildes formou-se pela Faculdade de Direito de Recife, PE (1887), onde depois criou um escritório de advocacia. Atraído pela política, fundou, com Francisco Portela, o Clube Republicano de Campos e foi membro do Congresso Constituinte (1890-1891) e da primeira legislatura do Congresso Nacional. Reeleito sucessivamente, foi eleito presidente do estado do Rio de Janeiro (1903), onde se mostrou um administrador dinâmico e eficiente. Compondo como vice a chapa vitoriosa de Afonso Pena, assumiu a presidência com a morte do titular. Após passar o governo para o eleito Hermes Rodrigues da Fonseca, foi para Europa (1910-1912), só voltando para assumir a cadeira de senador pelo Rio de Janeiro. Eleito presidente do estado do Rio de Janeiro (1914), antes do término do mandato foi nomeado para o Ministério das Relações Exteriores (1917). Formou uma chapa oposicionista com José Joaquim Seabra, presidente da Bahia, com o apoio dos maçônicos da Grande Oriente do Brasil, na chamada Reação Republicana (1921), contra o candidato das correntes oficiais, Artur Bernardes, presidente de Minas Gerais, apoiado pela Igreja Católica, e foi derrotado (1922). Publicou os livros Impressões da Europa (1913), com suas observações sobre a primeira viagem ao exterior, e Política, economia e finanças (1922), com os discursos de campanha da Reação Republicana, e morreu no Rio de Janeiro, RJ, em 31 de março.” Biografia disponível no site: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/governo-nilo-pecanha/governo-nilo-pecanha.php>
BURKE, Peter. Testemunha Ocular: História e Imagem. 2. ed. São Paulo/SP: EDUSC. 2004.
KOSSOY, Borys. Fotografia e História. São Paulo/SP: Ateliê Editorial. 2ª ed. 2003.
LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo/SP: BOITEMPO Editorial. 1ª reimpressão, 2007.
