Visões do outro, olhares de mim mesmo… o sentido de humanidade perdido?

Quantas histórias e memórias a face humana pode revelar? Quantas marcas no rosto as experiências de vidas, dores, angústias, tristezas; quantos sentimentos se revelam quando o fotógrafo consegue remediar as poses tão comuns e enganadoras diante de sua “câmera fotográfica”, onde populares se ilude(m) com poses e expressões construídas e que não revelam a natureza real de uma existência? Assim também as obras de arte em pintura.

É preciso contemplar atentamente para uma imagem que “olha” diretamente para o seu espectador, e evitar que a impressão inicial nos leve a desviar, ato de fuga, que nasce na própria correspondência de sentidos que incomodam, tornando-nos pensativos.

A estética dos rostos descortina sombras, e “na fotografia não existem sombras que não se possam iluminar” – August Sander. As dos outros e as nossas. Desta forma, o estudo da fotografia nos aproxima dos homens e mulheres, seres ignorados nos seus direitos, marginalizados na vida cotidiana, ou despercebidos, impedidos, mortos… daqueles que quando encontramos na rua tendemos evitar, são confessados por fotógrafos e seus rostos.

A imagem dos rostos nos permite “ler o que nunca foi escrito” (Hofmannsthal), mas também aquilo que não queremos ler.

Uma maneira de penetrar no âmago dessa sociedade e da sua mentalidade é questionar como e onde foram estabelecidas as fronteiras que distinguem quem está dentro e quem está fora. O que as pessoas num determinado lugar e tempo veem como “sub-humanos” nos revela muito a respeito da maneira como elas veem a condição humana. (Mellinkoff)

Fotografia 1: Fotografia da Coleção ““Exodos” do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado: Para a configuração de “Êxodos”, Salgado viajou durante seis anos, por 40 países, para mostrar a “humanidade em trânsito”, provocando uma reflexão sobre as questões políticas, sociais e econômicas de pessoas que foram obrigadas a deixar a sua terra natal…”Êxodos” é uma história reveladora, que retrata pessoas que abandonam a terra natal contra a própria vontade. Em geral elas se tornam migrantes, refugiadas ou exiladas, compelidas por forças que não têm como controlar, fugindo da pobreza, da repressão ou das guerras. “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes”, define Salgado.” Disponível em: https://www.noticiasaominuto.com.br/cultura/443222/exodos-serie-de-fotografias-de-sebastiao-salgado-em-exposicao.

Os conceitos de identidade e diferença são inseparáveis, segundo o Profº Tomaz Tadeu da Silva, uma depende da outra para existir, nenhuma das duas são autorreferentes. A identidade é a referência da diferença, é o ponto original relativamente ao qual se define a diferença. “Isso reflete a tendência a tomar aquilo que somos como sendo a norma pela qual descrevemos ou avaliamos aquilo que não somos” (Silva). “Cristãos estão certos e pagãos estão errados”. Conservadores estão certos e progressistas estão errados; ou vice e versa.

Peter Burke relata em sua obra Testemunha Ocular as pesquisas de historiadores culturais franceses quanto à ideia do “Outro” (com O maiúsculo, l’Autre): “Esse novo interesse deles corre paralelo ao aumento do interesse pela identidade cultural e encontros culturais;” realidade cada vez mais presente após os “encontros” entre civilizações no transcorrer do tempo histórico durante e após o período das Grandes Navegações.

Imagem 1: Pintura Guernica, de Picasso, que retrata o bombardeio da população civil por aviões alemães e italianos durante a Guerra Civil Espanhola, em 1937… Guernica é indiscutivelmente a pintura mais icônica a retratar, em estilo cubista e surrealista, a angústia e o terror da guerra através de uma casa em chamas onde as pessoas sofrem os efeitos dos bombardeios. “Ela mostra os horrores da guerra em sua forma mais extrema”, disse Yayo Aznar, professora de História da Arte na UNED. Disponível em https://www.rtve.es/noticias/20220412/retratos-guerra-arte-picasso-goya-velazquez/2329183.shtml.

As segregações de todas as formas e a conservação e sustentação de sistemas históricos que estabelecem fronteiras sociais (políticas, econômicas, religiosas e educacionais) surgem, segundo Burke, de duas reações opostas quando estamos diante do outro: “O outro visto como reflexo do eu” e “a outra cultura como oposta, nesta ótica, seres humanos como nós são vistos como outros”, e muitas vezes, como menores, insignificantes, passíveis de serem eliminados.

Stong escreveu que “as regras quase opostas são validas quando se trata do emprego das fotos (e artes) para despertar o desejo e para despertar a consciência. As imagens que mobilizam a consciência estão sempre ligadas a determinada situação histórica. Quanto mais genérica forem, menor a probabilidade de serem eficazes.”

Neste ponto da reflexão entendo ser importante relacionar uma análise de Burke sobre o conceito do olhar (gaze), um termo novo, tomado emprestado do psicanalista francês Jacques Lacan (1901 – 1981), para o que teria sido descrito anteriormente como “ponto de vista”. Seja quando pensamos sobre as intenções dos artistas ou sobre as maneiras pelas quais diferentes grupos de espectadores olhavam para os trabalhos desses artistas, é interessante refletir em termos do olhar ocidental, por exemplo, o olhar científico, o olhar colonial, o olhar do turista, ou o olhar masculino. O olhar frequentemente expressa atitudes sobre as quais o espectador pode não estar consciente, sejam elas de medos, ódios ou desejos projetados no outro”.

Imagem 2: Candido Portinari. Retirantes. 1944. Na obra Retirantes, Portinari retrata uma família de migrantes que foge da miséria no campo em busca de melhore condições de vida no Sudeste durante o processo de urbanização do país. Disponível em https://www.infoescola.com/artes/principais-pintores-brasileiros/.

A classificação, a separação entre “nós” e “eles” que decompõe a sociedade, serve para estabelecer, propositalmente, divisões territoriais e espaços de relação e definição de identidades e diferenças culturais que sustentam olhares e descrevem expressões linguísticas e artísticas que declaram o outro como uma inversão do eu, o que ao final, é o outro como reflexo de mim mesmo: estereótipo, orientalismo, xenofobia, misoginia, preconceito, nordestino, bicha, negrinho, terrorista, fanatismo, extremismo, fundamentalismo; códigos linguísticos, que entre outros, são expressivos de um olhar para o outro como referente a uma sub-humanidade.

A imagem que eu tenho do outro, é sempre o olhar que transborda de mim e que me define. As imagens fotográficas “não podem criar uma posição moral, mas podem reforçá-la – podem ajudar a desenvolver uma posição moral embrionária.” (Sontag)

Fotografia 2: Crianças palestinas choram enquanto se protegem de bombardeios em um hospital em Rafah, no sul da Faixa de Gaza — Foto: MOHAMMED ABED / AFP. Disponível em https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/10/25/numero-de-menores-mortos-em-gaza-desde-o-inicio-da-guerra-e-maior-que-a-soma-dos-ultimos-23-anos.ghtml

Estes conceitos ajudam a entender a atual atitude humana de indiferença a dor do outro, a custa de ideologias e identidades afirmadas e enunciadas através das diferenças que traduzem o desejo de determinados grupos sociais e nações, assimetricamente situados, de garantirem o acesso privilegiado aos bens sociais e econômicos conservando usurpas históricas ou estabelecendo limites ao “avanço” de uns ao conquistado por outros. “O vasto catálogo fotográfico da desgraça e da injustiça (construído ao logo dos anos da década de 20 a atualidade, bem como, expressões em pituras) em todo mundo deu a todos certa familiaridade com a atrocidade, levando o horrível a parecer mais comum – levando-o a parecer familiar, distante (“é só uma foto”), inevitável.” (Sontag).

Fotografia 3: Quase dois terços das pessoas que passam fome aguda estão em apenas oito países: Afeganistão, Etiópia, Nigéria, República Democrática do Congo, Sudão do Sul, Sudão, Síria e Iêmen. Foto: FAO. Disponível em https://brasil.un.org/pt-br/82799-fome-aguda-afeta-113-milh%C3%B5es-de-pessoas-no-mundo-diz-relat%C3%B3rio-da-onu.

As imagens fotográficas e obras de arte em pintura, da dor e do sofrimento não vem reforçando a consciência de humanidade, infelizmente. “Depois de ver tais imagens, a pessoa tem aberto a sua frente o caminho para ver mais – cada vez mais.” E diante da realidade da dor do outro algum limite seu, querido leitor, foi atingido?

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