“A ideia da experiência como ofício contesta o tipo de subjetividade que prospera no puro e simples processo de sentir.”
(Richard Sennett, em O Artífice – 2009)
Se o fazer artístico costuma ser associado à busca pela forma perfeita, há momentos em que a arte decide habitar a beleza do percurso. É nessa investigação do fazer que se ancora Eclodir o Efêmero, primeira exposição individual de Luisa Bresser. Em cartaz entre os dias 6 e 15 de agosto no Espaço República, em São Paulo, a mostra reúne 43 obras entre cerâmica, fotografia, arte têxtil, vídeo e instalação para investigar uma questão tão simples quanto profunda: o que permanece quando as formas se rompem?
A pergunta atravessa toda a exposição e orienta a pesquisa desenvolvida por Luisa ao longo de anos de experimentação. Formada em Arquitetura, sua trajetória passou pelo design de joias e pela produção de cerâmica utilitária antes de assumir plenamente um percurso autoral. Ao desmontar o próprio ateliê e afastar-se das exigências do mercado, a artista encontrou espaço para uma investigação em que a matéria deixa de responder à funcionalidade e passa a constituir uma linguagem capaz de elaborar memória, transformação e permanência.

Essa mudança de direção aproxima-se da reflexão desenvolvida por Richard Sennett em O Artífice. Para o sociólogo, o fazer artesanal não consiste apenas na execução de uma técnica, mas em uma forma de conhecimento construída na relação paciente entre corpo, inteligência e matéria. Criar implica escutar os materiais, compreender seus ritmos, suas resistências e suas possibilidades. Em Eclodir o Efêmero, essa compreensão manifesta-se em cada obra, onde a argila deixa de ser suporte para tornar-se interlocutora do processo criativo.
As diferentes séries apresentadas desenvolvem essa pesquisa sob perspectivas complementares. Em Sustentação, esculturas cerâmicas desafiam a percepção ao encontrar equilíbrio em formas aparentemente instáveis. Apoios mínimos, tensões estruturais e volumes inclinados produzem a sensação constante de iminente colapso, sem que ele se concretize. A matéria parece negociar continuamente entre permanência e queda, transformando o equilíbrio em uma condição provisória.

Em Depois da Ruptura, tecidos, aquarelas e costuras aparentes deslocam a ideia tradicional do reparo. As cicatrizes deixam de ser ocultadas para tornarem-se parte constitutiva da linguagem visual. Reconstruir não significa apagar a fratura, mas incorporá-la como memória visível da experiência. A costura deixa de esconder a ruptura para sustentá-la, convertendo o gesto de reparar em afirmação estética.
Já Limiar toma o corpo feminino como território simbólico para refletir sobre vulnerabilidade, proteção e resistência. Cerâmica, espinhos e superfícies irregulares rompem representações idealizadas da feminilidade e propõem uma corporeidade atravessada pelo tempo, pela memória e pelas marcas da existência.
Embora utilize diferentes linguagens, a exposição preserva uma notável unidade conceitual. Nesse aspecto, a pesquisa de Luisa Bresser aproxima-se da perspectiva do antropólogo Tim Ingold, para quem o processo criativo não consiste em impor uma forma acabada sobre um material passivo, mas em estabelecer uma relação de correspondência com a própria matéria. A forma não antecede o fazer; ela emerge do diálogo entre gesto, tempo e materialidade. A argila, assim como os tecidos e demais elementos presentes na exposição, participa ativamente da construção da obra, acolhendo o acaso, a resistência e a transformação como parte de sua potência expressiva.
Essa compreensão permite também aproximar a exposição das reflexões de Georges Didi-Huberman acerca da sobrevivência das imagens. Para o historiador da arte, as imagens não persistem apesar de suas perdas, mas justamente porque conservam os vestígios do tempo. As fissuras, rachaduras, remendos e superfícies marcadas presentes em Eclodir o Efêmero deixam de representar apenas a ausência para afirmar a permanência da experiência inscrita na matéria. O que sobrevive não é a integridade das formas, mas a memória das transformações que elas atravessaram.
Mais do que reunir objetos produzidos em técnicas diversas, a exposição apresenta uma pesquisa amadurecida ao longo de anos de estudo e experimentação silenciosa. Cerâmica, fotografia, arte têxtil, vídeo e instalação deixam de funcionar como linguagens independentes para construir uma narrativa comum sobre os processos de mudança que atravessam tanto a matéria quanto a experiência humana.

Nesse sentido, Eclodir o Efêmero insere-se em uma vertente da arte contemporânea que desloca a atenção da obra acabada para os processos de formação, desgaste e reinvenção da matéria. Ao articular diferentes suportes em torno de uma mesma investigação poética, Luisa Bresser transforma memória e transformação em experiências sensíveis, nas quais cada superfície parece registrar a passagem do tempo sem renunciar à possibilidade de novos começos.
Mais do que apresentar um conjunto de obras, Eclodir o Efêmero convida o visitante a experimentar a matéria como um campo de memória, resistência e transformação. Nas cerâmicas, nos tecidos e nas imagens, as fissuras deixam de representar apenas a perda para revelar a potência dos recomeços. Ao final do percurso, permanece menos a lembrança de objetos do que a experiência de uma matéria viva, capaz de acolher o tempo sem apagar suas marcas. Talvez seja justamente aí que resida a força da pesquisa da artista: mostrar que o efêmero não se opõe à permanência, mas constitui uma de suas formas mais profundas.
Referências:
DIDI-HUBERMAN, Georges – A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
INGOLD, Tim – Making: Anthropology, Archaeology, Art and Architecture. London: Routledge, 2013.
SENNETT, Richard – O Artífice. Tradução de Clóvis Marquês. Rio de Janeiro: Record, 2009.
Serviço
Exposição: Eclodir o Efêmero
Artista: Luisa Bresser
Curadoria: Andrés I. M. Hernández
Período: 6 a 15 de agosto de 2026
Abertura: 6 de agosto, das 18h às 22h
Visitação: de 7 a 15 de agosto, das 11h às 17h
Local: Espaço República – Avenida São Luís, 86, 5º andar – Centro – São Paulo
Entrada gratuita.
Contato: Amanda Galdino @duo_imprensa
amanda@drcomunicacao.com
(11) 95569-8400


Bel Liviski é professora e fotógrafa, com doutorado em Sociologia da Imagem pela UFPR e especialista em Artes Visuais. Escreve a Coluna INcontros desde 2010 e é também coeditora da Revista ContemporArtes.
Contato: bel.photographia@gmail.com
