Experimentamos desde meados do século XIX um momento da história humana de importância não superada por outras fases, que recebe denominações várias, mas que, em todas, apresenta-se como um período de transformações nas estruturas técnico-científicas, econômicas, sociais, políticas, culturais e educacionais, que não encontraram ainda seu lugar definitivo. Quando os valores e os hábitos de uma sociedade são transformados pelo impacto de novas descobertas no campo do conhecimento após estas interferirem diretamente nos arcabouços sociais vigentes, muitos são aqueles que desenvolvem pesquisas, procurando interpretar estas agitações, apresentando visões positivas e negativas, esquadrinhando o presente e projetando um futuro consequente diretamente destas alterações.
Tudo sem perder a premissa de que o tempo histórico e o viver nos espaços sociais e culturais são um todo contínuo e interrelacionados mesmo quando o dividimos para aprofundar determinados estudos temáticos; entendo que a análise deste período pela historiografia contemporânea se confundirá com o que hoje é definido como história do tempo presente, pois este processo, não terminou de incidir mudanças sociais e culturais.

Percebe-se nitidamente que as transformações fomentadas pelos avanços tecnológicos incidem diretamente sobre a cultura dos diversos povos através da globalização, elemento este que envolve os contextos locais, intervindo, nem sempre positivamente, nas práticas sociais e educacionais dos diversos países, levando o indivíduo em sua unicidade e inserido na coletividade, a sentir os efeitos desses impactos
Considera-se que as culturas são múltiplas nos tempos da história e nos espaços geográficos da humanidade, partindo da constatação de que somos a única espécie que, equipada de um mesmo aparato biopsicológico, ao invés de determinar apenas um modo de vida, ou modos de ser muito semelhantes, geramos quase inumeráveis maneiras de ser e de viver em grupos com identidades culturais próprios, mas em constante interrelação com expressões diversas pela adequada característica polissêmica da cultura. O que é propriamente humano que não seja a cultura?
Esta diversidade cultural, conforme vemos nas imagens de famílias brasileiras de regiões diferentes, também nos possibilita observar que a formação de grupos sociais ocorreram durante o tempo histórico com oportunidades e condições econômicas não igualitárias.


Em um poema escrito em 8 de março de 1914, o grande poeta português chamava a atenção para a eterna novidade do mundo:
“O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sem ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo… “(PESSOA)
Esta é a ordem estabelecida e confirmada ao se olhar a “linha do tempo” percebendo que a humanidade contemporânea e pós-moderna experimentou e ainda convive, com modificações importantes em todas as áreas do conhecimento. O homem literalmente ampliou seu alcance no Universo, criou meios de transporte mais velozes e eficientes, engendrou mudanças respeitáveis nos setores produtivos, com uma capacidade considerável de produzir novas mercadorias, com maior qualidade e a custos menores. “Diminuiu-se” as distâncias tornando o nosso mundo “menor” com as tecnologias de comunicação. Este mesmo ser conquistou avanços nas áreas médicas, nas ciências da mente, da economia, da política e da organização urbana.
Estamos entregues à transição do século. Como passageiros, navegantes deste mundo, estamos à deriva, com a instabilidade do tempo e com a não-permanência dos fatos. Jamais tivemos em toda a História da humanidade um avanço tecnológico tão rápido e uma instabilidade política e competitiva tão perigosa. – (PELLEGRINO)
Alguns autores definem esse momento das transformações técnico-científicas usando designações tais: Terceira Revolução Industrial, revolução científica e técnica, revolução da informática, a era digital, revolução tecnológica e revolução do conhecimento. Mas a humanidade, apesar dos avanços, por estes e algumas vezes, através destes, condenou milhares de indivíduos à fome, ao desamparo e aos infortúnios da miséria, ao distanciamento de possibilidades educacionais e de saúde, e a imposição de arcabouços culturais. Confrontos armados polvilham em diferentes partes do mundo, epidemias afligem os países desprovidos de sistemas eficientes de saúde e a distribuição de riquezas é totalmente desigual e injusta entre as nações ricas e as pobres.
Um “elemento” permite-nos constatar esta realidade ao registrar, durante este tempo histórico, as mudanças ocorridas nos diversos espaços de relação social e cultural das sociedades humanas: A fotografia.

Os registros fotográficos como fragmentos estáticos de um determinado objeto(s), paisagem(ns), espaço(s) ou sujeito(s) e suas ações em seu tempo histórico, possuem presença de importância na formação de uma narrativa onde a memória social se manifesta através da linguagem imagética. Com a possibilidade de “interpretação do fragmento visual da realidade passada nele contido” (Kossoy. 2003) e por configurarem a mudança do mundo em animação à imagem estática, materializada ou virtualizada, conservadora dos simbolismos culturais e sociais, a fotografia consente interfaces entre fotografia, memória e a história.“Fotos fornecem um testemunho.” (SONTAG, p. 16)

Em outra oportunidade escrevi: Quando enquadra com a câmera/máquina fotográfica determinada porção da paisagem ou pessoa ou grupo de pessoas, a imagem selecionada representa naquele rápido instante, para o agente fotográfico, parcela de uma realidade que se pretende não desapareça, seja preservada, memória que se pensa ser jamais esquecida com o passar do tempo.
Essa compreensão e aceitação da possibilidade/potencial da fotografia (não importando os discursos teóricos das diversas ciências que analisam seus mistérios; discursos estes que pouco chegam a interferir no pensamento das massas) de reproduzir imageticamente o que foi visualmente e sensivelmente vivido e experimentado em determinado tempo e espaço, congelando e preservando o objeto registrado, construiu no imaginário popular, sedimentado fortemente, a ideia de que o registro fotográfico, fragmento material, é expressão da realidade. Característica que vem sendo usada ideologicamente na construção de histórias e memórias ao longo do tempo de sua existência.
Para Sontag (p. 16) “uma foto equivale a uma prova incontestável de que determinada coisa aconteceu. A foto pode distorcer; mas sempre existe o pressuposto de que algo existe, ou existiu, e era semelhante ao que está na imagem. Quaisquer que sejam as limitações (por amadorismo) ou as pretensões (por talento artístico) do fotógrafo individual, uma foto – qualquer foto – parece ter uma relação mais inocente, e portanto, mais acurada, com a realidade visível de que outros objetos miméticos.”
Sem desconsiderar que o registro fotográfico é sempre uma interpretação do mundo no “olhar” do fotógrafo que no ato fotográfico “impõe” a imagem as suas intensões, padrões e temas; com o avanço tecnológico que tornou a máquina fotográfica acessível a muitos, cumpriu-se “uma promessa inerente a fotografia, desde o seu início: democratizar todas as experiências ao traduzi-las em imagem. (SONTAG, p 18)
E foi/é esta democratização do ato fotográfico que possibilita o observar no tempo histórico, através da fotografia as transformações sociais e culturais ocorridas. Desta forma, a imagem fotográfica pode e dever se utilizada em atividades pedagógicas para demonstrar as mudanças ocorridas na sociedade com o tempo histórico, apresentando objetos e espaços sociais, e mesmo pessoas que foram “transformados” neste período, apresentando a novas gerações o que por elas não foi vivido… depois conversamos mais sobre isso.
Referências:
PELLEGRINO, Claudia Negrão, Potência à Nova Educação. Caderno: Aprender Construindo. A informática se transformando com os professores – Coleção Informática para mudança na Educação, Ministério da Educação, Secretaria da Educação a Distância, Programa Nacional de Informática na Educação.
PESSOA, Fernando, Poemas de Alberto Caeiro em “O Guardador de Rebanhos”, 8-3-1914. Disponível em: <http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acaeiro/207.html>. Acesso em: 07 de setembro de 2007.
SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Companhia das Letras, São Paulo/SP, 17ª Edição, 2004.
