Desde os primeiros relatos de viagens imaginárias até as distopias contemporâneas, a ficção científica tem servido menos para prever o futuro do que para interrogar o presente. Funciona como um espelho deslocado, capaz de revelar, sob novas formas, conflitos antigos da experiência humana. É justamente nesse território que se insere O Parasita da Galáxia, primeiro álbum da banda [in]DEFENZA, composta pelos músicos: Leonardo Proenza (Voz), Robson Ferreira (Guitarra), Alexandre de Oliveira (Guitarra), Samuel Brandt Jr. (Baixo) e Leandro da Rocha (Bateria).

Fundada em Curitiba em 2018, a banda consolidou sua trajetória na cena underground a partir de uma sonoridade que atravessa diferentes territórios do pós-hardcore. Peso, velocidade, melodias e passagens técnicas convivem em composições que não se limitam à agressividade característica do gênero, mas a transformam em linguagem crítica. Se o EP (Extended Play), Animais Vagando no Espaço já apontava para uma reflexão sobre os impasses do século XXI, o novo trabalho amplia essa perspectiva ao construir uma narrativa conceitual de fôlego.
O eixo central do álbum estabelece uma analogia perturbadora: os processos históricos de colonização realizados pelas potências europeias nos últimos cinco séculos reaparecem sob a forma de uma expansão interestelar da espécie humana. Nesse cenário ficcional, a humanidade converte-se em uma espécie de praga cósmica, exportando para outros planetas os mesmos mecanismos de exploração, violência e acumulação que marcaram a história terrestre.
A metáfora não poderia ser mais atual. Em um período em que a corrida espacial volta a ocupar o imaginário tecnológico global, impulsionada por grandes corporações privadas, a pergunta lançada pela banda ecoa com força: que civilização estamos preparados para levar às estrelas?

Musicalmente, o disco acompanha essa trajetória narrativa. As primeiras faixas apresentam uma atmosfera de confronto e urgência. O ouvinte é lançado em um universo hostil, marcado por riffs cortantes e pela intensidade do hardcore contemporâneo. À medida que o álbum avança, porém, surgem momentos mais contemplativos, aproximando-se de texturas melódicas que ampliam a dimensão cinematográfica da obra.
Entre as faixas, destacam-se títulos sugestivos como Cinzas, Outro Lugar, Colete Humano e Artificial. Mas talvez seja Operacional que represente o ponto de inflexão mais significativo do trabalho. Após a imersão na narrativa espacial, a canção devolve abruptamente o ouvinte ao cotidiano terrestre, focalizando a exaustão do trabalho urbano e a rotina repetitiva dos terminais e ônibus das primeiras horas da manhã. O futuro distópico encontra então seu espelho no presente.

Nesse sentido, O Parasita da Galáxia aproxima-se de uma tradição artística que utiliza a ficção científica como instrumento de crítica social. Não se trata de imaginar outros mundos, mas de estranhar este mundo. Ao deslocar a humanidade para o cosmos, a banda cria uma distância que permite observar com maior nitidez fenômenos frequentemente naturalizados: colonialismo, produtivismo, desigualdade e devastação.
O encerramento com a faixa Refúgio sugere uma mudança de perspectiva. Depois da crítica e do desencanto, emerge um gesto de humanidade que interrompe a lógica da máquina e recoloca em cena a possibilidade de cuidado, afeto e reconstrução coletiva. É como se a obra lembrasse que nenhuma utopia futura será possível sem uma transformação concreta do presente.
Em tempos de algoritmos, crises ambientais e acelerada desumanização das relações sociais, a [in]DEFENZA não oferece respostas fáceis. Ao contrário, convida o ouvinte a imaginar que futuro estamos construindo e quais valores escolhemos carregar conosco. Afinal, antes de conquistar novos mundos, talvez seja preciso reaprender a habitar este.

O lançamento oficial de O Parasita da Galáxia aconteceu no dia 5 de junho, no Janaino Vegan, em Curitiba, reunindo amigos, admiradores e representantes da cena independente local. Após percorrer ao longo do álbum temas como a corrida espacial, os dilemas tecnológicos e os impasses contemporâneos, a [in]DEFENZA encontrou seu ponto de chegada: o encontro direto com o público. Diante das incertezas do futuro, permanecem a experiência coletiva da música, a convivência e a construção de laços humanos.

Izabel Liviski (Bel), é professora e fotógrafa, com doutorado em Sociologia da Imagem, e Especialização em História da Arte. Escreve a Coluna INcontros desde 2010 e é também coeditora da Revista ContemorArtes.
Contato: bel.photographia@gmail.com

