Mateus Augusto Almeida Martins[1]
Resumo
Este artigo analisa a apropriação crítica que Candace West e Don Zimmerman (1987) realizam da dramaturgia social de Erving Goffman (1956) para a compreensão do gênero. Parte-se da noção goffmaniana de interação, performance e definição da situação para evidenciar como Doing Gender desloca o problema do gênero do campo dos papéis sociais para o das práticas cotidianas. Argumenta-se que, para West e Zimmerman (1987), o gênero não constitui um atributo fixo, mas uma realização contínua, produzida sob normas de responsabilização social. O texto destaca, ainda, que esse fazer gênero não se restringe ao plano interpessoal, uma vez que atravessa instituições e contribui para a reprodução de hierarquias entre homens e mulheres. Evidencia-se que a crítica à metáfora teatral reside, sobretudo, na recusa da existência de bastidores livres de gênero.
Palavras-chave: Goffman; gênero; dramaturgia social; West e Zimmerman.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A obra de Erving Goffman ocupa um lugar central nas ciências sociais por propor uma leitura da vida cotidiana a partir da metáfora dramatúrgica. Em The Presentation of Self in Everyday Life (1956), o autor argumenta que a interação social pode ser entendida como uma espécie de encenação, na qual os indivíduos buscam administrar as impressões que despertam nos outros por meio de performances moldadas às demandas de cada contexto. Nessa perspectiva, a conduta social deixa de ser vista como uma manifestação espontânea de uma interioridade estável e passa a ser compreendida como fruto de um esforço constante de apresentação de si, guiado por expectativas coletivamente compartilhadas e por normas implícitas que regulam a convivência social
Três décadas depois, Candace West e Don Zimmerman retomam esse legado teórico em Doing Gender (1987), porém promovem um deslocamento importante ao direcionarem a atenção da encenação social para os processos cotidianos de produção do gênero. Em vez de compreender o gênero como um atributo fixo, uma identidade previamente formada ou um papel social desempenhado em determinadas situações, os autores o definem como uma realização prática, constantemente produzida e reproduzida nas interações do dia a dia, sempre sujeita à apreciação e ao julgamento de outras pessoas. Nesse contexto, a noção de accountability, ou responsabilização mútua, assume papel fundamental, pois permite compreender como as ações dos sujeitos são continuamente interpretadas e avaliadas com base nas expectativas socialmente construídas acerca do que significa ser homem ou mulher.
Partindo dessa discussão, este artigo busca examinar em que medida West e Zimmerman se valem da abordagem dramatúrgica proposta por Goffman para redefinir o gênero como uma prática social e, simultaneamente, evidenciar os limites da metáfora teatral quando aplicada às relações entre homens e mulheres. Pretende-se demonstrar que, embora Goffman tenha oferecido uma contribuição fundamental para compreender a interação social como performance, West e Zimmerman avançam nessa discussão ao argumentar que o gênero não se restringe a um papel que pode ser ocasionalmente representado ou deixado de lado. Pelo contrário, trata-se de uma dimensão que atravessa de maneira constante as práticas cotidianas e os próprios mecanismos institucionais que organizam a vida social.
Nessa direção, sustenta-se que o conceito de gênero como prática produzida nas interações oferece uma chave analítica mais precisa para compreender a reprodução das desigualdades entre homens e mulheres. O interesse dessa discussão está, justamente, na possibilidade de conectar as microinterações às estruturas sociais mais amplas, evidenciando que o gênero não se restringe ao campo da identidade individual. Trata-se, antes, de um mecanismo de organização social que atua tanto nas relações interpessoais quanto no funcionamento das instituições. Para desenvolver essa reflexão, o texto está estruturado em três momentos: primeiro, retoma-se a perspectiva dramatúrgica elaborada por Goffman; em seguida, analisa-se a formulação de West e Zimmerman acerca do doing gender; por fim, discutem-se as contribuições e o alcance dessa proposta para a compreensão da produção social das desigualdades de gênero.
1. O MUNDO COMO UM PALCO: A ORDEM INTERACIONAL DE GOFFMAN
Erving Goffman (1956) voltou sua atenção para aquilo que acontece quando dois ou mais indivíduos se encontram e precisam, ainda que de maneira temporária, ajustar e coordenar suas ações em torno de uma situação compartilhada. São esses momentos cotidianos, muitas vezes vistos como banais ou pouco relevantes, que dão sustentação à ordem da vida social. Uma conversa rápida no corredor, uma saudação formal antes do início de uma reunião ou mesmo um aceno direcionado a alguém conhecido em um espaço público constituem exemplos de interações nas quais se estabelecem e se reafirmam as condições mínimas para a convivência social. Ao desenvolver essa perspectiva, Goffman (1956) desloca o olhar sociológico para o plano microssocial, evidenciando que a estabilidade da vida coletiva não surge de forma automática, mas depende do trabalho contínuo realizado pelos próprios participantes nos contextos de interação.
Em The Presentation of Self in Everyday Life, Goffman (1956) argumenta que toda interação social envolve algum nível de cooperação entre aqueles que dela participam. Quando entram em contato, os sujeitos negociam continuamente uma definição da situação, ou seja, uma compreensão compartilhada sobre o que está acontecendo e sobre a maneira como cada pessoa deve agir naquele contexto. Essa definição raramente é expressa de forma completa ou formulada explicitamente em termos formais. Pelo contrário, ela se constitui por meio de sinais sutis, gestos, silêncios, escolhas linguísticas e posturas corporais que orientam reciprocamente a conduta dos participantes. Desse modo, a ordem interacional não resulta de uma estrutura externa que se impõe automaticamente aos indivíduos, mas do trabalho prático e constante por meio do qual eles tornam a interação compreensível e suficientemente previsível para que possa se sustentar.
Nesse processo, cada indivíduo ocupa a posição de performer, ou seja, de alguém que apresenta a si mesmo em resposta às demandas da situação em que está inserido. Para realizar essa apresentação, mobiliza aquilo que Goffman (1956) denomina “fachada”, entendida como o conjunto de recursos expressivos utilizados ao longo da interação. Essa fachada, de acordo com o autor, envolve três dimensões interdependentes: o cenário, relacionado ao espaço físico e à sua organização material; a aparência, associada aos sinais que indicam posição social, status e condição; e a maneira, que se refere ao tom da conduta, ao estilo de interação e às formas de expressão adotadas. É por meio da articulação desses elementos que o sujeito comunica não apenas quem aparenta ser, mas também a maneira como deseja ser percebido e reconhecido naquela situação específica. Nessa perspectiva, o “eu” não existe previamente à cena como uma essência pronta e acabada; ao contrário, constitui-se no próprio curso da apresentação e das interações que a sustentam (GOFFMAN, 1956).
De acordo com Goffman (1956), a manutenção dessa ordem exige um esforço constante por parte dos participantes da interação, uma vez que a preservação da definição compartilhada da situação depende de ajustes contínuos e da coordenação recíproca das condutas. Goffman (1956) utiliza o termo facework para se referir ao trabalho realizado pelos indivíduos na preservação da imagem que projetam diante dos outros. Como toda interação está sujeita a descontinuidades, equívocos e desvios, a possibilidade de ruptura acompanha permanentemente cada encontro. Uma palavra mal colocada, um gesto inadequado ou uma reação inesperada podem comprometer o andamento da cena e fragilizar a definição da situação que vinha sendo construída coletivamente. Por essa razão, os participantes investem continuamente na regulação mútua de suas condutas, buscando evitar constrangimentos e manter a situação compreensível para todos os envolvidos. Nessa perspectiva, a estabilidade da interação depende menos da inexistência de conflitos e mais da capacidade dos sujeitos de administrar os riscos e as incertezas produzidos pelos próprios encontros sociais (GOFFMAN, 1956).
Na análise desenvolvida por Goffman (1956), uma distinção particularmente importante para compreender como os indivíduos administram suas apresentações de si em diferentes contextos sociais é aquela entre “palco” e “bastidores”. Essa diferenciação permite examinar de que maneira as interações são organizadas e como as expectativas associadas a determinados papéis variam conforme a situação em que os sujeitos se encontram.
De acordo com o autor, o palco corresponde ao espaço de visibilidade, onde o ator se apresenta diante de uma audiência e, por isso, fica sujeito a formas específicas de observação, avaliação e controle. Já os bastidores constituem o espaço em que a performance pode ser parcialmente afrouxada, permitindo a preparação para a entrada em cena e uma suspensão relativa das exigências associadas ao papel desempenhado. Essa diferenciação aponta para a existência de contextos marcados por distintos níveis de controle e descontração, sugerindo que os sujeitos podem transitar entre situações que demandam maior ou menor rigor performático (GOFFMAN, 1956).
Em uma sala de aula, por exemplo, o(a) professor(a) ajusta a voz, escolhe cuidadosamente as palavras e administra a própria postura diante dos(as) estudantes. Na sala dos(as) professores(as), por outro lado, a interação costuma assumir um tom diferente, mais espontâneo e menos rigidamente regulado. É precisamente essa possibilidade de alternância entre contextos que será problematizada por West e Zimmerman (1987) em sua análise do gênero. A questão que emerge, então, é a seguinte: quando se trata do gênero, existe realmente algum bastidor no qual a performance possa ser suspensa?
2. O GÊNERO COMO AÇÃO: A APROPRIAÇÃO CRÍTICA DA DRAMATURGIA
Se, ao término da leitura de Goffman (1956), ainda é possível conceber a existência de um espaço em que a performance possa ser parcialmente suspensa, West e Zimmerman (1987) constroem sua argumentação justamente a partir da rejeição dessa possibilidade. Em Doing Gender, os autores (1987) propõem uma distinção analítica entre sexo biológico, categoria de sexo e gênero, com o objetivo de demonstrar que o gênero não deve ser entendido como um atributo fixo nem como um papel social acionado apenas em determinadas circunstâncias. Em vez disso, ele é concebido como uma prática social permanente, produzida, reafirmada e reconhecida nas interações cotidianas.
O sexo refere-se a características de natureza biológica, como cromossomos e genitálias. A categoria de sexo diz respeito à classificação social por meio da qual uma pessoa é identificada, quase de imediato, como homem ou mulher. Já o gênero corresponde à administração cotidiana da conduta de acordo com as expectativas de masculinidade ou feminilidade que a sociedade associa a essa categoria (WEST; ZIMMERMAN, 1987).
Dessa maneira, o gênero deixa de ser concebido como uma substância e passa a ser entendido como uma prática. Não se trata de uma característica que o indivíduo possui, nem de uma identidade que simplesmente aflora ao longo da vida social. Trata-se, antes, de algo que se concretiza nas ações cotidianas, no contexto de interações específicas e situadas.
Em outras palavras, ninguém “tem” gênero; as pessoas “fazem” gênero continuamente, por meio das formas como agem, se apresentam e respondem às expectativas socialmente estabelecidas (West & Zimmerman, 1987, p. 126-127). Esse deslocamento afasta a análise de qualquer noção de essência interior ou de predisposição psicológica, direcionando-a para o campo das práticas ordinárias, onde o gênero é constantemente produzido e reproduzido.
A influência de Goffman (1956) é claramente perceptível, mas West e Zimmerman (1987) incorporam à discussão um elemento fundamental que lhe confere outro direcionamento: o conceito de accountability, traduzido como responsabilização. Para os autores (1987), a questão central é que as condutas dos indivíduos são continuamente apreciadas à luz de critérios socialmente compartilhados sobre aquilo que se considera adequado para alguém identificado como homem ou mulher. Fazer gênero, portanto, não é um processo que ocorre isoladamente, ele se desenvolve em meio à presença de outros sujeitos, que observam, interpretam, comparam e avaliam comportamentos.
Um gesto que se afasta discretamente do esperado, uma mudança inesperada na entonação da voz ou uma vestimenta que rompe com o padrão habitual podem ser suficientes para provocar estranhamento. Nem sempre essa reação se expressa de forma direta; com frequência, ela se manifesta em um silêncio desconfortável, em uma brincadeira carregada de embaraço ou mesmo em um olhar que comunica reprovação sem recorrer às palavras. Como consequência, a maioria das pessoas tende a ajustar suas condutas ao que delas se espera, regulando a própria atuação de acordo com as normas associadas à categoria sexual que lhes foi atribuída (WEST; ZIMMERMAN, 1987)
É justamente nesse ponto que se evidencia uma diferença significativa em relação à perspectiva de Goffman (1956), pois, na abordagem goffmaniana, determinados papéis podem ser assumidos em uma situação e deixados de lado em outra, acompanhando as exigências e transformações de cada contexto interacional. Quando se trata do gênero, porém, a lógica é distinta, pois, West e Zimmerman (1987) dirigem sua crítica à noção de gender display, segundo a qual o gênero seria algo exibido em circunstâncias específicas. Para os autores, essa concepção acaba obscurecendo um aspecto fundamental: o fazer gênero é contínuo, inevitável e constitutivo da vida social.
Um(a) médico(a), por exemplo, nunca é apenas médico(a). Ele é, simultaneamente, um homem que exerce a medicina ou uma mulher que exerce a medicina, e essa condição influencia de maneira profunda as expectativas formuladas por pacientes, colegas de profissão e instituições. O gênero, portanto, não corresponde a uma camada adicional que se soma a outras performances sociais. Trata-se de uma dimensão que atravessa essas performances e contribui para organizá-las desde o início.
Há, ainda, um aspecto que West e Zimmerman (1987) consideram fundamental destacar em sua formulação teórica sobre o gênero como realização social contínua: o fazer gênero não pode ser compreendido como um processo politicamente neutro. Sempre que alguém realiza o gênero de acordo com as expectativas socialmente estabelecidas, acaba contribuindo, mesmo que involuntariamente, para a continuidade e a reprodução das desigualdades entre homens e mulheres. Nessa perspectiva, o gênero funciona, ao mesmo tempo, como produto e como justificativa de arranjos sociais que distribuem poder, recursos e reconhecimento de forma desigual.
Não se trata, portanto, de uma simples manifestação de diferenças que já existiriam previamente. Trata-se de um mecanismo ativo que participa da produção, da manutenção e da legitimação dessas diferenças. É nesse ponto que o conceito de doing gender amplia o alcance da análise, deslocando o olhar da mera aparência para a estrutura social. Ao fazê-lo, evidencia que a repetição cotidiana de comportamentos e práticas não apenas reflete as hierarquias de gênero, mas também contribui diretamente para sua permanência.
3. A DIMENSÃO ORGANIZACIONAL: GÊNERO PERPETUADO INSTITUCIONALMENTE
Em seu artigo clássico de 1987, West e Zimmerman argumentam que o fazer gênero não se limita ao âmbito das interações face a face, mas constitui um processo contínuo por meio do qual os indivíduos produzem, reproduzem e tornam inteligíveis as diferenças de gênero em diversos contextos da vida social. A contribuição de Goffman (1956) foi fundamental ao demonstrar que a vida social depende do trabalho recíproco realizado pelos participantes de uma situação, ou seja, da capacidade de construir e sustentar coletivamente uma definição compartilhada do encontro. Ainda assim, sua análise permanece predominantemente situada no plano microssocial, voltada para a ordem interacional que se estabelece entre aqueles que atuam e aqueles que observam.
West e Zimmerman (1987) expandem essa perspectiva ao argumentarem que o gênero também se concretiza em arranjos organizacionais e institucionais mais amplos, nos quais expectativas, normas e mecanismos de sanção são distribuídos de forma relativamente estável ao longo do tempo. Nessa direção, o gênero deixa de ser compreendido apenas como uma prática situada em interações específicas e passa a ser concebido também como um princípio que organiza a própria estrutura da vida social.
Essa ampliação é particularmente importante porque permite compreender que o gênero não é produzido apenas por decisões individuais ou por interações isoladas, mas também por estruturas que delimitam, de antemão, o conjunto de possibilidades de ação disponíveis aos sujeitos. Empresas, escolas, hospitais, órgãos públicos e famílias funcionam a partir de regras, tanto explícitas quanto implícitas, que frequentemente reproduzem o gênero de forma contínua, mesmo quando ele não é diretamente mencionado.
Essa interpretação encontra respaldo na obra de Pierre Bourdieu (2002), especialmente em sua análise sobre a dominação masculina, na qual o autor demonstra como as estruturas sociais e institucionais contribuem para a naturalização de divisões de gênero, fazendo com que determinadas posições, competências e atribuições sejam percebidas como mais adequadas a homens ou a mulheres. Nessa perspectiva, as instituições atuam como espaços privilegiados de reprodução das hierarquias sociais, reforçando disposições e classificações que tendem a perpetuar desigualdades de gênero ao longo do tempo.
Da mesma forma, políticas de licença parental, critérios de promoção profissional, práticas de contratação e formas de distribuição de cargos podem atuar como mecanismos que reforçam desigualdades, mesmo quando se apresentam sob a aparência de normas universais e objetivas. O resultado é a naturalização de diferenças que, na realidade, são historicamente construídas e continuamente reproduzidas no interior das instituições.
West e Zimmerman (1987) destacam que esse processo não se sustenta apenas por meio de formas explícitas de coerção. Em muitos casos, a reprodução das hierarquias ocorre através de sanções sutis, nem sempre facilmente perceptíveis à primeira vista. Essas práticas atuam de forma discreta, mas constante, regulando condutas e reforçando expectativas socialmente compartilhadas.
A eficácia dessas sanções está justamente em seu caráter difuso e cotidiano. Elas produzem conformidade não porque se manifestem sempre de maneira agressiva ou abertamente coercitiva, mas porque se apresentam como parte natural da rotina institucional. É desse modo que o gênero se reproduz com tanta força, transformando expectativas sociais em hábitos, hábitos em normas e normas em evidências aparentemente incontestáveis do que seria considerado “natural”.
Nesse ponto, a diferença em relação a Goffman (1956) torna-se ainda mais evidente. Enquanto o sociólogo norte-americano se dedicava a compreender os mecanismos que sustentam a estabilidade de uma interação específica, West e Zimmerman (1987) deslocam a atenção para a forma como as instituições participam da produção cotidiana das desigualdades de gênero. A questão já não se resume a entender como os sujeitos conseguem manter uma situação socialmente inteligível, mas passa a envolver a análise dos processos pelos quais determinadas formas de organização social fazem com que a divisão entre homens e mulheres seja percebida como algo espontâneo, necessário e praticamente inevitável.
Nessa perspectiva, o gênero deixa de ser compreendido apenas como um conjunto de expectativas direcionadas aos indivíduos e passa a ser concebido como um sistema de classificação e distribuição social. Trata-se de um mecanismo que organiza, de maneira desigual, o acesso a recursos, posições e formas de reconhecimento, contribuindo para a manutenção de hierarquias que se reproduzem tanto nas interações cotidianas quanto nas estruturas institucionais mais amplas.
Essa perspectiva, de acordo com West e Zimmerman (1987), assume especial relevância porque impede que a análise do gênero fique limitada ao campo das escolhas individuais ou das performances circunstanciais. Quando se observa o funcionamento de instituições como a escola, o mercado de trabalho, a família ou a administração pública, torna-se evidente que o gênero está incorporado à própria lógica que orienta essas estruturas. Ele se manifesta na composição dos espaços de poder, na distribuição de responsabilidades, na organização dos ambientes e até mesmo nas formas de linguagem utilizadas para atribuir competências, autoridade e legitimidade.
Em outras palavras, o gênero não é apenas encenado ou representado no interior das instituições; ele é continuamente produzido por elas. E é justamente esse processo permanente de produção que faz do gênero um dos elementos centrais na sustentação das hierarquias entre homens e mulheres, contribuindo para que determinadas desigualdades sejam reproduzidas e naturalizadas ao longo do tempo.
4. QUANDO O PALCO É O MUNDO: A SUPERAÇÃO DA METÁFORA TEATRAL
A distinção estabelecida por Goffman (1956) entre palco e bastidores abre espaço para compreender a vida social como um conjunto de apresentações alternadas, nas quais os sujeitos ajustam sua conduta de acordo com os níveis de visibilidade e controle presentes em cada situação. A força dessa metáfora está justamente na ideia de que existiria, em algum ponto, um espaço de relativo respiro, onde a performance poderia ser parcialmente afrouxada e as exigências da cena pública deixariam de operar com a mesma intensidade.
Seria, em tese, um momento em que os indivíduos poderiam suspender temporariamente as expectativas associadas à representação social e se aproximar de uma forma mais espontânea de si mesmos. É exatamente essa possibilidade que West e Zimmerman (1987) colocam em questão ao direcionarem sua análise para o gênero. Quando a atenção se volta para o doing gender, a expectativa de um bastidor livre da lógica da performance mostra-se cada vez mais difícil de sustentar.
Isso ocorre, em primeiro lugar, porque a classificação por sexo atua de forma contínua e atravessa os mais diversos contextos da vida social. Em todos os momentos, os sujeitos são socialmente percebidos como homens ou mulheres, e essa leitura não se encerra quando uma interação formal termina. Mesmo em situações geralmente associadas ao âmbito privado, à intimidade ou à ausência de formalidades, a categorização de gênero continua operando. Maneiras de se vestir, falar, sentar, gesticular, rir ou permanecer em silêncio são práticas atravessadas por expectativas socialmente construídas, que tornam qualquer afastamento em relação ao padrão esperado algo passível de observação e interpretação.
Nessa perspectiva, deixar de performar o gênero de maneira convencional não significa interromper esse processo. Ao contrário, implica produzir uma forma distinta de conduta que também será percebida, interpretada e avaliada a partir das referências normativas disponíveis. Em outras palavras, mesmo aquilo que se apresenta como recusa ou distanciamento em relação às expectativas dominantes continua sendo compreendido dentro dos quadros sociais que organizam e atribuem sentido às expressões de gênero.
Além disso, os contextos marcados por maior proximidade afetiva costumam ser, paradoxalmente, aqueles em que as exigências de conformidade se fazem sentir com mais intensidade. Vestiários, encontros familiares, conversas entre amigas, almoços de domingo e outros espaços de convivência cotidiana frequentemente funcionam como ambientes privilegiados de vigilância difusa. Isso ocorre porque os indivíduos que compartilham essas relações conhecem os códigos que organizam a interação e dispõem de recursos mais eficazes para influenciar e regular comportamentos.
Amigos, familiares e parceiros não apenas observam a conduta uns dos outros, mas muitas vezes participam ativamente de sua regulação por meio de correções, ironias, expectativas não verbalizadas ou comentários que parecem banais à primeira vista. Dessa forma, aquilo que poderia ser percebido como um espaço de maior liberdade acaba se convertendo em um dos contextos mais intensos de reprodução e reafirmação das normas de gênero.
É justamente nesse ponto que a distinção entre palco e bastidores, proposta por Goffman (1956), perde parte de sua capacidade explicativa quando transposta para a análise do gênero. Na perspectiva goffmaniana, uma falha na performance poderia gerar constrangimento, demandar algum esforço de recomposição da situação e, posteriormente, ser superada sem comprometer de maneira profunda a continuidade da vida social. Em West e Zimmerman (1987), contudo, a questão assume outra dimensão. O problema não se restringe à gestão de momentos de embaraço, mas envolve a manutenção de um regime permanente de responsabilização, no qual as condutas são constantemente avaliadas a partir das expectativas associadas ao que significa ser homem ou mulher.
Nessa perspectiva, o gênero não aparece como um papel acionado apenas em determinadas circunstâncias. Trata-se de uma prática contínua, que atravessa os diferentes espaços da experiência social e influencia a maneira como os sujeitos são percebidos, avaliados e posicionados. É justamente por operar de forma tão persistente que o gênero participa ativamente da produção e da reprodução de desigualdades que tendem a se manter ao longo do tempo.
Desse modo, a questão deixa de ser compreender como a sociedade preserva sua ordem por meio de performances adequadamente ajustadas às situações de interação. O foco se desloca para outro problema: de que forma a desigualdade de gênero é continuamente produzida, legitimada e naturalizada nas interações mais corriqueiras, nos espaços institucionais e nas rotinas que organizam a vida cotidiana? A contribuição de West e Zimmerman (1987) ganha força justamente por direcionar a atenção para esses processos aparentemente banais, mas profundamente eficazes na reprodução das hierarquias sociais.
A potência de sua crítica reside em mostrar que o palco não se restringe à esfera pública nem desaparece quando uma interação formal chega ao fim. No caso do gênero, não existe um espaço claramente separado em que as exigências da performance possam ser suspensas. O palco corresponde ao próprio mundo social, em toda a sua extensão, e é nele que as hierarquias de gênero são constantemente reproduzidas, ajustadas e refinadas, até adquirirem a aparência de algo evidente, natural e incontestável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A leitura de The Presentation of Self in Everyday Life (1956), e, posteriormente, de Doing Gender (1987) permite perceber como as ciências sociais avançam também por meio de deslocamentos teóricos, isto é, pela retomada crítica de ferramentas analíticas já consolidadas para a interpretação de novos problemas. West e Zimmerman (1987) não rompem com Goffman (1956) nem descartam sua contribuição. Ao contrário, partem de suas formulações para ampliar o alcance da análise da performance, direcionando-a para um campo que não havia sido explorado por ele com a mesma profundidade: a produção social do gênero.
O que está em jogo nesse movimento não é a simples substituição de um autor por outro, mas a reformulação de uma perspectiva analítica capaz de evidenciar, ao mesmo tempo, as continuidades e os limites existentes entre duas abordagens fundamentais para a compreensão da vida social. Ao retomarem criticamente os conceitos goffmanianos, West e Zimmerman (1987) demonstram como uma mesma tradição teórica pode ser reorientada para iluminar aspectos distintos da realidade social.
Goffman (1956) ofereceu uma forma particularmente produtiva de compreender a interação social ao demonstrar que a identidade não existe previamente aos encontros como uma essência pronta e acabada. Ao contrário, ela se constitui no próprio processo de relação com os outros. Suas reflexões sobre a apresentação de si, a definição da situação e o trabalho de manutenção da face deslocaram a atenção das supostas interioridades fixas para as práticas concretas pelas quais os sujeitos se tornam inteligíveis e socialmente reconhecíveis. Com isso, abriu caminho para uma compreensão da vida social centrada nos processos cotidianos de construção da ordem interacional.
West e Zimmerman (1987) retomam esse conjunto de ferramentas analíticas, mas o direcionam para a questão do gênero, e ao fazê-lo, mostram que a metáfora dramatúrgica, embora extremamente útil para compreender a dinâmica das interações, não basta para explicar como as diferenças entre homens e mulheres são continuamente produzidas, reforçadas e naturalizadas. Sua contribuição consiste justamente em evidenciar que o gênero não opera apenas como uma performance situada, mas como um processo social permanente que ultrapassa os limites da cena interacional e se articula às estruturas mais amplas da vida social.
É justamente nesse ponto que a crítica de West e Zimmerman (1987) assume sua forma mais contundente. Ao formularem o conceito de doing gender, os autores demonstram que o gênero não pode ser concebido como um papel acionado ou suspenso conforme as circunstâncias, tampouco como um atributo que se manifesta apenas em determinados contextos. O gênero atravessa as interações mais comuns da vida cotidiana, estrutura expectativas recíprocas e funciona por meio de um processo permanente de responsabilização social. Dessa forma, ele se mantém presente mesmo quando não é explicitamente mencionado, orientando avaliações, comportamentos e formas de reconhecimento.
Nessa perspectiva, cada gesto, cada palavra e cada ajuste de conduta em relação ao que se espera de alguém identificado como homem ou mulher contribui para a reprodução de uma ordem social marcada pela desigualdade. O gênero, portanto, não se limita a descrever identidades ou diferenças entre indivíduos. Mais do que isso, atua como um mecanismo por meio do qual hierarquias são continuamente produzidas, reafirmadas e naturalizadas no cotidiano das relações sociais.
A força analítica dessa formulação reside em evidenciar que as desigualdades de gênero não se mantêm apenas por meio de instituições formais ou de normas explicitamente estabelecidas. Elas também são produzidas e reproduzidas por práticas rotineiras, muitas vezes percebidas como banais, que acabam conferindo legitimidade à distribuição desigual de poder, reconhecimento e recursos. É justamente nesse plano do cotidiano que o gênero se torna particularmente eficaz, pois opera de maneira discreta, incorporando-se às formas mais comuns de interação e organização social.
O palco, portanto, não se restringe ao espaço visível da exposição pública. Ele se estende às interações do dia a dia, às rotinas institucionais e aos mecanismos difusos por meio dos quais a desigualdade passa a ser percebida como algo normal e esperado. Ler Goffman a partir de West e Zimmerman, assim como reler West e Zimmerman à luz de Goffman, permite compreender que o mundo social é continuamente produzido por performances. Permite perceber, também, que essas performances estão longe de ser neutras, uma vez que participam ativamente da construção, da manutenção e da legitimação de relações desiguais de poder.
Referências Bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
GOFFMAN, Erving. The presentation of self in everyday life. Edinburgh University of Edinburgh: Social Sciences Research Centre, 1956. Disponível em: http://cdclv.unlv.edu/ega Acesso em: 01 jun. 2026.
WEST, Candace; ZIMMERMAN, Don H. Doing gender. Gender & Society, Thousand Oaks: Sage, v. 1, n. 2, 1987, p. 125-151.
[1]
Doutorando em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). Pedagogo no setor de Apoio Psicológico e Pedagógico da Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (ProAC) da Uenf. Membro do Grupo de Estudos Étnico-Racial e Educação Especial (Geere) da Univerisdade Federal do Espírito Santo (Ufes-Alegre) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Uenf. E-mail: m_ateusaugusto@hotmail.com.
