Isaac Camargo (2011, p 207) afirma que “representar é dar a alguma coisa o sentido de outra”. É possível remover do esquecimento fatos e experiências, reafirmar sentidos e sensações, rememorar expressões de fé, de alegria, tristezas, traumas, através de elementos que evocam lembranças, “na medida em que possibilita a condensação de dados e informações fenomênicas e factuais da ocorrência a qual” se referem.

Fotografia 1: Trecho da Praça São Sebastião ornamentada com os tapetes para a procissão de Corpus Christi. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.

Fotografia 2: João Vitor e Nicoli me acompanharam na jornada de pesquisa. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos
Percorri numa tarde em 7/06/2012, com meu filho João e minha sobrinha Nicoli, ainda escrevendo sobre a temática da dissertação de mestrado, as ruas do centro da cidade de Três Rios/RJ, para observar e fotografar os tapetes de Corpus Christi, tradição católica presente em diversas localidades brasileiras.
Diante das construções artísticas populares de manifestação da fé de muitos, as imagens movimentaram lembranças de um período quando, participando com outros alunos do Colégio Entre-Rios, passávamos a noite preparando os tapetes que seriam pisoteados pela procissão do dia seguinte. Lembranças que permitiram sensações de paz e saudade.


Fotografias 3 e 4: Imagem do Cristo com a côroa (Rei dos Judeus) e a Cruz formada por fotografias de indivíduos pobres atendidos em hospitais públicos, ornamentando o tapete para a procissão de Corpus Christi. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.
Informou-me a Profª Ezilma Teixeira por e-mail:
Os tapetes começaram a ser feitos no final dos anos 70. O roteiro inicial era: Rua da Bandeira, Rua Marechal Deodoro, Rua Sete de Setembro, Praça da Autonomia, Rua Rita Cerqueira, Rua XV de Novembro, Rua Gomes Porto, Praça São Sebastião, terminando [como ainda hoje] na Igreja Matriz de São Sebastião. O vigário que organizou era o padre Conrado Neidarth, participaram muitas instituições daqui. No princípio acontecia até uma cobertura da grande mídia.

Fotografia 5: Representação do gesto de João Paulo II de beijar o solo de um país que visitava, símbolo contemporâneo anexado a tradição dos tapetes da procissão de Corpus Christi. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.
O efeito que cada símbolo concebido causa, é proporcional ao(s) sentido(s) apreendido(s) por cada pessoa ou grupo de indivíduos, e que, principalmente naqueles afeitos as manifestações cristãs católicas, extrapolam a simples condições de representação. Entendo que as memórias e as lembranças são constituídas nas experiências de relações sociais e nas diversas formas de manifestação e percepção destas experiências, bem como, de fatos e situações do cotidiano, podendo ocorrer entre sujeitos no mesmo tempo ou em tempos e espaços distintos. Um olhar para estas imagens “estendidas em tapetes”, permite visualizar uma complexa interação de redes de relações culturais e sociais que avançam no espaço e tempo históricos, na medida em que são enunciadores dos discursos e expressões de grupos sociais diversos.

Fotografia 6: Símbolos tradicionais da fé cristã católica no tapete para a procissão de Corpus Christi, na Rua Duque de Caxias, centro de Três Rios/RJ. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.
Percebe-se que existem no trabalho realizado na minha cidade, símbolos tradicionais cristãos, como a cruz, o pão, o peixe, a imagem do Cristo, o cálice, a hóstia, o carneiro e a pomba, misturando-se, com outros, mais contemporâneos, como aqueles que remetem ao trabalho, a política, aos movimentos populares e as atividades assistenciais da igreja – fotografias 9, 10, 11 -, as campanhas da fraternidade e para doação de sangue, e a que mostra o papa João Paulo II – registro 5, ajoelhado beijando o chão. Símbolos que remontam aos tempos e tradições da Idade Média e aos pensamentos, ideologias e movimentos políticos e sociais da atualidade.
As representações e expressões da fé não se mostram estáticas com o passar dos anos, a tradição da arte dos tapetes de Corpus Christi permanece, mas seus símbolos renovam-se. Desta maneira, o historiador que elege estudar essa arte, considerando-a enquanto representação cultural de uma sociedade, encontrará na imagem elementos importantes – fontes históricas -, registradas e perpetuadas nos nas imagens, para reconhecer as esferas sociais, culturais, econômicas e políticas, relacionando, entendendo e ressignificando os discursos de poder, as formas de expressão cultural e religiosa, e as representações diversas das memórias de indivíduos e grupos sociais de outros tempos históricos.
É possível observar os diversos movimentos vinculados a Igreja Católica representados nos tapetes, e naquela oportunidade foi possível observar: Escola Rosa Azul, Movimento de Cursilho de Cristandade, Paróquia Santa Luzia, Paróquia São José Operário, Grupo de Jovens Filhos de Maria, Legião de Maria, Comunidade São João Batista, Comunidade Nossa Senhora do Rosário, Comunidade do Sagrado Coração de Jesus, Comunidade São Francisco de Assis, Santuário de Nossa Senhora de Fátima, Imaculada Conceição e Liga Católica, Grupo de Oração Nossa Senhora da Libertação, Associação Luz do Amanhecer, Pastoral da Criança e Comunidade Santa Terezinha, Capela Nossa Senhora das Graças, Comunidade Nossa Senhora da Piedade e Movimento Familiar Cristão.


Fotografias 7 e 8: Exemplos da participação dos diversos movimentos vinculados a Igreja Católica. Registro de 7 de junho de 2012, acervo André Mattos.
Os sentidos que as imagens dos tapetes de Corpus Christi produzem “na relação que exerce no contexto cultural com a qual dialoga” (CAMARGO. 2011, p 209), possibilitam a construção de uma narrativa histórica. “Não basta à imagem estar no lugar de outra coisa, mas ser capaz de expandir suas possibilidades de significação” (CAMARGO. 2011, p 209) , de ser o registro da experiência social, bem como, testemunho de memórias e lugares de lembranças.



Fotografias 9, 10 e 11: Temas atuais ligados aos movimentos sociais da Igreja Católica também são representados nos tapetes.
Finaliza suas reflexões a Profª Ezilma:
Com o tempo o evento foi perdendo força, principalmente no final dos anos 80, (…) Aos poucos ela começou a ser restabelecida, mas com um roteiro muito menor, poucas instituições e quase nenhuma ajuda oficial. Uma vez, no final dos anos 90 as ruas já estavam decoradas quando caiu uma chuva muito forte e destruiu todo o trabalho. (…) Outra coisa que acontecia no início dos tapetes: além dos cinco altares para a benção do Santíssimo, em vários pontos do percurso, as famílias católicas enfeitavam suas janelas e portões com toalhas bonitas, um quadro ou uma imagem sacra. Um legado muito importante desse acontecimento foi que Três Rios inspirou outros município satélites (Paraiba do Sul, Comendador Levy Gasparian, Areal, Santana,etc, a também decorarem as suas ruas).


Fotografias 12 e 13: A frente da Igreja Matriz de São Sebastião também ornamentada e uma imagem aérea de um trecho do tapete na Praça São Sebastião.
A procissão encerra-se a frente da Igreja Matriz de São Sebastião onde se realiza a missa até os dias de hoje. Aos poucos a tradição foi se “renovando” mantendo a participação popular e suas representações e simbolos. Apenas o percurso deixa de passar pelas ruas do centro da cidade, com os tapetes sendo confeccionados no entorno da Praça São Sebastião.
Para saber de outra procissão com participação popular que se realizava nas décadas de 50 e 60 do século passado, leia – A procissão do Sr José Pinto, acesse: https://revistacontemporartes.net/2023/12/18/a-procissao-do-sr-jose-pinto/
Referência:
CAMARGO, Isaac Antonio. Imagem: representação versus significação, apud, Imagem em Debate, organização GAWRYSZEWSKI, Alberto. Eduel. Londrina/PR, 1. ed. 2011.
Ezilma Teixeira, é filha de João Batista Teixeira e de Cecília Garcia Teixeira, nasceu em Três Rios (RJ), onde ainda reside. Graduada em História pela Universidade Severino Sombra, apresenta em sua formação acadêmica alguns cursos de pós-graduação, como Docência do Ensino Superior, Psicopedagogia, e outros de extensão universitária voltados ao aperfeiçoamento da sua graduação de origem. Professora de História faz parte do Conselho Municipal de Educação de Três Rios. É membro efetivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos, de São Paulo e da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), Delegacia de Minas Gerais. É sócia representativa do Rotary Clube Três Rios Beira Rio, onde atualmente chefia a Comissão de Relações Públicas, cumulativamente com a Comissão de Meio Ambiente. Envolvida com a política cultural da região, fez parte do grupo que em 1997 fundou a Casa de Cultura de Três Rios. Escritora, jornalista – colunista do periódico “Entre-Rios Jornal”, pesquisadora e historiadora, têm diversos trabalhos publicados e editados sobre a história da região, sendo os mais recentes: Aprendendo nossa Terra – livro didático editado em 2004 e adotado pelas escolas municipais e particulares de Três Rios.Editora Editar – Juiz de Fora (MG); e Era uma vez… – História – editado em 2005 – Editora Editar – Juiz de Fora (MG).
