AS DIVAS DOS AUDITÓRIOS DA RÁDIO NACIONAL

Maria Letice de Siqueira Aguiar

Os auditórios da PRE-8

Ela é fã da Emilinha

Não sai do César de Alencar

Grita o nome do Cauby

E depois de desmaiar

Pega a revista do rádio

E começa a se abanar.

           Carequinha (1957)

A presença dos ouvintes nas emissoras causava mais calor à programação. No programa de calouros, aqueles que se apresentavam aos ouvintes em audição para a crítica especializada dos jurados e à crítica popular. O Programa radiofônico transmitido pela Rádio Nacional representava o lugar de confirmação do dom e de desenvoltura, a voz para ser considerado um cantor ou uma cantora. 

Para análise deste contexto, destacamos o Programa do radialista Henrique Foreis Domingues, conhecido como “Almirante” (“a mais alta patente do rádio”). Esta produção radiofônica foi muito importante para a Rádio Nacional, mas logo depois o “Almirante” levaria seu Programa para a Radio Tupi, onde desenvolve metodologia da programação com criação de roteiros.

Os programas de auditório foram muito importantes para o sucesso da Rádio Nacional, porque ali era o espaço físico de interação social com a grande audiência, considerando ser um espaço onde este público conseguia ver os grandes nomes da época, seja dos radialistas ou dos reis e rainhas, esses nomes que já faziam parte dos cotidianos da sociedade brasileira, integrando-se ao imaginário político e pessoal dos ouvintes naquele contexto. O sucesso desse fenômeno demonstra a dimensão social e política do auditório. Emilinha Borba1 conta a seriedade com que eram tratados, citando ensaios:  “de 1h da tarde até às 17h” para programas como “A Felicidade Bate na Porta”, e mostrando a potência do programa de César Alencar “os fãs do programa chegavam às quartas ou quintas para conseguir comprar, pela manhã ficam na frente do edifício para comprar ingresso para sábado.” Em 1942 a Nacional entrava no ar para transmitir programas diários em quatro idiomas, fazendo a divulgação metodizada da música e do folclore brasileiro lado a lado com a propaganda constante dos principais produtos do país (GOLDFEDER,1985)

As relações sociais se estabelecem como os indivíduos se apresentam e se mostram na coletividade, é construído um eu pela interação com o outro e a partir do conjunto de expectativas do outro. Goffman (1985), aponta que muitos fatos decisivos estão além do lugar e do tempo na interação, portanto muitas conclusões sobre aquele indivíduo serão retiradas indiretamente a partir do comportamento expressivo involuntário. Os programas de auditório se configuram, como grandes palcos de observação de mudança do convívio em sociedade, especialmente por dar espaços para a interação do artista com o público.

A conexão principal estabelecida era entre os reis e rainha dos programas de auditório. A presença de figuras como Emilinha Borba, quando aparecia no palco, eram quase santificadas, até hoje alguns fãs ainda a chamam de minha santinha. Os brasileiros já se sentiam representados pelo meio de comunicação. Nesse sentido, “a Cultura é uma produção, parte de nós é social e cultural, são os significados compartilhados culturais que compõem os seres humanos.” (HALL,2016). O rádio criou e permitiu, digamos, uma intimidade entre o público e os astros. Os auditórios materializaram a conexão entre os astros e o público tornando o acesso mais fácil, sendo um espaço de convivência onde o ouvinte podia entregar um presente ao seu ídolo preferido ou ganhar um abraço e momentos de conversa.

Os fã-clubes que começaram a existir ainda na década de 1940 estavam mais organizados nos anos 50 e acompanhavam os seus ídolos através de qualquer aparição em público. O auditório da Rádio Nacional era o ponto de encontro preferido dos fãs, mesmo porque era ali, no palco da emissora, que estavam as vozes mais cobiçadas do momento. (SAROLDI, 1985) 

A preservação de valores constitui-se como cultura e política de articulação. Apresentando, como essas situações supracitadas, estão vinculadas a formação de gostos ou internalização de preferências dentro de uma sociedade.  Estamos a todo tempo produzindo, reproduzindo, formando, reformando, performando cultura. Portanto, é importante estudar a cultura, se os valores preservados são da classe dominante, as ideias transmitidas também, questionamos como os indivíduos podem se reconhecer em uma sociedade. A multiplicidade de estilos do rádio, que permitiria o aparecimento de gente de todos os talentos. 

A vestimenta dos cantores, atores e radialista também deveriam ser a rigor2, como conta Daisy Luci, vestido longo, nem se podia entrar de calça jeans e os homens de smoking. Não se podia entrar de calça jeans pelo dia, na parte interna da emissora. Tudo era visto com muito rigor, afinal tudo deveria sair perfeito, o público ficava ali observando seus cantores e cantoras favoritos.
Os programas de auditório são essenciais para compreender o eixo entre política, cultura e mídia no Brasil.  Podem dizer tanto de nós mesmos como da nossa relação com o mundo, por isso eles são objetos de estudos importantes sobre a dimensão da nossa experiência humana, como nos lembra Silverstone (2002). (SANTOS, 2014). 

As experiências vivenciadas nos auditórios nos anos de ouro do rádio no Brasil, são importantes no contexto de um país passando por diversas mudanças, como o governo autoritário de Vargas. Os ambientes das emissoras se transformaram de diversos usos para sociedade, sendo mecanismos de conseguirem chegar em lugares muito distantes do que onde estavam as emissoras por permissão das ondas curtas. Conforme aponta Lia Calabre,  “muitos dos programas radiofônicos resgataram e divulgaram produções culturais locais em âmbito nacional.”

O fenômeno demonstrava um claro descompasso entre o gosto da elite intelectual e o consumo cultural popular, pois para os fãs, os ídolos do rádio precisavam ser vistos e, se possível, tocados. (CALABRE,2002). Os auditórios da Nacional, tinham um formato de modelo, que era cobiçado por diversas emissoras, pois seus horários eram extremamente valorizados pelas agências de patrocínio. De início gratuito, o ingresso do programa de auditório passou a ser pago e mais tarde usou-se deste artifício (aumento do preço do ingresso) para uma seleção social dos frequentadores do auditório. (Miriam Goldfeder,1980, p. 153)

O sujeito pós-moderno é composto por diversas identidades, sem identidade fixa essencial ou permanente, o que poderíamos chamar de identidade em trânsito. O contexto contemporâneo ao qual estamos inseridos é muito plural e diverso. A comunicação é um dos principais meios pelos quais expressamos nossa racionalidade. 

A Rádio Nacional tinha mais de oito maestro, sua orquestra sinfônica dividia em várias configurações, seu estúdio de rádio teatro, seu elenco esportivo, seu elenco de radiojornalismo e tinha finalmente seus animadores, tudo isso demonstrava um luxo muito grande para a época. 

Os espaços proporcionados pela Rádio Nacional, levou a esse público um lugar de reconhecimento. No sentido de encontrar pessoas que têm o mesmo gosto que você, estar junto do seu artistas que muitas vezes só se pode ver em fotos nos jornais, ou na Revista Rádio. Esses espaços se mostram um grande campo onde a emissora poderia ainda mais lucrar, visto que essas pessoas pagam para estar perto de seus ídolos. Sendo assim, com as irradiações se colocou no Brasil inteiro através dos sinais, mas foram nos auditórios em que as pessoas integraram os programas juntamente com os artistas. 

O que permaneceu no Brasil mesmo com o declínio do rádio com a chegada da televisão. A relação entre fãs e artistas, nesse período, era marcada por uma emoção intensa e um caloroso afeto, criando um vínculo quase de devoção com os “reis” e rainhas” da radiodifusão. O auditório funcionava como o ponto central dessa paixão, sendo o ponto preferido dos fãs.

 “Nós somos as cantoras do rádio, levamos a vida a cantar…”

O universo radiofônico estava impregnado de todo tipo de estereótipo: era o lugar da fama e da ascensão social, e ao mesmo tempo o ambiente da marginalidade e dos marginais, proibido às pessoas de “boa família”. (CALABRE,2002)  O estigma da vida artística, a associação com a boemia e o motivo pelo qual era “proibido” para a “boa família”. Estamos falando do Brasil de 1940 a 1950, o conservadorismo se mostra presente de várias formas, essa junção de costumes e hábitos, presentes no conservadorismo, já estariam presentes dentro da mente da população brasileira, sendo só potencializada. 

Foram diversas as declarações da cantora (Emilinha) em seu diário em que ela justificava o fato de não aparecer de biquíni em público, não sambar como Marlene, não falar alto, não gostar de sair à noite e preferir ir ao cinema a ir às boates (BORGES,2017). As declarações apresentadas pela autora sobre Emilinha, estão evidentes em diversas das páginas da Revista do Rádio, principalmente na coluna sobre a cantora. A imagem que a mesma tentava passar ao público era de uma mulher que cantava na rádio e uma esposa exemplar que não posava de biquíni para revistas, que sempre estava vinculada a boas causas envolvidas na religião. 

Nos fã-clubes, na revista da rádio, eram alimentadas pela  disputa entre as cantoras. A performance das artistas no palco, permitia com que a revista do rádio criasse narrativas sobre a vida dessas mulheres. Tudo era motivo para ser noticiada, uma volta de bicicleta na praia, uma ida ao hospital, todas as ações eram potenciais notícias da vida desses artistas, principalmente das divas. 

A construção do concurso de rei e rainha da rádio, se demonstra um grande artifício para a popularização ainda mais dessas mulheres. E era uma maneira de aproximar o público ainda mais da emissora, tendo em vista que sua participação era crucial nesse momento. 

Em 1949, temos o grande concurso, que entrou para a memória de muita gente que pesquisa ou é apaixonado pelo rádio. Tendo início, como concurso nacional de Rainha do Rádio ainda na década de 1930, pela Associação Brasileira de Rádio (ABR). Eram eventos de grande popularidade. 

O aumento da popularidade dos artistas, somado à disputa pelos títulos de Reis e Rainha, dividia os fãs em enormes torcidas organizadas, que acompanhavam seus ídolos nos programas e excursões, além de arrecadar verbas para que durante todo ano houvesse festas e presentes para o artista. Os astros mais renomados chegavam a ter mais de um fã-clube. Foram famosos os de Emilinha, Marlene, Ângela Maria, Dalva de Oliveira e Cauby Peixoto, mas as disputas mais acirradas de fã-clubes ocorreram entre os adoradores das cantoras Marlene e Emilinha Borba.  (CALABRE, 2001)

A revista do rádio utilizou da vitória de Marlene para noticiar mais uma vez a rivalidade existente entre as duas cantoras. O título sendo “Emilinha Borba queria ser a Rainha do Rádio… e não se conformou com a  vitória de Marlene”. A página poderia ser apenas contando como foi o concurso, como se deu os votos e a vencedora, mas utilizar da rivalidade, vendia mais e é uma forma de trazer os fãs das duas cantoras para comprar a revista. 

Marlene3 era um novo rosto na radiodifusão, nascida em família religiosa, que não acreditava na carreira como cantora. Começou a cantar na igreja em que sua família frequentava, sempre teve gosto pela música e por cantar. Paulista, que vai para o Rio de Janeiro tentar o seu sonho,  inicia cantando nos cassinos, por um convite de um produtor, depois começou a cantar na Urca, e assim contratada pelo Copacabana Palace. Foi em 1948, que teve o convite de participar do concurso de rainha da rádio, mas o Palace não queria, porque a cantora iria se tornar popular, e lá ela só contava para a elite. Essa rivalidade, se concentrava muito nas gravadoras de disco e no âmbito do fã clube, em suas vidas pessoais, as cantoras dizem que não as afetam.

   Figura 1: Página da Revista do Rádio de 1949 após ao concurso de Rainha do Rádio

Para 1949 a favorita era o nome de Emilinha Borba, a maioria das pessoas acreditavam em sua vitória. Marlene4 conhecida ainda apenas no meio da elite carioca, que frequentava onde ela cantava, nem sonhava que poderia ganhar o concurso, mas para sua surpresa, a Antarctica, viu na cantora um potencial para o lançamento de um novo produto, uma nova cantora, os donos da marca já conheciam a artista, por suas idas ao Copacabana Palace. 

Os votos custavam 1 cruzeiro cada um, podendo o público adquirir à vontade as cédulas que desejasse, foram arrecadados cerca de um milhão de cruzeiros, neste concurso. Como ninguém esperava a vencedora foi a Marlene, conseguindo 529.982 votos e sua candidatura teve o patrocínio do Guaraná Champagne da Antarctica, a empresa deu um cheque em branco para cobrir todos os votos para a cantora. 

Emilinha Borba5 chegou em 3° lugar, desgostou profundamente com isso e retirou-se da apuração final antes de terminar a contagem. Suas fãs também não perdoaram o acontecido, demonstrando grande insatisfação, visto que Emilinha era a favorita das forças armadas brasileiras. A partir desse momento a rivalidade começa a marcar diversas histórias entre os fã-clubes das duas cantoras.

As interações permitidas pela presença do público nos auditório das emissoras apresentam muitos relatos de situações vividas, contadas pelos artistas à Revista do Rádio, ou documentários que participaram. Demonstrando um pouco de como se dava o dia -a-dia das gravações e a interação com o público. Marlene, uma das divas da rádio da época, contou em entrevista, quando foi atacada na saída de uma gravação por uma fã de Emilinha, sua rival, pelas disputas de popularidade. 

Na saída do elevador da Rádio Nacional, após o programa, com Venilton Santos de um lado e Luís Delfino de outro, vi uma linda menina que estava me esperando, loura, com tranças enormes. Ela olhou para mim com uma cara tão meiga, pedinte, que pensei: “Aquela menina, naturalmente, está encabulada, quer um autógrafo. Deixa eu ir lá falar com ela.” Delfino não quis saber da história: “Nada disso. Vamos direto para casa. Você já fez o programa, está muito cedo para ficar badalando.” E isso com os seguranças da rádio por perto. Tive uma peninha da menina… Resolvi ir até lá, não custava nada… Quando cheguei perto dela, ela fez assim: segurou meu rosto e, de surpresa, me deu uma joelhada por baixo da barriga. Era fã da Emilinha. Voltei para o hospital. (AGUIAR,2010)

A carreira das duas cantoras, sempre foi marcada por essa rivalidade, que os próprios fãs cultivavam no cenário nacional. Essas mulheres foram figuras notáveis no Brasil, os auditórios da Nacional permitiram que isso acontecesse. O repertório diverso que elas cantavam nos programas, fazendo com a música popular fosse irradiada para todo o Brasil em suas vozes e a rivalidade dava uma pitada de pertencimento aos fãs. 

Conta Rodrigo Faour6 “Eu fui ver um show da marlene com as gatas no CCBB, nos anos 90, era carnaval, ela cantava repertório de carnaval inteiro, inclusive música celebrates pro emilinha, mulata da bossa nova, se a canoa não virar. quando ela cantava essas músicas eu vi fã dela emburradas, não cantavam, se recusava a cantar.” A popularidade era nacional, tem quem diga que essas cantoras foram as primeiras cantoras de massa no Brasil. Demonstrando que mesmo com o passar dos anos aquelas pessoas que amavam suas divas, ainda guardam o carinho por essas mulheres. 

Essa forma de fazer parte desse meio radiofônico, mesmo que fosse pelos fã-clubes, se demonstraram em todos os aspectos, sendo na presença nos programas de auditório, ou pelas campanhas que lançava a Revista do Rádio, ao pertencimento ao fã-clubes que tinha sede por todo Brasil. 

Não importava como, tudo era válido para se sentir mais perto de suas amadas artistas, e assim observamos no cotidiano brasileiro a criação de mitos, essas cantoras se tornaram grandes mitos, envolvendo uma imagem idealizada, juntamente com narrativas que o contexto da época permitia que fosse criada, o rádio tem um papel central nessa construção. 

Deve-se, ainda, levar em conta que os ouvintes se apropriam dos bens culturais e dos valores simbólicos transmitidos pelo rádio de forma diferenciada e de acordo com seus interesses. Este ouvinte detém o poder de ligar o aparelho e sintonizar na emissora que atenda suas expectativas e desejos, mudar de rádio ou mesmo desligá-lo, quando determinado programa radiofônico não lhe desperta interesse. Portanto, a formação da identidade nacional pelo rádio deve ser analisada no plural.  Rádio e identidades nacionais: possibilidades e limites do poder político e cultural do veículo (LIMA, 2016)

A Revista do Rádio por sua vez, demonstrava muita esperteza, quando o assunto era se utilizar dessa rivalidade das divas. Não só a rivalidade, mas a maioria de suas capas demonstraram ser dessas mulheres e também desses homens, que aqui não estamos utilizando de objeto de pesquisa, mas que também se mostraram muito importantes para a cena radiofônica. 

Em 1954, a Revista do Rádio lançou uma campanha que levava o ouvinte a ganhar cem cruzeiros por uma frase para a cantora Emilinha ou para Marlene. Para participar desta interessante competição, o leitor deverá remeter uma frase, com 20 palavras no máximo, escrita no cupom abaixo, com letra bem legível7

Na página observamos mensagens como: “Simpatia, beleza, alegria e bondade são quatro palavras que, traduzidas, querem dizer uma só: Emilinha. “ou “Marlene, minha amizade por você é como o sol; uma nuvem pode cobri-lo mas, apagá-lo nunca!”. Eram endereçadas de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, fã e admiradores de todo o Brasil enviavam, O sucesso dessa campanha foi tremendo que a Revista do Rádio nem esperava deixá-la por tanto tempo em ocorrência, mas os fãs encheram a emissora de frases. Essa página presente no trabalho traz para os leitores a mensagem: Temos recebido frases bem feitas, inteligentes, que vêm dificultando sobremodo o trabalho de seleção das 5 melhores da semana.”8

 Esse tipo de campanha era recorrente na Revista e de todos os tipos, como também quando foi lançada a compra de um cupom, no qual o vencedor ganharia uma xícara utilizada por Emilinha. A interação nesse tipo de intervenção é tamanha que o público quer fazer parte, não só pelo prêmio, mas para fazer parte desse meio, ter o seu nome estampado junto aos grandes nomes da época, era algo muito significativo. 

Figura 2: Revista do Rádio publicada em 1954 – Concurso de melhores frases

A Revista da Rádio sabia cativar o público com os mecanismos mais diversos para atrair o público, para suas páginas. As páginas do diário de Emilinha, contavam o dia a dia da cantora, retratado pela própria, são colunas muito comentadas e agraciadas pelos fãs, quanto mais se sentir perto do ídolo era melhor, mais gratificados esses fãs ficavam. 

A popularidade das rainhas do rádio 

A Revista da Rádio foi lançada em 1948, tornou-se uma publicação que acompanhava o crescimento da radiodifusão no Brasil, um dos veículos mais populares do período, focado na vida dos astros, a revista constava, normalmente, de 50 páginas, capa em geral com fotografias de artistas de rádio, principalmente mulheres, e seu conteúdo era dedicado totalmente a assuntos referentes à rádio. (BACCHI & HAUSSEN p. 2, 2001)

Em 1956, os editores trouxeram quantitativo do ano de 1955, que apresentava em números a quantidade de cartas que a Rádio Nacional tinha recebido. Com o destaque na leitura de “Mais de um milhão!”. Um número que em um primeiro momento assusta, mas que demonstra a amplitude na força desses artistas no cotidiano do brasileiro. 

 Figura 4: Revista do Rádio de 1956 com dados de cartas dos artistas da Rádio Nacional 

O número dado pela Rádio Nacional ao olharmos até causa um estranhamento, visto que para um ano, são muitas cartas, são muitas pessoas endereçando recados a emissora. Porém, quando se pensa no tamanho desses artistas para o povo brasileiro da época. Esse número, consegue trazer para os estudos também a amplitude da audiência dos programas da Rádio Nacional, não só a construção desses cantores e cantoras como um mito, mas a audiência que possibilita essa interação entre público e artistas. Na publicação da revista do rádio demonstra a potência que tinha os reis e as rainhas, com Emilinha Borba recebendo 20.445 em 1955, são mais de 50 cartas por dia. Conta a cantora9 em entrevista que na Rádio Nacional recebia cartas de Portugal. Os navios queficavam em alto mar escutavam nossa rádio. Segundo Morin, a cultura de massas segue as normas capitalistas e é destinada a um “aglomerado gigantesco de indivíduos compreendidos aquém e além das estruturas internas da sociedade”. 

Emilinha e Marlene sempre foram as divas mais adoradas e agraciadas da Nacional, em todos os aspectos. Não poderia ser diferente no momento de receber cartas dos fãs, seus fãs espalharam fã-clubes por todo Brasil. Personalidades que eram até mesmo citadas por políticos como personalidades femininas de grande importância para o Brasil. Itamar Franco chegou a dizer que assistia todos os shows de Emilinha. Getúlio Vargas dizia que a cantora era uma grande inspiração para as mulheres brasileiras. 

Era quase que obrigatório que os programas fossem bons e diversos, que chamasse a atenção do público, que fixassem essa atenção, pois a duração deles poderiam variar entre 4 e 6 horas. Com as plateias lotadas, era necessário uma produção que conseguisse prender a atenção da plateia, para que ninguém se sentisse entediado. 

Em pesquisa na Revista do Rádio e a Rádio Nacional, revelam que a rádio conseguiu transcender o âmbito do meio de comunicação. Se estabelece como um fenômeno de massa de proporções que ainda não se entendia no país, sendo capaz de mobilizar mulheres de brasileiras a se tornarem ícones nacionais, como Emilinha e Marlene, e diversos outros que não foram trazidos aqui, mas eram muito importantes para o contexto, que ocupavam um lugar central no imaginário do corpo civil nacional, até mesmo na esfera política. 

Esses artistas se consagraram como grandes personalidades no Brasil, os tornaram figuras incontornáveis na cultura e, por extensão, na política da época.” A potência do rádio na construção do mito das estrelas e na mobilização da audiência, a Rádio Nacional era concebida para permitir que esses cantores se tornassem ícones, e como a grade horária era preenchida para, em última análise, construir o tecido social e a identidade cultural do brasileiro.

  1. BORBA, Emilinha. Nome completo de batismo: Emília Savana da Silva Borba et al. Depoimento para o Projeto Personalidades. In Acervo Fundação Museu da Imagem e do Som (FMIS-RJ), Rio de Janeiro, 20 nov. 1996
    ↩︎
  2. Relato contato no documentário Caminhos da Reportagem | Rádio Nacional: 80 anos no ar. ↩︎
  3. MARLENE: A RAINHA E OS ARTISTAS DO RÁDIO. [S.l.]: [Produtora ou Distribuidora], 2007. 1 DVD: color., sonoro ↩︎
  4. REVISTA DO RÁDIO. Rio de Janeiro: [Cia. Editora Fon-Fon e Seleta], , [1948]-. n. 00014, [Abril] 1949.
    ↩︎
  5.  REVISTA DO RÁDIO. Rio de Janeiro: [Cia. Editora Fon-Fon e Seleta], , [1948]-. n. 00014, [Abril] 1949.
    ↩︎
  6.  TV BRASIL. Sem Censura Especial Divas do Rádio. Rio de Janeiro, 30 ago. 2024. 1 vídeo (aproximadamente 54 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dPKCg9RIIpk. Acesso em: 20 out. 2025.
    ↩︎
  7.  REVISTA DO RÁDIO. Rio de Janeiro: [Cia. Editora Fon-Fon e Seleta], , [1954]-. n. 000262, [Abril] 1949 ↩︎
  8. REVISTA DO RÁDIO. Rio de Janeiro: [Cia. Editora Fon-Fon e Seleta], , [1954]-. n. 000262, [Abril] 1949 ↩︎
  9.  BORBA, Emilinha. Nome completo de batismo: Emília Savana da Silva Borba et al. Depoimento para o Projeto Personalidades. In Acervo Fundação Museu da Imagem e do Som (FMIS-RJ), Rio de Janeiro, 20 nov. 1996 ↩︎

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VALLE, Edmo do. O começo na Rádio Nacional, em 1937… et al. Entrevista concedida a Jairo Severiano e Paulo Tapajós. Acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS), Rio de Janeiro, 2 out. 2025. Material coletado por Maria Letice de Siqueira Aguiar.

Maria Letice de Siqueira Aguiar. Historiadora formada pela Universidade Federal Fluminense, que estudou a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Vincula ao Laboratorio de Eastudos da Imanencia e da Transcendencia (UFF) e laboratorio de Estudos das Direirtas e dos Autoritarismo. Mestranda em Sociologia Política pela Universidade Estadual no Norte Fluminense.

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