“Na Trajano Reis ninguém envelhecia de maneira linear. As pessoas apenas trocavam de bar.” (Epígrafe da Redação)
Há livros que parecem nascer no instante exato em que são publicados. Outros atravessam anos em silêncio, como fitas demo esquecidas em uma gaveta, esperando o momento em que o tempo finalmente lhes conceda escuta. É nesse segundo grupo que se encontra Sobre rugas e músicas, romance de estreia de Rodrigo Medeiros, lançado pela Editora Fissura.
Escrito há cerca de quinze anos, o livro chega agora ao público carregando as marcas do próprio tempo que tematiza: memória, envelhecimento, sonhos interrompidos e os pequenos vestígios que sobrevivem entre gerações. A narrativa acompanha Bruno, jovem músico e produtor que tenta sustentar a possibilidade de uma vida artística enquanto descobre fragmentos da juventude do avô, Chico. Entre cadernos, lembranças e histórias nunca completamente contadas, avô e neto passam a se reconhecer através da música.

Mais do que um romance sobre rock, Sobre rugas e músicas constrói uma reflexão delicada sobre aquilo que permanece quando o entusiasmo da juventude já não ocupa o centro da cena. A música aparece menos como pano de fundo e mais como linguagem de transmissão afetiva, uma espécie de arquivo emocional capaz de atravessar décadas.
O livro dialoga diretamente com a experiência de Rodrigo Medeiros na cena independente curitibana dos anos 2000, especialmente no entorno da Trajano Reis, território simbólico de encontros musicais, noites intermináveis e formação artística alternativa na cidade. Integrante da banda Narciso Nada, o autor começou a escrever o romance entre ensaios, apresentações e o cotidiano de uma geração que viveu o rock autoral local não apenas como estética, mas como forma de convivência e sobrevivência cultural.
O livro parece falar não apenas sobre o rock curitibano, mas também sobre o destino das cenas culturais periféricas ao grande mercado. Músicos, bares, ruas, ensaios e projetos interrompidos formam ali uma espécie de memória subterrânea da cidade. A Trajano Reis surge quase como personagem implícita: não a Curitiba cartão-postal, mas uma Curitiba noturna, improvisada e levemente melancólica, onde arte e precariedade frequentemente dividem a mesma mesa.
O romance de Rodrigo Medeiros se aproxima daquela tradição de narrativas em que a música funciona como arquivo afetivo da existência, território literário explorado por autores como Nick Hornby em Alta Fidelidade. Mas, enquanto Hornby constrói suas cartografias sentimentais a partir da cultura pop inglesa, Sobre rugas e músicas desloca esse eixo para a cena independente curitibana, com seus bares, ensaios, desaparecimentos e pequenas mitologias urbanas.

Essa atmosfera aparece no livro sem nostalgia excessiva. Há uma compreensão madura de que toda cena musical também é feita de precariedade, desaparecimentos e reinvenções. Talvez por isso a narrativa encontre força justamente nos intervalos: nos silêncios familiares, nos projetos abandonados, na arte que insiste em sobreviver apesar do esquecimento.
Embora classificado como infantojuvenil, o romance escapa facilmente das delimitações etárias. Sua escrita acessível convive com questões densas: o reconhecimento tardio, os fracassos íntimos, a velhice, os vínculos familiares e a tentativa, sempre imperfeita, de permanecer sensível em um mundo acelerado.
“É uma literatura despretensiosa. A força do livro está em lembrar que a vida pode ser boa quando a gente se permite vivê-la, apesar das desilusões, da doença, da velhice e das maluquices”, afirma o autor.
A própria trajetória editorial do romance parece espelhar seu tema central. Guardado durante anos antes da publicação, o manuscrito reaparece agora como um objeto de reconciliação com o passado. “Escrevi sobre um personagem que lida com o reconhecimento tardio de sua arte. Sem perceber, fiz algo parecido: o livro ficou guardado por 15 anos. Quando reli, entendi por que precisava publicar: eu não queria esquecer”, comenta Medeiros.

Psicólogo e psicanalista, o autor continua transitando entre literatura e música. Após o encerramento da banda Narciso Nada, lançou um disco solo em 2017 e mantém novos projetos literários inéditos, entre eles Pantanal Particular e Guiratinga.
No fim, Sobre rugas e músicas parece compreender algo que certas canções sabem desde sempre: algumas histórias não envelhecem, apenas mudam de timbre.
Fonte:
Glaucia Domingos (Assessoria de Imprensa) – 41 99909 7837
glauciadomingosassessoria@gmail.com
Bel Liviski – Professora e Fotógrafa, é articulista da coluna INcontros e coeditora da ContemporArtes desde 2010.
