Wanda Camargo
Freud considerava que o princípio da realidade é parte integrante de todos os atos ou pensamentos humanos. Por isso, escolas, quando se preocupam em efetivamente serem espaços de emancipação, precisam deixar de lado a fantasia de que vão possibilitar a seus estudantes tornarem-se milionários, famosos ou sobrepujarem a todos ao redor; isso pode acontecer com uns poucos, mas não é o propósito da Educação, e nem costuma estar ao seu alcance.
O verdadeiro trabalho escolar não está no estímulo à competição, e sim na colaboração. Saber cooperar, ter empatia e solidariedade é uma arte, professores podem ajudar a construir juntos um mundo possível para a vida em conjunto, na qual não é necessário vencer no sentido financeiro acima dos demais, e sim tornar o planeta melhor para todos, sem excessos ou carências, com sustentabilidade e sem disputas insanas.

A vida é mais que a simples meta de ganhar muito dinheiro, pensar com clareza liberta o ser humano deste jugo, um “projeto de vida” – parte do currículo de muitas instituições escolares atualmente – não pode se tornar sinônimo de empreendedorismo econômico, da lógica do mercado que apenas se preocupa com uma planilha de metas para o enriquecimento e as habilidades para atingi-las.
É preciso ir além do discurso motivacional e motivar verdadeiramente para a vida em comunidade, buscar apenas eficiência e eficácia para estar em primeiro lugar sempre não constitui um projeto para todo mundo, e a inovação pedagógica não resultará de nenhuma doutrinação, à direita ou à esquerda. Principalmente para o estudante das camadas mais desfavorecidas, pois este teria que aprender a vencer sozinho, sem família com recursos ou amigos importantes que poderiam auxiliar, teria que desbravar um campo hostil àqueles que não nasceram em berço de ouro, não contaram com recursos materiais para realizar desde cedo muitas viagens, a circular em ambientes culturais, ao acesso a todos os requisitos que prolongam e ampliam o conhecimento escolar.
Meritocracia é bom discurso para todos que contam com uma boa base de partida, mas crianças e jovens submetidos à violência ou falta do básico em casa precisam entender melhor suas vidas e o mundo, a importância da dependência recíproca e o significado do compartilhamento.
Então uma boa escola não deve apenas incluir autores negros, indígenas, estudar países que não ocupam a ponta da lista daqueles mais charmosos e caros, pois embora isso seja necessário, a boa escola não transmite somente as verdades universais, ela escuta, é espaço de viver a memória coletiva.
Ler bons pensadores, discutir suas obras, ter o ensino como prática de liberdade e conhecimento, sem esperar que os jovens se adaptem às injustiças, porém as entendam para transformá-la.
Conseguir observar que quase todas as organizações humanas não são espaços neutros, distinguir as disputas de poder e suas consequências nas vidas das populações, a exclusão sofrida por muitos, a ausência de segurança, de alimentos, de saúde, pode ser muitas vezes incongruente com as promessas do futuro “que depende apenas de seu foco”.
É certo que a escola foi pensada como lugar de formação do senso comum, algumas vezes conservador, outras inovador ou crítico, e todas as vertentes precisam manifestar-se dentro dela, já que assim é a sociedade na qual se movimentarão seus estudantes. No entanto, ela não foi pensada para permitir que absolutamente todos se tornem magnatas da indústria, megaempresários ou estrelas de cinema.
Um bom professor não é um coach e não vê seus alunos como startups que devem ser gerenciadas para gerar renda, para desejar o celular mais moderno ou o emprego onde trabalhará pouco e ostentará muito. O educador verdadeiro quer para seus estudantes a felicidade, a compreensão do mundo, o exercício profissional correto e dedicado que permita criar uma família equilibrada e ter bons amigos; alguém capaz de contrabalançar trabalho e lazer na justa medida.
O conceito de vitória, e por extensão de “vencedor”, tem sofrido deturpações bem ou mal-intencionadas. A publicidade abusa do direito de cometer slogans como “o sucesso”, “gosto de vitória” e outros; mesmo grandes apreciadores de determinado refrigerante associam seu consumo a prazer momentâneo, jamais a uma vitória existencial.
Vencer, ser vencedor, é algo muito amplo e praticamente pessoal, pode ser abandonar um vício deletério, obter um emprego desejado, formar uma bela família, concluir um curso difícil, ter amigos, ter amor, recuperar a saúde após uma doença, e não necessariamente ligado a isso tudo, talvez obter riqueza material ou intelectual.
No final do século XVIII os aristocratas europeus haviam perdido o estímulo de atividades guerreiras e tinham como símbolo de sucesso a admiração de seus pares por roupas, comidas e palácios elaborados e caros, Versailles é o exemplo. O povo, a plebe, sentia-se vitorioso tão somente por sobreviver à fome, à peste, e à exploração dos aristocratas. A Revolução Francesa e a guilhotina foram as consequências naturais.
Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.
