“Cortem-lhe a cabeça” disse o general de copas no país das maravilhas

Carneiro, Marcia

Cazetta, Felipe

Emerick, Hugo

Gomes, Edgar

Schurster, Karl

Quando me encontro no calor da luta

Ostento a aguda empunhadura à proa

Mas meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa

Pois que senão o coração perdoa.

Quando o Passado não passa: o baralho, o xadrez e o espelho

A epígrafe acima apresenta parte do depoimento de Mathias de Albuquerque em cena da peça Calabar ou o Elogio da Traição, de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, descrita no Ato I. Albuquerque liderou a tropa, em favor de Portugal, nas batalhas contra a segunda invasão holandesa sobre parte do Nordeste brasileiro. De ”navalha na mão e bandeira rubro-verde servindo-lhe de babador”, Albuquerque descreveu ao escrivão o objetivo imperial lusitano: integrar o Brasil a Portugal “Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal” O Fado Tropical é a declaração da posse especular portuguesa geográfico-cultural sobre sua colônia tropical.

Na epígrafe, está, em poesia, uma descrição de supostas características da identidade brasileira que teria sido herdada da Península Ibérica: a melancolia; a paixão entre o perdão e a crueldade. Albuquerque era um brasileiro descendente de Duarte Coelho, Capitão Donatário da Capitania de Pernambuco, a Nova Lusitânia. Da primeira geração criola brasileira, de estirpe nobre, o comandante brasileiro encarnou nos versos do Chico Buarque de Holanda, o “Tipo ideal” do homem cordial.

Por sua vez, Chico Buarque de Holanda herdou do seu pai, o historiador Sérgio, o interesse pela interpretação da brasilidade. O historiador descrevera o “homem cordial”, como o que abandona o ritualismo civilizado, em que as relações comunitárias são forjadas por afeto. Mas os laços de familiaridade podem, em momentos de crise romper-se violentamente, como frenética execução: esta é a característica da cordialidade luso-brasileira. Pois a cordialidade é um modo do extermínio ser perdoado.         Quando matar é redenção.

Buarque de Holanda pai escrevera: “No Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza.” (BUARQUE DE HOLANDA, 1995, p. 149).

Estamos hoje em um impasse civilizatório: um encontro “gentil” entre Caliban[i]  ., o selvagem, e Calabar, o que projeta, na traição, uma centelha de liberdade, ante uma escolha nos limites do contexto colonial: Holanda ou Portugal?

Quem é Caliban[ii] e quem é Calabar? É um paradoxo. Entre um incivilizado positivista e um traidor que revela Verdades escondidas, esta é uma questão não cordial sendo levada aos ritos jurídicos, ao púlpito do Tribunal.

A emocionada e demonstrativa linguagem colonial é simbólica para o julgamento público da História brasileira que está sendo amplamente publicizado entre os que defendem a autonomia do historiador e a liberdade de expressão brasileiras. Uma questão que é significativa para nosso processo de exame de luta democrática e republicana: o Direito à Memória, o Direito à História.

O acontecimento que se aborda aqui tem significado de clímax, de incredulidade. Para nós, historiadores, um pouco de “derrota da História”, em alusão a um dos livros do historiador francês, Marc Bloch, ao se confrontar com o avanço do nazismo na Europa, particularmente, no seu país, a França. O “mote”[iii] que Marc Bloch trouxe ao se defrontar como o que considerou a “estranha” derrota da civilização racional está presente neste debate atual que aqui trazemos, nós, pesquisadores da História, em que se julga que é preciso pôr em alerta toda a sociedade brasileira.

Bloch, que lutou na Grande Guerra, primeiro como Sargento, depois como Capitão, participou da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Da posição de historiador, Bloch escreveu, em abril de1944, o poema “O general que perdeu seu exército”. Deste, uma quadra sobre a história de um general que, em meio a noite, procurava seu exército:

Arrumamos na cabeça os pareceres

A batalha prevista de zero a cem

Mas o inimigo, esse desmancha prazeres,

Surge sempre onde não se espera mais ninguém

(Bloch, 2011, p. 168)

Um inimigo, em especial, está sempre à espreita de algum general saudoso do seu exército perdido: é a História.

Escolhe-se uma cabeça para cortar. Esta cabeça é a do historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva. Ele demonstra interesse de pesquisa no tema fascismos e seus discursos de ódio, aplicando, em sua análise, a percepção de trauma coletivo que ainda persiste nos dias atuais. O historiador está sendo colocado no banco dos réus por, justamente refletir acerca do aspecto sombrio que avançou sobre o século XX e que ainda alcança o século XXI, em que as luzes brilham de forma intermitente[iv].  Ameaça à cordialidade, pois “rebelde”.

Nos dias de hoje, uma sombra paira sobre aspectos que circundam disputas por memórias. Memórias que são selecionadas sob o prisma revisionista.

Irá para a tribuna um julgamento que se trata de assassinato da Memória brasileira. É importante referimo-nos à obra de Pierre Vidal-Naquet(1988) em que o revisionismo na História se refere à negação da existência de mecanismos nazistas que levaram à morte milhares de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e outras “minorias” étnicas e identitárias. Hoje, observa-se aspectos de revisionismo que positiva a tortura e a enaltece a violência rememorada da Ditadura Militar, como fez o então deputado federal Jair Bolsonaro, ao declarar seu voto favorável ao impeachment da presidenta Dilma Roussef, em seu discurso np Plenário do Congresso Nacional: “Perderam em 1964. Perderam agora em 2016. (…) pela memória do Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff!”[v].

O revisionismo, aqui, foge um pouco da regra estabelecida por Vidal-Naquet para ele mesmo: analisar a “anatomia de uma mentira”.

O aspecto revisionista, neste caso a ser considerado, é o de reivindicação da correção de uma análise histórica tratada como “mentira”. Ou seja, a necropsia de uma “anatomia da mentira” em que o que se reivindica é a negação de fatos apurados por meio de metodologias e teorias da Ciência História.

Destoa, aqui, do que Vidal-Naquel considerou como “tomada de consciência da verdade” (Vidal-Naquet, 1988). Um dos sentidos desta “tomada da consciência da verdade” que é aplicada de modo revisionista, segue uma estratégia de execução: “cortar” uma cabeça pensante, metaforicamente.  

É, como, aponta Teixeira da Silva: a ameaça é contra a “memória histórica do país”.

O alvo desta ameaça é a memória histórica da Ditadura Militar e seus desdobramentos ressurgentes em que a categoria “narrativa” é compreendida, como escreve o próprio Teixeira da Silva (2022), a que emerge desconexa, a que detém o ódio coletivo, enquanto expressão coletiva atual.

O Processo que acusa o historiador de “falsificação da História” decorre da explicação de Teixeira da Silva sobre o papel doa “kids pretos”, que têm a liderança do general Alvaro Pinheiro, apontado pelo Professor como  “um torturador notório e inimigo da democracia”. A informação, descrita pelo jornalista Maurício Thuswohl,  consta na edição de 11 de dezembro de 2025, página 35 da Revista CARTACAPITAL online[vi], com o título “Mordaça puída”. , Teixeira da Silva, durante live, teria declarado que os kids pretos”, membro das Forças Especiais do Exército “constituem “um ninho de conspiradores anticonstitucionais”.

O jornalista escreve, na mesma publicação, que em sua defesa, os advogados do general o colocam como “um conceituado e respeitado militar do Exército Brasileiro, que comandou e instruiu milhares de militares em todo o território nacional”, além de possuir “história e carreira ilibadas” e “diversos elogios e condecorações em seu extenso currículo”.

Trata-se, pois, de uma narrativa, como aponta Teixeira da Silva, de defesa do general, de uma “perda imerecida” ante a violência impetrada pelo Estado brasileiro durante a Ditadura Militar e que se banaliza, tal como impulso da cordialidade, no ato de construir a narrativa de que “em nome da Ordem”, seria preciso freneticamente “torturar esganar, trucidar” como disse Mathias de Albuquerque, não antes do perdão, mas para a “salvação” que  o militarismo representa para significativa fração da sociedade brasileira desde a proclamação da República.

O “salvacionismo” que corta as cabeças sem perdão se demonstra, hoje, na tentativa de apagar a trajetória acadêmica de um dos mais importantes historiadores brasileiros que, desde jovem, com aprovação e admiração de outros grandes intelectuais brasileiro, engatinhou e se tornou gigante nos seus estudos que sempre visaram questionar e “esclarecer” (atitude intelectual/pensante e tornada pública[vii]) as injustiças e desigualdades sociais. O que fere aquele que o acusa não é apenas a escrita, é a militância de um intelectual ao qual, desde Immanuel Kant, se atribui o exercício daquele que compreende e expõe publicamente sua análise acerca de algum tema, demonstrando maturidade.

Estamos num momento que relembra o julgamento do capitão Dreyfus, mas em que o acusado é o próprio intelectual.

Não podemos deixar este episódio se perder cordialmente. As disputas das narrativas estão no tribunal.

E, voltando a Vidal-Naquet, negar a existência de Calibans e Calabares não é tarefa da História. Muito menos culpabilizar trabalhadores em seus ofícios, etnias e setores subalternizados por  seus “infortúnios”, retirando da análise metódica seu estatuto de cientificidade.

Assim como o professor “réu” sempre se indignou publicamente contra as investidas antidemocráticas, o historiador perspicaz não se coloca confortavelmente em sua poltrona e vê o mundo pela janela. Teixeira da Silva é o intelectual orgânico no sentido gramsciano que se dedica a organizar sua classe, a classe com a qual se identifica, a dos professores e lideranças de movimentos sociais em todos os níveis.  O historiador organiza e o professor, o importante intelectual pesquisador vai aos pré-vestibulares sociais para lecionar. É um educador erudito e paulofreiriano: educador-educando.

Este episódio que está já em julgamento rompe com a cordialidade. É uma disputa, um “jogo” de interesses está sendo levado às instâncias máximas dos rituais civilizados: o Tribunal. Já se iniciou o rito. E está sendo ritualmente construído em bases racionais ante a ação, não tão passional do acusador. Não é apenas, aqui, o uso da paixão que mata para evitar o arrependimento. A paixão, aqui, move-se pelo ódio aos que se considera inimigos. Por isto, cortar a cabeça é pedagógico.

Trata-se, portanto,  da análise de um episódio ainda corrente, neste último mês do ano de 2025, em que um eminente historiador brasileiro, Doutor Professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, que alçou por excelência de Cátedra à posição de Titular da Cadeira de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo sido fundador do Projeto Memórias Reveladas do Arquivo Nacional e recebido  o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Sergipe,  entre muitas outras condecorações e honrarias por mérito legitimado pelo acúmulo de suas produções e dedicação ao Saber Histórico e  cujas demonstrações de Conhecimento não se restringem à História do Brasil, mas que a envolve metodologicamente no domínio da História global, está sendo questionado no que é mais caro ao historiador em particular: a sua própria trajetória de pesquisa, que envolve o caminhar das nossas investigações.

Como escreveu Lucien Febvre em uma obra com sugestivo título: Combates pela História

Fazer história; ensinar história; revolver cinzas, umas já frias, outras ainda mornas: todas cinzas, resíduos inertes de existências destruídas…Não havia outras tarefas, mais prementes, mais úteis, para dizer a grande palavra, a reclamar que lhe déssemos o que restava das nossas forças?”[viii]

O mesmo Febvre pergunta a nós, historiadores, “Como não reconstruir, quando por todas as partes aparecem fendas?” (Febvre, 1985, p. 23).

A trajetória intelectual de Francisco Carlos Teixeira da Silva desempenha papel decisivo na consolidação da História do Tempo Presente como campo historiográfico no Brasil. Sua formação marcada pela interdisciplinaridade, pela defesa de um humanismo crítico e pela profunda sensibilidade às múltiplas temporalidades que estruturam a experiência histórica contribuiu para moldar uma geração de pesquisadores capazes de articular rigor metodológico e compromisso público.

Desde cedo, Francisco Carlos recusou a separação rígida entre temporalidades “clássicas” da disciplina, afirmando que compreender o presente exige necessariamente o domínio de arquivos, métodos e debates próprios da História social e política de longa duração. Essa concepção deu origem a uma prática historiográfica que se orienta não por uma cronologia estanque, mas pela identificação de tensões, continuidades e rupturas que atravessam acontecimentos, estruturas e sensibilidades sociais.

Sua atuação docente e institucional é igualmente central. Ao criar e consolidar um laboratório voltado ao estudo do Tempo Presente, estruturou um espaço em que a investigação histórica se articula à liberdade intelectual, à criatividade metodológica e ao trabalho coletivo. Ali, historiadores em formação foram estimulados a explorar temas variados, do fascismo à cultura pop, do futebol às políticas de memória, da história agrária aos conflitos contemporâneos, desde que ancorados em fontes, crítica e método. A marca fundamental desse ambiente era a generosidade. Francisco Carlos ensinava que a história se faz em diálogo, e que o pesquisador deve abrir portas, dividir arquivos, orientar caminhos e estimular a autonomia intelectual de seus orientandos. Esse ethos formativo impactou profundamente a institucionalização do campo, produzindo redes de pesquisa, novas agendas temáticas e abordagens metodológicas inovadoras. O conjunto de sua obra possui amplitude incomum na historiografia brasileira. Seus estudos percorrem a história agrária e as questões sociais do Brasil republicano, a formação das direitas e do pensamento autoritário, a história comparada das guerras e dos fascismos, a análise de movimentos culturais e o exame crítico das relações entre política, violência, memória e trauma. Em todos esses temas, sua escrita combina erudição, clareza e senso de responsabilidade social, reafirmando que a História do Tempo Presente é, antes de tudo, um exercício de humanismo. Para ele, endireitar o tempo significa tornar inteligíveis os dilemas contemporâneos, ampliando vozes, problematizando certezas e renovando os modos de compreender o mundo. A originalidade de sua contribuição reside justamente na capacidade de articular prática historiográfica, intervenção pública e formação de quadros. Francisco Carlos compreende que a História do Tempo Presente não se limita a narrar acontecimentos recentes, mas implica refletir criticamente sobre as estruturas que os produzem, confrontar autoritarismos, interpretar discursos e problematizar as contradições da vida social. Sua obra, sua docência e sua atuação institucional constituem, assim, um dos pilares mais sólidos da consolidação do campo no Brasil, contribuindo para que sucessivas gerações de historiadores possam afirmar, com rigor e sensibilidade, que compreender o presente é também transformar o futuro. Teixeira da Silva compreende que: “É um bom efeito a união da interação entre o presente e o passado que reside a inovação com base na História do Tempo Presente” e da importância de se “Entender o presente pelo passado e, especialmente, o passado pelo presente”.

Superamos as etapas colonial e imperial e, mais, nas batalhas mais ferozes, superamos o epíteto de “homem cordial”, o que age por “bom coração”. Nem o historiador perdoa a irracionalidade dos fascismos em curso, nem o general perdoa aquele que considera “seu inimigo”. O general corta cabeças e, antes de executar, tortura sadicamente, tanto seus “inimigos”, como seus soldados. É uma questão não só de demonstrar hierarquia, é uma demonstração de que no tabuleiro de xadrez que é o Brasil, admiradores da última Ditadura militar estão a postos contra a Democracia.

O julgamento cívico, da tradição militar, a que compreendeu o nascimento do povo brasileiro na Guerra contra os holandeses, no século XVII, na união das raças (não mestiças), na Batalha de Guararapes, mantém a fé inabalável numa justiça limitada ao julgamento que se resume à sentença “Matar ou morrer pelo Brasil”.

A História do Tempo Presente e sua perspectiva transhistórica, “no calor da luta” reflete os paradoxos da existência, nos quais o Professor nos envolve:

“Um passado que não passa…”

Conforme a famosa frase do historiador alemão Ernst Nolte vivo hoje um triste reviver de tempos que imaginava passados. Hoje fui intimado por um oficial de justiça num processo no qual sou acusado de calúnia, difamação e falsificação da História (sic!!!) pelo conhecido Gal Álvaro Pinheiro, exigindo indenização e cassação de meus títulos universitários.  Desde algumas semanas venho, também, recebendo grosseiras ameaças contra minha vida e minha integridade física, ameaças de origens desconhecidas. Agora o meu livre trabalho de cinco décadas como historiador está sob risco de silenciamento via ameaças e lawfare. O fato da transição democrática brasileira ter sido estranha ao conceito de justiça de transição, permite, pela terceira vez, que eu e meu trabalho sejamos colocados sob risco de mordaça. Trata-se de um caso único numa democracia moderna de um historiador ser ameaçado por um membro ativo de um regime ditatorial decaído. Aos 71 anos de idade, tenho, entretanto, a mesma força dos 18 ou 19 anos quando lutei, com milhares de outros brasileiros, pela democracia e liberdade do Brasil. Mais que julgar um professor prometo aqueles que querem calar a História, que será ,que tal processo será levado adiante como um processo daqueles anos sombrios.  Tais ameaças anti-democráticas, serão transformadas, de uma ameaça pessoal, em um julgamento da própria ditadura e de seus agentes. Os anos que passei no Ministério da Defesa e suas organizações militares, aliás onde fiz verdadeiros amigos, servirão de base para expor um mundo sobre o qual ainda não se fez a luz.  Estou velho e cansado e, no entanto, com o coração batendo forte no lado certo do peito e me  orgulho de ter lutado o bom combate, o que os meus acusadores com certeza não podem dizer de suas carreiras. Volto ao combate com certeza que escreverei mais livros e artigos sobre tempos tão sombrios. Nada me deterá ou me amedronta. 

Sou historiador da mesma matéria, talvez menor gênio, que Marc Bloch. Historiadores, como elefantes, não esquecem e nem se amedrontam.

Francisco Carlos Teixeira da Silva. Professor Titular de História Moderna e Contemporânea/UFRJ; Professor Emérito de Teoria da Guerra/ ECEME/ Exército brasileiro; Doutor Honoris Causa UFS.

 “Mais que depressa a mão cega executa”, teria dito Mathias de Albuquerque ao escrivão, com ares de confissão, ao espelhar Brasil em Portugal.

Como em Calabar, como em tantas outras obras de ficção ou em análises históricas o desafio é percorrer tantas demonstrações autoritárias que estão demonstradas no genocídio indígena, na escravidão de povos africanos, compulsoriamente deslocados para a América sob o jugo da Escravidão, nas repressões aos trabalhadores e na necropolítica recorrente, como parte do xadrez político eleitoreiro.

O povo espelha o outro, o constante Caliban, o selvagem da América Ibérica refletido no espelho de Próspero como seu oposto. Richard Morse (2000) compreendeu como espelhamento a oposição “complementar” entre a América Anglo-saxônica e a América Ibérica.

Nesta oposição, antagonizam-se razão e paixão. No caso brasileiro, cuja índole seria passional, o perdão, a anistia, parece também ser uma “virtude” maquiavélica recorrente aos brasileiros, como se fôssemos passivos, amorosos, eternamente submissos, obedientes ao depender da fortuna.

Nos dias atuais, do Tempo Presente, algumas considerações teóricas e metodológicas são postas ao debate em relação ao ofício do historiador e sobre a especialidade da Ciência que exerce, a que advoga, e da qual se cerca, não para argumentar, apenas, em seu socorro, mas para a defesa da análise metódica dos fatos em seus contextos e quanto aos fenômenos observáveis em longa duração, que tem na Humanidade seu material e inspiração.

O Professor Teixeira da Silva se utiliza das ferramentas metodológicas para construir sua análise sobre o julgamento público de sua competência como historiador, usando as “armas” das quais dispõe: a análise assentada em Teorias e Metodologias apuradas pela reflexão e maturadas pelos estudos e pelos diálogos com seus pares:

O passado está vivo e retorna aos seus métodos!  Estou sendo processado pelo General Álvaro Pinheiro, comandante da repressão da Guerrilha do Araguaia, com outros militares, por calúnia, difamação e falsa narrativa da História da “revolução” de 1964.  O eminente representante de 1964 exige compensação financeira, retratação e cassação de títulos universitários. Pela terceira vez na minha vida estou sendo ameaçado pela repressão da ditadura e sendo processado por aqueles que destruíram a democracia no Brasil. O golpe está vivo!

Rebeldia – inimigo – punição é a tríade do modelo de julgamento militar no Brasil que parece estar em constante “estado de guerra”, em “Golpe dentro do golpe [que] é tradição militar muito clara…” como declarou o historiador Teixeira da Silva ao site Uol[ix]  em 23/11/2024.

Memórias

As categorias “Humanidade” e “Humanismo” são elementos fundamentais da querela em questão em que trabalhar com o “terreno humano” é o objeto de disputa. O termo “terreno humano” está presente no depoimento do General Álvaro Pinheiro à Comissão Nacional da Verdade (CNV)[x], em 12 de novembro de 2013. O período textual completo é:

Sobretudo, porque a forma como somos treinados não é apenas militar, o operador de forças especiais sabe trabalhar com o terreno humano, que é o conflito atual, entendeu?  Que você não conquista mais. Você não sai da via de acesso para conquistar um ou dois. Conflito hoje é para ganhar corações e mentes de populações, é ou não é verdade? [xi]

Em outro trecho do mesmo depoimento, o mesmo general sustenta:

O soldado é aquele homem que está preparado não é para morrer pela pátria, morrer pela pátria quem morre é amador, matar pela pátria, você entendeu? E quando a gente vai para essas coisas aí fora, a gente vê isso claramente, nós não queremos que os nossos filhos sirvam o Exército para morrer pela pátria, é ou não é? Agora se eles gostam daquilo, nós queremos que eles sejam exímios matadores, é ou não é verdade?

O depoimento do general à CNV visava questioná-lo sobre sua atuação no episódio da Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1975.

Abre-se, aqui, uma breve análise sobre como o entrevistador age no “auxílio” à construção da memória do entrevistado. O entrevistador visa estimular as lembranças e, como é demonstrado no pequeno trecho, o entrevistado cita “conflito atual” para se remeter ao evento sobre o qual foi perguntado. “Conflito atual” pode ser interpretado tanto em relação ao episódio do Araguaia, propriamente dito, ou se remeter às séries de movimentações que aconteciam em todo o Brasil, no ano de 2013 que, no contexto das “guerras híbridas”, emergiam como projetos antipolíticos, empunhando bandeiras liberais, antipartidárias, de cunho conservador.

Perguntado pela Comissão Nacional da Verdade, em 12 de novembro de 2013, se havia atuado na repressão militar à Guerrilha do Araguaia, Álvaro de Souza Pinheiro respondeu:

Mas isso não tenha a menor dúvida, se eu estou dizendo que fui condecorado inclusive, entendeu? E absolutamente orgulhoso dessa participação. Eu vou lhe dizer o seguinte, não foi uma mera participação, como eu disse para a senhora, o tenente operador de Forças Especiais participa do processo decisório do mais alto escalão, então as forças especiais… [xii].

Ao expor sua participação na Guerrilha do Araguaia, o general Pinheiro apresentou suas impressões profissionais, quando atuou como 1º tenente, em 1972.

A tropa, e nós trabalhávamos muito com a tropa paraquedista, não é? A tropa paraquedista é algo que indiscutivelmente algo que nós temos de melhor, não é? Como os fuzileiros navais, é ou não é verdade? Então nós trabalhávamos nesse nível. E na fase decisiva do Araguaia foi esse tipo de tropa que resolveu o problema.

Voltando a Calabar, a peça teatral de 1973, é interessante trazer um trecho da fala do Frei para apresentarmos outro soldado da Guerrilha do Araguaia:

Precisamos aproveitar nossos recursos naturais. A velocidade do índio, os Canoeiros da Amazônia… Este índio nasceu entre os selvagens Tapuias, que são uns analfabetos e antropófagos e hereges e traidores. (BUARQUE DE HOLANDA e GUERRA, 1973, p. 11).

O soldado Manoel Messias Guido Ribeiro, o Guido “nome de guerra”, declarou que era, então, um jovem rapaz, da cidade de Marabá, no Estado do Pará, que acabara de se alistar no Exército, como tantos outros rapazes que eram obrigados a se apresentarem, aos completarem 18 anos, para a seleção daqueles que deveriam pertencer aos quadros da Instituição. O seu alistamento se deu no ano de 1974, dois anos após o tenente servir no Araguaia, embora o general tenha descrito sua atuação no Araguaia como intermitente. Guido contou aos entrevistadores, Maria Cecília Adão, Orlando Calheiros e Pedro Benet, que durante o alistamento, quase ninguém foi dispensado. De acordo com ele: “não sei se pela falta de muitos jovens, ou porque a gente tinha conhecimento da região, das matas, dos castanhais, então a gente sabia sair de um castanhal e passar para outro sem vir na cidade.”

O jovem castanheiro, que trabalhava na extração de castanhas na floresta amazônica desde criança, assim como tantos outros rapazes, foi convocado, especialmente, por seus conhecimentos, como moradores das matas amazônicas.

O rapazinho chegou ao Exército, como relatou, sem conhecimento do que representava o Exército. Eram tempos de Ditadura Militar e o General-presidente Ernesto Geisel assumira o Governo no ano de alistamento do jovem soldado. Ele conta como foram treinados os soldados rasos:

O Exército passa pelo período de adestramento básico, que são os primeiros passos que você aprende, o rastejo, se defender do inimigo, como você passar pelo inimigo e o inimigo não te ver, como você andar sem fazer ruído, a água que você deve beber, o que você deve comer, o caso de a gente fazer, eu quero só que tenha calma, porque eu tenho um problema sério assim, esqueço rápido, e às vezes lembro também devido circunstâncias. Então não tinha operação boina na época, tinha o chamado Pezag, então no Pezag a gente passou por duras provas como, por exemplo, matar uma galinha mordendo, beber todo sangue, comer camaleão cru, cobra crua, então aquilo ali foi transformando o ser humano, nós como ser humano, numas pessoas mais carrascas. A gente começou, não sei se olhar para a gente e ver diferente dos outros, olhar para os outros e ver diferente, uma coisa mais ou menos que dá para um psicólogo ver mais ou menos o que é que podia ser.

Ao contrário da formação do Guido, a formação dos oficiais e paraquedistas que atuaram na Guerrilha do Araguaia, teria sido profissional, de acordo com Pinheiro

Ao localizarmos a origem de classe do então jovem tenente, colocamos, aqui, sua autodeclaração: “Meu pai [o General Ênio dos Santos Pinheiro] foi um homem que foi o meu farol, sabe? E, sobretudo, pela sua vida militar, não é? Ele participando disso, como a senhora está dizendo, ele vivenciou aquele momento. Os anos de chumbo? Ele vivenciou.”.

Respondendo à entrevistadora Mariana Barreiras, da CNV, Pinheiro continua: “Ele [o pai] é uma testemunha de que nunca aconteceu o chumbo aqui. Ele conheceu o general Médici, que é um homem magnânimo, uma pessoa fantástica, não é?”

E Barreiras ainda pergunta: “Ele deveria ser bem de confiança do [presidente-general] Médici para ir, para ter recebido essa incumbência de montar… “e o general Álvaro de Souza Pinheiro respondeu: “Não tenha dúvida, confiança a senhora sabe que não se vende na feira.”

Uma importante informação sobre o general Ênio dos Santos Pinheiro, nos é dada por Fabiana de Oliveira Andrade (2012). De cordo com a historiadora, o general fora

responsável pela estruturação e formação da Escola Nacional de Informações, sendo seu primeiro a ocupar o cargo de diretor nesta instituição, ressaltam as incumbências iniciais da Escola, cujos principais objetivos consistiam na cooperação com o desenvolvimento da Doutrina Nacional de Informações e na formação de agentes. Ademais, fazia-se urgente o estudo sobre a própria atividade de informações, a fim de que se obtivesse um melhor rendimento nas atividades do Sistema Nacional de Informações – SISNI.”  (ANDRADE, 2012, p. 121).

Construções de memórias[xiii], uma das ferramentas da História do Tempo Presente, tornam-se documento históricos apoiadas por teorias e metodologias da História Oral. Depoimentos tomados em inquéritos também podem ser compreendidos sob mesmas teorias e tornam-se provas cruciais.

A Memória, dita “passado” é cuidadosamente selecionada por alguns setores da sociedade brasileira, por aqueles aos quais o hábito de esquartejar corpos, parece a solução final. Traços do passado brasileiro que parecem destroçados na memória coletiva sobre a Ditadura Militar brasileira.

A rememoração acerca da Guerrilha do Araguaia aqui apresentada nos serve como demonstração das experiências vividas por quem relembra, mas também esquece. Dois soldados que vivenciaram, em lados diferentes do Exército, a guerra da selva Amazônica. Tal como o espelhamento que Morse demonstrou n’O espelho de Próspero em relação às duas Américas, o antagonismo entre a miséria e a opulência são relações complementares. Necessárias às permanências dos setores hegemônicos no poder.

O que é bom para… é bom para o Brasil?

Um importante aspecto sobre a posição política do Estado brasileiro em relação ao contexto da Guerra Fria, em que as duas maiores potências mundiais se antagonizavam em termos ideológicos, econômicos e mesmo culturais. É preciso localizar o Brasil nesta “corrente” nas décadas de 1960 a 1980.

Teixeira da Silva considera que:

Afirmar que a Guerra Fria envolveu todas as partes do mundo significa dizer que ela sobredeterminava todos os conflitos políticos e militares. Nenhuma região icava à margem da rivalidade dos dois sistemas. Em toda situação de crise, enquanto uma superpotência tomava partido de um lado, a outra tomava imediatamente partido do outro. Assim, nada escapava da rivalidade dos dois gigantes militares.

De acordo Teixeira da Silva, o papel reservado aos militares, no período ditatorial estaria reservado, nas condições do posicionamento do Brasil durante a Guerra Fria, ao “combate à subversão comunista e manutenção das linhas de comunicação e transporte no Atlântico Sul.” Teixeira da Silva analisa como o fim da Guerra levou à uma nova relação dos EUA com a América do Sul:

O desengajamento americano com a região, depois de 1991, estava rm pleno curso. Somente restava um campo de preocupação tradicional e que assumia uma dimensão bem maior e de possível cooperação: o combate ao crime transfronteiriço. Sendo os Estados Unidos o maior mercado mundial para as drogas e sendo seu tráfico interno feito, largamente, por minorias raciais – afro-americanos, latinos – o combate mostrava-se caro, duro e socialmente desagregador para a sociedade americana.

A alinhamento brasileiro à política estadunidense anticomunista é demonstrada por Teixeira da Silva:

A declaração da incompatibilidade do comunismo com a herança comum cristã e democrática das Américas, conforme a decisão da IV Reunião de Consulta dos Chanceleres da OEA, em Washington, no ano de 1951, identiica plenamente o sistema interamericano (ou hemisférico) com o clima geral da Guerra Fria. No próprio interior dos países latino-americanos criaram-se instituições e leis que emulavam os procedimentos americanos ou aplicavam-se puramente suas proposições. Assim, a criação da Escola Superior de Guerra (ESG), no Rio de Janeiro, nos moldes do National War College, em 1949, serviria de berço para a formulação da chamada Doutrina de Segurança Nacional no Brasil.

Memórias reveladas

Nas memórias de quem sofre as perdas, mesmo então jovens soldados que lutaram sob o comando do general, a História se arrasta pelas fendas, ou pelas matas, como declarou o jovem catador de castanhas da Floresta Amazônica que se alistou obrigatoriamente no Exército, aos 18 anos, treinado “simbolicamente” para a antropofagia (ou canibalismo) “matar uma galinha mordendo, beber todo sangue.”. Para (re) tornar-se Caliban

Manoel Guido, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em setembro de 2014, declarou: “Então como a gente era ensinado a ver o lado contrário do espelho, então ele era realmente um terrorista para nós, ele era um inimigo.”.

Diz outro combatente, agora da Guerra em Pernambuco, no século XVII, Sebastião do Souto que se lê, através de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra: “Disseram que a luta era entre Deus e os diabos, entre a terra e o mar, lutei. Depois vi que a luta era entre o açúcar e o sal, por ouro e prata, pela pimenta e pela noz-moscada, pela cochonilha e pelo pau-brasil, e aceitei. Achei tudo normal porque não sou louco.”  (BUARQUE DE HOLANDA, 1973, P. 36).

Superamos as etapas colonial e imperial e, mais, nas batalhas mais ferozes, superamos o epíteto de “homem cordial”, o que age por “bom coração”. Nem o Historiador perdoa a irracionalidade dos fascismos em curso, nem o general perdoa aquele que chama de “seu inimigo”. O general corta cabeças e, antes de executar, tortura sadicamente, tantos seus “inimigos”, como seus soldados. É uma questão não só de demonstrar hierarquia, é uma demonstração de luta de classes no campo de guerra que é o Brasil.

Chico Teixeira, historiador do bom coração, combatente pela História, escreve, com outra “aguda empunhadura à proa”, sua “pena” eletrônica. E seu peito se desabotoa. E se a sentença se anuncia bruta ante provas irrefutáveis da violência de Estado, em tantas arenas sitiadas em cidades, no campo e na floresta amazônica, o extermínio de outros brasileiros é apropriado como “castigo” ideológico contra seus opositores que, tal como Tiradentes, tiveram seus corpos esquartejados e “salgados” contra as heresias escolhidas pela última Ditadura militar, Teixeira da Silva não perdoa:

Cabeças cortadas

Este é um país onde se cortam cabeças!

Cortaram cabeças de índios, de negros, de quilombolas e de mamelucos!

Este é um país onde se cortam cabeças!

Cortaram cabeças no Império!

Cortaram cabeças de malês, de cabanos e balaios!

Cortaram cabeças dos heróis da liberdade!

Destrocaram corpos e espetaram a cabeça no rossio da Vila Rica!

Este é o país que corta cabeças!

Cortaram cabeças em Canudos e no Contestado!

No Caldeirão e em Desterro, cortaram cabeças!

Cortaram cabeças no cangaço!

Exibiram cabeças cortadas de Lampião e Maria Bonita!

Aqui se cortam cabeças!

Cortaram cabeças nos pampas, em Clevelândia e na Ilha Grande!

Cortaram cabeças na Penha, no vizinho Alemão!

Cortaram a cabeça do Ravel,

Um adolescente de cabelo vermelho,

Dançando funk com um fuzil!

Espetaram a cabeça do Ravel num tronco,

Puseram as cabeças cortadas de Lampião e Maria Bonita no museu!

A cabeça cortada de Tiradentes foi roubada,

Durante a noite fria da Vila Rica!

O Brasil é o país que corta cabeças!

Poderosos esquartejam corpos para ensinar. Recolhem cabeças para contar. Se o poeta que se quis esquecer sempre nos lembra que “Há soldados armados, amados ou não. Quase todos perdidos de armas na mão. Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição. De morrer pela pátria e viver sem razão”[xiv]. A lição da História não é a de enterrar corpos, e a História não serve apenas para lembrar. A História é para viver: é “um carro alegre, abrindo novos espaços, agitando muitos braços, embalando nossos filhos”[xv].

O Professor Francisco Carlos traduz em análise os atos do general, distinguindo elementos textuais das que são fontes “notórias” e, como tal, são consideradas “provas” históricas da escrita da História, documentos públicos disponibilizados em periódicos de circulação nacional em que os relatos do General ou do seu filho, no Processo crime de falsificação da História impetrado contra o Professor, podem ser acessados para conhecimento de todos os interessados.

Teixeira da Silva ponteia: “devo defender não eu mesmo, mas a liberdade de cátedra, de expressão e a liberdade de imprensa no. Brasil. Fico muito triste.”

Em tempos de fakenews, pós-verdades e de outros neologismos preguiçosos e pouco elegantes, falta a humildade de retomada dos clássicos para compreender o terreno movediço em que estamos. Não se busca aqui algo como um mito de origem, pois se assim fosse, se sairia de uma armadilha para entrar em outra, mas recorrer aos anunciadores da crise de civilização Ocidental, esta que agora colapsa diante do espectador mais distraído: Marx, Nietzsche e Freud. Partiremos destes três para compreender como as noções de verdade, ciência e intelectualidade agridem aos grupos que estão em amplo declínio, porém, certa vez estiveram no poder. Tudo isso, para compreender o efeito interno, que os grupos autoritários, compostos pelo radicalismo conservador, o fundamentalismo religioso e o militarismo golpista buscam, com o intuito de retomada de sua “Era de Ouro”.

A escolha de Marx, Nietzsche e Freud como via de condução, apesar dos três intelectuais serem distintos em suas formas de pensamento e visões de mundo, possui uma finalidade, diante do ponto em comum destes: a decodificação do mal-estar da modernidade. Marx compreendeu que novos personagens emergiam da erosão das bases do Antigo Regime e revelavam-se os próprios parteiros de si, nos choques do capitalismo em seu formato industrial: os representantes do capital (a burguesia) e do trabalho (a força de trabalho despossuída).

Nietzsche buscava a transcendência da moral burguesa, e a superação do homem, com o intuito de um Eterno Retorno, ou Perspectivismo, como solução para ultrapassar e abandonar a civilização decadente. E Freud desenvolveu através da psicanálise, formas explicativas para compreender que as ações humanas não são somente conscientes ou derivadas das estruturas, mas resultado também de traumas e do inconsciente. Todos compreendiam, porém, que os imperativos externos incidiam e determinavam a formação do sujeito no mundo.

Assim, Marx compreendia perfeitamente que apenas a força física era elemento estéril e que demandava demasiado custo físico e financeiro, para a imposição da dominação.

O recurso ideológico, através da distorção da materialidade das estruturas, no intuito de obscurecer a origem e as formas de dominação, seria um mecanismo eficiente, para domesticar mentes, corpos e corações. Nietzsche, por sua vez, compreende que o próprio direito de dar nomes (“bom” e “mau”, “superior” e “inferior”) é um ato de autoridade. Portanto, a linguagem em si e sua significação têm a sua instrumentalidade de poder. Freud, por fim, compreende a obsessão como instinto apenas reprimido, mas não solucionado internamente, resultando em explosões e ingressos forçados na consciência.

Tais elementos apresentados, podem ser conectados para compreender os distúrbios que a democracia contemporânea vivência, e como os setores refratários a ela operam. O ressentimento dos setores militares no Brasil, ao serem retirados do poder, todavia, sem estabelecer a solução de tal sede de poder, faz com que convivamos cotidianamente com o medo da obsessão de retorno. E eles elaboram suas próprias visões de mundo, com o intuito de exportá-la para outros grupos. Assim, o golpe militar, passa a ser Revolução, ou contrarrevolução, minimizando ou retirando o impacto da ilegalidade que perpetuou por vinte e um anos no Brasil. Ainda se entendem como detentores do poder da nomenclatura. Não se trata somente da pós-verdade, mas de um duplipensar orwelliano.

“O “Grande Irmão” orwelliano, no tempo presente, é o conservador que fundamenta sua “verdade”, não em bases cientificas, mas nos instintos de preservação da verdade construída como recurso para refutar as bases científicas da história que coloca em xeque o controle de informação pretendido pelo negacionista que tenta apagar o passado e a realidade objetiva. Ao manipular a linguagem, entregando fórmulas prontas e limitando o pensamento crítico, ou ainda, utilizando-se de frases que tocam de forma desajeitada a percepção crítica, reforçando o senso comum, o negacionista se empodera  para atacar as bases cientificas da história, descredibilizando o cientista para uma plateia domesticada na desinformação.

A constante busca para alterar o passado se presentifica sempre que a verdade cientifica recorre aos fatos para expor as contradições e fragilidades construídas por grupos e pessoas que buscam retomar o poder que se esvaiu quando o controle opressivo, a vigilância e a manipulação da verdade não se sustentavam mais. O negacionista está sempre à espreita, ele é um autoritário que não consegue conviver com as liberdades individual e de pensamento. Pensar, divergir, ser independente são crimes listados no pensamento orwelliano. Mas, “o rei está nu”, não é mesmo Andersen? Não dá mais para enganar toda uma sociedade recorrendo ao autoritarismo e a negação dos fatos. Escreveu Francisco, escreveremos nós, todos baseados em fatos, com teoria e método balizando a nossa verdade cientifica. O que ocorreu nos porões da Ditadura Militar, a falsa história que insistem em impor como verdade, o Golpe travestido de Revolução, a verdade indigesta dos negacionista, o duplipensar elevado a última potência como base de aceitação das mentiras que vendem como verdade indiscutível. Mas essa “verdade” não os salvará quando confrontados os fatos apresentados com a seriedade científica.  

A negação cientifica não é um fenômeno contemporâneo; podemos verificar sua ocorrência desde pelo menos a Idade Média. Negar fatos históricos se tornou nos últimos tempos algo recorrente. E, quando se trata da ciência histórica, o revisionismo histórico, enquanto negação sistemática dos fatos, fez escola: negacionistas, como Robert Faurisson, “pretendiam conferir credibilidade intelectual e científica ao que não passava de falsificação e de distorção de evidência” (Valim, Sá Avelar & Bevernage, 2021). Robert Faurisson, foi um dos precursores do negacionismo, alegando a inexistência de fatos comprovados, como a existência das câmaras de gás utilizadas pelos nazistas na Segunda Guerra. Henry Rousso, foi o primeiro historiador a utilizar negacionismo como conceito para apontar que a negação de fatos históricos se baseia em interesses políticos e ideológicos, reforçando narrativas distorcidas para negar responsabilidades e ocultar crimes. Os negacionistas buscam justificar suas ações e manter privilégios, para isto, atacam pessoas e entidades, como cientistas, professores, escolas e universidades. Quando a narrativa do(s) negacionista(s) é confrontada eles muitas vezes, lançam mão da judicialização, atacando a credibilidade da pessoa ou instituição.

Na realidade brasileira os negacionistas estão concentrados em atacar pessoas e instituições que trabalhavam e trabalham para quebrar a narrativa de que o Golpe Militar de 1964 foi um contragolpe ou Revolução. A tentativa de quebrar o controle mental e a manipulação da realidade (Orwell), imposta pelo militarismo mofado, atiça principalmente os remanescentes autoritários de 64 que sonha com o restabelecimento do “Ancien Régime”. Esses militares saudosistas com mania de perseguição não conseguem conviver fora da bolha que construíram, se sentem autoridades inquestionáveis em qualquer assunto, ameaçam processar, já que não podem mais torturar e matar Herzogs e Paivas!  

Anunciamos, aqui, que o Professor Francisco Carlos Teixeira da Silva não está sozinho na arena, E nesta “arena” se juntam tantos historiadores que, desde fins do século XIX e inícios do século XX, romperam com o fazer da História Magistra Vitae,

Sua “cordialidade” está amadurecida pela História bem brasileira, como assim desvendaram alguns intérpretes nacionais como Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, como os definiu o “intérprete dos intérpretes”, Antonio Cândido.

Se o homem cordial é aquele que age com o [bom] coração. Francisco assim age, não corta cabeças. Também não age com brutalidade e nem perdoa a brutalidade.

O julgamento não é cordial.

Nós, historiadores defendemos a vida. Queremos revelar memórias esquecidas.

E os corpos decapitados?  Onde estão tantos mortos?

Calabar, o mestiço executado por Mathias de Albuquerque na guerra contra os holandeses ressurge tal como Sísifo, eternamente torturado, exterminado: “Alegria, minhas mãos, alegria. Que a vingança acaba de acenar com a promessa do vosso dia, Que é a noite de Calabar.”

O Professor conhece bem o tabuleiro de xadrez em que caminha a História Brasileira, a dos tempos da fome colonial sob a “opulência dos engenhos” e a das formas de organização das Direitas no Brasil que permanece entoando “Este é um Brasil que vai pra frente”

A sua obra recente sobre a organização de setores da Extrema-Direita brasileira na tentativa do golpe de 8 de janeiro de 2023 (Teixeira da Silva e Schuster (2023) localizou o General Pinheiro entre aqueles que impulsionam a ”inculpação de outros altos comandantes poderia gerar consequências ainda mais graves para as relações entre as Forças Armadas e o governo Lula da Silva” (op. cit. P. 104). Esta consideração, posicionada sobre vasto conhecimento da trajetória dos comandos do General traz ao centro da questão, mais que algo pontual, mas um posicionamento de autoridade que não aceita questionamento.

A Democracia, a porta que se abre a muitos espaços, resistentes e persistentes, infelizmente, em relação às tentativas de sua destruição. 

Morse escreve que nas sociedades em que se evidenciaram inquisições, esta parece uma prática recorrente: a das acusações que visam responder a problemas políticos, cujos argumentos que recorrem “muitas vezes a imaginativas ‘formas lúdicas’ cheias de alusão, metáfora e analogia histórica, que assim exigem mais da capacidade de conceitualização do cidadão” (MORSE, 2000, p, 155)

A Democracia, de acordo com a interpretação de Morse, também aparece espelhada.

Nós, historiadores, empunhamos o espelho da História. O reflexo/reflexivo das fontes, dos arquivos, da bibliografia que nos antecede, nossos escudos.

Ao final, é preciso que se distinga o Rei de Copas, que banaliza o mal ao obedecer a Rainha de Copas, do general de copas, que não banaliza o mal, ele reconhece que o pratica. [xvi]  

Que não esqueçamos nossos Calibans nem nossos Calabares pois fazem parte da nossa História.

Prof. Dr. Francisco Carlos Teixeira da Silva

Referências:

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Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

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[i] Caliban é o “escravo selvagem e disforme”. na peça teatral, de Shakespeare. Caliban representa a antítese da civilização no seu encontro, na América, com o Próspero, o duque de Milão que teve ser trono usurpado pelo irmão, e cuja embarcação com sua filha e companheiros naufragou nas costas da América.

[ii] Caliban ou Caliban – da última forma, torna-se anagrama de canibal

[iii] Ressalta-se, nesse aspecto, a análise que o Professor Francisco Carlos Teixeira da Silva traz em seus livros: Passageiros da Tempestade

[iv] Conferir TEIXEIRA DA SIVA, Francisco (org.). O século sombrio – Uma História Geral do Século XX. Rio de Janeiro: Campus, 2004.

[v]  Câmara dos Deputados – Sessão: 091.2.55.O.  Orador JAIR BOLSONARO, PSC-RJ –  Data: 17/04/2016, Cf.:https://www.camara.leg.br/internet/SitaqWeb/TextoHTML.asp?etapa=5&nuSessao=091.2.55.O&nuQuarto=3&nuOrador=1&nuInsercao=359&dtHorarioQuarto=14:04&sgFaseSessao=OD&Data=17/04/2016&txApelido=JAIR%20BOLSONARO,%20PSC-RJ .Acesso: 11/12/2025.

[vi] Conferir: https://www.cartacapital.com.br/politica/mordaca-puida Acesso 11/12/2025.

[vii] Desde Imannuel Kant, o uso público da Razão é considerado o papel do intelectual. Em Sirinelli, 

[viii] FEBVRE, Lucien. 1985,  p. 22

[ix] Conferir em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/23/sera-golpe-dentro-do-golpe-e-tradicao-militar-muito-clara-diz-historiador.htm?cmpid=copiaecolahttps://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/23/sera-golpe-dentro-do-golpe-e-tradicao-militar-muito-clara-istoriador.htm?cmpid=copiaecola.Acesso 11/12/2025.

[x] Conforme informação apurada por jornalistas do periódico Carta Capital, o General é. Ex-integrante das Forças Especiais do Exército e se vangloriou da violenta repressão à Guerrilha do Araguaia em depoimento à Comissão Nacional da Verdade. Esta informação estará disponível no dia 12/12/2025 por meio do link: Perseguicao.pdf

[xi] PINHEIRO, Álvaro de Souza. Depoimento concedido à Comissão Nacional da Verdade em 12 nov. 2013. Transcrição: Álvaro de Souza Pinheiro – 12.11.2013. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, p.8 linhas 242 à 247. acesso em 09/12/2025 https://cnv.memoriasreveladas.gov.br/todos-volume-1/658-documentos-sobre-a-guerrilha-do-araguaia.html . Acesso 11/12/2025.

[xii] Pinheiro pertenceu às Forças Especiais do Exército (FE), que eram tropas de elite treinadas para atuarem em missões complexas e de alto risco, como contraterrorismo, sabotagem e guerra não convencional, tendo recebido conhecimentos sobre Comando e paraquedismo. As operações das FEs utilizavam-se táticas especializadas. O 1º Batalhão de Forças Especiais (1º B F ESP foi a unidade principal e seus integrantes passaram a ser conhecidos informalmente como “kids pretos”, como é o general Pinheiro.

[xiii] Uma importante contribuição à abordagem “construção de memória” encontra-se no artigo do Professor Ulpiano Bezerra de Meneses: História, cativa da Memória? Para um mapeamento da Memória no campo das Ciências Sociais, de Ulpiano Meneses, em Rev. Inst. Est. Bras,, São Paulo 34:9-24, 1992

[xiv] Referimo-nos a Geraldo Vandré que compôs a música Para não dizer que não falei das flores, premiada em segundo lugar no Festival Internacional da Canção (FIC) de 1968, transmitido pela Rede Globo de Televisão, e se tornou um hino contra a Ditadura Militar.

[xv] Trecho da música  Canción Por La Unidad Latinoamericana, composta por Pablo Milanés, em 1975, e adaptada por Chico Buarque de Holanda.

[xvi][xvi] Referência ao conceito de “banalidade do mal” desenvolvido por Hannah Arendt, quando, do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, a filósofa considera que a ação maldosa tirna-se banal ao ser empreendida sem o “filtro” da consciência crítica.

Márcia Carneiro – é professora Doutora do Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT) e do Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA). Membro do Grupo de Estudos do Integralismo (GEINT).

Felipe Cazetta – Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense. Professor do Departamento de História da Universidade estadual de Montes Claros, e professor permanente do PPGH-UNIMONTES.

Hugo Emerick – Doutorando e Mestre em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF); Licenciando em Ciências Sociais, Licenciado e Bacharel em História pelo Departamento de História do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense (campus Campos dos Goytacazes). Pesquisador no Laboratório de Estudos das Direitas e do Autoritarismo (LEDA – UFF) e no Laboratório de Estudos da Imanência e da Transcendência (LEIT – UFF).

Edgar Gomes – Pós-doutorado em história pelo Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC). Doutorado em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisador do Núcleo de Estudos de História da Cidade (NEHSC-PUC). Membro dos Conselhos Consultivo e Fiscal da ANPUH-SP.

Karl schurster – Professor livre docente da Universidade de Pernambuco, bolsista de produtividade do CNPq e investigador Maria Zambrano da Universidade de Vigo.

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