Para compreender a magnitude de O Grito (1893), é preciso antes mergulhar na psique atormentada de seu criador. Edvard Munch, não pintava o que via, mas o que sentia, transformando a tela em um espelho de uma vida sitiada pela tragédia. Criado sob a sombra de um pai religiosamente obsessivo e marcado pela perda precoce da mãe e da irmã para a tuberculose, Munch carregava o que chamava de “os anjos negros” da doença e da loucura. Essa herança fúnebre moldou uma sensibilidade crua, onde a arte não servia à estética, mas à sobrevivência psíquica.

A figura andrógina que centraliza a obra, despida de identidade individual para se tornar um símbolo universal, encontra raízes visuais profundas em um encontro inusitado na Exposição Mundial de Paris em 1889. Naquele turbilhão de modernidade, Munch deparou-se com uma múmia inca do Peru, cujas mãos postas contra o rosto e a mandíbula caída em um eterno espanto antropomorfizavam o horror absoluto. Essa imagem serviu como o molde anatômico para o desespero de Munch, mas ele não estava sozinho nessa obsessão. Paul Gauguin, também utilizou a figura cadavérica em seus quadros.

A relação entre os dois artistas consolidou-se através do Sintetismo, um movimento que rejeitava a observação direta da natureza em favor da memória e da emoção pura. Sob a influência de Gauguin, Munch adotou o uso de formas simplificadas e contornos pesados e escuros, que “sintetizavam” a experiência visual em símbolos emocionais. A paleta de cores de O Grito é o ápice desta técnica: o uso de cores antinaturalistas e berrantes: o laranja incandescente e o vermelho visceral do céu em conflito direto com o azul profundo e sombrio da água, cria uma dissonância cromática que agride o olhar.
Essa escolha não é decorativa, o contraste violento serve para desestabilizar o espectador, simulando a vibração de um som insuportável. Ao “despir” o seu protagonista de traços humanos definidos e imergi-lo nestas ondas de cor sinuosas, Munch não retratava apenas a si mesmo, mas a própria humanidade reagindo a um colapso interno.

A cena que deu origem à obra ocorreu durante uma caminhada ao pôr do sol na colina de Ekeberg, em Oslo. Enquanto seus amigos seguiam adiante, indiferentes e representados como silhuetas rígidas ao fundo, Munch foi paralisado por uma percepção sensorial avassaladora. O céu tingiu-se de um “vermelho sangue”, fenômeno que estudiosos modernos creditam às cinzas da erupção do vulcão Krakatoa, mas que, sob a lente sintetista, tornou-se a personificação do pânico. O isolamento de Munch naquele deck de madeira, espremido entre o asilo psiquiátrico onde sua irmã estava internada e um matadouro próximo, sintetiza a angústia da modernidade: a sensação de estar cercado por dor e indiferença em uma sociedade que avançava tecnologicamente, mas retrocedia em empatia.

A fluidez da obra, com suas linhas que parecem derreter a ponte e o céu, reflete a instabilidade mental que o próprio artista reconhecia. Em uma das versões, ele chegou a rabiscar a lápis a frase: “Só poderia ter sido pintado por um louco”, uma resposta sofrida às críticas que classificavam sua técnica como “arte demente”. Essa estética da subjetividade fundou o Expressionismo, rompendo com a necessidade de retratar o mundo exterior para focar nas profundezas do “eu”.
O impacto de O Grito transcendeu as galerias e entrou para a crônica policial, o que apenas aumentou sua aura mística. A obra sofreu dois roubos espetaculares: em 1994, na Galeria Nacional, e em 2004, no Museu Munch, onde foi levada sob a mira de armas. Essas violações reafirmaram a obra como um ícone tão valioso quanto vulnerável, uma metáfora da própria fragilidade humana que ela retrata.
Hoje, o descanso para esse clamor existencial encontra-se no MUNCH, o imponente museu inaugurado em 2021 à beira do fiorde de Oslo. O edifício, uma estrutura vertical de vidro e aço com uma inclinação que parece observar a cidade, protege o legado de um homem que doou toda a sua produção à capital norueguesa. Devido à sensibilidade dos pigmentos à luz, o museu opera um sistema de rodízio, revelando apenas uma versão por vez. Assim, o visitante moderno depara-se com o mesmo grito que, há mais de um século, insiste em não se calar, lembrando-nos que a angústia é a sombra inseparável da existência.

Por fim, a trajetória de O Grito no século XXI revela o estágio último da indústria cultural, tal como analisada por Theodor Adorno. Ao ser assimilada pela cultura de massa, transmutada na máscara da franquia cinematográfica Pânico, em estampas de camisetas e até na banalidade de um emoji de mensagens instantâneas, a angústia visceral de Munch sofre um processo de neutralização. Para a Escola de Frankfurt, essa reprodutibilidade técnica excessiva retira a “aura” da obra e esvazia seu potencial subversivo; o horror existencial que outrora desafiava a lógica burguesa é mastigado e devolvido ao público como entretenimento ou decoração.
Assim, o ícone que nasceu para denunciar a alienação moderna acaba, ironicamente, tornando-se parte da engrenagem que a promove, provando que, no mercado da estética, até o desespero mais profundo pode ser rotulado, vendido e silenciado pelo consumo.
Referências:
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. La Dialectique de la raison: fragments philosophiques. Tradução de Eliane Kaufholz. Paris: Gallimard, 1974
Catálogo da Exposição (Musée d’Orsay): Edvard Munch. Un poème d’amour et de mort. Paris: RMN, 2022
Connaissance des Arts. Le Cri de Munch : le mystère du message inscrit enfin découvert. Fevereiro de 2021.
MUNCH, Edvard. Arte e Natureza. In: CHIPP, H.B. Teorias da Arte Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
Bel Liviski – Professora e Fotojornalista. É articulista da coluna INcontros, e coeditora da Revista ContemporArtes desde 2010. Doutora em Sociologia pela UFPR.
