Há histórias que pedem silêncio a fim de serem escutadas com nitidez. Não porque lhes falte intensidade, ao contrário, porque carregam em sua própria tessitura, um rigor quase narrativo: começo, travessia, encontro, e sobretudo, permanência.
A trajetória de Betty Garcia Gutierrez começa em Cuba, mas não se limita a um ponto de partida geográfico. Parte de uma decisão: sair em busca de uma vida melhor para as filhas. O caminho até o Brasil, no entanto, não foi direto nem simples. Como tantas rotas migratórias contemporâneas, foi feito de desvios e atravessamentos: Ilhas Providenciales e Caicos, Barbados, Guiana e, por fim, a entrada pelo território brasileiro após uma longa e exaustiva viagem pela região amazônica, por estradas de terra que parecem suspender o tempo.
Durante o percurso, as filhas enfrentaram episódios de desidratação provocados pelos enjoos da viagem. O corpo, ali, torna-se o primeiro território de vulnerabilidade. Ainda assim, a travessia se completa.
Pouco mais de um ano depois, Betty trabalha na empresa curitibana Confidence Semijoias. Seu relato é direto, quase econômico, mas carrega a densidade de quem reconstruiu a própria vida a partir do zero: o desejo de um trabalho digno e de melhores condições para as filhas. Hoje, seus sonhos se projetam no futuro delas: uma quer ser radiologista, a outra veterinária. Como se o gesto materno de migrar fosse, em si, uma aposta na continuidade.
A história de Betty encontra ressonância na de outras mulheres que, como ela, chegaram ao Brasil atravessando não apenas fronteiras físicas, mas também simbólicas. Entre essas histórias está a de Daymara Alfonso Borroto, que recorda o impacto de chegar a um país desconhecido sem falar a língua e sem redes de apoio. O medo, segundo ela, era constante, uma espécie de atmosfera que envolve o cotidiano quando tudo é estrangeiro.
No entanto, a decisão de permanecer se impôs. Motivada pelos filhos, Daymara seguiu adiante até encontrar uma oportunidade na Confidence Semijoias. Ali, segundo seu relato, ocorreu uma inflexão importante: pela primeira vez desde sua chegada ao Brasil, sentiu-se acolhida. Trabalhando desde os 17 anos, afirma que foi nesse espaço que conseguiu oferecer à família as condições que sempre buscou. Sua frase, “Confidence representa minha vida no Brasil”, sintetiza essa transformação.
Outra trajetória que compõe esse mosaico é a de Yanelis Valdés Cruz, que vive no país há cerca de um ano e meio. Ao chegar, enfrentou as dificuldades comuns a muitos imigrantes: a barreira do idioma, a necessidade de recorrer a aplicativos de tradução, a instabilidade financeira. Antes de conquistar um emprego fixo, realizou trabalhos temporários e diárias, em uma rotina marcada pela incerteza.
A oportunidade na empresa surgiu por indicação de uma amiga e trouxe, sobretudo, estabilidade, elemento central para quem precisa reorganizar a própria vida em um novo país. Mais do que o salário, é a previsibilidade que transforma o cotidiano. Yanelis destaca também o ambiente diverso da empresa, onde convivem brasileiras, cubanas e venezuelanas. Nesse espaço, o trabalho se torna também um lugar de troca cultural e apoio mútuo.

Essas histórias individuais dialogam diretamente com a trajetória da fundadora da empresa, a empresária curitibana Patrícia Baudy. A Confidence Semijoias foi criada há 14 anos, mas ganhou novo direcionamento em 2014, ao adotar o modelo de revenda por consignação. Esse sistema permite que mulheres iniciem um negócio sem capital inicial, o que amplia o acesso ao empreendedorismo.
A mudança ocorreu em um momento delicado da vida da empresária. Em busca de autonomia financeira para sair de um relacionamento abusivo, Patrícia desenvolveu, de forma independente, um modelo de negócio que pudesse gerar renda imediata para outras mulheres. O projeto começou de maneira modesta, dentro de seu quarto, com um investimento inicial de R$ 5 mil.
Ao longo dos anos, a empresa se expandiu e hoje apresenta faturamento anual de R$ 10,5 milhões, com presença em 14 estados brasileiros. Conta com dezenas de colaboradores, representantes comerciais e milhares de revendedoras, além de mais de quatro mil pontos de venda.
Apesar do crescimento, a proposta da empresa mantém um eixo claro: mais do que comercializar semijoias, busca oferecer oportunidades, construir redes de apoio e promover o sentimento de pertencimento. Todas as peças são fabricadas pela própria marca, que também apoia iniciativas sociais em comunidades vulneráveis de Curitiba.
Internamente, o investimento no desenvolvimento dos colaboradores é parte estruturante da gestão. A empresa subsidia a maior parte dos custos de graduação e pós-graduação de seus funcionários e oferece plano de saúde integral. Trata-se de uma lógica que compreende o trabalhador como sujeito em formação contínua, e não apenas como força produtiva.
O reconhecimento dessa atuação também se expressa em premiações. Em 2025, Patrícia Baudy venceu as etapas estadual e regional Sul do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Pequenos Negócios, além de figurar entre as finalistas nacionais. Anos antes, já havia sido premiada no âmbito municipal.
No entanto, mais do que os títulos, o que se evidencia é uma concepção de responsabilidade empresarial que ultrapassa o desempenho econômico. Como afirma a própria empresária, trata-se de pensar na melhoria da vida da equipe e das pessoas ao redor.
Para as funcionárias imigrantes, o trabalho na empresa representa mais do que uma fonte de renda. Ele opera como ponto de rearticulação da vida: permite retomar projetos interrompidos, reorganizar expectativas e construir novas possibilidades.
Os sonhos que emergem dessas trajetórias são concretos e, ao mesmo tempo, profundamente simbólicos: a casa própria, a reunião familiar, a educação dos filhos. São projetos que revelam uma dimensão essencial da experiência migratória: a persistência.
Ao final, o conselho que essas mulheres dirigem a outras imigrantes que chegam ao Brasil converge para uma mesma ideia: é preciso continuar. Não como um imperativo abstrato, mas como prática cotidiana, construída entre esforço, sacrifício e, sobretudo, resistência.
Há, nessas histórias, uma lição preciosa: recomeçar não é apagar o passado, mas reinscrevê-lo em outra paisagem. E, nesse gesto, transformar trabalho em dignidade e pertencimento.
Fonte: Glaucia Domingos (Assessoria de Imprensa)
Bel Liviski – Professora e Fotojornalista, escreve a Coluna INcontros e é coeditora da ContemporArtes desde 2010. Edita também o TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil, em Curitiba/PR.
Contato: bel.photographia@gmail.com
