
Em tempos de aceleração algorítmica e previsões meteorológicas para o humor, essas que cabem em quinze segundos de vídeo, a astrologia reaparece no debate cultural com força renovada. Está nas livrarias, nas artes visuais, nas crônicas literárias e, evidentemente, nas redes sociais. Entre o meme e o tratado, há um campo vasto e frequentemente mal compreendido. É nesse interstício que a Saturnália – Escola de Astrologia & Cidade, fundada em Curitiba em 2009, propõe um deslocamento: pensar a astrologia não como oráculo instantâneo, mas como linguagem simbólica estruturada, com tradição, método e gramática.
A nova turma da Formação em Astrologia Tradicional, com início em março de 2026, ocorre em formato on-line e reúne estudantes de diversas regiões do Brasil e também do exterior. A escolha do ambiente virtual não dilui a densidade do conteúdo; ao contrário, amplia o alcance de uma proposta que se ancora na história das ideias.
Astrologia como linguagem: gramática do tempo
Segundo o astrólogo e fundador da escola, João Acuio, aprender astrologia assemelha-se ao aprendizado de qualquer sistema simbólico complexo. Se a literatura exige alfabetização textual, o mapa astrológico requer alfabetização celeste. Planetas operam como personagens; signos modulam suas qualidades expressivas; casas indicam âmbitos da experiência; aspectos revelam tensões e alianças. Trata-se de uma narrativa do tempo inscrita no céu.
A abordagem da Saturnália enfatiza vertentes clássicas da tradição ocidental:
– astrologia natal, dedicada à interpretação de mapas individuais;
– astrologia mundana, voltada aos ciclos coletivos e históricos;
– astrologia eletiva, que investiga a escolha simbólica de momentos;
– astrologia horária, prática que responde questões a partir do instante em que são formuladas.

Ao estruturar o curso a partir dessas matrizes, a escola reivindica uma herança intelectual que dialoga com filosofia antiga, astronomia pré-moderna e história cultural. O objetivo não é oferecer previsões rápidas, mas formar leitores do símbolo e, por extensão, leitores críticos do próprio tempo.
A retomada dos saberes simbólicos
O crescimento do interesse por cosmologias tradicionais no Brasil não é um fenômeno isolado. Em um cenário de incertezas políticas, ecológicas e existenciais, proliferam buscas por sistemas que articulem sentido, temporalidade e pertencimento. A astrologia, nesse contexto, reaparece como dispositivo hermenêutico: uma forma de interpretar a experiência humana em relação ao cosmos.
Essa retomada, contudo, não ocorre sem tensão. Entre o consumo superficial e o estudo rigoroso, há uma distância considerável. A Saturnália posiciona-se precisamente nesse ponto de inflexão, defendendo a astrologia como campo de estudo e formação continuada, e não como entretenimento esotérico.
Interfaces entre astrologia, literatura e pensamento cultural
A atuação da escola ultrapassa o espaço da sala de aula virtual. Por meio da Editora Pogo, mantém uma produção editorial que articula astrologia, literatura e cultura. A revista Cazimi reúne ensaios em que poesia e símbolo dialogam; o fanzine Selina propõe leituras astrais de figuras da cultura brasileira, entre elas Machado de Assis e Ney Matogrosso, reinterpretados à luz de seus mapas e trajetórias artísticas.

Mais recentemente, a editora publicou a tradução brasileira de O Momento da Astrologia – Origens na Adivinhação, de Geoffrey Cornelius. A obra discute os fundamentos conceituais da astrologia ocidental, aproximando-a da imaginação filosófica e do pensamento simbólico. Ao trazer esse título ao público brasileiro, a escola reforça seu compromisso com uma abordagem reflexiva e historicamente situada.
Entre cultura e cosmos
A Saturnália integra, assim, um movimento mais amplo de revalorização das linguagens simbólicas no espaço público. Ao invés de respostas prontas, oferece ferramentas interpretativas. Ao invés de certezas rígidas, propõe leitura e escuta, do céu e do mundo.
Se a modernidade nos ensinou a medir o tempo com precisão mecânica, talvez a astrologia, estudada com rigor e espírito crítico, nos convide a habitá-lo com imaginação. Não como fuga da realidade, mas como exercício de interpretação. Entre cultura e cosmos, o curso que se inicia agora em março sugere que aprender a ler o céu pode ser, também, uma forma de reler a própria experiência histórica.

Serviço
Formação em Astrologia Tradicional – Saturnália – Escola de Astrologia & Cidade
Início: março de 2026
Formato: on-line
Turmas: segundas-feiras, 19h30 às 21h30, ou quartas-feiras, 10h às 12h
Informações e inscrições: www.saturnalia.com.br
Contato: equipesaturnalia@gmail.com
Bel Liviski escreve a coluna CWB em Foco e também a coluna INcontros. É articulista e coeditora da Revista ContemporArtes desde 2010.
