Atravessei a Praça Santos Andrade no domingo de Carnaval e encontrei mortos-vivos caminhando sob o sol. Penso que o horror à luz do dia é mais honesto, à noite, tudo é suspeito; sob o céu claro, a monstruosidade precisa sustentar-se sozinha.
Entre palhaços inquietantes e criaturas ensanguentadas, conversei com dois personagens trajados de preto, portando acessórios discretos, cuidadosamente escolhidos. Suas figuras elegantes e sóbrias destacavam-se em meio à multidão caótica e multicolorida: um híbrido de Dia dos Mortos mexicano e espetáculo barroco.
Eles traziam máscaras de bico longo que me fizeram pensar em corvos. Tratava-se, porém, das figuras históricas dos médicos da peste – funcionários municipais que na Europa do século XVII, assolada pela peste bubônica, usavam um bico preenchido com ervas aromáticas na tentativa quase poética de filtrar a morte. Mais tarde, tornaram-se figuras icônicas do Carnaval de Veneza.
Talvez eu tenha visto corvos ali porque o símbolo já estava pronto: referências literárias como as de Edgar Allan Poe, e porque são aves necrófagas. Na iconografia medieval, corvos habitam campos de batalha, epidemias e restos mortais. São aves da margem, testemunhas da decomposição.
A certa altura da conversa, um deles disse calmamente: Todo mundo quer ser Superman. Ninguém quer ser Freddy Krueger… A frase ficou ecoando, não porque seja profunda à primeira vista, mas porque é simples demais para não ser verdadeira.

Somos educados para a luz. Para o desempenho. Para a coerência. Para a versão editada de nós mesmos. A cultura contemporânea aperfeiçoou esse projeto: agora não basta ser virtuoso; é preciso parecer impecável, constantemente em alta definição.
Mas existe algo que escapa.
Carl Gustav Jung chamava de “sombra” essa zona psíquica onde depositamos aquilo que não combina com a imagem que pretendemos sustentar. Não é um porão gótico. É mais doméstica do que isso, a sombra aparece quando sorrimos com polidez e pensamos o contrário. Quando julgamos com rapidez. Quando não aceitamos nossos próprios defeitos e fraquezas e os lançamos para o subsolo.
Nada cinematográfico. Apenas humano.
Freddy Krueger, personagem criado por Wes Craven na década de 1980, é a caricatura extrema dessa recusa. Ele invade o sonho, desorganiza a narrativa, destrói a ilusão de controle. É o retorno do que foi empurrado para fora da história oficial. Talvez por isso ninguém queira ser ele na vida cotidiana. O vilão encarna aquilo que preferimos projetar nos outros.
Curitiba já conheceu sua sombra antes da Zombie Walk. Durante décadas, a cidade conviveu com a figura discreta e quase espectral de Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”. Não apenas pelo título de seu livro, mas pelo modo como habitava o espaço público: recluso, avesso a aparições, atento às fissuras do cotidiano.
Em seus contos, não havia monstros explícitos. Havia casais silenciosos, frustrações domésticas, pequenas crueldades, ironias secas. O vampiro ali não era criatura sobrenatural, mas metáfora de uma sociedade introspectiva, contida, por vezes claustrofóbica.
Se Trevisan capturava a sombra em silêncio minimalista, a Zombie Walk a encena em maquiagem exuberante. Dois modos distintos de lidar com o mesmo material: o subterrâneo. Talvez toda cidade precise de seus vampiros, literários ou carnavalescos, para lembrar que a superfície organizada esconde histórias menos polidas.
O curioso é que, quanto mais insistimos em ser Superman: produtivos, éticos, inspiradores, mais a sombra precisa encontrar outras rotas. Ela pode surgir como sarcasmo elegante, como indignação moral desproporcional, como cancelamentos fervorosos que têm menos a ver com justiça e mais com purificação simbólica.
A Zombie Walk vista desse ângulo, torna-se ritual curioso, perfeito para um estudo da antropologia dos símbolos. Por um dia, o grotesco ganha permissão social. As pessoas exibem o que normalmente esconderiam: a decomposição, o “feio” e algo sutilmente sinistro vestido de inocência. Tudo isso sob aplausos, fotografias e risos. O horror vira estética. A sombra vira figurino.
É como se a cidade dissesse: “Tudo bem. Podemos olhar para isso juntos, por algumas horas.”
Talvez seja essa a leveza do evento. Não se trata de glorificar o mal, mas de suspender a obrigação de pureza. A maturidade psíquica, individual e coletiva, talvez não consista em eliminar a sombra, mas em reconhecê-la como parte de nossa arquitetura interna. A sombra não é o oposto da luz. Ela é a prova de que existe um corpo entre o sol e o chão.
No fim da tarde, os mortos-vivos dispersaram-se. A praça retomou a normalidade, essa ficção diária que nos permite funcionar. Mas a frase permaneceu: ninguém quer ser Freddy Krueger… Talvez porque o verdadeiro horror não esteja na máscara, mas na recusa em reconhecer aquilo que nos habita. A sombra não desaparece quando a negamos; ela apenas espera a próxima oportunidade de entrar em cena.
E, ao contrário do cinema, a vida não corta para os créditos.
Bel Liviski, é articulista da Coluna INcontros desde 2010, e também coeditora da Revista ContemporArtes. Professora e Fotojornalista, é Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná.
Contato: bel.photographia@gmail.com

Excelente abordagem! Realmente, nas mãos de uma socióloga/artista o cotidiano vira lição. Parabéns!
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Excelente abordagem! Realmente, nas mãos de uma socióloga/artista o cotidiano vira lição. Parabéns!
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