Um Papai Noel na História, mas ainda não, a história de um Papai Noel.

Boris Kossoy (2003, p 45) afirma em sua obra, que “o fragmento da realidade [permanece] gravado na fotografia”, ou o registro a semelhança do real, porque “é o homem que tem a capacidade suprema de produzir semelhanças”,  conforme a doutrina das semelhanças de Walter Benjamin (2008, p. 108), que assevera, que essa faculdade, apesar de acanhada no homem contemporâneo, se expressa na habilidade de olhar e reproduzir semelhanças encontradas na natureza, tendo como fundamental modelo de identificadores a própria linguagem.

A fotografia é uma realidade/semelhança do mundo concreto que reproduz não só uma localidade ou objetos, mas indivíduos formadores de uma pequena comunidade; sim, pessoas e as reminiscências possíveis de serem desvendadas ao analisar o ontem com os “olhos” do conhecimento histórico de hoje. Boris Kossoy ainda referindo-se a fragmentação da realidade, traduz em conceito o que eu sempre percebi diante do registro fotográfico:

… o congelamento do gesto e da paisagem, [e porque não dizer, das individualidades] e, portanto a perpetuação de um momento, em outras palavras, da memória: memória do indivíduo, da comunidade, dos costumes, do fato social, da paisagem urbana, da natureza. A cena registrada na imagem não se repetirá jamais. O momento vivido, congelado pelo registro fotográfico, é irreversível.

Fotografia 1: Loja Espacial neste registro do início da década de 70. Acervo André Mattos

Burke (2004, p ii) escreveu como exemplo ao conceito de “tradução cultural”, que:

(…) as imagens também podem ser traduzidas, no sentido de que podem ser adaptadas para uso em um ambiente diferente do que foi inicialmente idealizado (em outros termos, elas podem ser adaptadas para o uso em uma cultura diferente). Elas podem ser traduzidas erradamente [incluídas em outras narrativas] (pelo menos do ponto de vista do artista original).

Se para Benjamim, a rememoração é uma retomada salvadora do passado, a fotografia é lugar de lembranças possíveis de serem rememoradas e também testemunho para aquela história que Bosi afirma existir “dentro da história cronológica, outra história mais densa de substância memorativa no fluxo do tempo. [Que] aparece com clareza nas biografias; tal como nas paisagens, há marcos no espaço onde os valores se adensam.” Desta história que “traz um passado aberto, inconcluso, capaz de promessas…” onde a memória é hábil em movimentar-se “com grande liberdade escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam através de índices comuns…”, cabendo a nós historiadores e aos cientistas sociais procurarmos “esses vínculos de afinidades eletivas entre fenômenos distanciados no tempo.”

Um depoimento, um fragmento das ruínas das vidas de sujeitos sociais históricos e dos espaços de suas relações, de uma cultura que foi se sedimentando com o tempo, e por estar presente na história de um tempo recente, impõem a memória, lembranças… que nos permitem oferecer respostas a novas questões. Assim inicialmente analisamos as fotografias referentes deste artigo.

Fotografias 2, 3 e 4: Nosso Papai Noel, personagem em destaque neste artigo. Na fotografia a direita uma das únicas em que aparece sorrindo. Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Fotografias 5, 6 e 7: Chama a atenção também a falta de sorrisos e demonstração de alegria entre as crianças. Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Os personagens retratados envelhecem e morrem, os cenários se modificam, se transfiguram e também desaparecem. O mesmo ocorre com os autores-fotógrafos e seus equipamentos. De todo o processo, somente a fotografia sobrevive… Os assuntos nela registrados atravessaram os tempos e são hoje vistos por olhos estranhos, em lugares desconhecidos: natureza, objetos, sombras, raios de luz, expressões humanas, por vezes crianças, hoje mais que centenárias, que se mantiveram crianças…. – Boris Kossoy. (p 45)

A figura central das fotografias é a do Papai Noel. A tradição natalina foi “inserida” no Brasil por influência européia e norte-americana, tendo, segundo o Prof. Joaquim Dias:

A primeira menção que encontramos está na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, no dia 09 de fevereiro de 1881, num artigo que identifica o Father Christmas inglês ou Santa Claus estadunidense e o traduz como Papá Natal. Pois bem, o Papá Natal é descrito com ar bonachão e amável, tal qual os dias de hoje, bem como sua hora e dia de visita às crianças é à meia-noite do dia 25 de dezembro. Descrito como ancião, com uma enorme barba branca e trajando vermelho, (…) Parece-nos que a chegada do Papai Noel (Father Christmas/Santa Claus/Papai Natal/Pai Natal) ao Brasil se consolida principalmente a partir da primeira década do século XX, embora não tenha se tornado tradicional e enraizado na cultura nacional de forma ampla até à década de 1940. 

Fotografias 8, 9 e 10: Permanecem as feições sérias e sem registro de emoções e sentimentos felizes dos perpetuados nas imagens Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Fotografias 11, 12 e 13: No fundo em todas as imagens vemos uma variedade de produtos a venda na Loja Espacial, “organizados” de uma maneira bem aleatória. Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Repetindo uma tradição capitalista de utilizar a figura do “bom velhinho” para alavancar as vendas do comércio no período do Natal, o que nos chama a atenção nas fotografias em destaque de uma promoção da Loja Espacial em Três Rios/RJ, da década de 70 do século passado, é que o personagem que recebe as crianças para o registro difere e muito da imagem tradicional do Papai Noel que se apresenta “com ar bonachão e amável, tal qual os dias de hoje.” Estas imagens oferecem virtualmente a única evidência de uma personagem que, dificilmente vamos encontrar referências textuais que venham a tratar/explicar sobre a aparência/interpretação/empolgação e estímulo ao consumo… estas fotografias são destaques de sensibilidade e vida; evidências para uma história social.

Em algumas fotos ele não sorri e nem as crianças, questionamos então em pensamento o porquê… Outros registros, como um relato da história oral por um personagem envolvido com o que está narrado nas imagens poderia responder a nossa indagação. Fotografias como estas são experiências não verbais, testemunhas mudas que precisam e podem ser lidas, sem logicamente, deixar de considerá-las indícios, vestígios que permitem-nos visualizar culturas passadas ou o “desenrolar” de tradições.

Fotografia 14: Uma das surpresas da minha pesquisa para o mestrado. Duas figuras muito queridas em um momento de suas vidas, que eu as desconhecia. A esquerda da imagem, Érica Xavier Martins (já desencarnada), minha primeira namorada, e no colo do Papai Noel, sua irmã Edênica Xavier Martins. Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Quando das minhas pesquisas do mestrado deparei-me com estas fotografias, além da intrigante figura natalina, identifiquei duas pessoas queridas que fazem parte de minhas lembranças em um tempo em que ainda não as conhecia: na fotografia vemos a direita em pé, Erica Xavier Martins e no colo do Papai Noel, sua irmã, mais nova do que ela, Edenia Xavier Martins. Experiências não verbais também são lugares de lembrança e por isso, “as imagens, como os textos e testemunhos orais, constituem-se numa forma importante de evidencia histórica. Elas registram atos de testemunho ocular.” (Burke, p. 17)

Para os que ainda se reconhecem nestas imagens, uma lembrança ressurge da memória e estes também podem descrever suas emoções e sentimentos.

Fotografia 15: A Loja Espacial era um comércio popular, na quase totalidade das fotos as crianças estão vestidos de forma simples. Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Esta possibilidade de percebermos também as representações dos tempos desviados da imagem pelo enquadramento fotográfico confirma que a fotografia enquanto fonte e objeto historiográfico permite muito mais do que um reviver de imagens do passado, mas sim um lidar com o tempo e a memória onde ambos caminham a passos largos para o futuro sob os olhares dos historiadores e homens das ciências sociais do presente, considerando que “na história de vida(s), perder o tempo (e a memória) é perder a identidade, é perder-se a si mesma.”

Fotografias 16, 17 e 18: Na imagens a esquerda, porque será que a crianças está chorando assustada? Ao centro nosso personagem sozinho e a direita, o registro também destaca uma figura feminina adulta possível mãe das crianças. Registros da década de 70 do século passado. Acervo André Mattos.

Henri Cartier-Bresson, um dos grandes mestres da fotografia do século 20, citado por Felizardo e Samain na introdução de um artigo, afirmou que: “As coisas das quais nos ocupamos, na fotografia, estão em constante desaparecimento, e, uma vez desaparecidas, não dispomos de qualquer recurso capaz de fazê-las retornar. Não podemos revelar e copiar uma lembrança.” Lembrança esta que se perde com a eliminação da fonte viva onde permanece a memória, o espírito humano.

Referências:

BENJAMIN, Walter. “A doutrina das semelhanças”, in “Walter Benjamin – Obras Escolhidas Vol. I – Magia e Técnica, Arte e Política.” São Paulo. Editora Brasiliense. 11ª Reimpressão. 2008

BOSI, Ecléa. “O Tempo Vivo da Memória. Ensaios de Psicologia Social”. Ateliê Editorial. São Paulo/SP, 2ª Edição, 2004.

BURKE, Peter. Testemunha Ocular: História e Imagem 2ª ed. S.P.: EDUSC. 2004.

DIAS, Joaquim. Quando o Papai Noel chegou ao Brasil? Disponível em https://professorjoaquimdias.blogspot.com/2021/12/quando-o-papai-noel-chegou-ao-brasil.html. Acesso fev 2026.

ENTLER, Ronaldo. O corte fotográfico e a representação do tempo pela imagem fixa. Studium, Campinas, SP, n. 18, p. 30–42, 2019. Disponível em: https://econtents.sbu.unicamp.br/inpec/index.php/studium/article/view/11788. Acesso em fev 2026.

FELIZARDO, Aldair e SAMAIN, Etienne. “A Fotografia como objeto e recurso da memória”. Disponível no site: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/discursosfotograficos/article/view/1500/1246>. Acesso em fev 2026.

KOSSOY, Borys. “Fotografia e História”. São Paulo. Ateliê Editorial. 2ª Edição. 2003.

2 comentários em “Um Papai Noel na História, mas ainda não, a história de um Papai Noel.

  1. Todas as interpretações são excelentes, mas acrescento uma: a fotografia tem função psicológica profunda ao eternizar o momento. A impermanência é extremamente pesada para ser suportada e criamos práticas para evitar seu confronto: comemorações de eventos, religiões, edificações e fotografias.

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