Fotografia, a Arte da Memória.

Na introdução do livro John Berger, para entender uma fotografia, Geoff Dyer (2013, p. 9) escreveu que seu interesse por fotografia “começou não por tirar fotos ou olhar para elas, mas lendo sobre elas.” Diferentes caminhos nos conduzem ao “envolvimento” com a arte fotográfica. No meu caso, transportar-me para outro lugar, outro tempo que não o meu, pelo olhar…, por este motivo sou sempre “aprisionado” pela história e a memória de uma imagem fotográfica de um momento anterior ao meu.

Barthes (p. 11) relata a experiência de estar diante de uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo, registro datado de 1852, e pensar na figura daquele que perpetuou a imagem, o fotógrafo, ao pensar: “Vejo os olhos que viram o Imperador;” e seu interesse pela Fotografia “adquiriu uma postura mais cultural”. Assim, pessoas, espaços de relação, objetos, faces, olhares e gestos, os corpos… vida e tempo; o que também me entrega uma Fotografia.

Em outras oportunidades escrevi que objetivei na pesquisa para o mestrado a proposta de fomentar uma discussão historiográfica que considera a fotografia em sua dupla dimensão de fonte e testemunho de memória, privilegiando-a como um lugar de lembrança relacionada a todas as representações a ela associadas, sejam histórias de vidas, sejam monumentos arquitetônicos, entendendo memória como o conjunto de lembranças preservadas e esquecidas de um indivíduo ou de uma coletividade, estando em um processo contínuo de construção e reconstrução.

Fotografia 1: Praça Salim Chimelli, espaço a esquerda da imagem, Vila de Entre-Rios, década de 20 do século passado. Acervo André Mattos.

Busquei acompanhar a formação dos espaços urbanos de relação da Vila de Entre-Rios, hoje, Três Rios/RJ, minha cidade natal, desde a construção da Ponte das Garças e da Rodoviária da Estrada União Indústria, no ultimo quarto do século XIX – até a emancipação da cidade de Paraíba do Sul/RJ na década de 30 do século passado; espaços que desapareceram no esquecimento quando das transformações e ampliação da Vila.

Os patrimônios de natureza material e imaterial são portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos grupos instituidores das organizações sociais, formando o patrimônio cultural da Nação, dos Estados e dos Municípios. Imagens como a fotografia 1 foram utilizadas por atender ao objetivo da pesquisa, registro de um espaço urbano que não mais se encontra desta maneira, com a “praça”, na atualidade, “engolida” por um viaduto sobre a linha férrea, permanecendo até os dias atuais, apenas o casarão a frente a direita, onde funcionou o Ginásio de Entre Rios, inaugurado em 11 de abril de 1943.

A evolução urbana da cidade de Três Rios/RJ, no processo de formação do atual espaço físico e social, privilegiou a representação do moderno e a identificação do progresso, como ainda se realiza nas diversas obras que adaptam a cidade ao crescimento econômico e populacional acelerado nas últimas décadas; mas, com o desenrolar da pesquisa e analise das fotografias percebi a presença de pessoas (corpos que “falam”) nestes espaços, presentes nos registros fotográficos.

Berger (2013, p. 110) em artigo intitulado O Enigma das Aparências, indaga porque que “as fotografias de objetos que desconhecemos nos emocionam?”; e permito-me indagar: porque as fotografias de pessoas que desconhecemos ou mesmo aquelas de parentes e cenas de um cotidiano anterior a história presente, nos emocionam? A resposta deparamos neste mesmo texto de Berger (2013, p 112) que afirma que “reconhecer uma aparência requer a memória de outras aparências.”

Imagem 1: Registro de fotografia impressa no Jornal O Diário, de 4 de janeiro de um dos anos iniciais da década de 80 do século passado. Acervo André Mattos.

A pesquisa em jornais da cidade me proporcionou “encontrar” pessoas queridas em registros que desconhecia e que movimentaram minha memória nas felizes lembranças da infância e da juventude. É o caso das imagens 1 e 2, registros de fotografias impressas nos jornais: no primeiro, meu irmão, Márcio Mattos (nome escrito errado no texto do jornal) e minhas primas Fernanda e Vanessa, destaques de uma coluna social do Jornal O Diário, registrando presença no réveillon de um dos anos iniciais da década de 80 do século passado; no segundo, novamente meu irmão Márcio (no grupo de jovens a frente a esquerda) e meu irmão Luiz Mauro, atrás, mais ao meio, o goleiro do time de futebol. Fotografia impressa no jornal O Cartaz de 19 a 25 de março de 1973 na sua edição de nº 89 em reportagem destacando o time do Olaria, vice-campeão do Campeonato de Gengivas, que era realizado no campo do Entrerriense Futebol Club, na cidade de Três Rios/RJ.

Somos atraídos emocionalmente (saudades, tristezas e alegrias) por fotografias de pessoas, momentos e lugares que desconhecemos porque há sempre uma linguagem (texto imagético) no referente fotográfico onde nossas memórias encontram semelhanças nas histórias contadas em imagens.

São “dois diferentes usos da fotografia. Um uso ideológico, que trata a evidencia positivista como se representasse à única e definitiva verdade. E, em contraste, um uso popular, mas privado, que aprecie uma fotografia para fundamentar um sentimento subjetivo.” Berger (2013, p. 110) Nestes dois casos a fotografia é a Arte da Memória.

Imagem 2: Registro de fotografia impressa no Jornal O Cartaz em sua edição de nº 89. Acervo André Mattos.

As classificações “impostas” ao registro imagético, conforme relaciona Barthes, que procuram reprimir as Fotografias – fato ou empíricas, retóricas ou estéticas, diminuem as possibilidades de leitura do mundo; e mesmo que se deseje, não é possível reduzir a Fotografia a um único discurso. São muitos os autores que percorrem caminhos outros em busca de expressar a essência de uma imagem fotográfica. Mas qual a essência da Fotografia? Se ainda discutimos, mesmo vivendo a realidade descartável de uma profusão de imagens digitais na atualidade, se a Fotografia é Arte ou não… como definir, fechando em sua “primeira caixinha” (máquina fotográfica), resposta a está indagação? Sua essência estaria na relação com a História e a Memória?

Desde 2011, pelo menos, tenho estudado e publicado artigos sobre Fotografia, concentrando-me comumente na sua relação com a História e a Memória. Este ano pretendo reler as obras que possuo e adquirir outras, procurando dividir minhas reflexões com vocês meus leitores. As Fotografias apesar de todas “nascerem” com um propósito e representarem a vontade de alguém (o fotografo), elas nos permitem avanças muito mais além do “olhar” deste sujeito histórico.

Quando alçada a condição de objeto/fonte de estudo historiográfico, a Fotografia onde pessoas que não mais em vida, espaços de relação e patrimônios modificados ou destruídos, mesmo que fragmentado na imagem, tem sempre uma história e memória a contar. E diante deste caminho ainda podemos inquirir: As Fotografias estudadas/olhadas são escolhidas pela “atração” que exercem a memória e as emoções ou pelo o que ela entrega ao tema a ser refletido?

Barthes (p 36) cita Sartre quando este afirma: “As fotos de um jornal podem muito bem “nada dizer-me”, o que quer dizer que eu as olho sem pô-las em posição de existência”. O olhar que estarei utilizando é a do historiador? Sim, mas também daquele que observa em qualquer imagem fotográfica uma arte de representação da vida, de memórias e do tempo histórico.

“É isso que faz de Berger um maravilhoso crítico prático e leitor de fotografias individuais (“olhando o rosto da vida, e lendo o que pode ser lido”), questionando-as com sua peculiar atenção…” Geoff Dyer (2013, p. 15), interrogar o que pode ser lido.

“Em cada ato de olhar há uma expectativa de um significado. Esta expectativa deve se diferenciada do desejo de uma explicação. Aquele que olha pode explicar depois; mas antes de qualquer explicação, há expectativa do que as próprias aparências estão prestes a revelar.” Berger (2013, p 116)

 Fica o convite para que possamos juntos neste ano partilhar reflexões e olhares sobre as imagens fotográficas.

Referências:

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. 12ª Impressão, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro/RJ, 2008.

BERGER, John. Para Entender uma Fotografia. Organização de Geoff Dyer. Companhia das Letras. São Paulo/SP. 2017.

2 comentários em “Fotografia, a Arte da Memória.

  1. Escrevi um comentário e quando fiz login “os comentários estavam fechados “. Pena! Já apontei outras vezes que este site é ruim. Deixo meus parabéns. Gostei.

    E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música. Friedrich Nietzsche PUCCI.’.

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