Tecnologias Digitais no Processo Educativo: Reflexões sobre o Uso de Telas no Ambiente Escolar

O artigo aqui transcrito em forma de resumo foi apresentado no XXXII Colóquio AFIRSE Portugal, realizado no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. O evento ocorreu entre os dias 6 e 8 de fevereiro de 2025, com o tema “Educação, Participação e Democracia: Contributos da Investigação”. 

AFIRSE é a sigla de Association Francophone Internationale de Recherche Scientifique en Éducation, ou seja, Associação Francófona Internacional de Pesquisa Científica em Educação. A organização internacional com sede na França, é dedicada à investigação no campo educacional, possuindo seções em diversos países, incluindo Portugal e Brasil. 

Vivemos em um tempo em que as telas se tornaram extensões do corpo e da mente. Celulares e tablets não são apenas objetos de consumo, mas cofres íntimos onde se arquivam memórias, conversas, afetos, dados bancários e segredos cotidianos. Essa ubiquidade tecnológica, que parecia ser sinônimo de liberdade, acabou por instaurar novos dilemas no campo da educação. Afinal, como ensinar e aprender em um mundo onde o brilho das telas compete com o olhar atento ao professor?

Foi a partir dessa inquietação que Magno Oliveira (FARESI), Katiuscia Santos (UNEB), Paulo José dos Santos (UNEB) e Jurema Hughes* (UC/UNEB) desenvolveram a pesquisa Tecnologias Digitais no Processo Educativo: Reflexões sobre o Uso de Telas no Ambiente Escolar. O estudo, realizado no CEEP Paulo Freire, em Santaluz (Bahia), articula dados empíricos, análise crítica e diálogo com a recém-aprovada Lei Brasileira nº 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares em escolas públicas e privadas de educação básica durante aulas, recreios e intervalos, permitindo sua utilização apenas para fins pedagógicos.

Cidade de Santaluz (Bahia). Fonte da imagem: https://santaluz.ba.gov.br/

O contexto de um paradoxo

Se, por um lado, os dispositivos móveis ampliam a conectividade e oferecem recursos que rivalizam com computadores, por outro, seu uso excessivo gera impactos significativos na saúde mental e no desempenho escolar. Não se trata apenas de “tempo perdido”: os algoritmos das redes sociais moldam preferências, comportamentos e até identidades, transformando influenciadores digitais em modelos de vida para adolescentes. Nesse cenário, a escola vê sua centralidade ameaçada, pois os fluxos digitais reconfiguram não apenas a atenção dos estudantes, mas também suas formas de interação social e de construção de sentido.

O estudo de caso em Santaluz

A pesquisa utilizou metodologia mista, combinando questionários, entrevistas e registros de tempo de tela (via recursos de bem-estar digital em Android e IOS). A coleta foi realizada de forma participativa: estudantes de Administração aplicaram os instrumentos em colegas de Nutrição, Administração e Análises Clínicas, com idades entre 14 e 21 anos. A atividade foi realizada como parte da avaliação da segunda unidade. Apresentamos apenas os dados  de uso de tela da turma de Nutrição.

Os resultados parciais são reveladores:

  • a média de uso em dias letivos foi de 6,8 horas, mais que o dobro da recomendação da Associação Brasileira de Pediatria (até 3h/dia para adolescentes de 11 a 18 anos);
  • em dias não letivos, o tempo médio saltou para 7,2 horas;
  • houve registros extremos de até 12 horas em dias de aula e 15 horas em dias de folga;
  • apenas um estudante, do sexo masculino, usou menos que o limite recomendado em dia letivo; nos dias não letivos, todos ultrapassaram a recomendação.

Esses números, além de impressionantes, funcionam como radiografia de uma geração para a qual a tela é tanto lugar de encontro quanto de dispersão.

Participantes da pesquisa: Estudantes das turmas de Nutrição, Administração e Análise Clínicas; 59 estudantes; Idade de 14 até 21 anos.

Entre limites e possibilidades

O estudo aponta a urgência de políticas educacionais capazes de ressignificar o uso das tecnologias digitais. Não basta proibir: é preciso orientar, mediar, transformar os celulares em aliados de processos criativos e críticos de aprendizagem. A Lei nº 15.100/2025, ao mesmo tempo que estabelece restrições, também convoca as escolas a promoverem estratégias de cuidado com a saúde mental e a informar sobre os riscos do uso excessivo.

O desafio, portanto, é duplo: como reduzir os danos causados pela hiperexposição às telas e, ao mesmo tempo, aproveitar seu potencial pedagógico? Essa é a encruzilhada em que a escola contemporânea se encontra.

Um convite à reflexão

Os dados coletados em Santaluz não são exceção, mas espelho de uma realidade global. Em vez de demonizar as telas ou idealizar um retorno impossível a um tempo pré-digital, a pesquisa propõe que se construa uma pedagogia do equilíbrio: transformar o celular de distração em ferramenta de emancipação.

Talvez possamos pensar, com ironia e esperança, que a escola do futuro será aquela capaz de “hackear” os próprios algoritmos: ensinar a olhar para além do feed, a questionar os discursos prontos, a encontrar no brilho da tela não apenas consumo, mas possibilidade de criação e de pensamento crítico.

Depoimento sobre o AFIRSE Portugal 2025: Jurema Hughes Sento-Sé
Participar do AFIRSE 2025, realizado em Lisboa, foi uma experiência enriquecedora. Durante o evento, tive a oportunidade de apresentar dois trabalhos em momentos distintos, o que permitiu compartilhar os resultados da pesquisa com especialistas da área e receber contribuições valiosas. Essas apresentações geraram discussões profundas sobre os temas abordados, possibilitando novas perspectivas e reflexões que contribuirão para o aprimoramento da investigação. Além disso, a diversidade de olhares e experiências dos participantes enriqueceu os debates, fortalecendo a construção coletiva do conhecimento.

Além das apresentações, assisti a palestras sobre temas contemporâneos, que trouxeram abordagens inovadoras e reflexões críticas sobre os desafios atuais na educação e na sociedade. A exposição a esses conteúdos ampliou minha compreensão acerca das complexidades do campo acadêmico e me instigou a pensar sobre novas possibilidades de pesquisa e intervenção. O contato com  outros especialistas e pesquisadores favoreceu o aprofundamento teórico e metodológico, promovendo um ambiente fértil para o intercâmbio de ideias.

Outro aspecto relevante foi a interação entre pares e o desenvolvimento de novas relações profissionais, fundamentais para a trajetória acadêmica e científica. A troca de experiências com pesquisadores de diferentes contextos e nacionalidades fortaleceu redes de colaboração e abriu caminhos para novas parcerias. Esses momentos de diálogo e convivência reafirmaram a importância da coletividade na produção do conhecimento e do impacto que a construção conjunta pode ter na transformação social. O AFIRSE 2025 não foi apenas um espaço de aprendizado, mas também de conexões e crescimento profissional para a minha jornada acadêmica.

Jurema Hughes* – Doutoranda em Ciências da Educação, investigadora colaboradora no GRUPEDE do Centro de Estudo Interdisciplinares (CEIS20), ambos da Universidade de Coimbra (UC) e em Difusão do Conhecimento pelo programa multi institucional da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Instituto Federal da Bahia (IFBA), com início em 2021. Mestre em Desenvolvimento Regional e Urbano pela Universidade Salvador (2004) e Universidade de Aveiro (2022). Bacharel em Turismo pela Faculdade de Turismo da Bahia (2000). Tema da pesquisa de doutoramento Famílias Imigrantes, com jovens. Atua como educadora parental e de jovens, além educadora em projetos e cursos de graduação e técnicos desde 2001.

Izabel Liviski (Bel Liviski) é articulista e coeditora da Revista ContemporArtes desde 2009. É também editora do TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil em Curitiba/PR. Mestre e Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná.

Contato: bel.photographia@gmail.com

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