Raízes Visíveis: A memória ucraniana em imagens de Larissa Guimarães

Na sala silenciosa da Casa Domingos Nascimento Sobrinho, sede do IPHAN-PR (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), uma presença delicada se faz ver, não por palavras, mas por imagens. É a exposição Ukrainos, de Larissa Guimarães, que chega a Curitiba como quem retorna ao chão de casa. Mas este não é um retorno qualquer: ele se faz pelas frestas do tempo, por entre véus de linho bordado, terços antigos e mãos que ainda sabem da terra.

As fotografias reunidas nesta mostra, aberta ao público entre 18 de julho e 19 de setembro, são mais do que testemunhos visuais da comunidade ucraniana de Prudentópolis, interior do Paraná. São fragmentos de uma história viva, que resiste em ritos, cantares e gestos herdados. A curitibana Larissa Guimarães, premiada no Festival Internacional de Fotografia de Paraty (2020), faz da câmera uma extensão da memória e da pele: registra com afeto o cotidiano dos descendentes de imigrantes ucranianos, entrelaçando o documental ao íntimo.

A curadoria sensível da exposição convida o visitante a um percurso entre o visível e o invisível: vestígios da fé católica fervorosa, sinais de um campesinato persistente, detalhes de interiores que guardam ecos de um outro continente. O nome Ukrainos, escrito com leve deslocamento da grafia usual, parece também sugerir esse entre-lugar: não mais Ucrânia, ainda não Brasil, um Brasil-ucraniano, onde a identidade se reinventa a cada geração.

Neste tempo em que as guerras deslocam milhares de pessoas da Ucrânia, a exposição reverbera ainda outras camadas de sentido. Não é apenas um resgate histórico, mas um gesto político de reconhecimento, os Ukrainos de Larissa Guimarães são também um lembrete de que a migração funda mundos e que a fotografia pode ser uma forma de pertencimento.

Larissa Guimarães é formada em publicidade, trabalhou com produção de comerciais por 8 anos. Começou a fotografar em 2008 ao morar fora do Brasil, na Nova Zelândia, sentiu a necessidade de documentar esse período e coletar lembranças do país longínquo. Ao retornar ao Brasil, ainda se dividiu um pouco entre a publicidade e a fotografia. Em 2012, com o nascimento do primeiro filho, nasceu também uma fotógrafa de casamento e família. Com o tempo, foi natural a busca por projetos de fotografia autoral. Divide o tempo entre os trabalhos com eventos, ensaios e projetos pessoais. Ela nos concedeu uma entrevista que transcrevemos abaixo:

Larissa Guimarãe na abertura da exposição Ukrainos, na sede do IPHAN/PR

ContemporArtes – Larissa, em primeiro lugar fale um pouco sobre você,  sua trajetória artística e profissional.

L.G. – Sou uma alma curiosa e sensível. Eu fotografo porque sinto saudades. Saudades de pessoas, lugares, momentos e sensações. Eu fotografo porque quero guardar o que eu sinto e vejo em um lugar onde eu possa ir quando eu sentir saudades. A fotografia é o antídoto que encontrei para essa saudade. Cada pedaço de retrato que eu faço é intimamente ligado a mim das mais variadas formas e sentimentos. Minha história, minha ancestralidade e minha família são as raízes do trabalho que eu produzo. Eu saio de dentro da minha alma para ir dentro da alma das pessoas e a fotografia é o meio de fazer isto.

ContemporArtesComo nasceu a ideia do projeto “Ukrainos”? Foi algo planejado ou surgiu de forma orgânica?

L.G. – Não foi planejado! Minha família tem uma casa de campo em Prudentópolis, nós íamos sempre passar as férias. Na rua da nossa casa, alguns poucos metros antes, havia uma casinha de madeira, azul e vermelha, coisa mais linda. Um dia, fui até lá e pedi para fotografar. Eles não só me deixaram fotografar, como deram a resposta que foi a faísca inicial deste trabalho: “que bom que vai fotografar, pois a casa vai ser desmanchada”. Aí eu percebi esse movimento, que as antigas casas de madeira tem sido substituídas por casas de alvenaria. Senti o chamado de fotografar essas casas enquanto ainda estão lá. Naturalmente, os retratos vêm junto como testemunho dos antepassados e dessa etnia que está tão presente em Prudentópolis.

ContemporArtesVocê considera este trabalho como documental, artístico ou autobiográfico?

L.G. – Definitivamente um pouco de cada. Ele é documental, pois retrata a memória de um povo; quando estou fotografando, não tem nada encenado, é tudo bem cru – no sentido que as pessoas não estão ali para serem fotografadas, elas estavam em um dia qualquer na vida delas e então eu apareci por lá, (risos). Há muita verdade nesses registros.

Considero como um trabalho artístico também, pois é um registro poético, do que eu enxergo ao adentrar os ambientes. Considero que as paredes das casas são como pequenos museus particulares, onde eles colocam os santos, fotos antigas de antepassados, alguns pequenos adornos… eu acho isso de uma riqueza imensa, fico fascinada observando (e fotografando) cada detalhe.

E ele também é autobiográfico, pois eu mesma também sou descendente de ucranianos. Por parte da minha avó materna, meus bisavós vieram da Ucrânia. Então é uma maneira de resgatar a minha própria história.

ContemporArtesA exposição nos toca pela simplicidade e também por uma profunda dignidade nos retratados. Como foi o processo de aproximação com a comunidade ucraniana em Prudentópolis?

L.G. – Primeiro de tudo, é um trabalho de formiguinha, (risos). Eu faço várias pesquisas, vou perguntando para alguns conhecidos… Mas não conheço muitas pessoas por lá, então muitas vezes é na base da sorte, de ir dirigindo pelas linhas rurais, encontrar uma casinha de madeira, parar o carro, bater palmas, torcer que alguém esteja em casa e conversar. Noto que ao contar pra eles que a minha família também é ucraniana, eles já se identificam muito mais, às vezes conheciam alguém – ou alguém conhecia alguém da minha família, e assim já se cria uma identificação muito maior. No geral, eles gostam e se interessam bastante pelo projeto, pois o objetivo de retratar a cultura e preservar a história dessas casas é algo que é importante para a comunidade ucraniana como um todo.

ContemporArtesA fé católica aparece com força nas imagens. Como você percebe essa dimensão espiritual no cotidiano que fotografou?

L.G. – Sim, a fé é algo muito importante para eles. São muito religiosos, muito devotos. Via isso com a minha avó também, fui criada acompanhando o quanto ela era devota e praticante. Eles têm uma vida muito voltada para a igreja, é algo que os une, seja nas festas dos santos padroeiros ou nas festas católicas como um todo – a Páscoa, por exemplo, é uma festa importantíssima, com muitos ritos e tradições.

ContemporArtesE o que significou, pessoalmente, ver essas imagens reunidas na exposição “Ukrainos”?

L.G. – Ah, ver o trabalho impresso, exposto é MUITO gratificante! Fazer um trabalho pessoal é algo que requer muita dedicação (eu comecei a fotografar esse trabalho em 2015!) e poder expor isso é realmente uma alegria muito grande. Ainda mais na casa do IPHAN, parece que o local foi feito para receber esta exposição, está realmente incrível a combinação das fotos com o local.

ContemporArtesPor fim, o que você espera que o público leve consigo ao visitar a exposição?

L.G. – Gosto muito quando as pessoas me dão retorno sobre as fotos como “parece a casa da minha avó… este senhor me lembra o meu avô… dá pra sentir o cheiro da casa de madeira da minha família lá do interior…”. Esse trabalho é MUITO sobre isso. Amo essa identificação e essa emoção que as pessoas sentem ao ver os retratos; é uma parte da minha história sim, mas permeia a história de muita gente também. Eu acredito que a arte e a fotografia têm essa capacidade de nos emocionar e nos aproximar. Espero que esse trabalho traga um pouquinho disto para quem o vê.

Serviço
Exposição fotográfica Ukrainos, de Larissa Guimarães
📍 Local: Casa Domingos Nascimento Sobrinho – IPHAN/PR
📆 Período: 18 de julho a 19 de setembro de 2025
🕘 Visitação: Segunda a sexta-feira, das 9h às 18h (exceto feriados)
📍 Endereço: Rua José de Alencar, 1808 – Juvevê, Curitiba/PR
🎟 Entrada gratuita
📞 Informações: (41) 3264-7971

> Sede do IPHAN/PR – Foto: Julio Saitiro

Izabel Liviski (Bel), articulista da Coluna INcontros desde 2009 e coeditora da Revista ContemporArtes. É também editora do TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil, em Curitiba/PR.

Contato: bel.photographia@gmail.com

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