** Profa. Dra. Irene Franciscato
Março se foi, porém todos os meses são marcadores temporais permanentes para trazer à tona personalidades femininas que contribuíram ou que contribuem com a transformação social, ambas invisibilizadas total ou parcialmente por uma sociedade como a nossa, que não só não cultiva suas memórias como também negligencia seu presente.
É o caso de duas mulheres que serão apresentadas neste texto enquanto referências que quebram “paradigmas” convencionais seja do ponto de vista econômico, social e/ou cultural. Trata-se de Enedina Alves Marques, primeira engenheira negra brasileira e de Maria Valéria Rezende, freira e ativista que contrariou a ditadura de 1964, atualmente escritora, também brasileira.
Quem foi Enedina Alves Marques?

Menina de família pobre, nascida em 1913, quando a mãe consegue trabalho na casa de um delegado em Curitiba. Por ideia dessa pessoa, Enedina vai para a escola junto de sua filha de mesma idade, para fazer-lhe companhia, logo mostrando bom aproveitamento escolar. Continua seus estudos na escola normal e passa a lecionar em algumas cidades do interior do Paraná.


Retorna à capital e ao mesmo tempo em que dá aulas alfabetizando crianças, complementa seus estudos. Mora com a família de um construtor, pagando por sua estadia com serviços domésticos.
Será pelos seus 25 anos que ainda dando aulas, dá início a curso preparatório, noturno, para ingresso na faculdade, ao que é bem-sucedida, formando-se engenheira numa turma com mais 32 formandos, engenheiros homens e brancos. Graduada em engenharia civil, deixa a docência e passa a atuar em importantes setores públicos governamentais do Paraná. Enedina, com muita luta consegue, por insistência, romper as barreiras do que hoje denominamos racismo estrutural.

Enedina aposentou-se em 1962 e faleceu em 1981. Em sua pós-morte, teve seu nome em rua paranaense, no instituto de mulheres negras denominado Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, na cidade de Maringá e na PR-340, um trecho da rodovia que também leva seu nome.
Desconhecemos a existência de pesquisa histórica aprofundada que nos elucide ainda mais sobre a vida dessa mulher expoente. Contudo, as informações obtidas pelos meios impressos de comunicação nos levam a tecer algumas considerações. A primeira, a de que no início do século vinte, com a sociedade brasileira dividida em classes, sua condição de menina pobre e negra foi rompida pelos estudos, propiciada por medidas assistencialistas pontuais de duas famílias, o que nos permite pensar que se dadas as condições de acesso à escolarização, como direito e não como benevolência, toda pessoa segue em frente em sua autorrealização. Nas décadas iniciais desse mesmo século, tal como Enedina fazia seus estudos ao que hoje corresponderia à educação básica, Anísio Teixeira (1900-1971), defendia a escola pública como direito de todos, ao encontro do que a ONU escreveria em suas orientações, em 1948, no Artigo 26, item 1, de que:
“ Todo ser humano tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória”.
A segunda, diz respeito a possíveis preconceitos e discriminações por raça e gênero. As informações que tais meios de comunicação indicam são de que Enedina teria sido vítima de desconfiança ao exercer a função de engenheira. Embora somente ela pudesse nos dar detalhes do racismo sofrido à época, assim deixando um hiato que não sabemos se será ou não preenchido por alguma pesquisa que aprofunde a questão, vale observar que nas duas fotos de seu tempo de estudante aqui reapresentadas, Enedina aparece na lateralidade das fotos (e das pessoas…). Ainda, na foto de seu trabalho como engenheira, ocupa lugar menos lateralizado em meio a homens brancos, mas não central. Estaria ocorrendo exclusão da jovem negra e pobre que se tornou professora entre as demais jovens brancas e depois, engenheira, entre homens brancos? Prega a lenda que para ser ouvida no meio masculino de trabalho, Enedina teria dado tiro de revólver quando queria ser ouvida. Para além do racismo estrutural, estariam as interações sociais microscópicas sustentando o racismo institucional, quando o acesso à educação profissional fora de alguma forma equiparado, mas o preconceito arraigado persistia entrelaçando o relacionamento humano cotidiano?
Enedina foi uma mulher solteira. Por ocasião de seu falecimento, ocorrido na segunda metade do século vinte, para o bom entendedor, o racismo vem à tona por ocasião do anúncio de sua morte em jornal. Nesse jornal, foi apresentada como uma idosa sozinha e excêntrica, apagando assim sua presença concreta e simbólica na época em que lutou bravamente. O Instituto de Engenharia do Paraná protestou mediante violação de sua biografia, levando a desencadear posteriores publicações no meio jornalístico que fizeram circular suas realizações e a defesa de sua memória.
Antigas questões sociais e raciais arraigadas ainda no século vinte e um, aqui reveladas pelo resgate da memória de Enedina, se perpetuam na sociedade dos brancos?
Quem é Maria Valéria Rezende?

Jovem de classe média santista nascida em 1942, Maria Valéria Rezende não correspondeu ao que se esperava de seu gênero àquela época: na imitação de suas palavras, a ideia era a de que a mulher casaria, teria um único emprego, viveria na mesma cidade e teria muitos filhos.
Qual o quê? Maria Valéria faz sua trilha bem diferente do que se esperava das mulheres, desde jovem atuando na educação popular. Em 1965, aos 23 anos, entra para a Congregação Nossa Senhora cônegas de Santo Agostinho, tornando-se freira. Para ela, a escolha por um caminho religioso não se dá apenas pela fé, mas também como um projeto de vida em que desejo e fé estão presentes. Na ocasião, escolhe o caminho de uma Igreja que desse preferência aos pobres.
Como missionária, deixou a cidade de Santos e, pelos idos de 1972-1986, além de Olinda e Recife, conheceu o sertão pernambucano e o meio rural paraibano. Alfabetizou sindicalistas e camponeses do sertão por muito tempo e não escapou do exílio, quando então tem experiências com outros países. Entre uma atividade e outra, mantem sua moradia atual em João Pessoa (PB).
No período da ditadura civil e militar (1964-1985), a jovem Maria Valéria atuou na defesa dos perseguidos, ora escondendo militantes, ora encaminhando-os para empregos e para aqueles e aquelas que estavam correndo maior risco, facilitava passaportes para que deixassem o país. Maria Valéria conseguiu furtar-se à violação de direitos humanos mantendo seu espírito de justiça sempre aceso, aos quais outros parceiros sofreram violações severas, especialmente referentes ao artigo 5 (submissão à tortura e degradação), artigo 9 (prisão arbitrária), artigo 20 (liberdade de reunião e associação pacífica), direitos àquela época já prescritos pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. E enquanto militava, buscou meios de auxiliar, proteger e encaminhar muitos brasileiros e brasileiras para a preservação de suas vidas. Como sabemos pela Comissão da Verdade, muitos as tiveram interrompidas e, até o presente, seus algozes não foram responsabilizados e punidos.
No recente documentário dirigido por Laís Chaffe, denominado Mesmo que tudo dê errado, já deu tudo certo (2022), entre outras passagens, ela conta em detalhes situações que viveu ao ser interrogada por agente do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), em São Paulo, e fica evidente sua habilidade em se desvencilhar da situação e continuar a atuar em prol dos que estavam sendo procurados.
Teve formação acadêmica na PUC de São Paulo – pedagogia –, na Universidade de Nancy – Língua e Literatura francesa – e na Universidade Federal da Paraíba – mestrado em sociologia.
Torna-se escritora e seu caminhar por essa trilha de várias vertentes mais recente é o de ser uma das idealizadoras do coletivo feminista Mulherio das Letras. Trata-se de um grupo de mulheres que, conversando sobre a necessidade de se problematizar a hegemonia masculina do mercado editorial, numa das FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty-RJ), em que estavam presentes Maria Valéria e Conceição Evaristo (escritoras), Mirna Queiróz (escritora e editora) e Josélia Aguiar (jornalista e escritora), impulsionam um movimento constituído não só de escritoras mas também de editoras, acadêmicas e designers para expansão da atuação feminina no campo da criação e publicação literárias.
Como escritora, o conjunto de suas publicações é diverso. Escreveu para todas as idades – literatura infantil, juvenil e romance, com um prêmio em cada uma. Escreveu em diversos gêneros: contos, crônicas e poemas. Escreveu predominantemente em língua portuguesa e tem publicação escrita em menor frequência em coletâneas de língua italiana e espanhol.
Seus romances e personagens trazem a marca de refletirem, na ficção, o que Maria Valéria, sensível e criticamente experimentou mediante convivência com tantas pessoas em carne e osso, em seus contextos reais de vida, seja o de opressão ideológica ou de classe. Explica sua criação literária como um chacoalhar de tudo que viveu organizado por sua mente e a expressa em palavras. Para ela, a literatura mostra aos outros o que estes não podem ver. E quantos ainda não veem as pessoas empobrecidas, de vida precária, sem habitação e à beira da fome ou ainda em ocupações de trabalho precarizado? Sua literatura traz essas vozes para incomodar, para marcar a presença dessa realidade que ainda só é vista por uma parcela da sociedade. Torna visíveis as frestas e fraturas da sociedade representadas por seus personagens e por vezes, assume uma maneira muito especial de autoria, como a que tomou para escrever o romance Quarenta Dias (2014, prêmio Jabuti) simulando, durante 15 dias, as experiências da sua personagem, locomovendo-se, como esta se locomoverá no romance, como uma pessoa vinda do nordeste, perdida pela cidade desconhecida de Porto Alegre (RS).

Além das ilustrações acima referentes a publicações de romaces, citamos ainda O voo da guará vermelha (2005), Carta à rainha louca (2019), Modo de apanhar pássaros à mão (2020) e na literatura infanto-juvenil, entre outras, citamos O arqueólogo do futuro (2006), No risco do Caracol (2008) e Vampiros e outros sustos (2013). Finalizando a reverência a essas duas mulheres, de nascimento e trajetória tão diversas, constatamos que durante os muitos anos patriarcais que ainda perduram, muitas mulheres batalhadoras que lutam para mudar o status-quo feminino existiram, existem e existirão, assim tornando a sociedade mais justa e igualitária. Cabe resgatar as que foram apagadas da memória e fortalecer as que estão presentes no cenário da luta contra a dominação, seja a de classe, gênero ou raça. Todas movem a História fortalecendo o caminhar na defesa e no combate às violações dos direitos humanos em todas as condições da vida.

Doutora em Educação-Psicologia da Educação pela PUC de São Paulo, professora aposentada, lecionou nas Faculdades Oswaldo Cruz, FASB e Fundação Santo André, no curso de Pedagogia. Tem capítulo em livro Direitos Humanos no Chão da Escola (UFABC) e artigo publicado na Revista Psicologia Reflexão e Crítica (UFRGS). Foi uma das organizadoras da Coleção EDH Linguagens e Narrativas, da UFABC. Foi tutora em curso de Aperfeiçoamento e Especialização de Educação em Direitos Humanos na UFABC. Atualmente é parecerista de produções acadêmicas e colunista da Revista Contemporartes.
Contato: irenefranciscato@gmail.com
