O marimbondo, comparado por Cecília Meireles a personagem de Lope de Vega, já foi título de livro de poesia e de letra de música. Ele aparece também na literatura etnográfica: entre os índios Xikrin, tirar marimbondo, atacar casas de marimbondos, metáfora do enfrentamento dos inimigos e da natureza, é rito de passagem que habilita o jovem para o casamento.
O marimbondo é, portanto, um personagem ilustrado, ilustre. Letrado? Um ser da natureza não sabe ler nem escrever, não domina os códigos da linguagem humana, mas o marimbondo parece ter sido aluno exemplar da escola de engenharia de sua espécie. Dediquei alguns dias a observar o trabalho minucioso e metódico de um deles na construção de sua casa aqui no meu quintal.
Trazendo aos poucos o barro selecionado com conhecimento de causa, o marimbondo amassa a fibra com suas peças bucais e mistura com uma secreção, formando uma pasta que, quando seca, adquire consistência de papel, me explica a bióloga Laura Braga, que também destaca a função da estrutura. “Para essas espécies os ninhos servem para abrigar o adulto, os ovos e as larvas.”

O conhecimento dos materiais e dos métodos, a competência para executar à risca seu projeto, o marimbondo surge aos meus olhos atentos como o protótipo do profissional especialista. Mas, no caso desse que observei em meu quintal, especialista até demais. Sim, a viseira de uma especialização excessiva, a falta de uma visão holística, esse era o ponto fraco, que viria a comprometer todo engenho, arte e finalidade de sua obra.
Acreditem ou não: o meu ilustre marimbondo, construiu sua casa no talo de uma folha de couve! Folha que não foi colhida, por respeito ao marimbondesco monumento, o qual encontrou precoce fim na efemeridade de seu suporte. Com isso, o maribondo me deixou com uma pulga atrás da orelha.
Fiquei matutando, pois: não seria esse marimbondo dotado de insuspeita sabedoria que o levou a construir numa folha de couve uma casa que apenas serviria de metáfora aos perigos da especialização alienada e alienante? Para isso, o sábio inseto teria escolhido um pé de couve plantado no quintal de um escritor que, decerto, traduziria em uma crônica sua mensagem a quem interessar possa?
Mas a metáfora pode merecer outra leitura: a imagem da obra que feita sem obedecer ao agir-racional-com-respeito-a-fins, característico da nossa civilização, algo feito por puro amadorismo, talvez um recado do marimbondo ao poeta, apenas dizendo, solidário: “tamos juntos”?
Afonso Guerra-Baião

Que melhor ilustração poderia haver pra esse texto que essa de Vladmir Kush, tão oportunamente escolhida pela editora Izabel Livski?
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