“O que torna as primeiras fotografias tão incomparáveis talvez seja isto: elas representam as primeiras imagens do encontro entre a máquina e o humano.”
(Walter Benjamin)
I. Introdução
A fotografia surgiu em pleno período de expansão da revolução industrial, e promoveu uma intensa mudança nas relações sociais a partir de 1839, principalmente com Nièpce e Daguerre na França, mas ela surge simultaneamene em outros países. Com as grandes transformações no século XIX em que a antiga aristocracia mostrava sinais de decadência frente à recém-surgida burguesia, a arte estava rompendo sua antiga tradição para atender à ordem que moldava a nova sociedade: o capitalismo industrial. Com as mudanças sócio-econômicas deste século, também a mulher começa a vislumbrar uma mudança de seu papel principalmente na sociedade burguesa européia. (FERRO, 2010).
Dispondo de mais tempo livre, ela passa a se dedicar a atividades científicas, que a levarão ao contato com instrumentos óticos e posteriormente com a fotografia, acompanhando de perto as descobertas no campo fotográfico. O tipo de trabalho que atraiu as fotógrafas nesse período foi o retrato, devido à maior facilidade de trabalhar em ambientes fechados, como as próprias residências, além do trato com a decoração dos ateliês, a direção da pose das clientes, que se sentiam mais confortáveis perante uma fotógrafa, resultando em serviços de qualidade.
A presença feminina nos bastidores do ateliê fotográfico foi uma constante desde a data que se convencionou como da invenção da fotografia, em 1839. Era comum encontrar esposas, filhas ou parentes dos fotógrafos-proprietários trabalhando ativamente no negócio. Conclui-se assim, que desde o advento da fotografia a mulher atuou em todos os campos dessa nova tecnologia. (FREUND, 1974).
II. As Primeiras Fotógrafas
As mulheres estiveram sempre à margem na história da arte, e ainda durante o século XIX esta parecia ser uma profissão exclusivamente masculina. As poucas mulheres que ingressaram nesse sistema dominado pela Academia eram julgadas de modo pejorativo, e a pecha de amadorismo inibiu por muito tempo estudos sobre suas produções. (SIMIONI, 2008). A crescente inserção feminina no campo artístico no período a partir da metade do século XIX, sugere questões referentes às representações dominantes sobre a condição das mulheres no tempo, suas disposições adquiridas no curso da formação e que modelaram suas escolhas, ao caráter masculino da atividade artística, aos desafios que enfrentaram e o modo como puderam equacionar o conjunto de constrições de amplo espectro. A inserção das mulheres nas artes em geral, se deu de forma lenta e através de algumas lutas. (ARAUJO, 2012). No campo da fotografia, isso não foi diferente.
Pode-se questionar que um dos motivos da falta de informação e divulgação da participação feminina na fotografia pode ser em função de uma suposta prática entre os historiadores, acostumados a registrar os feitos masculinos em detrimento aos femininos, relegando a mulher a um segundo plano. Como afirma Rosenblum, poderia ser o valor predominante em uma cultura na qual era esperado do homem um papel mais ativo, ao mesmo tempo em que se esperava da mulher um papel de “apoio”. Assim, muitas vezes as mulheres entravam no mundo da fotografia como retocadoras, fotocopiadoras ou assistentes, atuando principalmente nas atividades de laboratoristas e na montagem das fotografias nos mais diversos tipos de suportes e estojos. (ROSENBLUM, 2000, pg.10)
Michelle Perrot (2005) também reforça essa ideia, destacando que a desatenção ou negligência à produção das mulheres é motivada pela história tradicional e por aqueles que a escreveram. Uma vez que a cultura na sociedade sempre foi transmitida pelos homens, a seleção dos fatos e o registro histórico obedeceram sempre a uma perspectiva masculina. Consequentemente, o que se relaciona às atividades do “segundo sexo” – como denominou Simone de Beauvoir – assim como ao seu modo de pensar e agir, seria considerado sem significado e até indigno de menção. Nesse sentido, é pouco conhecida a atuação de Anna Atkins (1799-1871), botânica e fotógrafa inglesa considerada a primeira pessoa a publicar um livro ilustrado com imagens fotográficas, e algumas fontes afirmam mesmo que ela foi a primeira mulher a criar uma fotografia.
III. O surgimento da fotografia na Polônia
Maksymilian Strasz (1804-1885), fotógrafo polonês, inventor, engenheiro, arquiteto em Kielce, é considerado o pai da fotografia polonesa. Em julho de 1839, ele enviou para a Gazeta Wyborcza, um artigo intitulado “Como transferir itens para o papel usando a obscuridade pela influência da própria luz”. Strasz também foi o autor do primeiro livro publicado no país sobre o assunto, em 1856, em Varsóvia.
Ele se aprofundou nos estudos da ótica e na recente invenção da fotografia. Em julho de 1839 – antes de serem divulgados os detalhes da técnica de daguerreótipo – Strasz publicou um artigo sobre outra técnica fotográfica, o calótipo em “Commercial and Industrial News”. Na nota de rodapé deste texto, os editores relataram que o autor havia enviado duas amostras desse experimento e que os interessados podiam vê-los. Nada se sabe sobre as tentativas subseqüentes de Strasz relacionadas a essa técnica. Em vez disso, ele se interessou pelo daguerreótipo, ao qual dedicou textos subsequentes, publicados em outubro e novembro do mesmo ano.
Em 1857, foi publicado seu livro didático, Photography, uma coleção de meios usados para fixar imagens usando luz sobre papel ou vidro, dispostas para uso prático. Em 1989, por ocasião do 150º aniversário da fotografia polonesa, a Poczta Polska emitiu um selo a partir do design de Stefan Malecki dedicada a Maksymilian Strasz. Também na mesma ocasião, a diretoria da Associação de Fotógrafos Poloneses de Arte em Varsóvia, estabeleceu uma Medalha com a imagem de Strasz.
IV. Precursoras da fotografia polonesa
Maria Kietlińska (1888 -1966)
Foi Membro da Associação de Fotógrafos de Arte da Polônia, da Sociedade Fotográfica Polonesa e da Sociedade Fotográfica de Varsóvia. Formou-se na escola particular feminina de Leonia Rudzka em Varsóvia, e apresentou pela primeira vez suas fotografias em 1931 na exposição Tatra Mountains and Podhale, organizada em cooperação com o Henryk Schabenbeck Photo Studio. As fotografias de Maria Kietlińska foram publicadas muitas vezes na Photographic Review, e em 1937 seu trabalho foi publicado no Almanaque Polonês da Fotografia.
Nos anos de 1943 a 1944, ela trabalhou na empresa Helios em Kielce como laboratorista de material fotográfico. Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se professora de fotografia na Escola Provincial de Artes e Ofícios de Kielce. Em 1950, ela se estabeleceu em Varsóvia trabalhando no Museu Histórico, de 1951 a 1959, dirigindo um estúdio de fotografia. Seus ensaios fotográficos estão nas coleções da ZPAF Fototeka em Varsóvia.
Em 2008, na Galeria Nacional de Arte Zachęta, em Varsóvia, foi organizada uma exposição de fotógrafos poloneses do século XX, apresentando as realizações criativas de 50 documentaristas poloneses a partir da década de 1870, onde constavam também os trabalhos dessa documentarista.
Janina Mierzecka (1896-1987)
Era fotógrafa em Lviv, e inicialmente estudou música, interessando-se depois pela fotografia estudando com o professor desse assunto na Politécnica de Lviv, Henryk Mikolasch, a quem ela pediu algumas lições em 1925. A partir de então, a fotografia se tornou uma profissão e objeto de sua criatividade artística. Ela participou dos chamados “showrooms” nacionais e estrangeiros de Chicago a Tóquio. Era membro da Sociedade Fotográfica de Lviv, esteve no comitê organizador da Sociedade Fotográfica Polonesa e, a partir de 1931 foi membro do Clube Fotográfico Polonês.
O álbum ‘Mãos de Trabalhadores’ foi publicado em 1939 com 250 cópias, e é considerado muito interessante no conjunto da obra desta autora (sua segunda edição com 75 cópias apareceu em 1947), desenvolvida em conjunto com seu marido Henryk Mierzecka, que era médico de profissão.
Em 1949, Mierzecka mudou-se para Wrocław, onde trabalhou, criando um estúdio de fotografia no Museu Estadual e na Academia Médica, colaborando com os médicos na criação de um catálogo de doenças de pele. Ela também fotografou a cidade, imortalizando edifícios históricos e casas residenciais, igrejas, lojas de departamento, prédios públicos, dando ênfase à escultura e detalhes arquitetônicos. Graças à sua paixão, muitas fotos de Wrocław, e outras cidades da Baixa Silésia assim como de várias regiões da Polônia foram criadas. O legado de Mierzecka é uma parte extensa das coleções do Departamento de Documentação Fotográfica do Museu de Arquitetura de Wrocław.
Zofia Katarzyna Chomętowska (1902-1991)
Oriunda de uma família aristocrática dos príncipes Drucki-Lubecki, começou a fotografar em 1928, com uma câmera Leica de 35mm. Em 1937, ela foi aceita como membro do Photoclub Polonês, e também foi membro do Photoclub de Varsóvia, e da Sociedade Fotográfica Polonesa onde em 1939 foi eleita para o último Conselho. Juntamente com Tadeusz Przykowski, foi fotojornalista da Mostra “Acusações de Varsóvia” em 1945, a primeira exposição fotográfica polonesa do pós-guerra exibida no Museu Nacional de Varsóvia, em outras cidades do país e também no exterior.
Os negativos das fotografias realizadas durante o Levante de Varsóvia foram doados ao Museu daquela cidade, onde após a guerra cerca de 5.000 negativos de 1923-1939 e 1945-1947 foram catalogados. Seu trabalho foi mostrado na primeira exposição do pós-guerra intitulada: “Meio século de Varsóvia na Fotografia de Zofia Chomętowska”.

Stefania Bril (1922-1992)
Nasceu em Gdansk na Polônia, estudou Ciências e Química e em 1950 veio para o Brasil onde se naturalizou, radicando-se em São Paulo com seu marido. Ambos eram sobreviventes do Gueto de Varsóvia, do qual escaparam antes do levante de 1943. Depois de uma peregrinação por vários países da Europa, decidiram-se por fixar residência permanente no Brasil. Seu acervo é composto por cerca de onze mil imagens, constituído de ensaios fotográficos autorais, permeados por um olhar crítico e uma grande dose de humor, com destaque para os retratos de gente anônima. Parte deste acervo se encontra no Instituto Moreira Salles.
É autora do livro “A arte do Caminhão” (1981), um projeto lúdico em parceria com o também fotógrafo Bob Wolfenson. Seu legado inclui ainda uma vasta coleção bibliográfica formada por recortes de periódicos, e negativos fotográficos. Stefania Bril dedicou grande parte de sua vida à observação, análise e a fotografia de cenas brasileiras entre os anos 1970 até o início dos anos 90, atuando decisivamente para a criação e difusão de uma imagética nacional.
V. Considerações Finais
As mulheres deram uma vital contribuição à fotografia, tanto do ponto de vista profissional, assim como da arte, desde os seus inícios. Em todos os aspectos dessa área, como retratos, documentação social e científica, publicidade, fotojornalismo, e como expressão pessoal, as mulheres têm sido criadoras realmente ativas. Suas conquistas, porém, ainda têm sido muitas vezes negligenciadas e, ocasionalmente, até mesmo creditadas a seus companheiros, ou ainda a colegas fotógrafos do sexo masculino. Há inúmeros relatos onde se demonstram essas situações.
Se as mulheres tiveram um papel preponderante na fotografia, por que elas mereceriam um estudo em separado? Para responder a essa questão há muitas respostas e ainda mais perguntas a fazer, que justificam uma pesquisa: as mulheres e seus trabalhos fotográficos estão tão visíveis como deveriam estar à vista do número e de sua influência no passado? As investigações sobre suas atividades e de sua arte foi tão rigoroso e tão perspicaz como os estudos dos fotógrafos do sexo masculino? Suas contribuições são e têm sido entendidas no contexto do desenvolvimento global deste médium? Diante de todos esses questionamentos, conclui-se que “As Mulheres na Fotografia, é ainda uma História a ser escrita”. (ROSENBLUM, 2000).
Referências:
ARAUJO, Silvete Aparecida Crippa de – Mulheres Artistas: Outsiders na História da Arte, 2012.
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. III. São Paulo: Brasiliense, 1989.
FERRO, Ligia – Ao encontro da sociologia visual, artigo do Programa Internacional de Doutoramente em Antropologia Urbana, Portugal- 2010.
FREUND, Gisèle – Photographie et Société, Editions du Seuil, Paris, 1974.
MARTINS, José de Souza – Sociologia da Fotografia e da Imagem, Editora Contexto, S.Paulo, 2008.
PERROT, Michelle – Mulheres ou os silêncios da História, EDUSC, 2005.
ROSENBLUM, Naomi – A history of women photographers, Abbeville Press, London, 2000.
SIMIONI, Ana Paula Cavalcanti. Profissão Artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: FAPESP, 2008.
Outras fontes:
http://revistacontemporartes.blogspot.com.br/2013/10/a-fotografia-servico-da-politica.html
http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_invencao_da_mulher_10.html
http://www.dw.de/gerda-taro-%C3%A9-pioneira-pouco-lembrada-da-reportagem-fotogr%C3%A1fica-de-guerra/a-16124031
http://politica-sexual.blogspot.com.br/2010/01/mulher-povo-colonizado-parte-1.html
https://culture.pl/pl/wydarzenie/dokumentalistki-polskie-fotografki-xxwieku
https://www.fotopolis.pl/inspiracje/galerie/16452-polskie-fotografki-xxwieku

Precioso artigo!
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Adorei… sou fã do seu trabalho. É possível que esta realidade tenha se estendido, com relação a mulheres fotógrafas, para outros países?
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É uma excelente reflexão!
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