Susan Sontag, um “mosaico” de pensamentos sobre a fotografia

Alguns autores que escreveram sobre o eixo temático das minhas pesquisas – Fotografia, História e Memória – se referem a esta autora e há tempos havia me proposto conhecer seus trabalhos. Este ano enfim… Sobre Fotografia, obra originalmente publicada em 1977 (a primeira edição pela Companhia das Letras foi lançada em 2004, estou com um exemplar da 17ª reimpressão), vai estar à frente de minhas leituras.

Susan Sontag, nasceu em Nova Iorque, no dia 16/01/1933, vindo a falecer, também nesta cidade americana em 28/12/2004, tendo sido uma escritora conhecida por seus ensaios sobre a cultura moderna. Neste livro em especial, Sontang “extrapola o âmbito da história da fotografia… para dialogar com a filosofia e a sociologia, com a estética e a história da arte.

Fotografia 1: Susan Sontag, fotografia de 1979. Disponível em https://oglobo.globo.com/epoca/guilherme-amado/a-biografia-de-susan-sontag-23756081.

Sobre Sontag escreveu Frazão (2019):

Susan Sontag foi uma professora, ativista política e escritora americana nascida a 1933 em Nova Iorque. Durante a sua vida debruçou a sua atenção num vasto número de assuntos, desde os direitos humanos até à fotografia, e embora não fizesse a câmera disparar, ou pelo menos não se considerasse fotógrafa, pensou e refletiu muito sobre imagens. Tanto que escreveu vários ensaios sobre fotografia e imagem, inicialmente publicados em The New York Review of Books, e mais tarde compilados no livro On Photography.”

O primeiro artigo da obra Sobre Fotografia – Na caverna de Platão -, apresenta-se no meu entendimento como um “mosaico” (uma arte decorativa milenar que reúne pequenas peças de diversas cores para formar uma grande figura) de pensamentos sobre a fotografia que se apropria de algumas “maneiras de olhar” a imagem fotográfica.

Imagem 1: Um mosaico de fotografias… pessoas, famílias, outros tempos, histórias de vida, memórias. Disponível em https://www.pexels.com/pt-br/foto/foto-em-tons-de-cinza-de-fotos-antigas-3617568/.

Para Frazão (2014) o livro “é uma coletânea de ensaios escritos por Susan Sontag que se debruça sobre uma série de conceitos relativos à fotografia e imagem. Na caverna de Platão é um desses ensaios e faz o cruzamento entre a fotografia e o conhecimento geral, afirmando que esta é uma atividade que confere verdade, tatilidade, memória, nostalgia e sensação de posse aos seus praticantes. Sontag defende que acumular fotografias é de alguma forma colecionar o mundo, e que, embora isto seja tudo verdade, a fotografia é também uma “transparência seletiva” no sentido em que o “fotógrafo impõe sempre normas” (as suas próprias normas de conceito, enquadramento, moral).”

Nas palavras iniciais da autora concordamos que “ao nos ensinar um novo código visual, as fotos modificam e ampliam nossas ideias sobre o que vale a pena olhar e o que temos direito de observar. (2004, p 13)” E por serem fragmentos de um tempo, objeto, lugar ou pessoa, são objetos de memória (mesmo quando apenas guardadas no mundo virtual).

As fotos são, talvez, os mais misteriosos de todos os objetos que compõem e adensam o ambiente que identificamos como moderno. As fotos são, de fato, experiência capturada, e a câmera é o braço ideal da consciência, em sua disposição aquisitiva. Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada. (2004, p 14)” Uma apropriação que impõe e revela mais do que no ato fotográfico objetivou-se registrar.

Quando me utilizo (e assim procedi na construção da dissertação de mestrado e de alguns artigos nesta coluna) das imagens fotográficas do acervo sobre a formação urbana e os espaços de relação da Vila de Entre-Rios – atualmente minha cidade natal, Três Rios/RJ, indiscutivelmente tenho um registro que fornece “a maior parte do conhecimento que se possui acerca do aspecto do passado e do alcance (para a historiografia) do presente. (p.14)”; o que mui provavelmente não passava pela consciência do fotografo no ato fotográfico.

Fotografia 2: Vista da margem esquerda do Rio Paraíba do Sul da década de 40 do século passado, sem registro do autor, acervo André Mattos.

É o que observamos na fotografia 2, onde observa-se a cidade de Três Rios com espaços urbanos presentes no tempo do registro, como a Igreja São Sebastião a direita da imagem e a Capela Nossa Senhora da Conceição a esquerda mais ao alto. Decorrido mais de 80 anos deste registro, muitas alterações no espaço urbano ocorreram, como, ao olhar no centro da imagem, uma ilha onde atualmente temos o Independência Clube e a ausência da ponte que foi construída para acesso a ilha. Testemunho de um período histórico que permite constatar mudanças que ocorreram no espaço de relação social da cidade e em conjunto com outras fontes, construir a historiografia do município e de seus habitantes.

Buscar indícios e analisá-los criticamente, encontrar provas, vestígios, desenrolar tramas, localizar e identificar todos os personagens, entender os acontecimentos, revirar as ruínas, investigar: este o trabalho do historiador. “Na história, tudo começa com o gesto de pôr à parte, de reunir, de transformar em “documentos” certos objetos distribuídos de outro modo”, afirma M. Certeau, (1974, p 3); entre estes objetos a fotografia se destaca; mas a história não é apenas uma ciência que investiga o passado, como afirma Giovanni Levi: “Ela é uma contínua reconstituição da realidade, mas nós sabemos que a realidade sempre nos escapará, sempre será mais rica do que podemos imaginar… a História é uma ciência da busca infinita. Este é o grande fascínio da profissão de historiador.”. E, se me permite acrescentar, a beleza e a arte da nossa ciência.

As construções sociais, ações humanas no tempo histórico e objeto de estudo da história, não se apresentam em saltos descontínuos, às transformações ocorrem com a passagem do tempo até que uma nova ordem seja constituída. E esta se torna entendida, nunca em sua realidade plena, através das pesquisas desenvolvidas por aqueles que investigam, constroem e reconstroem a história, ensinam, escrevem, publicam trabalhos: os historiadores. E para muitos historiadores as “fotos fornecem um testemunho…”,  como afirma Sotang; “Uma foto equivale a uma prova incontestável de que determinada coisa aconteceu. A foto pode distorcer; mas sempre existe o pressuposto de que algo existe, ou existiu, e era semelhante ao que está na imagem (2014, p 16)”, mesmo que a imagem fotográfica seja sempre a interpretação do “mundo” segundo o autor do registro, mas há de contínuo a possibilidade de interpretação do “algo” registrado. Essa presunção de veracidade impõe uma autoridade, um sentimento nostálgico, uma esperança… lembranças, ainda que naquelas “ocasiões em que tirar fotos é relativamente imparcial, indiscriminado e desinteressado não reduzem o didatismo da atividade em seu todo (2014, p. 17).”

Fotografia 3: Baile do Clube dos Democratas em 1960 realizado na sede do CAER – Clube Atlético Entre-Rios, localizado no centro de Três Rios/RJ. Memórias, histórias, lembranças, ainda que naquelas “ocasiões em que tirar fotos é relativamente imparcial, indiscriminado e desinteressado não reduzem o didatismo da atividade em seu todo (2014, p. 17).”

Podemos mesmo diante de um tempo em que a técnica pode distorcer uma imagem, inventar pseudos-verdades, com vistas a “criar” realidades que atendem interesses diversos, uma educação para a “leitura” das imagens, podem nos revelar o que está “escondido” pela mentira. E neste sentido, também se constitui uma prova. A expressão prova tem origem no latim probatio denotando sentido de exame, confronto, verificação etc., possuindo inúmeras acepções. Mas com qualquer significado representa a forma, o instrumento utilizado pelo homem para, por meio de percepção e sentidos, demonstrar uma verdade.

O conhecimento histórico enquanto apontamento das ações e dos ideais dos homens no tempo apresenta-se como evidência para a construção de explicações históricas quando devidamente interrogadas pelo historiador a partir de questões do presente, deixando de se apresentar como simples reflexo da realidade. É uma edificação intelectual finalizada pela inter-relação entre categorias conceituais – e evidências; entre estas e o espectro de mundo ao qual o historiador se atenta.

Vou buscar compreender cada pedaço deste “mosaico” para (quem sabe?) reafirmar o pensamento (que abraço) de que mais do que um fenômeno contemporâneo, a fotografia tornou-se uma experiência visual que se apresenta como fator importante na construção historiográfica, e como objeto de memória.

Referências:

DE CERTEAU, Michel, “L‟opération historique”, in J. Le Goff et P. Nora, Faire de l’histoire – Nouveaux problèmes, Gallimard, 1974.

FRAZÃO, Diogo Doroteia. Análise sobre Ensaios sobre Fotografia de SONTAG, Susan. ESCOLA SUPERIOR DE MEDIA ARTES E DESIGN – MESTRADO EM COMUNICAÇÂO AUDIOVISUAL: FOTOGRAFIA E CINEMA DOCUMENTAL, 2019. Disponível em https://www.academia.edu/41285674/ESCOLA_SUPERIOR_DE_MEDIA_ARTES_E_DESIGN_MESTRADO_EM_COMUNICA%C3%87%C3%82O_AUDIOVISUAL_FOTOGRAFIA_E_CINEMA_DOCUMENTAL_FICHA_DE_LEITURA.

Levi, Giovanni, O microscópio infinito. Entrevista a Revista de História da Biblioteca Nacional. Disponível em https://www.estadao.com.br/cultura/artes/giovanni-levi-e-a-construcao-da-ciencia-da-busca-infinita/.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. Companhia das Letras, São Paulo/SP, 17ª Edição, 2004.

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