No coração de Curitiba, entre o passo apressado do Centro e a memória arquitetônica que respira no Sesc Paço da Liberdade, uma ave simbólica voltou a bater asas, desta vez, em papel. No dia 7 de fevereiro, a ONG Toma Aí Um Poema lançou oficialmente a coleção Gralha Azul, reunindo 23 autores independentes do Paraná em um gesto editorial que é, ao mesmo tempo, afirmação estética e ato simbólico.
A proposta é clara e contundente: ampliar a circulação da literatura produzida no estado para além das engrenagens das grandes editoras. Mas o que poderia ser apenas uma iniciativa de fomento torna-se algo mais delicado e ambicioso, a criação de uma constelação.
Como sublinha a curadora e editora Mabelly Venson, não se trata de volumes isolados, mas de uma arquitetura coletiva de vozes. A coleção opera como campo de força: múltiplos autores orbitando uma mesma aposta na vitalidade da literatura paranaense contemporânea.

O livrete como gesto democrático
Há, no formato, uma pequena revolução silenciosa. O livrete: compacto, portátil, quase cúmplice do bolso que subverte a ideia de monumentalidade literária. Em vez do tomo que impõe distância, um objeto que convida ao manuseio, à leitura no ônibus, no intervalo do café, na pausa da tarde.
O projeto gráfico, assinado por Jéssica Iancoski (também autora da coleção), investe na materialidade como experiência. A orelha sanfonada não é mero ornamento: é convite tátil, dobra que exige participação do leitor. Em tempos de leitura apressada e telas luminosas, o papel se torna superfície de encontro sensorial. O livro volta a ser corpo.
A metáfora da gralha-azul
A escolha do nome não é fortuita. A gralha-azul (Cyanocorax caeruleus), ave-símbolo do Paraná, é conhecida por espalhar as sementes da araucária, colaborando para a regeneração das matas. A coleção assume essa metáfora com precisão poética: cada livrete é uma semente; cada leitor, um possível solo fértil.
Num estado cuja identidade cultural frequentemente oscila entre a memória europeia e a pulsação latino-americana, a gralha editorial propõe outra narrativa, menos nostálgica, mais germinativa. Espalhar livros é, afinal, uma forma de reflorestar imaginários.

Claudio Boczon: ironia como método
Entre os 23 autores da coleção, destaca-se Claudio Boczon, que estreia em livro com Não é de hoje que ontem já foi amanhã. O título já anuncia o terreno: deslocamento temporal, ironia filosófica, leve vertigem. Boczon, artista plástico, poeta e “polaco” curitibano, (não necessariamente nesta ordem), constrói uma poesia que transita entre análise e síntese do cotidiano.
Seu humor não é mero adereço; é instrumento crítico. O riso, em sua escrita, funciona como lente de aumento: evidencia o absurdo das rotinas, desmonta certezas, reorganiza o banal sob outra perspectiva.
Há, em seus versos, o olhar de quem conhece a forma e a textura. A linguagem é trabalhada como matéria plástica: contrastes, recortes, pequenas torções semânticas. Em vez de lições morais, jogos de linguagem; em vez de gravidade ostensiva, uma leveza que pesa, e muito. A ironia, aqui, não descompromete: ela aprofunda.

Autor da coluna Verso (Es)Trova publicada no TAK! Agenda Cultural, da Casa de Cultura Polônia Brasil, Boczon já transitava pelo circuito literário com reconhecimentos em concursos e festivais. Este livro de estreia consolida uma voz que prefere o deslocamento à obviedade, e que entende que pensar também pode ser um exercício de humor.
Uma constelação paranaense
A coleção Gralha Azul reúne: Adelar Barbosa, Ale Pesavento, Ana Carla Bellon, Ana Letícia Villas Bôas, Andrio Santos, Bárbara Paul, Carlos Machado, Clarice Rin Yamahuti, Claudio Boczon, Diego Gianni, Diego Maguelniski, Eleonora Gomes, Érica Dias Gomes, Fabiano Vianna, Francine Cruz, Gabriel Machado Antunes, Jéssica Iancoski, Jessica Vergopolem, Luana Humana, María Centurión, Renato Scarpin, Suelen Trevizan e Thomas Brenner.

Se a gralha-azul enterra sementes que às vezes só germinam muito tempo depois, a literatura também opera nesse tempo longo. Talvez algum desses livretes, guardado distraidamente numa bolsa, venha a abrir, anos adiante, uma clareira inesperada no pensamento de alguém. E não há gesto mais político do que esse: espalhar palavras como quem cultiva futuro.
O livro está diponível para compra no site da Editora Toma Aí Um Poema:
https://loja.tomaaiumpoema.com.br/nao-e-de-hoje-que-ontem-ja-foi-amanha-claudio-boczon
Izabel Liviski (Bel) – Fotojornalista e professora. Editora e articulista da ContemporArtes desde 2010, edita também o TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil.
