“A fotografia, além de ostentar a reputação de fonte documental de comprovação da verdade, tem um profundo impacto na subjetividade e na forma como compreendemos o mundo. Vê, inspira e sensibiliza; a imagem nos guia entre paisagens, fantasias, abismos, fazendo-nos defrontar com uma verdadeira semântica das emoções. A imagem fotográfica também erige corpos, realidades, sentimentos que possibilitam a aproximação com a vida, através da reprodução chapada em papel. A complexa lógica imagética pode reforçar opiniões, aquietar, despertar ou emudecer nossos mundos interiores e nossa capacidade de ação. A fotografia provoca reações imprevisíveis”. (CERQUEIRA, Monique Borba) [1]
Numa das noites de escrita da minha dissertação de mestrado, após sua chegada da Universidade Grambery de Juiz de Fora/MG, onde realizava o curso de Direito, mostrei para minha filha algumas das fotografias utilizadas na minha pesquisa, e sua reação foi a de esclarecer com um evidente desconforto, que não gostava de olhar as fotografias antigas, pois essas confirmam que as pessoas eternizadas na imagem estiveram vivas no passado, mas que se encontram no presente da sua realidade consciente, mortas. É a “escrita” lida por ela nas imagens.
A relação da Natália com a expressão indiciática da fotografia, movimenta a sua memória, agita todas as lembranças relacionadas com a morte: o medo, a confirmação de que os entes queridos irreversivelmente morrerão um dia no futuro, as recordações dos que faleceram; sentimentos que prefere esquecidos, mas que a imagem fotográfica retoma (nossa memória é preservada em imagens), porque o registro ocorre através de uma “técnica muito mais bem adaptada do que a pintura [por exemplo] para a reprodução mimética do mundo, a fotografia vê-se rapidamente designada como aquilo que deverá … se encarregar de todas as funções sociais e utilitárias… exercidas [antes] pela arte pictural.” [2]
Fotografia 1: Imagem do aniversário de 1 ano do meu irmão Luiz Mauro, ao centro no colo do meu avô Mario Reis, ano de 1962. Registros como estes trazem leituras diversas, mas para minha filha Natália Reis, movimenta a memória de saudades. O “texto” lido é o da nostalgia, do medo da morte dos entes queridos, como seus avós, meus pais, Mauro e Marlene, atrás e ao lado do Luiz. Acervo André Mattos.
“O material fotográfico assume aqui não o sentido de um instantâneo mimético da realidade, mas é, ele mesmo, um catalisador de informações… revelando um conjunto de imagens-representações inscritas num código simbolicamente dimensionado. Mais do que evocadoras da memória (a fotografia tomada como metáfora de vida e morte ao registrar ausências), são as imagens eivadas de conteúdos sígnicos.”[3]
“Se, para Benjamim, a rememoração é uma retomada salvadora do passado” [4], a fotografia é lugar de lembranças possíveis de serem rememoradas e também testemunho para aquela história que Bosi afirma existir “dentro da história cronológica, outra história mais densa de substância memorativa no fluxo do tempo. [Que] aparece com clareza nas biografias; tal como nas paisagens, [e nas imagens] há marcos no espaço onde os valores se adensam.” [5] Desta história que “traz um passado aberto, inconcluso, capaz de promessas…” [6] onde a memória é hábil em movimentar-se “com grande liberdade escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente, mas porque se relacionam através de índices comuns…”, cabendo aos historiadores e aos cientistas sociais procurarmos “esses vínculos de afinidades eletivas entre fenômenos distanciados no tempo.” [7] História que se permite também a indagações sobre as questões sensíveis dos ressentimentos; ressentir significa sentir novamente através das lembranças que retomam emoções, sentimentos e percepções individuais e coletivas, que permanecem e acompanham a memória. Percorrer pelos caminhos da História e da Memória através da fotografia significa adentrar a…
“uma dimensão que exige de nós, historiadores, filósofos, literatos, cientistas sociais, o abandono de antigas verdades e da segurança proporcionada por modos de pensar confortáveis em seu acordo prévio com certezas há muito sedimentadas, afirmações que se tornaram lugares-comuns.”[8]
Fotografia 2: Anos depois, década de 80 do século passado, na mesma casa, residência dos meus avós Mario e Zeni, aniversário da minha irmã mais nova, Andréa Reis, acima a criança com o rostinho sério, no colo da prima Paula. Lembranças, memórias que vencem o tempo cronológico, mas, também referência, como um texto imagético, a contar histórias de outros aniversários. Acervo André Mattos.
“A opinião mais comum sobre as características de nossa época, já repetida há mais de trinta anos, é que vivemos em uma “civilização da imagem”” [9]. É certo também que não é senso comum o saber interpretar as representações/mensagens lembranças inseridas na fotografia, tanto quanto, não se apresente ainda uma teoria metodológica única apropriada para abarcar o entendimento sobre todas as maneiras que a imagem se apresenta, incluindo nesta realidade, a compreensão da fotografia como um texto imagético.
Mas a crescente utilização da fotografia em estudos e pesquisas multidisciplinares vem determinando uma contínua busca por proposições metodológicas e estudos teóricos relacionados a este campo do conhecimento humano.
Hoje as possibilidades de registros imagéticos adquiriram outra identidade diferente daquela do seu início, no final do século XIX, ao revolucionar o mercado fotográfico e o dia-a-dia das pessoas, disponibilizando formas de produzir e de divulgar as imagens através dos padrões das câmeras digitais, e também através dos programas que transformam e recriam imagens no mundo virtual; “só estamos na alvorada de uma geração de imagens virtuais” [10] generalizando-se não só a sua criação, mas igualmente a sua exposição, nos sites da internet, com destaque, nas redes sociais de relacionamento e no desejo, nem sempre verdadeiro, de “vender” uma realidade. Este momento social de “acumulo de imagens” (lembranças de momentos especiais, festas, shows, viagens, formaturas, paisagens, pessoas, objetos, espaços de relacionamento, eventos e fatos diários, e etc) diminui não só o tempo do ato fotográfico (graças às novas tecnologias), mas também o de sua leitura e interpretação.
“Todos os dias acabamos sendo levados a utilizá-las, decifrá-las, interpretá-las.” [11] Esta condição experimentada na atualidade conduz para Joly, a uma leitura das imagens de uma maneira que parece totalmente “natural”, aparentemente, não exigindo qualquer aprendizado e em muitos casos, uma análise racional e menos emotiva. Entende-se que não existe na maioria das vezes, nesta situação, realmente uma análise e leitura, mas apenas uma visualização (Joly prefere o termo percepção) da imagem, retendo-se apenas as impressões afeitas às lembranças mais imediatas, generalizantes, fugindo a uma interpretação detalhada dos referentes, signos e índices fotográficos, o que conduz a uma aceitação da informação que se destaca na imagem. Por isso, e a própria autora destaca, é preciso inevitavelmente para quem “aprecie” a fotografia na sua relação com a Memória e com a História, ou com temáticas pesquisadas em outras ciências sociais; “uma iniciação mínima a analise da imagem… [permitindo] perceber tudo o que essa leitura “natural” da imagem ativa em nós em termos de convenções, da história e da cultura [e da memória] mais ou menos interiorizadas.” [12]
As fotografias neste artigo apresentadas, numa leitura possível apresentará para aqueles não perpetuados na imagem, representação de memórias comuns a nossa cultura: festa de aniversário, reunião de família, parentescos, saudades, lembranças de bons momentos (ou não)… mas sempre memórias que permitem a construção de textos mentais.
Fotografia 3: Reunião de família, netos e bisnetos dos meus avós Mario e Zeni, na fila ao fundo a esquerda, no sítio que pertencia ao meu avô, no bairro Gulf em Comendador Levy Gasparian/RJ. Acervo André Mattos.
A análise da imagem então, definida como uma proposta que supera a superficialidade da mera visualização (“reconhecer este ou aquele motivo nem por isso significa que se esteja compreendendo a mensagem da imagem na qual o motivo pode ter uma significação bem particular, vinculada tanto a seu contexto interno quanto ao de seu surgimento, às expectativas e conhecimentos do receptor” [13]), exigi a formatação de uma metodologia condutora do “olhar” que se coloca a serviço de uma pesquisa.
Para Kossoy o que se desenha como possível para o historiador ou outros pesquisadores, é o estudo da “fotografia enquanto objeto de investigações específicas, assim como o estudo da documentação fotográfica como instrumento de apoio à pesquisa e a interpretação multidisciplinar”. [14] Dependendo do tema pesquisado e da amplitude do campo de indagações a ser delimitado, o registro imagético avança em muito a mera condição de fonte de apoio à pesquisa histórica, mas profundamente concedendo a possibilidade de análise da memória, pois tanto na fotografia quanto na memória o tempo é elemento de formatação das suas funções.
“A natureza que fala à câmara não é a mesma que fala ao olhar…” [15]
[3] FERREIRA, Maria Letícia Mazzucchi. “Corpo e Significado. Ensaios de Antropologia Social” in artigo: “O Retrato de Si”. Orientadora: Ondina Fachel Leal. Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2ª Edição, 2001, p 410.
[4] BOSI, Ecléa. “O Tempo Vivo da Memória. Ensaios de Psicologia Social”. Ateliê Editorial. São Paulo/SP, 2ª Edição, 2004, p 33.
[8]LÖWY, Michel. “Walter Benjamin: aviso de incêncio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. BOITEMPO Editorial. São Paulo/SP. 1ª reimpressão, 2007, p 9.
[9]JOLY, Martine. “Introdução à análise da Imagem”. SP, ed. Papirus. 13ª Edição, 2009, p 9.