“Cada um de vocês tem o saber de sua vida, de sua cultura, de seus antepassados negros, indígenas ou europeus. Todo mundo é doutor de sua própria vivência.” (Adalberto Barreto)
O Instituto Casa de Arte e Cultura (ICASAA), em Curitiba, recebeu a terapeuta Danih Diniz para uma palestra e uma Roda de Terapia Comunitária Integrativa (TCI), na série “Terça tem Chá”, idealizada por Vera Itajaí, presidente do Instituto, dentro do Movimento Cultural & Conexões Empreendedoras, que semanalmente promove trocas vivas entre arte, trabalho e autoconhecimento.

Danih Diniz é terapeuta integrativa com formação sólida em TCI, atuando como condutora de rodas voltadas ao fortalecimento do autocuidado e da saúde mental. Para ela, a TCI é mais que uma ferramenta: é missão de vida.
Raízes do cuidado
Criada no Ceará, nos anos 1980, pelo psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto, a TCI é uma das mais reconhecidas tecnologias sociais brasileiras. Nascida na periferia, onde a dor e a potência da vida comunitária se entrelaçam, ela propõe uma inversão radical: o cuidado não vem de fora, ele emerge da própria comunidade.
Mais que uma técnica terapêutica, a TCI é uma abordagem psicossocial e emancipadora, baseada na ideia de que cada pessoa é o “doutor da sua própria história”. Em vez de diagnósticos e prescrições, oferece pertencimento, escuta e confiança.
A força do “nós” como cura
Enquanto a sociedade contemporânea insiste em respostas individualizadas aos sofrimentos da alma, a TCI aposta na força dos vínculos: o vínculo é a verdadeira medicina. Ao compartilhar experiências e ouvir com atenção, a dor deixa de ser peso solitário e se transforma em força em rede.

A metodologia valoriza a palavra, o silêncio quando o outro fala, e a circularidade. Cada relato encontra eco em outro, até que os nós internos se desfaçam. Barreto ensina que o fortalecimento interno é o primeiro passo para enfrentar as tempestades da vida. Assim, a TCI se torna uma pedagogia da escuta, um exercício coletivo de reconstrução do sentido.
Solidariedade em rede
O que começou em bairros periféricos de Fortaleza tornou-se um movimento nacional. Hoje, rodas de TCI acontecem em escolas, universidades, postos de saúde e centros culturais de todo o país. Seu crescimento se sustenta em dois pilares essenciais:
- a construção de vínculos solidários;
- o desenvolvimento da autonomia emocional.
Em 2017, o Ministério da Saúde incluiu a TCI na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) do SUS. Em 2024, ela foi consagrada pelo Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, reconhecimento que reafirma sua força transformadora e sua origem genuinamente popular.
Roda de coragem: enfrentando relacionamentos abusivos
Durante a roda conduzida por Danih Diniz no ICASAA, o tema central foi relacionamentos abusivos, e o encontro revelou, mais uma vez, o poder terapêutico da coletividade. Falou-se sobre as sutilezas da dominação emocional, presentes não só nas relações conjugais, mas também nas relações familiares e profissionais.

Entre relatos emocionados, emergiu a percepção de que a dependência emocional é uma prisão silenciosa. Reconhecer os sinais do controle, da manipulação e do desrespeito é o primeiro passo para quebrar ciclos repetitivos. Na escuta coletiva, cada participante encontra ressonância e devolve voz àqueles que antes se calavam.
“Quando a boca CALA, o corpo FALA. Quando a boca FALA, o corpo SARA.” (Provérbio da TCI)
A cura como percurso coletivo
Mais que um grupo de apoio, a Terapia Comunitária Integrativa é uma tecnologia de esperança. Transforma a fragilidade em força, o sofrimento em sabedoria e o silêncio em palavra compartilhada. Em tempos de solidão em massa e adoecimento social, a TCI recorda uma verdade essencial: ninguém se cura sozinho. É na força do nós que a coragem floresce, e a dor encontra caminho e sentido.

O evento contou ainda com a participação da jornalista Fernanda Rodrigues Ferreira, especialista em abuso psicológico familiar. Desde 2023, Fernanda, que é também psicanalista, atua no acolhimento de mulheres que enfrentam relacionamentos abusivos e desenvolveu um curso na plataforma Hotmart com estratégias de enfrentamento, comunicação e recuperação emocional, incluindo técnicas para lidar com pessoas portadoras de transtorno de personalidade narcisista, um tipo de violência sutil, porém devastadora, que demanda estratégias precisas para que a vítima reconquiste sua dignidade e amor próprio.
Contato: https://www.instagram.com/fernandaferreira.terapeuta/
Algumas imagens dos participantes das atividades da TCI:




Fotos: Lindiane Bandeira

Bel Liviski é articulista e coeditora da Revista ContemporArtes desde 2009. Também é editora do TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil, em Curtiba/PR. Mestre e doutora em Sociologia pela UFPR, especialista em Artes Visuais. Contato: bel.photographia@gmail.com
