No próximo sábado, 2 de agosto, a rua onde morou Dalton Trevisan, no bairro Alto da Glória, em Curitiba, será tomada por livros, postais, gravuras, DVDs, fotos e pequenos objetos colecionáveis. Nada de vendas, promoções ou vitrines: o que se propõe ali é um escambo. Um gesto antigo, e revolucionário, de troca direta entre pessoas e palavras. É o Sebo do Joaquim, ação poético-cultural criada em homenagem aos cem anos do escritor paranaense.
Durante algumas horas, em frente à casa do “Vampiro de Curitiba”, o espaço público se transforma em um território sensível de memória e circulação. Em vez de homenagens solenes, o tributo a Dalton acontece no compasso do afeto: leitores anônimos oferecendo livros já lidos, colecionadores trazendo postais esquecidos, pessoas repartindo pequenos tesouros gráficos.
A proposta do sebo é simples e radical: dar aos objetos, impressos ou não, novos destinos. Livros que estavam parados voltam a circular. Gravuras ganham novas paredes. Cartões-postais reencontram mãos curiosas. Tudo pode ser trocado, com o uso de palavras. Trata-se, afinal, de um exercício de imaginação social, e também de resistência contra o descarte acelerado da cultura.
O nome do evento faz referência direta à Revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan ao lado de Erasmo Pilotto e Antônio Volger entre 1946 e 1948. Criada como reação ao conservadorismo literário curitibano da época, a revista tornou-se um espaço de experimentação moderna, sintonizado com os ventos de mudança que sopravam em outras capitais do país e do mundo, como nos lembra Sérgio Monteiro de Almeida*, seu organizador.
Assim, essa intervenção urbana/ação evoca não só o personagem invisível de Dalton, mas também a figura arquetípica do leitor silencioso, do acumulador de histórias, do amigo dos livros usados. É ele que abre espaço, nesse sábado, para que a cidade reencontre seus afetos impressos e outros objetos, e a literatura ressurja como gesto coletivo.
Mais do que uma celebração, o Sebo do Joaquim é uma pequena insurreição do tempo, devolvendo à rua aquilo que o mercado tenta apagar: o valor do encontro, da partilha e da permanência da palavra.
* Sérgio Monteiro de Almeida (Curitiba, 1964) é poeta experimental e artista visual. Desde os anos 1980, atua no sistema da poesia visual: mescla palavras, símbolos, formas gráficas e objetos como poema expandido. Participou de exposições nas Bienais de Veneza, e tem publicações em revistas nacionais e internacionais. Em suas obras, o gesto de escrever é também o de desenhar, colar, tocar o espaço urbano e instaurar uma linguagem-correspondência que tensiona a fórmula do texto impresso tradicional.


Izabel Liviski (Bel), professora e fotojornalista, é coeditora da Revista ContemporArtes (Universidade do ABC São Paulo) desde 2009, é também editora do TAK! Agenda Cultural Polônia Brasil em Curitiba/PR. Contato: bel.photographia@gmail.com
