Uma “crônica urbana” sobre a estátua do Tancredo Neves.

A imagem fotográfica, na sua relação com a História e a Memória, em várias oportunidades nesta coluna abordada, assume a sua condição de testemunho de memória, “testemunho [que] constitui a estrutura fundamental de transição entre a memória e a história”; (RICCEUR, 2010, p. 41) como lugar de lembrança que permite à memória avocar a sua “função específica de acesso [no presente] ao passado.” (RICCEUR, 2010, p. 25) Histórias e memórias também são atreladas aos monumentos e estes, comumente são colocados e recolocados em espaços públicos como as praças, com objetivo de, enquanto lugares de memórias e embates de poder, perpetuar fatos e pessoas que não se deseja esquecer. A fotografia ajuda-nos a contar as histórias e preservar as memórias atreladas aos monumentos e seus idealizadores.

No exemplo da homenagem prestada ao ex-presidente Tancredo Neves com uma estátua inserida na Praça São Sebastião em Três Rios/RJ, em 14 de dezembro de 1985, no segundo governo do Prefeito Samir Nasser, movimenta-se a memória de uma forma inusitada.

Fotografia 1: Praça São Sebastião após as obras de remodelação realizadas no governo do Prefeito Celso Jacob, e ao centro, a estátua em homenagem ao ex-presidente Tancredo Neves, registro de 2009, acervo André Mattos.

Um detalhe na sua concepção logo mobilizou a imaginação popular: na sua posição inicial, tal estátua tinha em uma das suas mãos o dedo indicador apontando para a sede da Prefeitura Municipal, o que levou rapidamente ao pensamento popular irônico de que o presidente indicava onde ficavam os “ladrões” da cidade.

 Quando da obra de remodelação desse espaço urbano, tomou-se o cuidado de mudar a posição do monumento, colocado de costas para a prefeitura (e ainda assim se encontra), o que acabou conduzindo a uma nova manifestação: Tancredo, por vergonha, não queria nem ver o que ocorre entre as paredes do prédio da administração pública. Observa-se também que não existe nenhuma placa indicativa de quando a estátua foi artisticamente confeccionada, seu autor, a data e governo de quem a posicionou na praça, nem quem é o homenageado, o que causa dúvidas, principalmente aos mais jovens, dificultando qualquer vinculo com a memória da cidade, do homenageado e a sua importância histórica.

Escreveu-me por e-mail a historiadora Profª Ezilma Teixeira, informando sobre alguns outros fatos relacionados a este monumento, que apresento a seguir na forma de uma “crônica urbana” sobre a estátua do Tancredo Neves.

Imagens 1 e 2: Registros fotográficos de jornais da cidade, onde se observa o ex-prefeito Samir Nasser junto ao então candidato a presidência da Aliança Democrática, o ex-governador Tancredo Neves. Na segunda imagem o artigo destaca uma “diálogo” (não ressaltado na fotografia) entre Samir e Tancredo onde o primeiro demonstra (discurso político comum) sua preocupação com o trabalhador brasileiro.

Sendo este um recorrente costume dos nossos políticos, afirma-se “que a estátua só foi erguida para agradar ao “eterno” senador Francisco Dornelles”, sobrinho de Tancredo e político com imensa influência no interior do Estado do Rio de Janeiro. O ex-presidente nunca esteve na cidade de Três Rios, “não tem nenhuma ligação com a nossa história. Foi adulação política mesmo…”, possível de se realizar por sua importância para a recente história política do Brasil. “O maior interessado e defensor foi o falecido Zé Moacyr’, Secretário de Administração do segundo governo do Prefeito Samir Nasser. Algumas manifestações contrárias ocorreram, mas a obra acabou sendo encomendada ao artista trirriense Osorinho.

Imagem 3: Recorte do Jornal O Diário informando o contato e contratação do Osório Corrêa Nunes para fazer uma “efigie” do presidente Trancredo Neves.

Mas a história não termina ainda, afirma a professora que “na época a prefeitura não tinha caixa para fazer uma estátua de bronze,” a solução “foi fazê-la de fibra de vidro, material altamente inflamável.” Não poderia acontecer outra coisa… “numa madrugada colocaram fogo na estátua, que teve parte de uma perna queimada.” Outro fato insólito foi quando um dia ela amanheceu de baby-doll e touquinha. “As más línguas disseram que a irreverência havia sido obra do recém falecido Drº Warderley Garcez Rodrigues”.

Em jornais da época, tem-se na notícia da inauguração, revelado o atraso e as mudanças no cerimonial motivada pelas fortes chuvas que caíram no horário marcado, e a presença, entre outros, do prefeito de Niterói, Moreira Franco, que se retirou antes do encerramento do evento, e da sobrinha de Tancredo Neves, Lucília Neves Salgado, que descerrou a fita inaugural, num gesto simples e rápido.

Imagem 4, 5 e 6: Recorte de artigo publicado no Jornal O Diário de terça-feira, 17 de dezembro de 1983 na sua edição nº 253, relatando os fatos ocorridos na inauguração da estátua do ex-presidente Tancredo Neves.

“Entre as críticas dirigidas à iniciativa de se homenagear o presidente eleito…, estão as dúvidas quanto à importância da personalidade para a cidade; o que Tancredo fez além de se deixar fotografar a lado do prefeito Samir Nasser [conforme as imagens anteriores publicadas em edições anteriores deste jornal em que os dois estão juntos]; porque não um busto ao invés de uma estátua que não corresponde ao tamanho normal de uma pessoa e ainda a qualidade da obra – estátua de massa (poderia pelo menos ser de bronze ou de pedra), e o esquecimento dos autonomistas da cidade que mal recebem homenagens verbais e são as personalidades merecedoras de homenagens desse porte.”

Apesar das mudanças ocorridas na Praça São Sebastião, a estátua permanece, e infelizmente segue representativa apenas da dependência que existe entre os poderes políticos no Brasil. O monumento, na condição de patrimônio histórico, precisa ter receptividade/ressonância na comunidade onde está inserido. O valor outorgado a qualquer monumento não está apenas na obra em si, mas na sua capacidade de preservar, na consciência das gerações futuras, a lembrança de ações e movimentos empreendidos por aqueles representativos de um grupo ou comunidade social.

Nesse sentido, o monumento relaciona-se com a manutenção da memória coletiva de um povo, sociedade ou grupo. No próprio artigo do jornal, seu autor lembra a figura dos emancipacionistas esquecidos ou pouco lembrados nas iniciativas de valorização da memória histórica da cidade. Ezilma Teixeira registra ainda que foi com surpresa que ela observou, após as obras de remodelação empreendidas em 2008, que a estátua retornou à praça, cometendo-se “uma grande gafe histórica: colocou-a [o prefeito Celso Jacob] ao lado do busto de Walter Francklin, [emancipacionista e primeiro prefeito de Três Rios] dando aos dois a mesma importância para Três Rios.”

Fotografia 2: Busto em homenagem ao emancipacionista e primeiro prefeito da cidade de Três Rios/RJ, Drº Walter Gomes Francklin. Junto na imagem meu neto Guilherme ainda criança. Registro fotográfico do acervo de André Mattos.

A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. A estátua de Tancredo Neves não trabalha e movimenta a memória da sociedade trirriense pela mediação da afetividade, contribuindo para manter e preservar a identidade histórica da cidade, mas apenas e infelizmente presentifica-se e permanece no anedotário popular.

Fotografia 3: Estátua do ex-presidente Tancredo Neves, na Praça São Sebastião em Três Rios/RJ, de costas para a sede da prefeitura municipal, podendo-se observar que continua sem o seu dedo indicador. Acervo André Mattos, 2009.

Vale lembrar que o referido dedo indicador encontra-se atualmente quebrado.

Biografias:

Ezilma Teixeira, é filha de João Batista Teixeira e de Cecília Garcia Teixeira, nasceu em Três Rios (RJ), onde ainda reside. Graduada em História pela Universidade Severino Sombra, apresenta em sua formação acadêmica alguns cursos de pós-graduação, como Docência do Ensino Superior, Psicopedagogia, e outros de extensão universitária voltados ao aperfeiçoamento da sua graduação de origem. Professora de História faz parte do Conselho Municipal de Educação de Três Rios.

É membro efetivo do Instituto de Estudos Valeparaibanos, de São Paulo e da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), Delegacia de Minas Gerais. É sócia representativa do Rotary Clube Três Rios Beira Rio, onde atualmente chefia a Comissão de Relações Públicas, cumulativamente com a Comissão de Meio Ambiente.

Envolvida com a política cultural da região, fez parte do grupo que em 1997 fundou a Casa de Cultura de Três Rios. Escritora, jornalista – colunista do periódico “Entre-Rios Jornal”, pesquisadora e historiadora, têm diversos trabalhos publicados e editados sobre a história da região, sendo os mais recentes: Aprendendo nossa Terra – livro didático editado em 2004 e adotado pelas escolas municipais e particulares de Três Rios. Editora Editar – Juiz de Fora (MG); e Era uma vez… – História – editado em 2005 – Editora Editar – Juiz de Fora (MG).

Tancredo Neves, “(1910-1985) foi um advogado, empresário e político brasileiro. Nascido na cidade de São João Del Rey, Tancredo de Almeida Neves Neves ingressou para a carreira política muito jovem como vereador em sua cidade natal em 1934. A partir daí participou de diversos momentos decisivos da história do Brasil.
Durante o Estado Novo conheceu de perto as pressões da ditadura, sendo preso em 1937 e em 1939. Em 1954, quando era ministro da Justiça do mesmo Getúlio Vargas, ficou ao seu lado no momento da crise que culminou no seu suicídio.
Com a morte de Vargas articulou a candidatura de Juscelino Kubitschec à presidência. Em 1961, convenceu João Goulart a aceitar o parlamentarismo e assim, evitar o golpe. Nomeado primeiro presidente de Conselho dos Ministros, o regime parlamentarista não deu certo e, três anos depois, Tancredo era um dos mais ativos adversários ao golpe militar que acabou por acontecer e depor Jango. Em 1985 concorreu à presidência da república recebendo 480 votos contra 180 de seu adversário Paulo Maluf.
Neves representava a esperança do cidadão brasileiro após o fracasso da campanha pelas diretas. No entanto, não chegou a tomar posse. Um processo inflamatório no aparelho intestinal fez com que se submetesse a sete cirurgias e José Sarney, seu vice, teve que assumir o governo em seu lugar. Tancredo Neves faleceu no dia 21 de abril de 1985 depois de trinta e oito dias de internamento.”

Referência:

RICCEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas/SP: Editora UNICAMP, 2ª reimpressão, 2010.

2 comentários em “Uma “crônica urbana” sobre a estátua do Tancredo Neves.

  1. Este excelente artigo me trouxe à reflexão o quanto a demência -tão comum a esta época de longevidade, é uma morte em vida. A vida é memória e memória é história guardada.

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    1. Bem isso meu amigo, obrigado por suas palavras. A Memória é elemento que nos ocupa do tempo e da História e está presente em todas as manifestações humanas, até nas expressões do nosso corpo, mas este é tema para outro artigo rs

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