O suicídio nas Belas-Artes – “a arte não se cala.”

Em dezembro de 2022 oferecemos nesta coluna Narciso e o Espelho, um artigo sobre a Morte Voluntária, que você amigo(a) leitor(a) poderá acessar no link: https://revistacontemporartes.net/2022/12/07/a-morte-voluntaria/. A temática da morte e do morrer e da educação para morte, percorre também nossas pesquisas vinculadas a Fotografia, Arte, História e a Memória.

Segundo Ariès (2003):

Não é fácil lidar com a morte, mas ela espera por todos nós… Deixar de pensar na morte não a retarda ou evita. Pensar na morte pode nos ajudar a aceitá-la e a perceber que ela é uma experiência tão importante e valiosa quanto qualquer outra.

A inexorabilidade da morte e do morrer, ensejou em nossa sociedade cristã ocidental, um sistema de ação regido por símbolos, uma estrutura de castas sociais e de papéis, de culturas e regras de comportamento, destinados a servirem de veículo a valoração da vida, mas de uma vida em que a decadência, a velhice e a morte, devam ser ignoradas, impondo uma memória negativa da morte e do morrer.

Quando a antecipação da morte ocorre pelo suicídio (a “morte de si mesmo”), – e estudos históricos e sociológicos recentes demonstram o crescente índice deste ato em nossa sociedade, mesmo entre crianças e jovens; – temos a vitória do sofrimento sobre a vida e a incompetência atroz da sociedade humana em resguardar seus semelhantes.

Barbaglio (2009) em sua obra O suicídio no Ocidente e no Oriente demonstra que estamos diante de um ato presente na nossa história vinculado as experiências multifacetárias da própria existência humana.

Os dados existentes – escreveu Enrico Morselli em 1879 – mostram “esse fato dolorossíssimo”, desde o início do século, o suicídio aumentou e continua a aumentar em quase todos os estados civis da Europa e do Novo Mundo”. “De um século para cá”, repetiu Durkheim vinte anos depois, produziu-se um “enorme aumento das mortes voluntárias. (…) observou em 1846 Karl Marx – é apenas o “sintoma da organização deficiente da nossa sociedade.”

Estes “sofrimento”, “sintoma” e “incompetência” podem ser observados nas expressões da arte ? É possível sustentar que a arte e a realização estética são elementos organizadores da experiência e da compreensão humana diante da vida. Assevera Silva (2017) que, ”com efeito, não reconhecer razões sob as ações artísticas revela certa ignorância sobre o que se contempla; de outro modo, aquele que ignora as causas da obra e da experiência estética não compreende plenamente a arte e suas origens.” A arte descortina a realidade através do olhar de seu autor e “reconhecer razões sob as ações artísticas” é percorrer pelo viver do artista no contexto histórico em seus aspectos sociais e culturais. “A arte é o lócus paradigmático dos valores, e a criação e o prazer advindo da arte são o protótipo dos objetivos dignos da condição humana” (Kaplan, 2010).

Imagem 1: Desespero, um dos afrescos de As Virtudes e os Vícios é um conjunto de afrescos pintados cerca de 1304-1306 por Giotto di Bondone, mestre italiano do início do renascimento, que fazem parte do conjunto existente na Cappella degli Scrovegni, em Pádua, na Itália.

No conjunto de afrescos sobre as Virtudes e os Vícios de Giotto[1], na Capela Arena, afora as análises “controversas destas obras em relação à arquitetura da capela e ao grupo de virtudes cardeais elencado pelo pintor” (Silva, 2017, p. 141)[2] pode-se destacar que a representação artística do vício desperatio (desespero), oposto da esperança, se dá pela morte voluntária conforme observa-se na imagem 1.

Segundo Minois (1995), no período da Idade Média na Europa, “a morte voluntária é considerada conseqüência de uma tentação diabólica por meio do desespero”, principalmente quando ocorriam entre os camponeses, artesãos e seus familiares que “se enforcam para fugir da miséria e do sofrimento” e complementa: “O suicídio do homem rude é um gesto isolado, de uma pessoa egoísta e covarde: ele foge as suas responsabilidades, indo se enforcar às escondidas; é motivado pelo desespero, defeito fatal que lhe é inoculado pelo diabo.”

Pecado, crime perante a justiça dos homens e de Deus, e para Igreja Católica com toda a sua influência social e cultural da época, temos a impositivo ainda presente em nossos dias: “Em 381, o bispo de Alexandria, Timóteo, decide que não haverá mais preces pelos suicidas, salvo em caso de loucura comprovada, o que significa que os assassinos de si mesmo estão condenados às penas do inferno.”

Imagem 2: Lucrétia de Lucas Cranach le Jeune, obra por volta de 1525. “Lucas Cranach, o Velho, representa a jovem em visão de três quartos, adornada apenas com um colar de pérolas e um véu transparente. A composição da obra está inteiramente estruturada para direcionar o olhar para o centro da pintura, para o local preciso onde a adaga perfurará a carne de Lucrécia… A história do suicídio de Lucrécia é contada por diversas fontes antigas, incluindo a História Romana de Tito Lívio, que relata que após ser estuprada por Sexto Tarquin, filho do rei tirânico Tarquin Superbus, a jovem convocou seu pai, seu marido e seus conselheiros para fazê-los jurar punir este crime que “manchou” seu corpo e “sua honra”, depois, como testemunho de sua inocência, suicida-se (Livro I, capítulos 57 e 58)”… Encontra-se atualmente no “Kunstmuseum Basel, um dos maiores e mais antigos museus suíços.”

Reproduzida em algumas obras de arte temos a narrativa dos cronistas medievais do suicídio de Lucrécia, nobre dama romana da Antiguidade que foi estuprada e, diante da sua dor e humilhação, teria apelado ao que presumia a lei da época, buscando a morte voluntária, através de um punhal; gesto considerado como uma morte altruísta por fidelidade ao marido.

Por ser de todos os tempos e, conforme afirma Barbagli (2009), “talvez ainda mais do que outras ações humanas, o suicídio depende de um grande número de causas, psicossociais, culturais, políticas e também biológicas, e deve ser analisado a partir de pontos de vista muito diferentes”, é que tenhamos suas representações se sucedendo no decorrer dos períodos históricos da nossa sociedade cristã ocidental, expressando as emoções humanas e os fatores de aumento de risco para a morte voluntária. Martinéz (2021) escreve:

Uma definição convencional do gesto suicida: qualquer ato deliberado de automutilação depois do qual a pessoa que o comete não tem certeza se sobreviverá. Quando o ser humano se sentiu fortalecido e capaz de desafiar o mais básico de todos os instintos, o da autopreservação, um horizonte aterrorizante e sedutor se constituiu ao mesmo tempo, conseqüência última e extrema de nossa liberdade. O impulso autodestrutivo, velho como o homem, confundiu todas as sociedades humanas, que tentaram evitá-lo por meio de todo o tipo de estratégias.

Imagens 3 e 4: Sátira del suicídio romático e Sátira del suicídio romático por amo, ambas as obras são de Leonardo Alenza y Nieto, em exposição no Museo Nacional del Romanticismo na Espanha.

As pinturas de Leonardo Alenza y Nieto (1807, Madri – 1845, Madri) pintor e gravador espanhol do período romântico e relacionado ao movimento costumbrista, abordam o tema, e são características deste tempo, onde, principalmente na literatura, obras como Os sofrimentos do jovem Werther de J. W. Goethe[3] (A influência de uma obra literária nas na condução da morte de si, de uma pessoa, convencionou-se chamar de Efeito Werther ou efeito-imitação) e os versos medievais de Chatterton[4] que “se sacrificou para contar ao mundo mesquinho o que precisou se tornar o que havia se perdido… [e] sua juventude e sua maneira imoderada e orgulhosa de viver e morrer (pelo auto sacrifício) inspirou a todos eles (os romancistas)”.

Sobre Chartterton escreveu Martinéz (2021):

Em 24 de agosto de 1770, três meses antes de seu aniversário de 18 anos, Thomas Chatterton ingeriu uma dose letal de arsênico num sótão londrino que ocupava há alguns meses da chegada de sua Bristol natal para conquistar o mundo graças a um talento e orgulho sobrenaturais, que ele demonstrou ao inventar um poeta primorosamente medieval chamado Rowley, com quem seduziu e enganou estudiosos e poetas. Uma crise que parecia insolúvel na mesquinha cena literária de Londres o empurrou pelo meio do caminho para lugar nenhum. A intensidade vital e o final azarado de Chatterton instituíram o culto romântico do herói trágico pronto para tudo, até mesmo a destruição, para se afirmar contra um mundo medíocre.

Imagem 5: Octave Tassaert (1800-1874), Suicídio ou Una famiglia infelice, pintura de 1849; está em Paris, no Musee d’Orsay.

Muitos de nós equilibramo-nos, como numa corda bamba bem acima no picadeiro da vida, no temor, no medo da perda: de um amor verdadeiro, daquele convívio demorado, que suscita harmonia e correspondência; temor da frágil segurança no existir em uma vida física que pode se esvair a qualquer momento; temor de sermos esquecidos e descobrirmos que não fomos amados como desejamos; temor em perder os bens acumulados, as paixões. É neste estado de existência que construímos a nossa história com a morte – uma condição de perda, incapaz de proporcionar a paz e a felicidade – e, é ela que sinaliza o término da relação entre o tempo e a vida.

Se nesta realidade onde cuidar das “coisas” da morte ainda é percorrer caminhos evitados, qual a relação social com a morte voluntária? Como este gesto interfere na interpretação da “obra de uma vida”? Quais as atitudes, sensibilidades, diante do suicídio em nossa sociedade cristã ocidental, “no que apresenta de mais geral e de mais comum, [e como interfere nas] variações da consciência de si e do outro, no sentido da destinação individual ou do grande destino coletivo”? (Ariès, 1977) A relação social perante a morte de si mesmo sempre foi de abandono, de antecipação do julgamento religioso e durante muito tempo, foi considerado crime, impondo silêncios e dissimulações, levando a subestimarem, em todas as épocas, o número real de suicídios. Mas como vimos, em todos os tempos e culturas, a arte não se “cala”…



Referências

ARIÈS, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 1ª Ed., 2003.

Barbagli, Marzio. O suicídio no Ocidente e no Oriente. Editora Vozes. Petrópolis/RJ, 2009.

KAPLAN, Abraham. Introdução. In: DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

Martínez, Borjas. O Suicídio como imagem literária. Disponível em https://www.blogletras.com/2021/02/o-suicidio-como-imagem-literaria.html. Acesso set 20024.

Minois, GEORGES. História do Suicídio. A sociedade ocidental diante da morte voluntária. Editora UNESP, São Paulo/SP. 2018.

Silva, Robson de Oliveira. Das Virtudes e dos Vícios, Giotto na Capela Arena. Presmissas Filosóficas. Disponível em https://periodicos.ufop.br/raf/article/view/584/540. Acesso set 2024.

[1] As Virtude e os Vícios são um conjunto de afrescos pintados cerca de 1304-1306 por Giotto di Bondone, mestre italiano do início do renascimento, que fazem parte do conjunto existente na Cappella degli Scrovegni, em Pádua, Itália.

[2] Sobre o tema ler: DAS VIRTUDES E DOS VÍCIOS DE GIOTTO NA CAPELA ARENA: PREMISSAS FILOSÓFICAS de Robson de Oliveira Silva, disponível em https://periodicos.ufop.br/raf/article/view/584/540.

[3] Em 1774, o escritor e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe publicou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. A obra narra às desilusões amorosas de Werther, jovem de personalidade sensível e artística. O enredo se desenvolve a partir do momento em que o personagem principal conta ao amigo Wilhelm a história de seu amor impossível por Charlotte, prometida em casamento para outro. Werther não consegue esquecê-la e também não encontra outra saída. Assim, no decorrer das páginas, acaba se suicidando. 

[4] Poeta romântico, nasceu em Bristol, Inglaterra em 1772, vindo a cometer o suicídio em 1770, com apenas 17 anos de idade. Criou o personagem de um monge medieval chamado Thomas Rowley, a quem atribuiu a autoria de seus poemas, escritos em estilo e caligrafia “impecavelmente góticos, sobre alguns pergaminhos que seu avô tinha encontrado acidentalmente no sótão da igreja que cuidava. Graças a eles, o impetuoso Chatterton pôde deixar Bristol e chegar a Londres disposto a conquistar a cidade com sua pluma e auto-pena. Seis meses depois sua caseira encontrou o rapaz morto no porão que alugava.” Disponível em https://www.mdig.com.br/?itemid=6617.

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