A imagem e o ato de narrar: o marinheiro e o camponês. (parte 1)

“Diante de uma imagem – por mais antiga que seja -, o presente jamais cessa de se reconfigurar (…). Diante de uma imagem – por mais recente, por mais contemporânea que seja -, o passado, ao mesmo tempo, jamais cessa de se reconfigurar, porque essa imagem só se torna pensável em uma construção da memória.” (1)

A memória, a narrativa e a história, são analisadas por alguns autores como representações de coletividades sociais, em determinados tempos e espaços históricos, instituídos pelas ações dos sujeitos inseridos nestes grupos. A fotografia é construída no ato-fotográfico por um ator, que teceu suas memórias a partir das diversas interações que alimentou com outros indivíduos, apresentando-se no presente, como lugar de lembrança deste sujeito, mas também numa perspectiva que se amplia para a condição de testemunho das representações sociais de diversos grupos nos seus espaços de relação.

Para se alinhavar uma narrativa, entendo a fotografia, então, como testemunho de memória e fonte da história. Tal proposta de investigação fomenta uma discussão historiográfica, que considera o registro fotográfico nesta sua dupla dimensão, privilegiando-o como um lugar de lembranças relacionadas a todas as representações a elas associadas, sejam histórias de vidas, sejam as histórias da formação e transformação dos espaços urbanos de relação, como também, fonte de um período histórico específico.

Assim, a narrativa imagética não é apenas o rememorar das lembranças ou do que foi esquecido de um ou poucos indivíduos – o(s) sujeito(s) constituidor(es) das imagens fotográficas -, mas sim, as memórias de uma coletividade, resultado das diversas interações sociais ocorridas durante o recorte temporal escolhido, sem desconsiderar, que as narrativas históricas refletem sempre um procedimento contínuo de escolha e reconstrução dos vestígios do passado, procedido no presente pelo historiador.

O ato de narrar, de contar experiências, para Walter Benjamin, “está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente” (BENJAMIN, 2008, p. 197), ocorrendo apenas com dificuldade no mundo atual. No pensamento deste autor, assinalado em sua tese, O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, de 1936, a narrativa faz referência à memória tornando-se fonte de histórias. São discursos carregados de ensinamentos, experiências, que se perdem na contemporaneidade, porque o homem está cada vez mais privado da sua faculdade da comunicação interpessoal. Pouco do que possuímos está a serviço da narrativa histórica.

A imagem fotográfica e a memória encontram uma interlocução com a narrativa, arte em desaparecimento, ou, para algumas leituras modernas, em transformação ou adaptação aos novos canais de comunicação, espelho da aceleração do tempo e das vivências próprias da atualidade.

A compreensão da verdadeira extensão da narrativa em seu abarcamento histórico encontra-se, segundo Benjamin, no entrecruzamento de dois tipos arcaicos: o marinheiro (aquele que viaja e tem inúmeras experiências a serem compartilhadas), sendo analisado como o que vem de longe; e o camponês (aquele que conhece as histórias e tradições do lugar de relação de suas vivências), que traduzia em relatos a sabedoria prática – definida como a sugestão organizada na substância viva da existência -, que havia acumulado. Dois modos de vida que produziram seus respectivos grupos de narradores.

Fotografia 1: Um grupo de marinheiros do Cruzador Benjamin Constant, fotografia de 1906, em Paris, França. Álbum 140 O Cruzador Benjamin Constant em Viajem de Instrucção. Foto 57407. Disponível em https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/4786.

Estas duas personagens representam o tempo (camponês) e o espaço (marinheiro), elementos de intersecção, que permitem diálogos entre fotografia e narrativa, e destas com a memória e a história. Quando nos deparamos com a fotografia 1, percebemos que a vivência das relações em grupos durantes as viagens no espaço do navio, bem como, das cidades visitadas, culturas outras, ensejam possibilidades de histórias e memórias que se somam com as histórias de vida de cada um dos marinheiros permitindo a construção de narrativas.

A narrativa procede da tradição oral compartilhando memórias. É a expressão de um trabalho artesanal que se realiza sobre a matéria-prima da experiência, tendo como modelos originais o conto de fadas, as lendas. “O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes.” (BENJAMIN, 2008, p. 201) Por isso é aquele que sabe dar conselhos, e aconselhar é conceder uma sugestão sobre a extensão de uma história que está sendo narrada.

Imagem 1: “Peasants In The Tavern” – Camponeses na Taverna, obra de Benjamin Gerritsz Cuyp, possivelmente da década de 1650. Disponível em https://kuadros.com/pt-br/products/camponeses-na-taberna.

A obra “Camponeses na Taverna” do artista holandês Benjamin Gerritsz Cuyp caracteriza-se pelo estilo artístico barroco, onde o exagero de detalhes e a utilização de cores intensas e contrastantes se faz presente. Cuyp conseguiu captar a realidade do cotidiano de uma taberna do período, onde os camponeses se relacionam, contam histórias e narram memórias.

Após vieram os artesãos, que aperfeiçoaram esta arte. Com estes o poder de narrar movimentava o contador de histórias por inteiro. “Na verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos, aprendidos na experiência do trabalho, que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito.” (BENJAMIN, 2008, p. 220-221) E os gestos colaboram para a formação mental das imagens extraídas e compartilhadas do que está sendo narrado.

Assim como a análise de imagens fotográficas e a memória, a narrativa, diferentemente do romance, não tende para o finalizar, justificando sempre novas histórias, imaginadas, reconstruídas e rememoradas em alguns momentos, daquilo que foi narrado no passado, no seu início, do que se tornou tradição. “Ela não se entrega. Ela conserva suas forças e depois de muito tempo ainda é capaz de desenvolver.” (BENJAMIN, 2008, p. 204) E como a fotografia e a memória, a narrativa vence o tempo preservando-se, como escreveu Benjamin, a maneira das sementes de trigo que por milhares de anos, inseridas nas câmaras das pirâmides no Egito, conservaram suas condições germinativas. (BENJAMIN, 2008, p. 204)

A imagem enquanto componente inerente à natureza humana (a memória é constituída de imagens, rememorar é formar imagens mentais), é um dos mecanismos desencadeadores da memória, apresentando-se a fotografia, como o equivalente visual da lembrança, permitindo recordar o tempo passado, criando sentidos que ensejam narrativas históricas. Como uma narrativa, o registro fotográfico prossegue “contando” e retendo as lembranças, as experiências, conservando-se na memória do novo “ouvinte visual”, (como lembranças compartilhadas) quando da retransmissão da história no presente, sendo esta condição primordial para a sobrevivência da memória.

Imagem 2: Artista: Giovanni Domenico Tiepolo, Título: O Narrador, pintando em 1773. Atualmente exposta no Museu de Arte de Blanton, Texas, EUA.

O que podemos apreender de Benjamin é a exemplaridade da narrativa, ou seja, ela se faz a partir de uma determinada perspectiva e um determinado olhar.

“A narrativa ganha faces, plasticidades, feições e cenários capturados pela câmara fotográfica. Registrar imagens, guardá-las e contar o que foi fotografado é um processo dinâmico em que os significados contidos nas fotografias, capturados por quem apertou o botão, são recriados por quem as guarda e recontados por quem as mostra.” (2)

A ligação da narrativa com a memória, a fotografia e a história, é evidente, e no caso das pesquisas que ensejaram a dissertação de mestrado, foi-me possível traçar uma narrativa imagética a partir de dois momentos cronológicos que se enfocaram no recorte temporal entre 1861 e o final da década de 1930:

1º Momento: Da formação urbana da Vila de Entre-Rios até a formalização da condição de 2º Distrito de Paraíba do Sul (1861 a 1890) e;

2º Momento: Entre-Rios, de 2º Distrito de Paraíba do Sul até o término do movimento de emancipação política e econômica (1890 a 1939).

A partir de tais recortes, observei as seguintes categorias imagéticas: as paisagens urbanas pré-definidas – ponte, estações, ruas, praças, igrejas, prédios e as relações sociais experimentadas nestes espaços: manifestações populares, grupos organizados em torno de propostas culturais, religiosas, esportivas e políticas, permitindo perceber as condições de formação de uma sociedade que ao mesmo tempo em que constrói este espaço urbano, estabelece fronteiras socioculturais. Mas por recorrer a uma concepção de tempo não linear, as narrativas ensejadas pelas imagens fotográficas, em algumas oportunidades, conduzem a momentos que transpassaram o recorte temporal estabelecido.

As fotografias mostram os lugares que mesmo transformados ou inexistentes na atualidade, ainda são “pisados” como outros o fizeram no passado. Recontar, reavivar, rememorar, compartilhar e preservar as memórias do tempo de formação socioespacial da cidade de Três Rios, por meio de uma narrativa imagética, compartilhada em alguns momentos nos artigos publicados nesta revista.

Os campos de estudos teóricos se definiram então na relação entre a fotografia, à história e a memória. Mas qual(is) a(s) dimensão(ões) e pensamento(s) poderia(am) servir para “unir” os ângulos deste triângulo? Que discurso(s) serviria(am) para uma descontinuidade ou discordância entre as partes? E a fotografia enquanto testemunho de memórias, lugar de lembranças, também fonte de estudos e análises pela História, de que maneira interfere nesta relação contribuindo para a construção historiográfica?

Na sua relação com a história, à fotografia se apresenta como fonte capaz de conceber o encontro entre passado e presente, aproximando os tempos históricos ao responder as indagações formuladas nas pesquisas historiográficas. Reminiscências individuais e coletivas fragmentadas do passado, os registros imagéticos permitem a formulação de discursos narrativos pelo historiador, reconhecendo o fato histórico e atribuindo-lhe sentido no presente, oportunizando assim, novas leituras no campo contínuo das construções e reconstruções históricas.

Referências:

(1) DIDI-HUBERMAN, Georges apud NASCIMENTO, Roberta Andrade do. Charles Baudelaire e a arte da memória. Disponível no site: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2005000100004.

(2) JUSTO, Joana Sanches. Narrar histórias, fotografar momentos: tecendo intersecções entre narrativa oral e álbuns de fotografias. Disponível no site: http://www.unioeste.br/prppg/mestrados/letras/revistas/travessias/ed_005/artecomunicacao.htm.

2 comentários em “A imagem e o ato de narrar: o marinheiro e o camponês. (parte 1)

  1. Quando só olhei a foto sem fazer a leitura do texto imaginei que era apenas uma semana comum. Não imagina que seria uma fotografia mostrando o caos da guerra e relatando que as crianças foram as que mais sofreram com tudo isso.

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