Ana Maria Dietrich1
José Roberto de Lima Cândido2
O presente texto tem por objeto registrar um relato de experiência do Projeto Africanidades nos Territórios. Essa foi uma iniciativa dos professores Marcos Almeida Costa Pereira (Marcos Costa) e José Roberto de Lima Cândido (Mestre Lima).
O objetivo do Projeto Africanidades nos Territórios é cooperar para que a Universidade Pública amplie seu diálogo com os equipamentos educacionais públicos, no que se refere a oferta de ações que contribuam na formação continuada de professores(as) para educação das relações étnicas-raciais.
Essa ação foi motivada pela percepção que ambos educadores foram detectando, que parte significativa dos (as) professores (as) em participar dos nossos cursos de Extensão, Aperfeiçoamento e/ou Especialização, no entanto, foi-se verificando que por uma diversidade de motivos como: número limitado de vagas, ou ainda, problema em se adequar horário ofertado das matérias, considera-se ainda os dias das semanas, sobretudo professoras que conforme é de ciência que acabam tendo múltiplas jornadas de trabalho, incluído o doméstico.
Considerando a conjuntura excludente mencionada, pensamos adaptarmos metodologicamente “pílulas”, isto é, módulos do Africanidades, mas ofertando nos momentos de formação dos (as) próprios professores (as).
Foi neste cenário que promovemos a primeira ação de formação continuada, no dia 28 de março de 2023, na E.E. Adhemar Antônio Prado, Diretoria de Ensino Leste Três, Distrito São Rafael – São Paulo –SP. A atividade ocorreu por meio de oficina formativa com duração de 4 horas para os (as) docentes que trabalham no Programa de Ensino Integral (PEI).
A temática Africanidades e Racismo Epistêmico, com o título: Ciência, tecnologia e inovação (CT&I) e Cultura Afro-Brasileiro no Contos Afro-brasileiros, africanos e indígenas.
A dinâmica do encontro se deu seguindo as etapas didáticas: Introdução, nessa etapa o facilitador Marcos Costa apresentou o Curso Africanidades, Circularidade e Literatura Infantil, o Curso de especialização em Educação em Direitos Humanos (EDH) ambos coordenados pela Profa. Dra. Ana Maria Dietrich.
Na segunda etapa da formação, Costa apontou os benefícios de construirmos um modelo de ciência, tecnologias e inovação que não reitera o racismo epistêmico sobre os saberes tradicionais afro-brasileiro (s) e indígena (s), seja por meio do silenciamento, apagamento ou invisilizamento. Na terceira sessão foi evidenciado possíveis interfaces que os educadores podem acessar para promover o letramento científico dos alunos, mostrando que ciência, tecnologia e inovação já estava nas práticas, empirismos e reflexão dos homens e mulheres que desenvolveram tecnologias no que denominamos na contemporaneidade de continente africano como: a biotecnologia para controle do fogo e uso do fogo, tecnologia de dados, por meio das as primeiras manifestações da matemática registradas na história, ou ainda os saberes das oralidade (tecnologias da oralidades), presente a aplicabilidade das plantas medicinais, alimentares e ou cosméticas.
Marcos Costa, destacou que legislações como a Lei. Nº 10.639/03 e da Lei 11.645/08, pode contribuir para preservação da história dessa comunidade e uma (re) memória, no que se refere a contribuições que esses povos tiveram para acumulação primitiva, isto é, os primeiros passos o sistema capitalista, gerando riqueza para Norte-global, por meio da mão de obra escravizada.
Em segunda, tivemos um intervalo onde foi ofertado a cada educador um café da tarde, em seguida voltamos dialogando com outra dimensão da cultura afro-brasileira que é a musicalidade. Para esse processo envolvemos alguns educadores para tocar os seguintes instrumentos: atabaque, berimbau e pandeiro e com o toque do São Bento Grande de Angola, acompanhado de cantos e palmas cantamos a música Africanidades. A estrofe foi cantada pelos professores e o refrão pela turma que estava participando da formação no modelo de “pergunta” e “resposta”:
“ Tô ouvindo um abrulho de talba
São as nega na porda do riu
Bate bate tanto aquele ropa
Que nace um canto no canto do rio
Tô ouvindi um barulho é alto
O tamanco da nega a passar
Nega nega eu sei é dengosa
E gosta de proza na beira do Rio
A Africanida Africanida Afrinidades”
Música Africanidades. Compositor: Marcos Costa
Na terceira, foi desenvolvida uma dinâmica, onde os educadores (as) organizados em grupos, onde os mesmos liam livros de suas escolhas e registravam as articulações que o mesmo viam entre as histórias infanto-juvenil e ciência, tecnologia e inovação.
Por fim, a quarta e última etapa desse processo formativo foi sistematizada pelo professor José Roberto Lima Candido, na avaliação dos participantes sobre os elementos discutidos. Em síntese os depoimentos foram:
Penso que: Para combatermos o racismo nas escolas, faz-se necessário o conhecimento da história da cultura africana e suas importantes contribuições na formação da cultura afro-brasileira. A formação contínua dos professores no chão da escola (como hoje o fazemos) é vital para que estes se tornem agentes da irradiação da cultura antirracista. Diretora/Professora Vera Lúcia Gonçalves.
Da mesma maneira que o racismo se manifesta de diversas formas, nós também precisamos propor formas variadas de confronto ao racismo. Sendo assim o espaço escolar necessita verbalizar e propor discussões com esse tema, não há que se esperar por momentos propícios ao desenvolvimento de discussões quando falamos de RACISMO e PRECONCEITO. Profa. Rosangela Rodrigues
Foi uma ótima palestra onde pudemos discutir sobre como as ciências ligadas à África foram silenciadas ao longo dos séculos e como podemos incluir essas referências em nossos conteúdos e aulas. O professor Marcos trouxe diversas reflexões sobre como as Africanidades foram sendo restritas a partes do currículo, como História, Artes e Literatura, como se os afro-brasileiros e a África apenas produzem “cultura”, que nesse caso aqui é restrito apenas a música, dança e artes de modo geral, excluindo das matérias consideradas tecnológicas, como matemática, física e química, nas quais também há muita contribuição africana, mas que tem sido ignorada e cabe a nós incluí-la.
Diante das evidências, apresentadas pelas educadoras (es), da Escola Estadual Adhemar Antônio Prado, entendemos que é factível a propagação da oralidade ancestral das Africanidades, educação em direitos humanos, e as interfaces com a Ciências, cultura afro-brasileira e afro-indígena. Diante da contextualidade, pesquisa-ação, aguardamos o segundo encontro com Costa. No encantamento e musicalidade das Africanidades! Professor Fábio.



CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando os aspectos apontados, compreendemos que a soberania científica e tecnológica do Brasil, passa pela questão étnico-racial e que um processo de educação emancipador passa por trazer para o currículo escolar vozes e saberes que foram silenciados chistosamente. Por outro lado, para alargamento desse currículo mais diversos deve construir estratégias para além dos muros da universidade para chegar até educadores e educadoras.
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1 Professora adjunta do Bacharelado de Ciências e Humanidades da Universidade Federal do ABC. Doutora em História pela USP com a tese Nazismo Tropical? O Partido Nazista no Brasil. Foi pesquisadora do Centro de Estudos de Anti-Semitismo (Universidade Técnica de Berlim) em 2003-2004 quando desenvolveu Doutorado em caráter sanduíche. Possui graduação (bacharelado e licenciatura) em História pela Universidade de São Paulo (1995), graduação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (1994) e mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo (2001). Autora de diversos livros e artigos, entre eles, Caça às Suásticas – O partido Nazista em São Paulo (Imprensa Oficial / Humanitas 2007). É editora da revista Contemporâneos – Revista de Artes e Humanidades e da Contemporartes – Revista de Difusão Cultural. Coordena o Laboratório de Estudos e Pesquisas da Contemporaneidade – LEPCON ligado ao grupo homônimo de pesquisa do CNPQ. Atua como docente da Escola Livre de Literatura ligada a Prefeitura de Santo André e é conselheira da Secretaria Municipal de Cultura de Santo André. Coordena o projeto Batuclagem, Meio ambiente, música e arte na UFABC. Suas pesquisas enfocam os seguintes temas: Traumas de guerra, Estudos de Nazismo e Anti-Semitismo, História e Contemporaneidade, Conflitos e identidades sociais, Oralidades: estudos de Memória, Identidade e Narrativa, Patrimônio Histórico, Repressão Política, novas linguagens historiográficas (Cinema X História, História X Fotografia, História X Canção) e Estudos interdisciplinares de Artes e Humanidades.
2 Especialista em Educação em Direitos Humanos pela Universidade Federal do ABC (UFABC) , Mestre de Capoeira e Professor de Artes na PEI – E. E. Adhemar Antonio Prado – Leste 3 SEDUC/SP.
